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Divulgação/Go Up Entertainment

Filme|14 de maio de 2026

Para onde foi o dinheiro do filme mais caro da história do Brasil?

Flávio Bolsonaro e Thiago Miranda falam em contrato e repasses de Daniel Vorcaro, mas produtora e Mário Frias negam entrada do dinheiro em "Dark Horse"


Pipoque pelo Texto ocultar
1 A pergunta que falta responder
2 Quem diz que o dinheiro existiu?
3 Quem diz que o dinheiro não entrou?
4 Onde o dinheiro pode ter parado?
5 O valor pode ser ainda maior
6 Um projeto cercado por controvérsias
7 O fantasma da lavagem de dinheiro
8 Aberto para posicionamentos

A pergunta que falta responder

O caso do filme “Dark Horse” chegou a um ponto em que a principal dúvida já não é apenas se Flávio Bolsonaro tentou levantar dinheiro com Daniel Vorcaro. Ele já admitiu que sim. A contradição central é outra: se houve contrato, cobrança de parcelas e relato de repasses milionários, por que a produtora do longa diz que não recebeu um centavo do banqueiro?

Essa é a pergunta que emerge do choque entre as declarações públicas já dadas por personagens centrais da história. De um lado, o senador Flávio Bolsonaro admite que buscou patrocínio privado, cobrou parcelas atrasadas e afirmou que havia um contrato cuja interrupção poderia inviabilizar a conclusão do filme. De outro, a Go Up Entertainment sustenta que nunca recebeu recursos de Vorcaro nem de empresas ligadas a ele.

Quem diz que o dinheiro existiu?

As versões que apontam para a existência do aporte são numerosas e objetivas. O Intercept Brasil, responsável pela reportagem original, revelou mensagens e áudios em que Flávio cobra o pagamento de parcelas e demonstra preocupação com a continuidade do projeto, enquanto o empresário Thiago Miranda afirmou ao UOL e à colunista Malu Gaspar, de O Globo, que o acordo previa US$ 24 milhões e que cerca de metade disso chegou a ser paga.

O próprio Flávio, ao rebater a repercussão do caso, reforçou que houve valores pagos. Em sua nota de defesa, ele declarou que Daniel Vorcaro “parou de honrar com as parcelas do contrato” e afirmou que isso criava o risco de o filme não ser concluído. A declaração é relevante porque não trata apenas de uma conversa preliminar com investidor: ela fala em contrato e em inadimplência.

Thiago Miranda foi ainda mais direto. Segundo ele, Vorcaro era o único investidor do filme até a Operação Compliance Zero e conseguiu colocar cerca de R$ 62 milhões no projeto antes de interromper os repasses. Se essa versão estiver correta, “Dark Horse” não só teria recebido dinheiro do banqueiro como seria o filme mais caro da história do Brasil.

Quem diz que o dinheiro não entrou?

A Go Up Entertainment apresentou uma versão oposta. Em declaração à Folha de S. Paulo e também em nota pública, a produtora afirmou que não recebeu “absolutamente nenhum recurso” de Daniel Vorcaro, do Banco Master ou de empresas ligadas ao empresário. A empresa também sustentou que Flávio Bolsonaro pode ter procurado investidores por conta própria, sem que isso se refletisse em verba efetivamente recebida pela produção.

O deputado Mário Frias, que escreveu o roteiro e é um dos produtores do filme, repetiu essa mesma linha. Ele declarou que “não há um único centavo do sr. Daniel Vorcaro em ‘Dark Horse’”, embora tenha acrescentado que, mesmo se houvesse, não veria irregularidade por se tratar, segundo ele, de uma relação privada sem dinheiro público.

É justamente aí que a história trava. Porque as duas versões não são complementares. Elas se anulam. Se Flávio e Thiago Miranda dizem que houve contrato, parcelas e repasses milionários, e se a produtora e Frias dizem que não entrou dinheiro de Vorcaro no filme, as declarações deixam sem resposta para onde teriam ido os recursos mencionados nas negociações.

Onde o dinheiro pode ter parado?

A própria apuração já publicada indica um caminho que ajuda a explicar a contradição. Segundo o Intercept Brasil, parte do dinheiro ligado a Vorcaro teria seguido, por meio da Entre Investimentos e Participações, para os Estados Unidos, até o fundo Havengate Development Fund LP, apontado como supostamente associado a aliados de Eduardo Bolsonaro.

A menção a investidores americanos acrescenta um novo elemento à controvérsia, quando se observa a própria linha de defesa da Go Up Entertainment. Na nota em que nega a entrada de dinheiro de Vorcaro, a produtora argumenta que só recebeu dinheiro de investidores americanos, mas não pode revelar quem são eles porque a “legislação norte-americana aplicável a operações privadas de captação no setor audiovisual” a obriga a respeitar acordos de confidencialidade. A Havengate Development Fund LP é uma empresa americana, sediada no Texas.

Em resumo, Flávio e o intermediário dizem que o dinheiro era para o filme, mas a produtora nega ter recebido dinheiro de Vorcaro, ao mesmo tempo em que invoca leis americanas para manter sigilo sobre os investidores.

