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Etc,  TV|16 de outubro de 2018

Gil Gomes (1940 – 2018)

O jornalista Gil Gomes, que marcou época na TV, como repórter do “Aqui Agora”, morreu nesta terça-feira (16/10) em São Paulo, aos 78 anos, em decorrência de um câncer. Ele foi encontrado desacordado em sua casa e levado às pressas ao Hospital São Paulo, que confirmou a morte. A instituição não informou qual tipo de câncer que o vitimou.

Gil Gomes sofria de Mal de Parkinson e, nos últimos anos, passava a maior parte do tempo recluso em casa. Em entrevista ao UOL em 2016, ele falou sobre a doença e como se preparava para voltar à televisão pela TV Ultrafarma, programa da rede de farmácias, após mais de 10 anos afastado das câmeras. “Estou com Parkinson. Eu tremo. Parecia impossível voltar”. A participação como apresentador do programa da Ultrafarma foi seu último trabalho.

O paulistano Cândido Gil Gomes Jr. nasceu no bairro da Mooca em 1940. Sofria de gagueira e para superá-la tentava imitar os locutores esportivos que ouvia pelo rádio. O método funcionou e foi convidado a ser locutor nas quermesses da igreja que frequentava. Aos 18 anos, virou locutor esportivo da Rádio Progresso. Foi girando o mercado até chegar à Rádio Marconi e, quando a rádio parou de fazer coberturas esportivas, ele passou a integrar o departamento de jornalismo da emissora, assumindo sua chefia no fim dos anos 1960.

Na rádio, conheceu sua futura esposa, Ana Vitória Vieira Monteiro, com quem teve três filhos, e sua vocação. Gil realizava entrevistas pelo telefone com políticos, quando tomou conhecimento de um caso de agressão sexual que estava ocorrendo no prédio da emissora. Num impulso, resolveu fazer a cobertura do caso ao vivo. Desceu as escadas do edifício com o microfone na mão, fazendo locução e entrevistando os envolvidos e as testemunhas.

A Rádio Marconi obteve uma audiência recorde com essa cobertura e Gil concluiu que um programa policial ao vivo era o caminho a seguir. Mas foi um caminho difícil, o regime militar não tolerava críticas ao trabalho da polícia. Para agravar a situação, a Rádio Marconi já era visada pelas autoridades por adotar, em seu noticiário, uma linha de oposição ao governo.

O jornalista afirma que foi preso mais de 30 vezes por conta disso e a rádio retirada do ar. Mas conseguia sempre ser libertado sem maiores consequências graças à sua amizade com policiais, consequência do trabalho da cobertura de crimes. Ele também era visado por bandidos, sofrendo ameaças de morte e teve até eu gato envenenado.

Mas ficou tão famoso que, em 1978, virou filme. Gil Gomes escreveu e estrelou “O Outro Lado do Crime”, filme dirigido e com roteiro final de Clery Cunha, o mais famoso representante do cinema policial da Boca do Lixo. O filme levou para a tela o estilo de jornalismo policial popularizado por Gomes, que vivia a si mesmo na produção, além de narrar a história.

“O Outro Lado do Crime” virou um clássico do cinema brasileiro, ao demonstrar como o jornalismo policial era ainda mais imersivo com imagens, antecipando uma tendência da TV brasileira.

A parceria entre Gil Gomes e Clery Cunha foi retomada anos depois no programa “Aqui Agora”, do qual Clery foi um dos coordenadores.

O programa de jornalismo policial do SBT foi um fenômeno da década de 1990, que transformou Gil Gomes em repórter de TV e o transformou numa celebridade televisiva. Mais que isso, a adaptação do estilo de Gil Gomes para a telinha deu origem ao método de exibir reportagens com edição truncada e longa duração, que dava uma aparência nervosa e dramaticidade narrativa ao material, revolucionando o modo de se fazer televisão no país.

Com microfone na mão, acompanhado por uma câmera incansável, ele adentrava cenas de crime para colher depoimentos e registrar imagens exclusivas. E até resolveu um assassinato com a confissão de um morador do prédio em que aconteceu a morte, antes da polícia considerá-lo suspeito.

A influência de Gil Gomes é tão grande que a maior parte do horário vespertino da TV brasileira atual, ocupada por programas como “Cidade Alerta” e “Brasil Urgente”, deve sua existência ao jornalista pioneiro do estilo. Em termos de impacto cultural, ele foi um dos jornalistas mais importantes da História do Brasil.

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Marcel Plasse

Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna.

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