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Divulgação/Embaúba Filmes

Filme|31 de dezembro de 2022

Retrospectiva: Os 10 melhores filmes brasileiros de 2022

Os filmes brasileiros tiveram mais dificuldades que nunca para chegar aos cinemas em 2022, graças ao descaso do governo Bolsonaro com cota de tela e incentivos. Não é por acaso que os melhores filmes foram pouco vistos. Afinal, se até as produções da Globo Filmes penaram para encontrar espaço no circuito, o que dizer de lançamentos independentes.

Outro efeito colateral da passagem de Bolsonaro por Brasília foi o renascimento do cinema engajado, que marcou o ano com produções de temáticas sociais com denúncias de racismo, violência policial, misoginia, transfobia, descaso com a saúde pública e extermínio indígena, que refletem o aumento da preocupação com essas questões durante o governo finado.

Mas nem por isso o cinema nacional perdeu o romantismo e a imaginação exacerbada, como pode ser verificado na seleção abaixo, que aponta os melhores títulos do ano.

Confira os 10 melhores filmes brasileiros lançados em 2022, organizados por ordem alfabética e com indicações de onde assistir (se disponíveis em streaming).

 

| A MÃE |

 

O drama de Cristiano Burlan (“Mataram o Meu Irmão”) rendeu um novo troféu para a premiada Marcélia Cartaxo (“Pacarrete”), como Melhor Atriz no Festival de Gramado deste ano. Ela vive Maria, migrante nordestina e vendedora ambulante em busca de seu filho, supostamente assassinado por policiais militares durante uma ação na vila onde mora. Numa jornada para descobrir o paradeiro do jovem desaparecido, ela enfrenta diversas adversidades, mas não consegue nenhuma notícia que a ajude a encontrá-lo. Essa tragédia deixa uma ferida profunda na sua personalidade.

Burlan também venceu o Kikito de Melhor Direção pelo filme em Gramado, colocando nas telas a discussão cada vez mais necessária sobre a violência policial no país.

 

| CARRO REI | GLOBOPLAY, VOD*

 

Vencedor do último festival de Gramado, o filme de Renata Pinheiro combina fantasia e realismo para contar a história de Uno (o novato Luciano Pedro Jr), que tem esse nome em referência ao carro em que nasceu, a caminho da maternidade. O automóvel é considerado como um melhor amigo pelo jovem, e quando uma nova lei proíbe a circulação de carros antigos, Uno busca uma solução com seu tio, um mecânico com ideias mirabolantes, vivido por Matheus Nachtergaele (“Trinta”). Juntos, os dois transformam o antigo automóvel num carro novo, o Carro Rei, tão avançado que interage com humanos, comunicando-se e demonstrando sentimentos, além de fazer seus próprios planos.

Além de levar o Kikito de Melhor Filme, “Carro Rei” também foi contemplado em Gramado com as estatuetas de Melhor Trilha Musical (DJ Dolores), Melhor Direção de Arte (Karen Araujo), Melhor Desenho de Som (Guile Martins) e um Prêmio Especial do Júri para Matheus Nachtergaele.

 

| CARVÃO |

 

A estreia da diretora Carolina Markowicz se passa numa pequena cidade do interior, onde uma família recebe uma proposta rendosa, mas também perigosa: hospedar um estrangeiro (o argentino César Bordón, de “Relatos Selvagens”) em sua casa. Antes mesmo da chegada dele, no entanto, arranjos precisarão ser feitos, e a vida em família começa a se transformar. Porém, nenhum dos familiares, e muito menos o próprio hóspede, vê suas expectativas cumpridas. Todos tem conflitos e a hipocrisia logo é questionada.

Foi vencedor de três troféus no Festival do Rio, incluindo Melhor Roteiro (Markowicz) e Atriz Coadjuvante (Aline Marta Maia, de “Casa de Antiguidades”). O elenco ainda inclui Rômulo Braga (“Natureza Morta”), Maeve Jinkings (“Aquarius”) e Camila Márdila (“Que Horas Ela Volta?”).

 

| EDUARDO E MONICA | GLOBOPLAY, VOD*

 

O casal que ficou conhecido pela música cantada por Renato Russo em 1986 é vivido por Gabriel Leone (“Dom”) e Alice Braga (“A Rainha do Sul”), um par tão diferente que jamais poderia dar certo. Ao mesmo tempo em que romantiza as diferenças entre eles, o filme também mostra que a realidade é dura para os românticos incorrigíveis.

Premiado como Melhor Filme Internacional no Festival de Edmonton, no Canadá, o romance moderno tem direção de René Sampaio, que já tinha levado outra música da Legião Urbana para o cinema, “Faroeste Caboclo” (2013). Por sinal, o elenco coadjuvante inclui um integrante da adaptação anterior, Fabricio Boliveira – além de Victor Lamoglia (“Socorro! Virei uma Garota”), Otávio Augusto (“Hebe”), Bruna Spinola (“Impuros”) e Ivan Mendes (“Me Chama de Bruna”).

 

| MARTE UM |

 

O filme escolhido para representar o Brasil no Oscar não conseguiu indicação. Mas encantou a crítica dos EUA, atingindo 100% de aprovação no Rotten Tomatoes ao ser exibido no Festival de Sundance. Também foi consagrado no Festival de Gramado deste ano, onde venceu os prêmios do Público, Especial do Júri, Melhor Roteiro e Melhor Trilha Sonora.

Dirigido por Gabriel Martins (“Temporada”), o filme acompanha uma família de periferia que tenta viver seus sonhos. Enquanto a mãe comemora mais trabalhos de faxina, o filho mais novo revela seu desejo de deixar de jogar futebol para virar astrofísico e ir à Marte. Rejane Faria (“Segunda Chamada”) e Carlos Francisco (“Bacurau”) vivem os pais.