O valor pode ser ainda maior

O valor elevadíssimo do projeto se soma a um histórico recente de questionamentos envolvendo estruturas ligadas à empresária Karina Ferreira da Gama, proprietária da Go Up Entertainment. Reportagem anterior do The Intercept Brasil já havia revelado contratos milionários do Instituto Conhecer Brasil (ICB), também presidido por ela, com a Prefeitura de São Paulo, além de transferências financeiras e emendas parlamentares que passaram a ser alvo de escrutínio público, político e judicial.

Em março deste ano, o ministro do STF Flávio Dino intimou a Câmara dos Deputados e parlamentares ligados aos repasses, entre eles Mário Frias, para prestar esclarecimentos sobre recursos destinados a entidades associadas ao grupo. Nesse contexto, as dúvidas sobre a origem, a circulação e o destino do dinheiro relacionado a “Dark Horse” ganharam dimensão ainda maior.

Um filme com o tamanho dos aportes já declarados não comporta zonas cinzentas tão largas sobre seu financiamento.

Um projeto cercado por controvérsias

Os valores milionários atribuídos ao financiamento de “Dark Horse” contrastam com os relatos de bastidores da produção. Durante as filmagens no final de 2025, o longa acumulou denúncias trabalhistas, acusações de agressões físicas e questionamentos sobre transparência operacional.

Em novembro daquele ano, o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões de São Paulo (SATED-SP) abriu um dossiê após receber reclamações de figurantes e técnicos envolvidos nas gravações em São Paulo. Os relatos citavam alimentação inadequada, pagamentos atrasados, cachês abaixo do padrão do mercado e problemas de segurança nos sets. Segundo os depoimentos reunidos pelo sindicato, houve episódios de consumo de comida estragada, restrições para saída das locações e dificuldades de acesso a banheiros durante as diárias.

Uma das denúncias mais graves partiu do ator e figurante Bruno Henrique, que afirmou ter sido agredido por integrantes da segurança durante uma gravação no Memorial da América Latina. Ele relatou ter sido empurrado, ameaçado e derrubado após se recusar a entregar o celular à equipe responsável pela revista dos participantes. O caso motivou registro de corpo de delito.

O material compilado pelo SATED-SP e exposto em seu site oficial também apontou práticas consideradas irregulares na contratação dos figurantes. Um áudio divulgado pela Revista Fórum mostrou orientações para que trabalhadores pagassem R$ 10 pelo transporte até as locações, valor que seria descontado posteriormente do cachê ou quitado antecipadamente.

As denúncias incluíam ainda pagamentos abaixo do padrão normalmente praticado no setor audiovisual. Segundo relatos reunidos pelo sindicato, as diárias para cessão de imagem e voz variavam entre R$ 100 e R$ 170. A empresa responsável pelo recrutamento negou irregularidades e afirmou, em nota, que os valores pagos seriam de R$ 150 e R$ 250.

Outro episódio incomum para uma produção associada a cifras bastante elevadas envolveu direitos autorais. Um teaser de “Dark Horse” utilizou a música “Survivor”, do grupo Destiny’s Child, sem autorização oficial. A situação ganhou repercussão após Anderson Nick, ligado à BeyGOOD — fundação mantida por Beyoncé — afirmar publicamente que o uso da faixa não havia sido liberado e que medidas judiciais seriam adotadas para interromper a utilização da propriedade intelectual.

O fantasma da lavagem de dinheiro

A dificuldade em rastrear o caminho exato do financiamento não gera apenas contradições públicas entre os envolvidos, mas também desdobramentos jurídicos. A Procuradoria-Geral da República (PGR) já foi oficialmente acionada para investigar se a teia financeira montada ao redor do filme configura crime.

Uma representação protocolada pelo vereador Pedro Rousseff (PT-MG) pede que a PGR apure a possível prática de corrupção passiva e de lavagem de dinheiro. O pedido sustenta que a origem dos milhões utilizados no projeto precisa ser esclarecida, especialmente pela conexão direta do financiamento com o Banco Master e as empresas associadas a Daniel Vorcaro. O político mineiro cobrou que a Justiça analise a atuação de Flávio Bolsonaro nas tratativas para viabilizar recursos privados oriundos de um suposto esquema fraudulento.

Além das provocações políticas, a própria Polícia Federal já mantém os olhos abertos sobre as movimentações do banco. Apurações das jornalistas Daniela Lima (UOL) e Julliana Lopes (CNN Brasil) confirmaram que as ligações entre a família Bolsonaro, o banqueiro e as agências intermediárias do filme são alvos da PF e da PGR. O áudio em que Flávio cobra dinheiro integra arquivos brutos obtidos pela PF nos celulares de Daniel Vorcaro e está nas mãos do Supremo Tribunal Federal (STF), sob a relatoria do ministro André Mendonça.

Não basta mais discutir se houve busca por patrocínio privado ou se o dinheiro de Vorcaro veio de aportes de bancos públicos que investiram no Master, como brigam apoiadores e detratores nas redes sociais. A pergunta que se impõe agora é outra: para onde foi o dinheiro de “Dark Horse”?

Aberto para posicionamentos

O envolvimento de Daniel Vorcaro com o filme “Dark Horse” é uma investigação em andamento sem conclusões criminais. O espaço segue aberto para posicionamentos, declarações e atualizações das partes citadas, que queiram responder, refutar ou acrescentar detalhes em relação ao que foi noticiado.

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