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Morre Luiz Carlos Barreto, maior produtor do cinema brasileiro, aos 98 anos
Barretão revolucionou a fotografia com “Vidas Secas”, as bilheterias com "Dona Flor" e produziu dois indicados ao Oscar
Morte no Rio de Janeiro
Luiz Carlos Barreto, produtor, diretor, roteirista e fotógrafo que participou de alguns dos principais momentos do cinema brasileiro, morreu na madrugada desta quarta-feira (22/7), aos 98 anos, no Rio de Janeiro.
Conhecido como Barretão, ele estava internado desde terça-feira (21/7) no Hospital Copa Star, onde tratava uma infecção pulmonar decorrente de pneumonia. Sua saúde já se encontrava debilitada desde março de 2024, quando sofreu uma queda durante uma viagem ao Ceará para receber uma homenagem.
Uma carreira sem igual
Ao longo de seis décadas, o cineasta esteve envolvido em mais de 80 produções do cinema nacional. Trabalhou na formação do Cinema Novo, ajudou a reconstruir a atividade cinematográfica do país na Retomadae comandou projetos voltados tanto ao circuito de festivais quanto ao grande público.
Nascido em Sobral, no interior do Ceará, em 1928, Barreto mudou-se para o Rio de Janeiro em 1947, aos 19 anos. Três anos depois, começou a trabalhar como repórter e fotógrafo, destacando-se na revista “O Cruzeiro”, então um dos veículos de maior circulação e influência do país.
Um brasileiro em Paris
Em 1952, o jornalista visitou a casa da família da futura esposa para fotografar a então Miss Goiás e viu Lucy se sentar ao piano durante a reportagem. O relacionamento foi interrompido quando ela recebeu uma bolsa para estudar música em Paris, mas os dois voltaram a se encontrar na capital francesa.
Correspondente de “O Cruzeiro” na França, Barretão chegou a ingressar no Instituto de Altos Estudos Cinematográficos, o IDHEC, mas abandonou o curso poucos dias depois por não se adaptar ao peso dado à teoria. Com uma carta de correspondente que facilitava sua entrada nos estúdios, preferiu observar filmagens e aprender diretamente nos sets.
Ele e Lucy se casaram em Paris em 1954 e retornaram pouco depois ao Brasil, onde construiriam uma parceria profissional e familiar que atravessaria toda a trajetória do produtor.
Como surgiu a ligação com o Cinema Novo?
A aproximação com o cinema começou quando Barreto se envolveu na mobilização contra a censura de “Rio, 40 Graus” (1955), de Nelson Pereira dos Santos. O contato se aprofundou ao acompanhar as filmagens de “Barravento” (1962), primeiro longa dirigido por Glauber Rocha. O trabalho deu início a uma grande amizade entre os dois.
Impulsionado por Glauber, Barreto estreou no cinema como roteirista de “Assalto ao Trem Pagador” (1962), de Roberto Farias. Mas o cineasta baiano ainda insistia que o fotógrafo devia virar cinematógrafo. Barreto tentou explicar que fotografar para revistas era muito diferente de registrar imagens em movimento, mas Glauber enxergava justamente nessa falta de formação tradicional a possibilidade de “desencaretar” a fotografia do cinema brasileiro.
Também queria que um nordestino fosse responsável por mostrar a verdadeira luz da região. Tanto fez que Barreto assumiu a direção de fotografia de “Vidas Secas” (1963), adaptação do romance de Graciliano Ramos comandada por Nelson Pereira dos Santos. O resultado rompeu com o padrão visual da época. Em vez de suavizar a luminosidade com filtros, o fotógrafo retirou essas proteções e explorou os contrastes provocados pelo sol, transformando a aridez e o excesso de claridade em elementos centrais de “Vidas Secas”.
A experiência não ficou restrita ao filme de Nelson Pereira dos Santos. Anos depois, Barretão trabalhou com o próprio Glauber na fotografia e na coprodução de “Terra em Transe” (1967), outra obra fundamental do Cinema Novo.
A estreia na produção
Já inteiramente dedicado ao audiovisual, Luiz Carlos e Lucy fundaram a L.C. Barreto Produções Cinematográficas em 1963. A empresa se tornaria responsável por mais de 80 produções e coproduções, além de participar da formulação de políticas de defesa do cinema nacional.
Um dos primeiros projetos foi “Garrincha, Alegria do Povo” (1963), dirigido por Joaquim Pedro de Andrade. Barretão produziu e participou do roteiro do documentário sobre o jogador do Botafogo e da Seleção Brasileira, considerado o primeiro longa documental brasileiro centrado em um esportista.
A primeira produção integral de ficção da companhia veio em 1965, com “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, adaptação de Guimarães Rosa dirigida por Roberto Santos. O filme foi selecionado para a competição do Festival de Cannes no ano seguinte.
A produtora também esteve ligada a “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” (1969), de Glauber Rocha. A realização coincidiu com o endurecimento da ditadura militar, que levou o diretor ao exílio e impôs novas dificuldades aos integrantes do Cinema Novo.
Como atravessou a ditadura?
A criação da Embrafilme estabeleceu uma relação contraditória entre os cineastas e o Estado. Ao mesmo tempo que financiava e distribuía produções nacionais, a empresa pública operava num ambiente dominado pela censura e pelo controle político do regime militar, determinando o que podia ou não ser filmado.
Barreto percebeu que a repressão a temas políticos convivia com uma tolerância maior à nudez e à crítica de costumes. Essa brecha ajudou a impulsionar “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976), adaptação do romance de Jorge Amado dirigida por seu filho Bruno Barreto.