 

| MEDIDA PROVISÓRIA | GLOBOPLAY, VOD*

 

A estreia de Lázaro Ramos é uma trama distópica passada num futuro não muito distante, em que uma nova lei do governo federal de direita manda deportar todos os brasileiros de “melanina acentuada” para o continente africano. Com a desculpa de se tratar de uma reparação histórica, a iniciativa também visa acabar de vez com o racismo no Brasil, deixando o país só com brancos.

Aplaudido pela crítica mundial, o filme foi comparado a “Corra!” e “The Handmaid’s Tale” nos EUA, atingindo 92% de aprovação no site americano Rotten Tomatoes. Mas apesar de exibido e premiado em festivais internacionais desde 2020, levou dois anos para chegar ao Brasil por enfrentar dificuldades envolvendo a Ancine, a Agência Nacional do Cinema – problema semelhante ao que também atrasou “Marighella”, de Wagner Moura, outro filme politizado com protagonista negro. Atacado por bolsonaristas, acabou tendo sua mensagem reforçada.

O elenco destaca Alfred Enoch (“How to Get Away with Murder”), Seu Jorge (“Marighella”), Taís Araújo (“O Roubo da Taça”), Mariana Xavier (“Minha Mãe É uma Peça”), Adriana Esteves (“Benzinho”), Luís Miranda (“Crô em Família”), Renata Sorrah (“Árido Movie”), Jéssica Ellen (“Três Verões”) e o rapper Emicida.

 

| PALOMA | GLOBOPLAY

 

O novo filme de Marcelo Gomes (“Joaquim”) destaca uma performance consagradora de Kika Sena, que se tornou a primeira artista trans a receber o Troféu Redentor de Melhor Atriz no Festival do Rio. Ela dá vida à personagem-título, uma mulher trans que vive com seu amor e trabalha como agricultora no sertão de Pernambuco. Paloma dá duro numa plantação de mamão para guardar dinheiro e realizar um sonho: casar-se na Igreja com o homem que ama, de véu e grinalda. Mas a recusa do padre em aceitar seu pedido a obriga a enfrentar a sociedade rural e sofrer violência, traição, preconceito e injustiça.

“Paloma” também venceu o troféu Redentor de Melhor Filme no Festival do Rio deste ano e foi premiado no Festival de Chicago, nos EUA.

 

| PACIFICADO | VOD*

 

Coprodução entre Brasil e EUA rodada no Rio de Janeiro, o drama de favela venceu o troféu Concha de Ouro como Melhor Filme do prestigioso Festival de Cinema de San Sebastián, na Espanha.

O longa acompanha a história de uma garota de 13 anos (Cassia Gil) que tenta se reconectar com o pai (Bukassa Kabengele), libertado da prisão no momento turbulento das Olimpíadas do Rio. Enquanto a polícia “pacificadora” batalha para ocupar as favelas ao redor da cidade, a família (que inclui a mãe vivida por Débora Nascimento) precisa navegar entre as forças que ameaçam suas esperanças para o futuro, conforme o pai considera retomar seu lugar no tráfico, atualmente ocupado por um jovem (José Loreto).

Além de Melhor Filme, “Pacificado” venceu mais dois troféus no festival espanhol. Bukassa Kabengele, congolês naturalizado brasileiro, foi premiado como Melhor Ator. Ele é conhecido da TV brasileira por atuações em séries como “Carcereiros”, “Os Dias Eram Assim” e até “Malhação”. O outro prêmio foi para Laura Merians Gonçalves, Melhor Direção de Fotografia por seu primeiro longa-metragem, após uma carreira de curtas, séries e clipes de pop islandês (Bjork, Sigur Ros).

 

| OS PRIMEIROS SOLDADOS | VOD*

 

Premiado no Festival de Tiradentes, o drama de Rodrigo de Oliveira (“Todos os Paulos do Mundo”) chegou simultaneamente no cinema e nas plataformas digitais para compensar a péssima distribuição que recebeu no circuito. A trama se passa em 1983 durante o começo da epidemia da Aids e acompanha um jovem biólogo, uma transexual e um videomaker, que tentam sobreviver à doença em meio ao desespero da falta de informação e do futuro incerto.

Os papéis principais são vividos por Johnny Massaro (“Verdades Secretas”), Renata Carvalho (“Pico da Neblina”) e Victor Camilo (“A Mata Negra”). E tem algumas curiosidades: Carvalho viveu uma década como agente de prevenção de DSTs, trabalhando com travestis e transexuais na prostituição e Massaro se assumiu gay durante as filmagens.

 

| O TERRITÓRIO |

 

O documentário que venceu o Prêmio do Público e um Prêmio Especial do Júri na competição internacional do Festival de Sundance deste ano é uma coprodução brasileira e americana (do cineasta Darren Aronofsky, de “Noé”), dirigida pelo americano Alex Pritz, que retrata a luta do povo Uru-Eu-Wau-Wau contra agricultores e mineradores incentivados a invadir sua terra, uma área protegida na floresta amazônica, pela retórica de Jair Bolsonaro.

Elogiadíssimo pela crítica estrangeira, o filme tem 97% de aprovação no site Rotten Tomatoes e está sendo considerado um dos melhores documentários da década. Adquirido pela National Geographic, é finalista do Oscar e forte candidato às premiações internacionais de 2023.

 

 

* Os lançamentos em VOD (video on demand) podem ser alugados individualmente em plataformas como Apple TV, Claro TV+, Google Play, Loja Prime, Microsoft Store, Vivo Play e YouTube, entre outras, que funcionam como locadoras digitais sem a necessidade de assinatura mensal.

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Marcel Plasse

Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna.

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