
Divulgação/Universal Music
Dolly Parton, a Rainha do Country, morre aos 80 anos
Cantora de “Jolene” e “I Will Always Love You” morreu em Nashville após meses de problemas de saúde
Morte foi anunciada pela família
Dolly Parton, considerada a Rainha da música country, morreu nesta terça-feira (25/8), aos 80 anos. A cantora, compositora, atriz e empresária morreu em paz em Nashville, segundo sua assessoria. A causa da morte não foi divulgada.
Problemas de saúde se agravaram
A saúde de Parton havia provocado sucessivas mudanças em sua agenda desde 2025. Em setembro daquele ano, ela adiou seis apresentações de uma residência em Las Vegas, inicialmente previstas para dezembro, por causa do que chamou de “alguns problemas de saúde”. Os shows foram transferidos para setembro de 2026, mas acabaram definitivamente cancelados em maio, quando a cantora revelou que enfrentava complicações nos sistemas imunológico e digestivo.
O quadro também a impediu de comparecer ao Governors Awards em novembro de 2025, quando recebeu o Prêmio Humanitário Jean Hersholt da Academia de Hollywood. Parton agradeceu por vídeo. Quatro dias antes de morrer, ela contou à revista People que havia deixado de prestar atenção a alguns de seus próprios problemas enquanto cuidava do marido, o empresário Carl Dean, morto aos 82 anos em 3 de março de 2025, depois de quase 59 anos de casamento.
Das montanhas do Tennessee ao estrelato
Dolly Rebecca Parton nasceu em 19 de janeiro de 1946, no Tennessee. Começou a cantar ainda criança, apresentou-se no Grand Ole Opry aos 13 anos e mudou-se para Nashville após concluir os estudos. Lá, transformou uma infância pobre numa cabana de um cômodo no Tennessee, dividida com 11 irmãos, em uma carreira de quase seis décadas.
Seu sucesso comercial teve início em 1967, quando entrou para o elenco do programa de TV do cantor e apresentador country Porter Wagoner. A parceria rendeu duetos, turnês e projeção nacional, até que ela decidiu seguir carreira solo em 1974.
Para se despedir do programa, ela escreveu um de seus maiores sucessos, “I Will Always Love You”, cuja intenção original não foi romântica. Nas décadas seguintes, Dolly acumulou 25 músicas em 1º lugar na parada country da Billboard e escreveu cerca de 3 mil composições. Sua discografia ultrapassou 100 milhões de cópias vendidas no mundo.
Quais as músicas mais populares de Dolly Parton?
Dentre seus hits, “Jolene” foi o primeiro fenômeno. Lançada em 1973, antes do álbum homônimo de 1974, a música apresenta uma mulher que implora a outra, descrita como ruiva, de olhos verdes e muito bonita, para não levar seu marido. Parton contou que a história nasceu de uma atendente de banco que demonstrava interesse por seu próprio marido, Carl Dean, no começo do casamento. A cantora dizia, em tom de brincadeira, que o marido passava tempo demais no banco para a quantidade de dinheiro que os dois tinham.
A canção chegou ao 1º lugar da parada country da Billboard, vendeu 3 milhões de unidades nos EUA e entrou para o Grammy Hall of Fame em 2014, além de marcar quase 1 bilhão de reproduções no Spotify. “Jolene” também atravessou gêneros em centenas de regravações, entre elas versões de Olivia Newton-John, The White Stripes, Miley Cyrus, Pentatonix — que venceu um Grammy ao lado da própria Dolly — e Beyoncé, que reescreveu parte da letra para “Cowboy Carter”, em 2024.
Outro fenômeno foi “I Will Always Love You”, que chegou ao topo da parada country da Billboard em 1974 e se tornou ainda maior quase duas décadas depois.
Whitney Houston regravou a musica para o filme “O Guarda-Costas” (1992), estrelado por ela e Kevin Costner. A versão ficou 14 semanas consecutivas em 1º lugar na Billboard Hot 100, então um recorde, e se tornou o single mais vendido por uma cantora. A gravação também rendeu mais de US$ 10 milhões em lucro para Parton como autora da composição.
