
Divulgação/Cinemark
Cinemark exibe “Zuzubalândia” 114 vezes ao dia para cumprir Cota de Tela
Denúncia da Folha de S. Paulo aponta que animação brasileira de 2024 ocupa grade matinal vazia em SP, gerando polêmica sobre metas e brechas na lei
Denúncia da Folha de S. Paulo
Uma reportagem investigativa da Folha de S. Paulo revelou que a rede Cinemark está utilizando a animação “Zuzubalândia – O Filme” como um atalho estratégico para cumprir a Cota de Tela. O mecanismo, voltado ao fomento do audiovisual nacional, obriga as exibidoras a reservarem parte da programação para obras brasileiras, mas a rede tem concentrado milhares de sessões da obra em horários matutinos com salas vazias.
Por que “Zuzubalândia – O Filme”?
A escolha do título pela Cinemark baseia-se em fatores logísticos e contratuais que facilitam o alcance das metas estabelecidas pela Ancine. Um dos principais motivos é que “Zuzubalândia – O Filme” possui apenas uma hora de duração, o que permite à rede realizar o dobro de sessões em comparação a outros filmes nacionais mais longos.
Essa curta duração possibilita uma alta rotatividade das salas, interferindo minimamente na programação de blockbusters estrangeiros e liberando espaço para obras de maior apelo comercial em horários nobres. Além disso, a cineasta Mariana Caltabiano fechou contrato de exclusividade com a Cinemark, que fica com 70% da bilheteria líquida contra 30% para ela.
Brechas na regulamentação
Embora o filme seja tecnicamente um média-metragem, a Cinemark encontrou uma brecha na legislação para contabilizá-lo na cota, realizando mais de 17 mil sessões neste ano com uma média de apenas 0,1 espectador por exibição, segundo levantamento da Folha. A regra exige a exibição “predominantemente” de longas nacionais, permitindo a inclusão.
A rede Cinemark programou 114 sessões de “Zuzubalândia – O Filme” só em São Paulo na quarta-feira (6/5). Quase metade ocorreu às 11h, com o restante entre meio-dia e 14h45. A reportagem do jornal visitou sessões simultâneas da animação em São Paulo que não possuíam nenhum espectador, com projetores ligados em salas vazias.
Questionada, a rede justificou as exibições pelo Projeto Escola, que permite reservas de salas para grupos estudantis mediante pagamento. Entretanto, o jornal não encontrou salas lotadas com grupos estudantis.
O que diz a Ancine?
A Ancine avalia o caso sem prever punições, considerando diálogo com a rede americana, apesar da cota ter sido concebida para incentivar a pluralidade do cinema brasileiro e a exibição para o público.
Tecnicamente, a prática não viola a lei, que exige 16% de sessões nacionais sem limitar repetições ou horários. Redes concentram as exibições no horário matutino para liberar as telas para lançamentos estrangeiros. A expectativa é poder monopolizar o circuito com os grandes lançamentos de Hollywood.
O espaço segue aberto para posicionamentos, declarações e atualizações das partes citadas, que queiram responder, refutar ou acrescentar detalhes em relação ao que foi noticiado.