Spirit Awards 2020: A Despedida e Adam Sandler vencem o “Oscar do cinema independente”



O Film Independent Spirit Awards, premiação anual mais badalada do cinema independente americano, entregou suas estatuetas aos melhores filmes e artistas de 2020 na noite deste sábado (8/2). E o resultado, evidenciado pela vitória de “A Despedida” (The Farewell) e o reconhecimento aos talentos responsáveis por “Jóias Brutas” (Uncut Gems), demonstra o quanto a produção autoral indie se distanciou da indústria cinematográfica mais tradicional, representada pelo Oscar.

Em franco contraste com as polêmicas enfrentadas pelo Oscar em 2020, o Spirit Awards consagrou uma história feminina, dirigida por uma mulher, como Melhor Filme do ano. E reconheceu que atores não precisam ser exclusivamente brancos para merecer troféus – todas as cinco indicadas na categoria de Melhor Atriz eram mulheres “de cor”.

Os poucos quilômetros que separam a praia de Santa Mônica, onde aconteceu a cerimônia do Spirit, e o Dolby Theatre, em Los Angeles, onde o Oscar será entregue em poucas horas, nunca pareceram tão distantes, na forma de festejar o que representa qualidade no cinema atual. Para dar noção do quão distantes, basta apontar que apenas três filmes americanos de ficção, “História de um Casamento”, “O Farol” e “Judy”, fazem intersecção entre os indicados das duas premiações.

Ao optar por superproduções milionárias de estúdios tradicionais, o Oscar virou as costas para a criatividade indie, que a Academia costumava premiar até a fatídica noite de 2017 em que “Moonlight”, drama sobre um negro gay, venceu a estatueta de Melhor Filme e escandalizou os conservadores.

As consequências dessa ruptura são claras. Os principais dramas adultos dos EUA, que geralmente ganhavam estreias nacionais nas semanas que antecediam o Oscar, não tiveram lançamento no Brasil em 2020. Pior: nem sequer têm previsão de chegar ao circuito nacional. Da lista de vencedores do Spirit Awards, o público brasileiro só conhece o que saiu pela Netflix, “Jóias Brutas” e “História de um Casamento”, a dupla que foi indicada ao Oscar, “Judy” e “O Farol”, e a comédia “Fora de Série”, que rendeu à atriz transformada em diretora Olivia Wilde o Spirit de Melhor Estreia indie.

A grande consagração de “A Despedida”, na verdade, repara uma injustiça brutal do Oscar contra o filme de Lulu Wang, inédito no Brasil. Podendo indicar até 10 longas na disputa de Melhor Filme, a Academia nomeou apenas 9. E deixou de fora essa verdadeira obra-prima, que tem 98% de aprovação no Rotten Tomatoes.

Além de Melhor Filme, o reconhecimento de “A Despedida” estendeu-se a Zhao Shuzhen, uma estrela veterana de novelas da China, como Melhor Atriz Coadjuvante pelo papel de Nai Nai – a vovó doente que movimenta a trama. Ela não pôde comparecer à cerimônia, devido ao surto de coronavírus em seu país.

O longa mais premiado, porém, foi “Jóias Brutas”, com três troféus: de Melhor Direção, conquistado pelos irmãos Benny Safdie & Josh Safdie, Melhor Edição e Melhor Ator para Adam Sandler. Sinal de apreciação do desempenho, o anúncio da vitória de Sandler rendeu aplausos demorados, mas, apesar dessa sonora unanimidade, a performance elogiadíssima do ator também acabou subestimada pelo Oscar.

A premiação de intérpretes serviu inclusive como antítese do consenso de comadres, que se estende do SAG Awards ao Oscar, por romper com a previsibilidade no anúncio dos vencedores. Se Rennée Zellewegger, Melhor Atriz por “Judy”, manteve sua condição de barbada, os demais premiados nem sequer disputam o Oscar. Além de Sandler e Shuzhen, também é o caso de Willem Dafoe, Melhor Ator Coadjuvante por “O Farol”.

“O Farol” ainda venceu o prêmio de Melhor Fotografia, para Jarin Blaschke, que é a categoria solitária que disputa no Oscar.

Já o outro candidato americano da Academia consagrado pelo Spirit Awards, “História de um Casamento”, conquistou a estatueta de Roteiro para o cineasta Noah Baumbach e o troféu Robert Altman, que homenageia a melhor combinação de diretor e elenco.

