
Divulgação/Festival de Brasília
Festival de Brasília é confirmado após anúncio de cancelamento
Governadora Celina Leão libera repasse de R$ 3 milhões depois de forte reação ao corte de verba do evento
Cancelamento dura poucas horas
O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro está novamente confirmado para setembro. A 59ª edição do mais antigo festival de cinema em atividade no país chegou a ser cancelada na segunda (10/8), depois que sua direção foi informada de que o governo do Distrito Federal não repassaria os R$ 3 milhões acordados para a realização do evento. A decisão provocou forte repercussão no meio cultural e acabou revertida pela governadora Celina Leão (PP).
Como o festival passou de cancelado a confirmado?
A direção recebeu a notícia do corte durante uma reunião com representantes da Secretaria de Cultura e Economia Criativa. O festival já vinha trabalhando desde março e aguardava a primeira parcela de R$ 1,5 milhão para financiar a pré-produção.
Mais R$ 1 milhão estava previsto para a semana do evento e R$ 500 mil para depois de sua realização. Sem o primeiro pagamento e sem perspectiva de receber o restante, a equipe concluiu que não conseguiria manter a edição marcada para 11 a 19 de setembro.
No fim do mesmo dia, porém, Celina Leão anunciou uma mudança de decisão. “Está confirmada a realização da 59ª edição Festival de Cinema de Brasília, evento marcado para 11 a 19 de setembro. Já determinei que a Secretaria de Economia providencie os recursos necessários para o evento”, escreveu no X.
Governadora mudou discurso
A confirmação representou também uma mudança em relação ao posicionamento adotado pela própria governadora dias antes. Na sexta (7/8), Celina havia afirmado que não priorizaria a realização do Festival de Brasília diante da crise orçamentária enfrentada pelo Distrito Federal.
A contenção de despesas está ligada à grave situação do BRB. O banco controlado pelo governo distrital enfrenta as consequências de sua relação com o Banco Master, liquidado pelo Banco Central depois de uma série de operações que passaram a ser investigadas.
Documentos obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação apontam que o BRB adquiriu R$ 30,4 bilhões em carteiras do Master entre julho de 2024 e outubro de 2025. Ao mesmo tempo, o banco tenta recompor seu capital e busca uma operação de até R$ 6,6 bilhões envolvendo o Fundo Garantidor de Créditos.
O próprio BRB é patrocinador master do Festival de Brasília desde 2024 e mantém um aporte de R$ 750 mil para esta edição. O dinheiro, entretanto, é liberado por reembolso, depois da realização das despesas, e por isso não substituía o repasse público necessário para colocar a produção em andamento.
Reação ao cancelamento foi imediata
O anúncio de que o festival não aconteceria provocou manifestações de profissionais do cinema e de entidades do setor. Maeve Jinkings reagiu nas redes sociais: “Isso é ESCANDALOSO”. Alessandra Negrini escreveu: “Muito triste”. Barbara Colen acrescentou: “Inacreditável! Precisamos fazer alguma coisa!”.
A Associação Brasileira de Críticos de Cinema também publicou uma nota ressaltando o peso histórico do evento, criado em 1965 e interrompido anteriormente apenas durante a ditadura militar.
“O Festival de Brasília é uma instituição do cinema brasileiro e uma política pública consolidada, cuja continuidade deve ser compreendida como responsabilidade do Estado”, afirmou a Abraccine.
Festival atravessou ditadura e pandemia
A repercussão ganhou força justamente pelo histórico do evento. Criado há seis décadas, o Festival de Brasília só deixou de ser realizado entre 1972 e 1974, durante a ditadura militar.
Nem a pandemia de covid-19 provocou uma interrupção. As edições daquele período foram mantidas em formatos adaptados.
A edição de 2026 já tinha filmes selecionados para as mostras competitivas e demais sessões quando o cancelamento foi anunciado, embora a relação dos escolhidos ainda não tivesse sido divulgada.
Produção diz que programação está mantida
Após a reversão, a organização foi chamada para uma reunião com Celina Leão nesta quarta (12/8). Antes mesmo do encontro, Henrique Rocha, diretor de logística do festival, afirmou a O Globo que a Secretaria de Cultura já havia comunicado a liberação dos recursos.
“Fomos procurados pela Secretaria e nos foi passado que já foi resolvida a questão, que a orientação do governo agora é de realização do festival, repasse dos recursos e que (o cancelamento) é página virada”, afirmou.
Segundo Rocha, a interrupção anunciada durante algumas horas não chegou a paralisar a preparação. “Não interrompemos o trabalho em nenhum momento. Começamos em março e seguimos realizando até agora. Estamos com a pré-produção basicamente realizada e prontos para entregar o festival na dimensão que tinha sido planejado.”