Crítica: The Souvenir mergulha em relação tóxica vivida nos anos 1980

Quarto longa-metragem da inglesa Joanna Hogg, “The Souvenir” não é apenas um filme pessoal: é autobiográfico, baseado nas memórias dos 20 e poucos anos da diretora. Até mesmo o apartamento em que morava foi reconstruído a partir de uma fotografia que ela tinha.

A história se passa em Londres, no início da década de 1980, e aborda um relacionamento que hoje podemos descrever mais facilmente como tóxico.

O longa ganhou um dos principais prêmios do Festival de Sundance do ano passado, como Melhor Filme da mostra competitiva internacional, e é curioso que não tenha atingido grande repercussão entre os cinéfilos brasileiros, talvez por não ter sido lançado nos cinemas. Só chegou por aqui em VOD neste período da quarentena. Ainda assim, também quase passa batido em meio a tantas opções disponíveis, mesmo que a grande maioria das opções não valha nosso valioso tempo.

Só o fato de ser um filme baseado em fatos reais já provoca o interesse. A própria diretora hesitou bastante em materializá-lo, justamente por tratar de algo muito íntimo e incômodo para ela.

Para interpretar sua personagem na juventude ela escolheu a semi-estreante Honor Swinton Byrne, filha da atriz Tilda Swinton. A jovem atriz só tinha no currículo uma pequena participação em “Um Sonho de Amor”, de Luca Gaudagnino, estrelado pela mãe. Tilda Swinton também está no elenco, num pequeno papel como mãe da protagonista.

Na trama, Honor é Julie, uma estudante de cinema que conhece um homem um pouco mais velho, Anthony (Tom Burke), por quem se interessa e se apaixona. O homem é arrogante, lacônico, costuma apontar defeitos na moça, quando ele mesmo não parece ter lá suas qualidades. Nem bonito ele é. Ele esconde uma vulnerabilidade que surgirá aos poucos, à medida que formos conhecendo mais o personagem.

É impressionante a atuação de Honor. Nem parece estar atuando, de tão natural que é sua performance. Seu trabalho também foi de pesquisa: ela chegou a ler os diários da diretora dos anos 1980, a fim de buscar identificação e conhecimento sobre ela e ajudar na formulação da personagem. E Joanna Hogg imprime um trabalho realista nos diálogos que torna o filme verdadeiro em muitos aspectos.

Em entrevista com a diretora ao jornal britânico The Guardian, a atriz abordou a situação. “Toda pessoa na faixa dos 20 anos não sabe o que está acontecendo em sua vida. Você está tentando descobrir no que você é bom, quem você é, o que você quer, quais são seus limites. E você comete erros e tem problemas de auto-confiança.”

Então, o que Anthony faz com Julie é se aproveitar desse momento mais delicado de se estar em seus 20s. Ainda que seja possível se envolver com os problemas do homem na segunda metade do filme, a relação vampírica é difícil de perdoar, de aceitar, ainda mais sendo Julie uma pessoa tão doce.

“The Souvenir” causa bastante desconforto, pois, desde o começo, a relação que se estabelece entre Julie e Anthony soa desagradável. Vemos tudo com certo distanciamento, não parece ser fácil se apegar ao personagem masculino como ela se apegou. Fica-se o tempo todo querendo que ela saia desse relacionamento e a pergunta vem e é feita à própria diretora na referida entrevista: “Por que ela ficou com Anthony por tanto tempo?”. Hogg afirma que é uma pergunta que não é possível responder.

Há no filme também uma espécie de valorização e de saudosismo do mundo analógico, que se ressalta pela encenação nos anos 1980. Isto é explorado nas cenas em que Julie está fotografando os amigos em festas intimistas, nas aulas de cinema a que ela assiste e nas fitas cassete que ela coloca para escutar em seu aparelho de som. Aliás, é muito bom o uso bastante pontual da música no filme, entrecortando os silêncios.

O filme foi rodado em ordem cronológica e usando a bitola 16 mm, e se percebe claramente a textura diferente e a granulação em sua fotografia. Como cada rolo de 16 mm tem duração de 11 minutos, a edição também lida com essa limitação. Já a opção por filmar em ordem cronológica pode ter influenciado positivamente na construção dramática da protagonista.

No fim dos créditos, anuncia-se um “The Souvenir – Parte 2”, que já está em fase de pós-produção e será lançado no próximo ano. Segundo a diretora, a parte dois começa quase que imediatamente onde termina a primeira e vai de 1985 até o final da década. Se for tão bom quanto este filme, os cinéfilos devem marcar no calendário a data de lançamento, para desta vez não perder o mergulho na memória e nos sentimentos de Joanna Hogg.

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