
Divulgação/Editora Planeta
Filho de Elis Regina revela lembranças da mãe em “Elis & Eu”
Documentário estreia nesta terça no Universal+ e parte das memórias de João Marcello Bôscoli sobre 11 anos de convivência com a mãe
Filho conduz retrato íntimo
“Elis & Eu”, documentário dirigido por André Bushatsky que estreia nesta terça-feira (25/8) no Universal+, revisita Elis Regina (1945-1982) pelo olhar do filho mais velho, o produtor musical João Marcello Bôscoli. Inspirado no livro “Elis e Eu: 11 Anos, 6 Meses e 19 Dias com Minha Mãe”, lançado por ele em 2019, o filme desloca o foco da cantora consagrada para a mulher que criou três filhos e deixou uma casa desestruturada por sua morte aos 36 anos.
O que restou depois da morte?
João Marcello tinha 11 anos quando perdeu a mãe. Pedro Mariano tinha 6, e Maria Rita, 4. Ao Estadão, ele descreveu o impacto da ausência sobre a família: “A casa era a Elis. Dissolveu. É o famoso ‘caiu a casa’ de todo mundo. Ou, de muita gente. Ela deu uma entrevista uma vez dizendo que a família dela era constituída de quatro pessoas, ela e três crianças. Infelizmente, foi ela que morreu. Se fosse eu, a casa continuaria ali. Sendo ela, desmontou”.
Décadas depois, o nascimento de seus próprios filhos levou Bôscoli a transformar as lembranças em livro. “Me deparei com uma situação real: dois filhos e um monte de memórias minhas que eu gostaria de compartilhar com eles. Era legal deixar registrado porque a vida é incerta. Não que eu tenha ou tivesse tido o temor da morte. A vida é assim”. Pai de Arthur, de 14 anos, e André, de 10, ele queria apresentar aos meninos uma avó que não se limitasse aos discos e às imagens públicas. “Eles adoram a vovó Elis. Queria que eles conhecessem a Elis mãe, a que contém a artista, por meio desse ponto de vista que só eu poderia trazer por ser o único filho com essa idade”.
Que Elis aparece no documentário?
O filme amplia a perspectiva individual do livro com relatos de familiares, amigos e profissionais que conviveram com Elis. A jornalista Ione Cirilo recorda o lado “mãezona” da cantora, enquanto Bôscoli descreve uma relação baseada em conversas sem infantilização. “Era uma mãe que conversava muito, meio de igual para igual. Não fazia uma voz infantilizada. Quando eu tinha 9 anos, ela começou a falar sobre o universo da mulher comigo. De características no corpo do homem que ela achava bonitas. Uma formação ampla”, conta.
Pedro Mariano recupera lembranças mais fragmentadas, como as idas à horta da casa da Serra da Cantareira para colher tomates com a mãe e Maria Rita. A irmã aparece em depoimentos de arquivo, enquanto o jornalista Julio Maria, autor da biografia “Elis Regina – Nada Será Como Antes”, situa episódios da trajetória da cantora. O guitarrista Natan Marques, que trabalhou com Elis por oito anos, também fala sobre o álbum que ela começaria a gravar apenas uma semana depois de sua morte.
As memórias ganham ainda dramatizações protagonizadas por Lílian Menezes, que já viveu a cantora em “Elis – A Musical”. Uma delas reproduz uma recordação de João Marcello na praia: depois de pegar um “jacaré”, ele estava deitado na areia quando a mãe se aproximou, bloqueou o sol e sorriu. “Quando quero visitar esse acontecimento, no qual estávamos só nós dois, tenho que puxar pela minha cabeça. Fecho os olhos para lembrar gostoso. Pela primeira vez estou acessando essa memória de olhos abertos, em uma tela. E [a cena] ficou com o temperamento do que sinto. Algo mágico”.
Filme nasceu fora da família
Apesar da origem no livro de Bôscoli, “Elis & Eu” foi uma iniciativa de Bushatsky e não nasceu como projeto da família. Para João Marcello, essa distância permitiu que o diretor preservasse o tom das memórias sem transformar o documentário numa homenagem controlada pelos filhos.
Ele destaca que a produção consegue mostrar que Elis “é uma pessoa legal”. A definição não pretende idealizá-la. “Não no sentido de ser boa ou má, mas de ser uma pessoa interessante, que não decepciona. Aquela figura que te entrega emoção quando você está ouvindo a música, dentro de casa, é solidária, amiga dos amigos, e tentou fazer o melhor possível”, explica.
Carta revela conselho deixado ao filho
Uma das passagens recuperadas pelo documentário é uma carta escrita por Elis para João Marcello quando ele completou 1 ano. O texto contém uma orientação que ganhou outro peso depois da morte precoce da cantora: “Não me imagine mais do que eu sou. Tenho tantos problemas quanto você. Não me culpe”.
Bôscoli afirma que nunca transformou a perda em culpa. “A quantidade de amor que eu recebi é a única explicação para uma série de coisas. Do otimismo, da autoconfiança. Culpa nunca foi uma questão. Fico muito feliz de ver, 44 anos depois, como aquela criança reagiu. Botei na minha cabeça, ninguém me falou: Nunca vou ficar triste. Está tudo certo. Nossa relação continuou”.
Memória também ganha novas gravações
O documentário chega enquanto João Marcello mantém outros projetos destinados à preservação da obra da mãe. Desde 2009, ele participa de relançamentos e recuperações de acervo. Um dos trabalhos atuais utiliza a voz registrada por Elis num especial de televisão de 1976 para criar novas versões com acompanhamento instrumental gravado décadas depois.
O projeto começou a chegar ao público em 2024 com “Para Lennon & McCartney” e teve continuidade em maio deste ano com “Corsário”, composição de João Bosco e Aldir Blanc. A gravação restaurada ganhou novo acompanhamento e participação do percussionista Paulinho da Costa. As faixas integram um álbum em desenvolvimento com dez registros daquela apresentação de 1976.
Bôscoli também prepara uma exposição dedicada à cantora no MIS, em São Paulo. Para ele, esses projetos precisam fazer com que a obra sobreviva às gerações que conviveram diretamente com Elis. “Temos que tentar deixar uma cultura. De colocar Elis de uma maneira que as futuras gerações, da família ou não, se sintam interessadas em preservar sua obra. Quero que ela caminhe não mais de ano em ano, ou de década em década, mas de século em século. Não estarei mais aqui, mas, enquanto estiver, darei o meu máximo”.