
Divulgação/Go Up Entertainment
Filme de Bolsonaro é registrado pela Ancine em meio a novas investigações
"Dark Horse" ganha título nacional enquanto Flávio Dino autoriza PF a acessar provas de operação contra a produtora do longa
Filme de Bolsonaro ganha título nacional
“Dark Horse”, produção de ficção sobre Jair Bolsonaro, recebeu da Agência Nacional do Cinema (Ancine) o Registro de Obra Estrangeira, uma das etapas necessárias para seu lançamento comercial no Brasil. O longa, estrelado por Jim Caviezel e dirigido por Cyrus Nowrasteh, foi registrado com duração de 1h40 e ganhou o título nacional de “O Azarão”. A concessão ocorreu em 7 de agosto, mas só veio a público nesta segunda-feira (24/8), justamente quando uma das investigações que cercam a produção teve novo avanço.
O que o registro permite?
O ROE reconhece formalmente dados como produtora, direção, país de origem, duração, classificação da obra e sinopse. O pedido inicial havia sido apresentado pela Unifilmes Distribuidora em 22 de junho. Posteriormente, a Europa Filmes assumiu a distribuição brasileira e apresentou novo requerimento em 3 de agosto.
O registro, porém, ainda não significa que “O Azarão” esteja liberado para entrar imediatamente em cartaz. A Europa Filmes precisa solicitar à Ancine o Certificado de Registro de Título, o CRT, e ainda não informou quando fará isso. Também não há data de estreia definida. Em junho, a Pipoca Moderna revelou que grandes redes demonstravam resistência ao filme, tanto pela expectativa de bilheteria quanto pelo temor de confrontos políticos nas portas dos cinemas.
Investigação sobre produtora avança
Nesta segunda, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, também autorizou que a Polícia Federal tenha acesso às provas reunidas pela Polícia Civil de São Paulo numa operação contra Karina Ferreira da Gama, dona da Go Up Entertainment, responsável por “Dark Horse”.
A operação foi realizada em junho e investiga um contrato de R$ 108 milhões entre o Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina, e a Prefeitura de São Paulo para instalação de pontos de wi-fi gratuito. Foram realizadas buscas em endereços ligados à empresária, na ONG, na Go Up e na Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia.
A Polícia Civil apura suspeitas de fraude e desvio de recursos públicos. No pedido de acesso a dados financeiros, o delegado responsável apontou “consistentes suspeitas” de que dinheiro do contrato municipal possa ter chegado à produção do filme. Karina já negou que recursos do programa tenham financiado “Dark Horse”, enquanto Flávio Bolsonaro afirmou anteriormente que a operação não tinha “nada a ver com o filme”.
Filme está no centro de diferentes investigações
A apuração paulista é apenas uma das frentes abertas em torno da produção. Sob relatoria de Flávio Dino, a Polícia Federal também investiga possíveis repasses de emendas parlamentares para entidades ligadas a Karina. Entre os parlamentares citados está Mário Frias (PL-SP), roteirista, produtor e ator do longa, que destinou R$ 2 milhões a projetos do Instituto Conhecer Brasil. Outros políticos do PL também aparecem na apuração e negam desvio dos recursos.
Outra investigação, sob relatoria do ministro André Mendonça, concentra-se no financiamento atribuído a Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Áudios e mensagens revelados em maio mostraram Flávio Bolsonaro negociando e cobrando do banqueiro recursos para a produção. A negociação previa até R$ 134 milhões, e ao menos R$ 61 milhões teriam sido desembolsados.
A própria Go Up declarou posteriormente custos de R$ 75 milhões para realizar “Dark Horse”, sendo R$ 54,2 milhões gastos nos Estados Unidos e R$ 20,9 milhões no Brasil. O orçamento tornou o longa, nos valores declarados, mais caro que qualquer produção cinematográfica brasileira realizada anteriormente.
Ancine já havia autuado a produtora
O novo registro também não encerra outro problema enfrentado pela Go Up na própria Ancine. A agência abriu processo administrativo após concluir que “Dark Horse”, por ser uma produção estrangeira, deveria ter sido comunicado previamente antes de realizar filmagens no Brasil. A legislação exige que produções estrangeiras apresentem contratos e informações sobre os trabalhos que serão feitos no país.
A Go Up foi autuada em julho e pode receber multa de R$ 2 mil a R$ 100 mil. A concessão do Registro de Obra Estrangeira não encerra o processo administrativo aberto pela Ancine sobre as filmagens realizadas no Brasil, que tramita separadamente.
A situação representa uma mudança importante desde maio, quando a Pipoca Moderna revelou que o filme havia sido rodado no Brasil sem os registros exigidos pela agência. Agora, “Dark Horse” finalmente possui registro como obra estrangeira e uma distribuidora nacional, mas continua cercado por apurações sobre suas filmagens, financiamento, emendas parlamentares e possível uso de recursos de um contrato público.
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