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Filme|1 de setembro de 2019

Novo Brinquedo Assassino é o melhor filme de Chucky desde o original

Chucky é um exemplo de ícone pop do cinema que conquistou esse status sem a ajuda de filmes de qualidade. Ok, o original de 1988 é legal, mas suas duas sequências são fracas e despertam mais curiosidade pelos elementos trash, como “A Noiva de Chucky”, “O Filho de Chucky” e por aí vai. Mas Chucky ressurge com tudo no novo “Brinquedo Assassino”, o primeiro filme decente desde o original.

O reboot de “Brinquedo Assassino” – o roteiro do filme de 1988 não foi refilmado – é uma história inédita, que atualiza o boneco para os dias de hoje, praticamente como um robô com acesso à internet e capaz de se conectar a outros dispositivos.

Uma boa ideia, vai. Mas com um pequeno erro conceitual.

“Brinquedo Assassino” tem uma premissa ridícula e, ao mesmo tempo, de fácil comunicação com o público. Chucky representa o lado sombrio da criança. A materialização de seus pesadelos e pensamentos impuros. Só que o Chucky raiz com voz de Brad Dourif, apesar de ser completamente de plástico, tinha uma origem sobrenatural, típica de filme de terror. Por mais que o reboot também possa ser visto como um exemplar do gênero – e apesar de facas, sangue e mortes (bem violentas por sinal) – , o novo “Brinquedo Assassino” está mais para uma ficção científica de viés apocalíptico, que bebe na fonte das histórias de máquinas que querem dominar a humanidade.

Mas é um bom filme, inesperadamente bem-humorado e divertido. Esteticamente, um longa muito mais requintado que original, o que combina com a roupagem atual de Chucky, um robô como outros de sua linha à venda nas melhores lojas. Só que ele vem zoado de fábrica graças às consequências de mão de obra escrava (legal citar isso) e assédio moral contra um funcionário, que decide se vingar da empresa. Imagine se isso vira moda!

O Chucky defeituoso vai parar na casa de uma mãe solteira, vivida pela magnífica Aubrey Plaza. Seu filho, Andy (Gabriel Bateman), não parece ter mais idade para querer um boneco, mas Chucky tem wi-fi, então OK.

O mais curioso do roteiro (e o que torna o filme tão divertido) é acompanhar todo o aprendizado de Chucky. Como um bebê, ele observa, repete palavras, arrisca pôr em prática os ensinamentos da vida e evolui cenas após cena. Bem mais rápido que um bebê, claro. Por exemplo, Chucky descobre que matar pode ser divertido após ver “O Massacre da Serra Elétrica 2” e Andy rindo do filme com seus amigos. Ou seja, a inteligência artificial de Chucky entende que isso pode deixar Andy feliz. Da mesma forma que eliminar aqueles que o deixam infeliz, ameaçam seu bem-estar (como faz o zelador voyeur) ou, mais tarde, por puro ciúme. Enfim, devemos proteger e buscar o melhor para nossos amigos, não? Mesmo que a vítima seja um gatinho que arranhou o menino num momento tradicional de stress felino. Mas vai explicar isso para o Chucky.

A sacada de testemunhar a “educação” de Chucky pode fazer o espectador sentir pena do brinquedo em algumas cenas e, talvez, compreender suas reações (mesmo que muitas delas sejam completamente discutíveis do ponto de vista ético, digamos assim).

O boneco tem um trabalho de dublagem diabólico de Mark Hamill (o Luke Skywalker), que repete algumas técnicas que ele usou para compor a voz do Coringa nos desenhos do Batman. Mas não podemos negar que funciona também para Chucky. Sua participação ainda rende ótimas menções a Luke e Han Solo.

Roteiro e direção estão a cargo de dois novatos nos cinemas: o roteirista Tyler Burton Smith, que escreve videogames, e o diretor norueguês Lars Klevberg, cujo primeiro longa – “Morte Instantânea”, uma versão ampliada do curta “Polaroid” – ainda não tem previsão de estreia nos Estados Unidos.

Fizeram um bom trabalho e o novo “Brinquedo Assassino” recuperou o respeito da franquia. Mas podem apostar que, depois de resgatar Chucky do lixo (trash), o estúdio vai querer continuação, noiva, filho, etc.

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Otávio Almeida

Otávio Almeida é formado em Publicidade e Propaganda e Jornalismo. Nasceu no Rio de Janeiro, mora em São Paulo, mas sempre torcerá pelo Flamengo. É fã de Star Wars, Steven Spielberg, Stanley Kubrick, Blade Runner, Martin Scorsese, Indiana Jones, Frank Capra, Billy Wilder, John Ford, Clint Eastwood, O Senhor dos Anéis, Woody Allen, George Lucas, Lawrence da Arábia, Quentin Tarantino, Rocco e Seus Irmãos, James Cameron e Chinatown. Além de editor do Hollywoodiano, escreve sobre cinema como colaborador da revista Preview.

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