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Divulgação/Go Up Entertainment

Etc,  Filme|13 de maio de 2026

Flávio Bolsonaro cobrou fortuna de Vorcaro para financiar filme “Dark Horse”

Áudios e mensagens revelam que o senador pediu repasses a Daniel Vorcaro para bancar a cinebiografia de Jair Bolsonaro


Pipoque pelo Texto ocultar
1 Áudios expõem cobrança milionária
2 Como a negociação ocorreu?
3 Sócio de Leo Dias intermediou negócio
4 Filme mais caro da História do Brasil
5 Produtora diz que não recebeu o dinheiro
6 Nota divulgada por Paulo Figueiredo
7 O papel de Mário Frias
8 A rota internacional do dinheiro
9 O que apontam as investigações oficiais?
10 O que disse Flávio Bolsonaro?
11 Mario Frias contradiz Flávio Bolsonaro
12 Qual a posição do Grupo Entre?
13 Manifestação do PL
14 O impacto nos bastidores de Brasília
15 Aberto para posicionamentos

Áudios expõem cobrança milionária

Mensagens e áudios vazados pelo site The Intercept Brasil mostram que o senador Flávio Bolsonaro, candidato à presidência pelo PL (Partido Liberal), negociou R$ 134 milhões com o banqueiro Daniel Vorcaro para custear a produção de “Dark Horse”, cinebiografia focada no ex-presidente Jair Bolsonaro. As conversas revelam o parlamentar solicitando o dinheiro para evitar a paralisação dos trabalhos pela equipe internacional do projeto.”

Como a negociação ocorreu?

O Intercept Brasil publicou as gravações nesta quarta-feira (13/5). Os registros datam de um período próximo à primeira detenção de Vorcaro, ocorrida no ano passado. No material, o filho do ex-presidente admite desconforto em cobrar a quantia devido às investigações contra o dono do Banco Master.

“Apesar de você ter dado a liberdade de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando. É porque está em um momento muito decisivo aqui do filme e, como tem muita parcela para trás, cara, está todo mundo tenso e fico preocupado com o efeito contrário com o que a gente sonhou para o filme”, afirmou o senador no áudio enviado em 8 de setembro de 2025.

Diálogos revelam que Flávio convidou Vorcaro a se encontrar com o diretor americano do filme, Cyrus Nowrasteh, e o ator Jim Caviezel, intérprete de Jair Bolsonaro na produção, durante um jantar “totalmente reservado” em São Paulo no mês de novembro.

Em 16 de novembro, o parlamentar reforçou a proximidade com o executivo. “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”, declarou o político nas mensagens de texto, enviadas um dia antes da prisão de Vorcaro e dois dias antes da liquidação do Banco Master no âmbito da Operação Compliance Zero.

Sócio de Leo Dias intermediou negócio

A aproximação entre a família Bolsonaro e o banqueiro contou com a ajuda do empresário Thiago Miranda, então sócio do Portal LeoDias. O deputado Mário Frias (PL-SP), roteirista do filme, e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro também atuaram ativamente nas tratativas do longa-metragem, conforme as apurações do Intercept.

Thiago Miranda relatou ao portal UOL que o acordo firmado garantia um retorno sobre os lucros de “Dark Horse” para o patrocinador. O contrato estabelecia um investimento de US$ 24 milhões, o que representava R$ 134 milhões na cotação da época.

O empresário explicou que o financiador quitou cerca da metade do combinado antes de interromper os pagamentos diante das crises do Banco Master. O Intercept calcula que o repasse efetivado alcançou mais de US$ 10,6 milhões, ou R$ 62 milhões na cotação da época.

Filme mais caro da História do Brasil

Mesmo o aporte “incompleto” de R$ 61 milhões torna “Dark Horse” o filme mais caro já feito no Brasil. Em termos de comparação, “Nada a Perder” e “Nada a Perder 2”, cinebiografias de Edir Macedo que até recentemente detinham o título de campeãs de custos, tiveram orçamento combinado de cerca de R$ 40 milhões, segundo os números divulgados pela produção e reproduzidos pela imprensa entre 2018 e 2019. Era uma superprodução, que incluiu filmagens em Israel e na África do Sul, milhares de figurantes, recriação de época e lançamento em duas partes.

