
Divulgação/Go Up Entertainment
Flávio Bolsonaro cobrou fortuna de Vorcaro para financiar filme “Dark Horse”
Áudios e mensagens revelam que o senador pediu repasses a Daniel Vorcaro para bancar a cinebiografia de Jair Bolsonaro
Áudios expõem cobrança milionária
Mensagens e áudios vazados pelo site The Intercept Brasil mostram que o senador Flávio Bolsonaro, candidato à presidência pelo PL (Partido Liberal), negociou R$ 134 milhões com o banqueiro Daniel Vorcaro para custear a produção de “Dark Horse”, cinebiografia focada no ex-presidente Jair Bolsonaro. As conversas revelam o parlamentar solicitando o dinheiro para evitar a paralisação dos trabalhos pela equipe internacional do projeto.”
Como a negociação ocorreu?
O Intercept Brasil publicou as gravações nesta quarta-feira (13/5). Os registros datam de um período próximo à primeira detenção de Vorcaro, ocorrida no ano passado. No material, o filho do ex-presidente admite desconforto em cobrar a quantia devido às investigações contra o dono do Banco Master.
“Apesar de você ter dado a liberdade de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando. É porque está em um momento muito decisivo aqui do filme e, como tem muita parcela para trás, cara, está todo mundo tenso e fico preocupado com o efeito contrário com o que a gente sonhou para o filme”, afirmou o senador no áudio enviado em 8 de setembro de 2025.
Dois meses depois, em 16 de novembro de 2025, o parlamentar reforçou a proximidade com o executivo. “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”, declarou o político nas mensagens de texto, enviadas um dia antes da prisão de Vorcaro e dois dias antes da liquidação do Banco Master no âmbito da Operação Compliance Zero.
Sócio de Leo Dias intermediou negócio
A aproximação entre a família Bolsonaro e o banqueiro contou com a ajuda do empresário Thiago Miranda, então sócio do Portal LeoDias. O deputado Mário Frias (PL-SP), roteirista do filme, e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro também atuaram ativamente nas tratativas do longa-metragem, conforme as apurações do Intercept.
Thiago Miranda relatou ao portal UOL que o acordo firmado garantia um retorno sobre os lucros de “Dark Horse” para o patrocinador. O contrato estabelecia um investimento de US$ 24 milhões, o que representava R$ 134 milhões na cotação da época.
O empresário explicou que o financiador quitou cerca da metade do combinado antes de interromper os pagamentos diante das crises do Banco Master. O Intercept calcula que o repasse efetivado alcançou mais de US$ 10,6 milhões, ou R$ 62 milhões na cotação da época.
Filme mais caro da História do Brasil
Mesmo o aporte “incompleto” de R$ 61 milhões torna “Dark Horse” o filme mais caro já feito no Brasil. Em termos de comparação, “Nada a Perder” e “Nada a Perder 2”, cinebiografias de Edir Macedo que detinham o título de campeã de custos, tiveram orçamento combinado de cerca de R$ 40 milhões, segundo os números divulgados pela produção e reproduzidos pela imprensa entre 2018 e 2019. Era uma superprodução, que incluiu filmagens em Israel e na África do Sul, milhares de figurantes, recriação de época e lançamento em duas partes.
A produção de “Dark Horse” é da Go Up Entertainment, empresa brasileira brasileira sediada em São Paulo, apesar de também manter estrutura empresarial nos Estados Unidos voltada a coproduções e captação internacional. Karina Ferreira da Gama, que é proprietária da Go Up Entertainment, também preside a ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB), que recebeu R$ 2 milhões em emendas de Mario Frias, segundo outra reportagem do Intercept Brasil, publicada em dezembro do ano passado. Procurada pela imprensa na época, Karina da Gama não quis se pronunciar.
Em março deste ano, o ministro do STF Flávio Dino intimou a Câmara dos Deputados e parlamentares do PL, incluindo Mario Frias, a prestarem esclarecimentos sobre emendas parlamentares destinadas a entidades e empresas ligadas à empresária. O estágio atual ainda é de apuração.
O papel de Mário Frias
Em relato publicado pela colunista Malu Gaspar, de O Globo, o intermediário Thiago Miranda afirmou que o projeto do filme foi apresentado a ele por Mario Frias, que pediu ajuda por estar com dificuldade de financiamento. “Eu tive uma reunião com o Mario Frias, que me apresentou o projeto. Conversei com vários empresários e mostrei pro Daniel [Vorcaro]. O Daniel falou: ‘Cara, eu tenho interesse, sim, em patrocinar’. Na verdade, não é patrocinar, é ser investidor”, afirmou Miranda. “Levei pro Mario Frias, falei: ‘Olha, o Daniel vai entrar’. O contrato foi assinado”.
Eles descreve o aporte financeiro do banqueiro no filme com investimento. Haveria retorno financeiro a Vorcaro pelo patrocínio do filme, com participação nos eventuais lucros da produção. De acordo com o intermediário, Vorcaro era o único investidor do filme até a Operação Compliance Zero. “Ele conseguiu botar R$ 62 milhões. E aí logo acontece tudo, ele vai preso e não consegue honrar o resto”.
Miranda também falou com a colunista Daniela Lima, do UOL, dizendo que Mário Frias e o diretor do filme, o americano Cyrus Nowrasteh, começaram a pressioná-lo quando as parcelas cessaram. “Eu sou fundador do grupo Léo Dias de comunicação. Ele [Vorcaro] comprou 70% da nossa operação. Aí me aproximo dele e começamos uma relação de amizade”, contou o empresário, detalhando como se envolveu com Vorcaro para fazer a ponte com o filme.
