Divulgação/Rede Globo

Novas acusações de assédio contra ex-diretor da Globo vêm à tona

A revista Piauí publicou nesta segunda (14/2) uma nova reportagem sobre o escândalo de assédio sexual envolvendo o comediante e ex-diretor do Departamento de Humor da Globo Marcius Melhem. A publicação chegou a ser proibida por seis meses pela Justiça do Rio, sendo liberada por decisão do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, garantindo à Piauí o direito à liberdade de imprensa.

Em sua investigação jornalística, o repórter João Batista Jr. teve acesso aos depoimentos judiciais das denunciantes e a documentos da rede Globo. Os relatos chocam por descrever em detalhes os até aqui supostos assédios cometidos por Melhem, que teria agarrado e tentado beijar uma atriz à força apenas de toalha, num flat da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, ao estilo do produtor americano e Harvey Weinstein.

O nome da atriz – assim como os das demais mulheres que denunciaram o ator – segue mantido sob sigilo. Entre os depoimentos, há acusações de que, no flat que a Globo alugava para funcionar como redação do núcleo de humor, Melhem recebia atrizes de “cuecas, com as calças abaixadas ou sem calças”, chamava mulheres de “piranha” e chegou a dizer para uma novata que merecia receber um boquete por tê-la contratado para a Globo.

As denúncias apontam um ambiente tóxico, em que Melhem falava de sexo o tempo inteiro, insinuando-se para atrizes com falas como “Você faz parte das minhas fantasias sexuais” ou “Como você está gostosa com essa roupa”. Uma acusação diz que ele também pegava as mãos de mulheres e as colocava sobre sua genitália. Mais de uma das vítimas disseram que foram profissionalmente boicotadas por terem resistido às investidas sexuais.

Confrontado, Melhem disse em seu próprio depoimento judicial que era tudo “brincadeira”. A Piauí contou seis respostas com a palavra “brincadeira” para acusações de comportamento inadequado.

A reportagem também jogou luz sobre a “operação abafa” da Globo.

Segundo documentos obtidos pela publicação, Melhem foi demitido em 2020 após uma investigação interna concluir que o então diretor do Departamento de Humor teve comportamento inadequado com suas subordinadas. Só que, na ocasião, a emissora divulgou um comunicado dizendo que a iniciativa de sair da Globo tinha sido do humorista. Esta informação foi posteriormente retificada para uma saída “em comum acordo”, seguida por elogios rasgados a Melhem por sua “importante contribuição para a renovação do humor nas diversas plataformas da empresa”.

Um documento assinado por Helcio Coelho, o advogado que colheu os depoimentos das vítimas de Melhem na Globo, incluindo Dani Calabresa, revela que a história foi muito diferente. Não houve nada de comum acordo. Melhem foi sumariamente demitido.

“Com base na apuração realizada, a Comissão de Ética e a gestão da empresa decidiram pela rescisão imediata do contrato do executivo, perdendo desta forma o seu cargo de gestão, e pela suspensão por quatro meses dos seus contratos de ator e roteirista. Após o período de afastamento, [o então diretor da emissora] Carlos Henrique Schroder avaliará o seu retorno”, diz o memorando oficial.

Após o período citado, a Globo soltou a agora notória nota do “comum acordo”.

Em uma carta endereçada à Delegacia de Atendimento à Mulher, por ocasião da denúncia criminal de abuso, a diretora do Compliance da Globo, Ana Carolina Bueno Junqueira Reis confirmou que o tema da investigação interna da emissora eram “alegações de práticas abusivas por parte do sr. Marcius Melhem”, e que a Comissão de Ética decidiu recomendar “a perda do cargo de gestão, com efeitos imediatos” e o “afastamento completo do profissional por um período de 180 dias”.

Procurado pela revista para oferecer sua versão dos fatos, Melhem mandou uma nota assinada por seus advogados, cuja íntegra diz o seguinte: “A revista Piauí se tornou assessora de imprensa da acusação. Não apura corretamente fatos importantes, publica inverdades, ignora provas e sequer faz desmentidos de situações comprovadamente falsas. Agora publica uma matéria seis meses desatualizada de informações fundamentais que a investigação trouxe à tona. Sendo assim, que publique as suas inverdades e distorções. A Justiça a desmentirá.”