Diretor e parte da equipe são americanos, mas a produção de “Dark Horse” é da Go Up Entertainment, empresa brasileira brasileira sediada em São Paulo, apesar de também manter estrutura empresarial nos Estados Unidos voltada a coproduções e captação internacional. Karina Ferreira da Gama, sócia-administradora da Go Up Entertainment, também preside a ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB), que recebeu R$ 2 milhões em emendas de Mario Frias, segundo outra reportagem do Intercept Brasil, publicada em dezembro do ano passado. Procurada pela imprensa na época, Karina da Gama não quis se pronunciar.

Em março deste ano, o ministro do STF Flávio Dino intimou a Câmara dos Deputados e parlamentares do PL, incluindo Mario Frias, a prestarem esclarecimentos sobre emendas parlamentares destinadas a entidades e empresas ligadas à empresária. O estágio atual ainda é de apuração.

Produtora diz que não recebeu o dinheiro

A Go Up Entertainment negou à Folha de S. Paulo ter recebido repasses de verba de Daniel Vorcaro para o projeto. Segundo Karina Ferreira da Gama, sócia-administradora da empresa, a produtora só tem investimentos estrangeiros, sem ligação com o banqueiro. “Eu já falei com a equipe dele [Flávio Bolsonaro]. Não tenho absolutamente nenhum recurso oriundo dessa pessoa ou das empresas que ele ou Fabiano Zettel fazem parte”, ela afirmou ao jornal.

Segundo a produtora, a fala de Flávio pode ter sido uma tentativa pessoal de buscar recursos para o projeto do pai, mas não reflete qualquer verba ou sequer tratativa da Go Up com Vorcaro ou pessoas próximas ao ex-banqueiro. “Ele [Flávio], como família, como pessoa interessada no projeto, porque a gente está falando da história do pai dele, é evidente que ele tenha prospectado com várias pessoas o apoio, apresentação de novos investidores, novos apoiadores. Mas não existe nenhum documento, contrato ou transferência dessa pessoa [Vorcaro] e também de empresas que ela representa.”

Nota divulgada por Paulo Figueiredo

Uma nota oficial da produtora foi publicada nas redes sociais por um perfil do ativista de direita e aliado dos Bolsonaros, Paulo Figueiredo. No texto, a produtora reforçou que, “sem prejuízo das restrições acima e com o propósito de afastar especulações infundadas, a Go Up Entertainment afirma categoricamente que, dentre os mais de uma dezena de investidores que compõem o quadro de financiadores do longa-metragem ‘Dark Horse’, não consta um único centavo proveniente do sr. Daniel Vorcaro, do Banco Master ou de qualquer outra empresa sob o seu controle societário”.

“Cumpre destacar, ademais, que conversas, apresentações de projeto ou tratativas eventualmente mantidas com potenciais apoiadores e empresários não configuram, por si só, efetivação de investimento, participação societária ou transferência de recursos —sendo improcedente qualquer ilação em sentido contrário”, segue o texto.

A empresa também afirma não poder revelar qual a fonte de captação de recursos para o filme por ser resguardada por um acordo de confidencialidade. “Trata-se de prerrogativa contratual e regulatória legítima, assegurada aos financiadores de projetos estruturados sob o regime de investimento privado, e que esta produtora é obrigada a observar.”

O papel de Mário Frias

Em relato publicado pela colunista Malu Gaspar, de O Globo, o intermediário Thiago Miranda afirmou que existe contrato e Vorcaro deu dinheiro para a produção. A jornalista contou que o projeto do filme foi apresentado a ele por Mario Frias, que pediu ajuda por estar com dificuldade de financiamento. “Eu tive uma reunião com o Mario Frias, que me apresentou o projeto. Conversei com vários empresários e mostrei pro Daniel [Vorcaro]. O Daniel falou: ‘Cara, eu tenho interesse, sim, em patrocinar’. Na verdade, não é patrocinar, é ser investidor”, afirmou Miranda. “Levei pro Mario Frias, falei: ‘Olha, o Daniel vai entrar’. O contrato foi assinado”.

Eles descreve o aporte financeiro do banqueiro no filme com investimento. Haveria retorno financeiro a Vorcaro pelo patrocínio do filme, com participação nos eventuais lucros da produção. De acordo com o intermediário, Vorcaro era o único investidor do filme até a Operação Compliance Zero. “Ele conseguiu botar R$ 62 milhões. E aí logo acontece tudo, ele vai preso e não consegue honrar o resto”.

