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Filme|29 de setembro de 2019

Midsommar subverte o gênero com terror florido e ensolarado

Existem signos clássicos do cinema que são sinônimos de medo ou tensão: a lua cheia, a névoa, os gatos perdidos, as sombras difusas. Esqueça esses signos, pois o novo filme de Ari Aster, “Midsommar – O Mal Não Espera a Noite”, escolhe outros caminhos para uma viagem perturbadora, que leva o espectador a uma Suécia ensolarada e cheia de flores. O jovem cineasta americano ganhou renome com o excelente “Hereditário” (2018), que chafurdava no drama de uma família após uma grande tragédia. Esse mesmo clima de terror causado por uma tragédia sem medidas é o mote do prelúdio de seu novo filme, quando a história da protagonista Dani (Florence Pugh) arremessa o espectador em 10 minutos iniciais que poderiam ser por si só um filme de terror.

Passada essa introdução, vemos Dani aceitando a proposta de viajar ao lado do namorado e de seus amigos rumo à Suécia, para a festa de solstício de uma comunidade mezzo hippie mezzo esquisitona. Jack Reynor (de “Sing Street”) dá vida ao namorado Christian, um estudante de antropologia, assim como seus amigos, interpretados por William Jackson Harper (da série “The Good Place”) e Will Poulter (de “Black Mirror: Bandersnatch”). Todos são levados a tal região através de Pelle (Vilhelm Blomgren), o colega sueco deles, que é um dos membros da comunidade local. Dani, nesse cenário, é uma espécie de intrusa na viagem, perdida em seus dramas pessoais e em suas lutas mentais.

Já em solo sueco, o grupo passa por experimentações de bebidas, chás de cogumelos e outros psicotrópicos não-identificados, que de alguma forma mudam determinadas percepções deles. Esse é um dos pontos estranhos em meio a uma profusão de acontecimentos cada vez mais esquisitos e assustadores que irão acontecer, colocando os personagens em uma espiral surreal. Paramos por aqui, para que nenhum spoiler seja dado e você possa vivenciar essas surpresas.

“Midsommar” é, essencialmente, um filme de terror, pelo simples fato de que é aterrorizante: nos deixa sem ar, nervosos, querendo entrar na tela e fazer algo. Por outro lado, ele não tem nada do que os teóricos postulariam como um filme de terror: não há sustos, não há monstros, não há sombras. Temos flores, campos abertos e um sol que nunca se põe. Temos pessoas sorridentes em túnicas brancas, vacas a pastar bucolicamente e casinhas de madeira ao melhor estilo sueco. O que Ari Aster faz é desconstruir o que temos pré-concebido como horror, como assustador; mais que isso, ele nos coloca em um universo onde qualquer coisa pode ser assustadora. O diretor modifica as perspectivas e apresenta um cenário em que o sol constante, os campos floridos e o bucolismo se tornam um temor por si só.

Podem não haver sustos, mas também praticamente não há respiros no filme. Há cenas esparsas em que pessoas riem na sala de cinema, mesmo assim, a sensação natural durante todo o filme é de completo aprisionamento, de tensão irrestrita, de atenção constante, de quem teme o desconhecido. Todo esse clima do filme tem muito a ver com seu ritmo lento e compassado, bem como com a qualidade da trilha sonora. Se em “Hereditário” Aster contava com o genial Colin Stetson, aqui ele trabalha com The Haxan Cloak (que assina como Bobby Krlic) na criação de uma ambiência que é aterrorizante. Há peças musicais que vão desde o erudito até a música ambiente, passando também por ritmos típicos da Suécia.

Há em “Midsommar” alguns signos e determinadas escolhas que começam a delinear uma estética especifica do diretor: cenas de violência extremamente gráficas em momentos muito pontuais do filme, o fogo, os rituais pagões, a experiência de situações traumáticas, a tragédia como propulsor da loucura – todos temas que também já haviam sido suscitados em “Hereditário”. Há um universo de exploração do diretor, que usa o terror e o medo como uma forma de observar as nossas reações perante o mundo. Dani, a protagonista, precisa enfrentar o vida em sociedade após uma experiência traumática e precisa lidar com tudo isso engendrada em um relacionamento amoroso completamente fracassado.

Ari Aster cria assim um filme de expurgo, isto é, de auto-descoberta dos nossos medos, das nossas tensões, dos nossos monstros internos, tudo isso praticamente em “praça pública”, à luz do sol. A grande jornada de Dani foi inspirada em experiências reais do diretor, inclusive pelo término de um de seus namoros. A realidade é reinterpretada de forma quase surrealista por Aster, em um filme que constrói cenas perturbadoras e marcantes, ao lado de outras que podem ser considerados alguns dos takes mais lindos do ano – a cena de Dani vestida de flores a chorar em meio a um cenário caótico é incrivelmente genial!

“Midsommar”, no final das contas, é um filme de gênero que implode o próprio gênero e busca novas lógicas, novas construções e, por isso mesmo, soa estranho, diferente, mas não menos assustador. É daquele tipo de filme que funciona como uma experiência na sala de cinema: é desconfortável, incômodo, mas instigante. Ari Aster cria um grande filme sobre as tensões que permeiam o universo da individualidade versus o coletivo, bem como as tensões causadas por esse embate. “Midsommar” é como um tour de force pela mente humana, que nos causa medo pelo fato de que o terror está muito mais em nós do que em qualquer outro subterfúgio. É filmaço dos bons, mesmo assim fica o aviso: veja por sua conta em risco!

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Renan Guerra

Jornalista de cultura, casa e decoração. Gaúcho residente em São Paulo, que colabora com os sites Scream & Yell, MonkeyBuzz e Homepedia.

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