Para completar, na disputa de Melhor Filme Internacional, “O Parasita” confirmou sua condição de principal obra do ano, superando, entre outros, o brasileiro “Uma Vida Invisível” para aumentar a sua já vasta coleção de troféus.

Confira abaixo a lista completa dos premiados.

Melhor Filme

– A Despedida (The Farewell)
A Hidden Life
Clemency
História de Um Casamento
Jóias Brutas

Melhor Direção

– Benny Safdie & Josh Safdie, por Jóias Brutas
Robert Eggers, por O Farol
Alma Har’el, por Honey Boy
Lulius Onah, por Luce
Lorene Scafaria, por As Golpistas

Melhor Filme de Estreia

– Fora de Série, de Olivia Wilde
The Climb, de Michael Angelo Corvino
A Vida de Diane, de Kent Jones
The Last Black Man in San Francisco, de Joe Talbot
Laure de Clermont-Tonnere, de The Mustang
A Gente se Vê Ontem, de Stefon Bristol



Melhor Atriz

– Renée Zellweger, por Judy
Karen Allen, por Colewell
Hong Chau, por Driveways
Elisabeth Moss, por Her Smell
Mary Kay Place, por A Vida de Diane
Alfre Woodard, por Clemency

Melhor Ator

– Adam Sandler, por Jóias Brutas
Chris Galust, por Give Me Liberty
Kelvin Harrison Jr., por Luce
Robert Pattinson, por O Farol
Matthias Schoenaerts, por The Mustang

Melhor Atriz Coadjuvante

– Zhao Shuzhen, por A Despedida
Jennifer Lopez, por As Golpistas
Taylor Russell, por Waves
Lauren “Lolo” Spencer, por Give Me Liberty
Octavia Spencer, por Luce

Melhor Ator Coadjuvante

– Willem Dafoe, por O Farol
Noah Jupe, por Honey Boy
Shia LaBeouf, por Honey Boy
Jonathan Majors, por The Last Black Man in San Francisco
Wendell Pierce, por Burning Cane

Melhor Roteiro

– Noah Baumbach, por História de um Casamento
Jason Begue & Shawn Snyder, por Ao Pó Voltará
Ronald Bronstein, Benny Safdie & Josh Safdie, por Uncut Gems
Chinonye Chukwu, por Clemency
Tarrell Alvin McCraney, por High Flying Bird

Melhor Roteiro de Estreia

– Fredrica Bailey & Stefon Bristol, por A Gente Se Vê Ontem
Hannah Bos & Paul Thureen, por Driveways
Bridget Savage Cole & Danielle Krudy, por Blow the Man Down
Jocelyn Deboer & Dawn Luebbe, por Greener Grass
James Montague & Craig W. Sanger, por The Vast of Night

Melhor Filme Internacional

– Parasita (Coreia do Sul)
A Vida Invisível (Brasil)
Os Miseráveis (França)
Retrato de uma Jovem em Chamas (França)
Retablo (Peru)
The Souvenir (Reino Unido)

Melhor Documentário

– Indústria Americana
Apollo 11
For Sama
Honeyland
Island of the Hungry Ghosts

Melhor Fotografia

– Jarin Blaschke, por O Farol
Todd Banhazi, por As Golpistas
Natasha Braier, por Honey Boy
Chanarun Chotrungroi, por The Third Wife
Pawel Pogorzelski, por Midsommar: O Mal Não Espera a Noite

Melhor Edição

– Ronald Bronstein & Benny Safdie, por Jóias Brutas
Julie Béziau, por The Third Wife
Tyler L. Cook, por Sword of Trust
Louise Ford, por O Farol
Kirill Mikhanovsky, por Give me Liberty

John Cassavetes Award

(para filmes feitos por menos de US$ 500 mil)
– Give Me Liberty
Burning Cane
Colewell
Premature
Loucas Noites com Emily

Melhor Cineasta Revelação

– Ernesto Green, por Premature
Ash Mayfair, por The Third Wife
Joe Talbot, por The Last Black Man in San Francisco

Melhor Produtor Revelação

– Mollye Asher
Krista Parris
Ryan Zacarias

Truer Than Fiction Award

(revelação em documentário)
– Nadia Shihab, por Jaddoland
Khalik Allah, por Black Mother
Davy Rothbart, por 17 Blocks
Erick Stroll & Chase Whiteside, por América

Bonnie Award

(para cineastas mulheres)
– Kelly Reichardt
Marielle Heller
Lulu Wang

Robert Altman Award

(Melhor combo de elenco e direção)
– História de um Casamento


Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna



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