Miranda também falou com a colunista Daniela Lima, do UOL, dizendo que Mário Frias e o diretor do filme, o americano Cyrus Nowrasteh, começaram a pressioná-lo quando as parcelas cessaram. “Eu sou fundador do grupo Léo Dias de comunicação. Ele [Vorcaro] comprou 70% da nossa operação. Aí me aproximo dele e começamos uma relação de amizade”, contou o empresário, detalhando como se envolveu com Vorcaro para fazer a ponte com o filme.

Segundo Miranda, após a prisão de Vorcaro, Frias teria conseguido novos investidores para completar os aportes que faltavam e concluir o filme, que estreia em setembro. Ele afirma não saber quem são esses investidores que chegaram depois.

A rota internacional do dinheiro

O fundo Havengate Development Fund LP, localizado no Texas, e administrado por supostos parceiros de Eduardo Bolsonaro, teria recebido parte do montante aportado por Vorcaro. De acordo com o Intercept Brasil, as transferências ocorreram por meio da Entre Investimentos e Participações.

Nas mensagens reveladas, Vorcaro orientou seu cunhado, Fabiano Zettel, a efetuar as transações “via Entre”. A Polícia Federal possui investigações que documentam operações financeiras volumosas e antigas entre a instituição de Vorcaro e o Grupo Entre.

A empresa Entre também comprou o site da revista IstoÉ e integra o conglomerado de mídia montado pelo dono do Banco Master. Além disso, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) identificou o grupo como intermediário no caso do Brazil Realty FII, fundo imobiliário que gerou prejuízos para previdências de servidores públicos.

O que apontam as investigações oficiais?

O material vazado pelo Intercept Brasil faz parte de uma investigação da PF (Polícia Federal) e da PGR (Procuradoria-Geral da República), integrando arquivos brutos obtidos em busca e apreensão e encaminhados ao STF (Supremo Tribunal Federal), sob relatoria do ministro André Mendonça.

“O que conseguimos dizer, com base na nossa apuração, é que o áudio revelado pelo The Intercept existe, está nos celulares de Daniel Vorcaro, está sob análise da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República e também consta no material que está nas mãos do ministro André Mendonça”, informou Daniela Lima no UOL.

A jornalista também indicou que as autoridades tentam rastrear com mais detalhes o caminho completo percorrido pela verba. “Segundo eu consegui apurar, o Master declarou um pedaço dessa doação à empresa que fez o filme de Jair Bolsonaro em seu imposto de renda. Mas isso não seria tudo o que o banqueiro Daniel Vorcaro teria dado à família do ex-presidente da República”, acrescentou a colunista.

O que disse Flávio Bolsonaro?

Flávio Bolsonaro publicou uma nota à imprensa em que admite as conversas gravadas, mas nega irregularidades. Ele argumentou que conheceu o investidor em dezembro de 2024, antes do surgimento das suspeitas oficiais, e retomou a conversa apenas para tratar dos atrasos de patrocínio.

“O que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de lei Rouanet”, defendeu o senador, citando uma lei de incentivo cultural que não se aplica à produções de cinema.

“Eu conheci Daniel Vorcaro em dezembro de 2024. Não tinha mais governo Bolsonaro, não tinha absolutamente nenhuma acusação contra ele. O que acontece é que, com o passar do tempo, ele simplesmente parou de honrar com as parcelas do contrato. Sim, tinha um contrato que, ao ele não pagar essas parcelas, tinha uma grande chance de o filme sequer ser veiculado, o filme sequer ser concluído. Em função disso, inclusive, procuramos outros investidores para concluir esse filme”, afirmou o candidato à presidente pelo PL.

O parlamentar rejeitou qualquer acusação de tráfico de influência. “Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem”, justificou Flávio, que aproveitou para defender a CPI do Master e tentar ligar o PT ao escândalo do banco. “Mais do que nunca é fundamental a instalação da CPI do Banco Master. É preciso separar os inocentes dos bandidos”.

Horas antes da publicação da reportagem, ele foi confrontado por um jornalista do Intercept que perguntou sobre o envolvimento de Vorcaro no filme. “Mentira, de onde você tirou isso?”, disse Flávio Bolsonaro como reação inicial. Ele completou com gargalhada e afirmou: “Pelo amor de Deus. Aí não dá!”, chamando ainda o repórter de “militante”. A resposta foi gravada em vídeo e publicada nas redes sociais do site.