Segundo Miranda, após a prisão de Vorcaro Frias teria conseguido novos investidores para completar os aportes que faltavam e concluir o filme, que estreia em setembro. Ele afirma não saber quem são esses investidores que chegaram depois.
A rota internacional do dinheiro
O fundo Havengate Development Fund LP, localizado no Texas, e administrado por supostos parceiros de Eduardo Bolsonaro, teria recebido parte do montante aportado por Vorcaro. De acordo com o Intercept Brasil, as transferências ocorreram por meio da Entre Investimentos e Participações.
Nas mensagens reveladas, Vorcaro orientou seu cunhado, Fabiano Zettel, a efetuar as transações “via Entre”. A Polícia Federal possui investigações que documentam operações financeiras volumosas e antigas entre a instituição de Vorcaro e o Grupo Entre.
A empresa Entre também comprou o site da revista IstoÉ e integra o conglomerado de mídia montado pelo dono do Banco Master. Além disso, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) identificou o grupo como intermediário no caso do Brazil Realty FII, fundo imobiliário que gerou prejuízos para previdências de servidores públicos.
O que dizem as investigações oficiais?
O material vazado pelo Intercept Brasil faz parte de uma investigação da PF (Polícia Federal) e da PGR (Procuradoria-Geral da República), integrando arquivos brutos obtidos em busca e apreensão e encaminhados ao STF (Supremo Tribunal Federal), sob relatoria do ministro André Mendonça.
“O que conseguimos dizer, com base na nossa apuração, é que o áudio revelado pelo The Intercept existe, está nos celulares de Daniel Vorcaro, está sob análise da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República e também consta no material que está nas mãos do ministro André Mendonça”, informou Daniela Lima no UOL.
A jornalista também indicou que as autoridades tentam rastrear com mais detalhes o caminho completo percorrido pela verba. “Segundo eu consegui apurar, o Master declarou um pedaço dessa doação à empresa que fez o filme de Jair Bolsonaro em seu imposto de renda. Mas isso não seria tudo o que o banqueiro Daniel Vorcaro teria dado à família do ex-presidente da República”, acrescentou a colunista.
O que disse Flávio Bolsonaro?
Flávio Bolsonaro publicou uma nota à imprensa em que admite as conversas gravadas, mas nega irregularidades. Ele argumentou que conheceu o investidor em dezembro de 2024, antes do surgimento das suspeitas oficiais, e retomou a conversa apenas para tratar dos atrasos de patrocínio.
“O que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de lei Rouanet”, defendeu o senador, citando uma lei de incentivo cultural que não se aplica à produções de cinema.
O parlamentar rejeitou qualquer acusação de tráfico de influência. “Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem”, justificou Flávio, que aproveitou para defender a CPI do Master e tentar ligar o PT ao escândalo do banco. “Mais do que nunca é fundamental a instalação da CPI do Banco Master. É preciso separar os inocentes dos bandidos”.
O que disseram os demais envolvidos?
Mário Frias seguiu a mesma linha, afirmando que o projeto não possui verba pública. Ele alegou que as mensagens “refletem tratativas legítimas relacionadas ao desenvolvimento de uma obra audiovisual independente, sem qualquer irregularidade.” Eduardo Bolsonaro não respondeu aos contatos da imprensa e os representantes legais de Daniel Vorcaro não quiseram comentar.
O Grupo Entre enviou um comunicado em março rebatendo as acusações da PF. A empresa assegurou que “os serviços prestados pelo Grupo Entre sempre foram conduzidos de forma regular, dentro dos parâmetros legais e regulatórios, seguindo práticas de compliance, governança e controles compatíveis com o mercado financeiro”.
A nota da instituição financeira ainda classificou a investigação como um erro. “A associação de seu nome à investigação é indevida e baseada em um grande equívoco. Decorre de erro grave de enquadramento, que será devidamente demonstrado nos autos, e corrigido no curso das investigações, com base em elementos técnicos objetivos e verificáveis.”
O impacto nos bastidores de Brasília
A coluna Painel, da Folha de S. Paulo, apurou que o núcleo político de Flávio Bolsonaro considerou o vazamento muito prejudicial. Os apoiadores avaliam que o escândalo reforça o apelido “Bolsomaster”, criado por governistas aliados de Lula.
A alta quantia negociada também gerou atenção. O pedido de R$ 134 milhões supera o contrato de R$ 129 milhões que a esposa do ministro Alexandre de Moraes, Viviane Barci, fechou com o banqueiro para defender juridicamente suas empresas.
Um líder partidário declarou à Folha em off que o novo caso faz as acusações contra Ciro Nogueira (PP) parecerem um “tribunal de pequenas causas”. Na semana anterior, mensagens indicaram que o cacique do PP recebia uma mesada regular do mesmo grupo financeiro, o que motivou uma operação da Polícia Federal.
Anteriormente, Flávio Bolsonaro havia chamado Ciro de “vice dos sonhos” em sua chapa presidencial, mas após o escândalo da semana passada buscou se afastar do aliado.
Aberto para posicionamentos
O envolvimento de Daniel Vorcaro com o filme “Dark Horse” é uma investigação em andamento sem conclusões criminais. O espaço segue aberto para posicionamentos, declarações e atualizações das partes citadas, que queiram responder, refutar ou acrescentar detalhes em relação ao que foi noticiado e repercutido.