Com Sônia Braga no papel principal, a comédia levou 10,7 milhões de espectadores aos cinemas brasileiros e permaneceu durante décadas como a maior bilheteria nacional. O filme também circulou por mais de 80 países, recebeu indicações ao Bafta e ao Globo de Ouro e consolidou a atriz como estrela internacional.
A mesma brecha foi explorada em “A Dama do Lotação” (1978), de Neville D’Almeida, lançado no auge do movimento da pornochanchada, que consagrou Sônia Braga como a maior estrela do cinema nacional.
Grande público e grande arte
O êxito comercial não afastou a produtora dos cineastas ligados ao movimento que havia marcado sua formação. Barretão trabalhou com Nelson Pereira dos Santos em “Como Era Gostoso o Meu Francês” (1971) e “Memórias do Cárcere” (1984), dois projetos que abordaram momentos diferentes da história brasileira por meio de adaptações literárias.
Com Cacá Diegues, participou de “Bye Bye Brasil” (1979), que acompanhava uma companhia de artistas itinerantes diante das transformações do interior do país. A parceria entre os dois atravessaria várias décadas.
Também produziu “Brasil Ano 2000” (1969), “Inocência” (1983) e “Ele, o Boto” (1987), dirigidos por Walter Lima Jr., além de “Menino do Rio” (1982), de Antônio Calmon. Os trabalhos demonstravam a tentativa permanente de conciliar uma assinatura autoral com narrativas capazes de alcançar públicos amplos.
Retomada com dois filmes no Oscar
O fechamento da Embrafilme pelo governo Fernando Collor, em 1990, interrompeu o sistema de financiamento e distribuição que sustentava grande parte da produção brasileira. Diante da paralisação quase completa do setor, Barreto voltou a ocupar uma posição central na reconstrução da atividade durante a chamada Retomada.
Num período marcado pelo sucateamento do cinema nacional, com apenas um punhado de lançamentos anuais, a família Barreto foi diretamente responsável por duas indicações consecutivas do Brasil ao Oscar de Melhor Filme Internacional. “O Quatrilho” (1995), dirigido por Fábio Barreto, chegou à disputa da Academia com uma história sobre duas famílias de imigrantes italianos no Rio Grande do Sul.
Dois anos depois, “O Que É Isso, Companheiro?” (1997), de Bruno Barreto, voltou a representar o país na premiação. Baseado no livro de Fernando Gabeira, o longa acompanhava o sequestro do embaixador dos Estados Unidos por integrantes da luta armada durante a ditadura.
Os projetos sintetizavam o modelo desenvolvido pela L.C. Barreto: produções nacionais de grande porte, ancoradas em temas brasileiros e organizadas para circular tanto no mercado interno quanto no exterior.
O modelo projetou vários outros filmes, como “Casa de Areia” (2005), que rendeu ao cineasta Andrucha Waddington um prêmio no Festival de Sundance. O drama estrelado por Fernanda Torres e Fernanda Montenegro foi ainda o último roteiro assinado por Barretão.
Política marcou os últimos anos
Além de realizar filmes, o produtor também foi bastante envolvido com a política nacional, especialmente na defesa da cultura, devido à experiência de passar por uma ditadura. Em 2009, produziu “Lula, o Filho do Brasil”, cinebiografia do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva dirigida por Fábio Barreto. O lançamento, porém, incluiu um capítulo trágico para a família. Pouco depois da estreia, Fábio sofreu um grave acidente de carro. O filho de Barretão permaneceu cerca de dez anos em coma e morreu em 2019, aos 62 anos, episódio que marcou profundamente o produtor.
Mesmo com a redução do ritmo de trabalho, Luiz Carlos continuou participando das discussões sobre políticas culturais até recentemente. Durante a campanha presidencial de 2022, aos 94 anos, integrou reuniões com artistas para debater a recriação do Ministério da Cultura, que havia sido implodido pelo governo Bolsonaro.
Sua trajetória também foi registrada no documentário “Barretão”, dirigido por Marcelo Santiago e lançado em 2019. Narrado em primeira pessoa, o longa relacionava três interesses que atravessaram a vida do produtor: o jornalismo, o cinema e o futebol.
Qual foi seu último filme?
O trabalho mais recente de Barretão como produtor foi “Deus Ainda É Brasileiro”, continuação de “Deus É Brasileiro” (2003). Dirigido por Cacá Diegues, o longa traz Antônio Fagundes novamente no papel de Deus e tem estreia comercial prevista para 10 de dezembro.
O projeto prolongou uma parceria iniciada nos tempos do Cinema Novo. Entre os encontros mais importantes dos dois está “Bye Bye Brasil”, cuja cópia restaurada foi apresentada numa sessão especial do Festival de Cannes de 2024 durante as comemorações dos 60 anos da L.C. Barreto.
Cacá morreu em fevereiro de 2025, durante a finalização de “Deus Ainda É Brasileiro”. O trabalho foi retomado pela produtora Paula Barreto, filha de Luiz Carlos e Lucy.
Documentário registra nova geração
A história do produtor também será contada em “Barreto em Transe”, documentário dirigido pela neta Julia Barreto. O título faz referência a “Terra em Transe”, uma das obras que definiram sua atuação como diretor de fotografia e produtor.
As filmagens começaram em abril deste ano no apartamento de Luiz Carlos e Lucy. O longa reúne familiares e profissionais que acompanharam sua carreira, com previsão de lançamento em 2028, ano em que ele completaria 100 anos.
Julia seguiu os passos da família como produtora e diretora de cinema. Outra neta, Helena Barreto, trabalha como fotógrafa still.
Grande parte dos netos passou pela produtora fundada pelos avós, prolongando a presença da família no audiovisual brasileiro. Em sua última entrevista a O Globo, Barretão resumiu essa continuidade: “O vírus do cinema contaminou toda a família”.