Mario Frias contradiz Flávio Bolsonaro

Mário Frias contradisse a afirmação de seu aliado político de que o filme foi patrocinado por Vorcaro. Em nota, o deputado bolsonarista afirmou que “não há um único centavo do sr. Daniel Vorcaro em ‘Dark Horse’”, refletindo a posição oficial da Go Up. “E, ainda que houvesse (dinheiro de Vorcaro), não haveria problema algum: trata-se de relação estritamente privada, entre adultos capazes, sem um único real de dinheiro público envolvido. E, na época, não havia qualquer suspeita a ele e seu banco”, sustenta o deputado, que é produtor executivo do longa. Na época das conversas tornadas públicas, a investigação sobre Vorcaro já estava avançada.

“O senador Flávio Bolsonaro não tem qualquer sociedade no filme ou na produtora. Seu papel limitou-se à cessão dos direitos de imagem da família e, naturalmente, ao peso que seu sobrenome agrega na hora de atrair investidores interessados em financiar um projeto desse porte — o que é legítimo, esperado e não configura, em si, nada além do óbvio”, o deputado ressaltou.

Ele concluiu lembrando a acusação de aporte de dinheiro público. “Por fim, um lembrete pessoal: geri bilhões da Lei Rouanet à frente da Secretaria Especial da Cultura e saí do governo com as mãos limpas. Quem não se enriqueceu com bilhões certamente não iria se sujar pelos R$ 2 milhões que a imprensa agora tenta atribuir”.

Qual a posição do Grupo Entre?

O Grupo Entre enviou um comunicado em março rebatendo as acusações da PF. A empresa assegurou que “os serviços prestados pelo Grupo Entre sempre foram conduzidos de forma regular, dentro dos parâmetros legais e regulatórios, seguindo práticas de compliance, governança e controles compatíveis com o mercado financeiro”.

A nota da instituição financeira ainda classificou a investigação como um erro. “A associação de seu nome à investigação é indevida e baseada em um grande equívoco. Decorre de erro grave de enquadramento, que será devidamente demonstrado nos autos, e corrigido no curso das investigações, com base em elementos técnicos objetivos e verificáveis.”

Manifestação do PL

O partido dos Bolsonaros e de Frias também se manifestou. “O Partido Liberal reitera que as explicações apresentadas pelo senador Flávio Bolsonaro são claras e consistentes”, disse a instituição em nota publicada nas redes sociais. “Os fatos dizem respeito à busca de patrocínio privado para a produção de um filme igualmente privado, sem qualquer utilização de recursos públicos”.

“O PL manifesta confiança irrestrita e apoio ao nosso pré-candidato à Presidência da República, certo da correção de sua conduta. Seguimos firmes e unidos, com responsabilidade e compromisso com a verdade”, acrescenta a declaração, que encerra pedindo “CPI do Banco Master já!”.

O líder do PL na Câmara dos Deputados, deputado Sóstenes Cavalcante também reiterou o apoio e o pedido por CPI em suas redes. “A bancada do PL permanece unida e confiante no senador Flávio Bolsonaro, certo da lisura de seus atos”, ele escreveu.

O impacto nos bastidores de Brasília

Apesar dos apoios declarados, a coluna Painel, da Folha de S. Paulo, apurou que o núcleo político de Flávio Bolsonaro considerou o vazamento muito prejudicial. Os apoiadores avaliam que o escândalo reforça o apelido “Bolsomaster”, criado por governistas aliados de Lula.

A alta quantia negociada também gerou atenção. O pedido de R$ 134 milhões supera o contrato de R$ 129 milhões que a esposa do ministro Alexandre de Moraes, Viviane Barci, fechou com o banqueiro para defender juridicamente suas empresas.

Um líder partidário declarou à Folha em off que o novo caso faz as acusações contra Ciro Nogueira (PP) parecerem um “tribunal de pequenas causas”. Na semana anterior, mensagens indicaram que o cacique do PP recebia uma mesada regular do mesmo grupo financeiro, o que motivou uma operação da Polícia Federal.

Anteriormente, Flávio Bolsonaro havia chamado Ciro de “vice dos sonhos” em sua chapa presidencial, mas após o escândalo da semana passada buscou se afastar do aliado.

Aberto para posicionamentos

O envolvimento de Daniel Vorcaro com o filme “Dark Horse” é uma investigação em andamento sem conclusões criminais. O espaço segue aberto para posicionamentos, declarações e atualizações das partes citadas, que queiram responder, refutar ou acrescentar detalhes em relação ao que foi noticiado e repercutido.

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