A cantora contou ao The Hollywood Reporter que ouviu a versão de Whitney pela primeira vez enquanto dirigia de volta para casa após sair de seu escritório em Nashville. “Pensei: ‘Isso parece familiar’.” Ao reconhecer a voz e os primeiros versos, ainda demorou alguns segundos para entender o que estava tocando. “Foi uma daquelas coisas em que você pensa: ‘O que é isso?’ E então, de repente, ela começou a cantar: ‘I will always love you’. Eu quase bati o carro.” Parton nunca escondeu a admiração pela interpretação: “Olhe que música grandiosa ela fez daquela canção simples e sincera. Ela a levou para o mundo inteiro e fez dela uma expressão conhecida por todos. Sempre serei grata a ela por isso.”
Estreia no cinema virou clássico dos anos 1980
O maior sucesso cinematográfico de Dolly Parton também foi seu primeiro filme. Em “Como Eliminar Seu Chefe” (1980), ela interpretou Doralee Rhodes ao lado de Jane Fonda e Lily Tomlin, numa comédia sobre três funcionárias que enfrentam um chefe abusivo, vivido por Dabney Coleman. Parton ainda escreveu e gravou a música-tema, “9 to 5”, que chegou ao 1º lugar da Hot 100, também vendeu 3 milhões de unidades e lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Canção Original.
Jane Fonda contou anos depois que a ideia de escalar Parton surgiu ao voltar de carro para casa depois de assistir Tomlin numa peça. Ela havia “ido até a cidade” e, na volta, “Dolly estava cantando”. “Enquanto dirigia para casa, sozinha, liguei o rádio. De repente, tive uma imagem de Dolly diante de uma máquina de escrever”, recordou em março de 2025 no podcast Tudum, da Netflix.
Fonda associou imediatamente a imagem extravagante da cantora à personagem. “Ela não consegue ver os próprios dedos, obviamente”, brincou, numa referência ao decote que fazia parte do visual de Parton. “Ela e Lily eram amigas. Levei um ano para convencê-las, mas deu tudo certo. Nós nos divertimos muito. Dolly nunca tinha feito um filme. Ela chegou no primeiro dia com o roteiro inteiro decorado.”
Dolly não temia a mudança de carreira
Parton já tinha longa experiência diante das câmeras por suas aparições no programa musical “The Porter Wagoner Show”, mas surpreendeu em “Como Eliminar Seu Chefe” ao virar atriz de cinema. Em entrevista ao programa de Ellen DeGeneres em 2006, ela disse que a presença de Fonda e Tomlin diminuiu o risco da empreitada. “Lily e Jane estavam no auge na época e pensei: ‘O que tenho a perder?’”
A própria cantora resumiu como encarou a estreia: “Se for um grande sucesso, vou ficar com o crédito. Se for um fracasso, vou culpar as duas. Eu estava em boa companhia. Elas me ajudaram — muito.”
Dois anos depois, Parton voltou ao cinema para cantar “I Will Always Love You” em “A Melhor Casa Suspeita do Texas” (1982), musical em que interpretou a dona de um bordel ao lado de Burt Reynolds. Em 1989, participou de outro de seus filmes mais conhecidos, “Flores de Aço”, como a cabeleireira Truvy Jones, numa equipe que reunia Shirley MacLaine, Olympia Dukakis, Sally Field e Julia Roberts.
Carreira também passou por “Buffy”
A presença de Dolly Parton na televisão foi além das aparições como cantora e atriz. Sua produtora Sandollar esteve envolvida em “Buffy: A Caça-Vampiros”, e ela permaneceu ligada à franquia décadas depois. Quando o reboot com Sarah Michelle Gellar foi apresentado – e posteriormente rejeitado – para a Disney+, Parton ainda figurava entre as produtoras executivas.
Fora das telas, a artista transformou seu nome em uma operação empresarial ligada principalmente ao Tennessee. Dollywood, parque temático instalado nas Great Smoky Mountains, tornou-se uma das principais atrações turísticas do estado e ampliou uma marca construída inicialmente sobre a música.
Parte dessa estrutura também financiou sua atuação filantrópica. A Imagination Library passou a enviar gratuitamente livros a crianças pequenas em vários países, enquanto Parton destinou US$ 1 milhão à pesquisa da Universidade Vanderbilt que contribuiu para o desenvolvimento da vacina da Moderna contra a covid-19.
Canções como legado
Parton recebeu 11 Grammys ao longo da carreira, entrou para o Country Music Hall of Fame em 1999 e para o Rock and Roll Hall of Fame em 2022.
Apesar dos prêmios, definia a composição como o centro de sua trajetória. “No fim das contas, espero ser lembrada como uma boa compositora. As canções são meu legado.”