Tab Hunter (1931 – 2018)


O ator americano Tab Hunter, galã do cinema dos anos 1950, morreu na noite de domingo (8/7), três dias antes de completar 87 anos, de causa não revelada.

Nascido Arthur Andrew Kelm em 11 de julho de 1931, em Nova York, ele era um jovem atlético que, aos 15 anos, conseguiu se alistar na Guarda Costeira da Califórnia, mentindo sua idade.

Assumindo o nome artístico de Tab Hunter, fez sua estréia no cinema aos 19 anos no clássico noir “O Fugitivo de Santa Marta” (1950), de Joseph Losey, e logo se tornou uma das estrelas mais populares de Hollywood, com uma aparência que rendia suspiros das meninas – seu apelido era literalmente “o cara dos suspiros”.

Louro, de olhos azuis e físico invejável, Hunter era considerado um dos homens mais bonitos que já foram projetados numa tela grande. E os estúdios souberam explorar seus atributos ao estampá-lo descamisado em pôsteres de filmes como “Ilha do Deserto” (1952), “A Volta à Ilha do Tesouro” (1954) e “Montanhas em Fogo” (1956).

Entretanto, sua beleza escondia um segredo, e o sucesso em Hollywood fez com que sua verdadeira inclinação sexual passasse décadas trancada num armário.

Hunter manteve um relacionamento com o ator Anthony Perkins (de “Psicose”) e foi parceiro de mais de 30 anos do produtor Allan Glaser, mas só foi assumir-se como gay em 2005, ao publicar uma autobiografia, “Tab Hunter Confidential: The Making of a Movie Star”, que se tornou um sucesso de vendas nos EUA. O livro foi transformado num documentário pela Netflix em 2015 e servirá de base para um filme sobre seu romance com Perkins, atualmente em produção.

Para entender o tamanho da sua popularidade durante o auge de sua carreira, basta saber que ele desbancou Elvis Presley das paradas de sucesso com sua primeira gravação como cantor. E ele nem era realmente um cantor.

Como galã, estrelou dezenas de filmes, mas sua carreira só foi se tornar séria após “Qual Será Nosso Amanhã” (1955), um clássico do mestre Raoul Walsh, que acompanhava um grupo de jovens marines entre cenas românticas na vida civil e dramáticas durante a guerra no Pacífico. O pico veio três anos depois com o musical “O Parceiro de Satanás” (1958), adaptação do fenômeno da Broadway “Damn Yankees!”, em que viveu um jogador de beisebol que fazia um pacto com o diabo. O filme lhe permitiu dançar como secretamente sempre sonhou, e quem ouvir atentamente a produção poderá verificar seu êxtase ao final de uma coreografia, com uma exaltação não cortada ao coreógrafo (“That was wonderful, Fosse!”), o ainda jovem e já genial Bob Fosse.


Ao longo de sua filmografia, ele também contracenou com alguns dos maiores machões de Hollywood, como Robert Mitchum (“Dominados pelo Terror”, de 1954), John Wayne (“Mares Violentos”, 1955), Clint Eastwood (“Lutando Só Pela Glória”, 1958) e Gary Cooper (“Heróis de Barro”, 1959), sem esquecer de Van Heflin, com quem apareceu em três dos filmes já listados. E formou par romântico com algumas das mulheres mais desejadas do cinema, como Natalie Wood (“Impulsos da Mocidade”, de 1956) e Sophia Loren (“Mulher Daquela Espécie”, 1959). A Warner chegou a tentar vender Wood e Hunter como um casal, fazendo com que participassem de vários encontros forjados para serem fotografados juntos.

Este esforço foi por água abaixo e sua carreira foi colocada em risco depois que a revista Confidential publicou uma reportagem sobre sua prisão em uma festa frequentada por gays logo após sua chegada em Hollywood.

A partir desse escândalo, o ator, que chegou a ter seu próprio programa de TV em 1960, “The Tab Hunter Show”, precisou se contentar com papéis menores ou estrelar filmes B. Ele ainda conseguia papéis pequenos em grandes filmes, como a comédia “O Ente Querido” (1965), de Tony Richardson, e o western “Roy Bean – O Homem da Lei!” (1972), estrelado por Paul Newman e dirigido pelo genial John Huston. Mas a maior parte de seus trabalhos passaram mesmo a ser produções independentes. Apesar disso, algumas viraram cult, casos de “Operação Bikini” (1963) e “Mar Raivoso” (1964), repletos de integrantes da Turma da Praia (filmes de surfe da década de 1960), e o terror “Monstros da Cidade Submarina” (1965), com Vincent Price.

Já veterano, o astro ressurgiu com tudo nos anos 1980. Foi convidado a participar de “Grease 2: Os Tempos da Brilhantina Voltaram” (1982) e emplacou uma curiosa parceria com a transexual Divine em dois filmes marginais e cultuadíssimos: “Polyester” (1981), do diretor John Waters, e “A Louca Corrida do Ouro” (1985), de Paul Bartel.

Seu último trabalho também apresentou um talento que sua época de galã escondia: roteirista. Ele coestrelou e escreveu o filme “Dark Horse” (1992), um melodrama de chorar muito, sobre a amizade entre uma garota rebelde e seu cavalo, que ganhou críticas bastante elogiosas.

A esta altura, porém, ele decidiu se afastar dos holofotes para curtir sua relação com o produtor Allan Glaser, com quem trabalhou nas filmagens de “A Louca Corrida do Ouro”.

Em uma entrevista do ano passado, Hunter fez uma balanço da carreira e comentou: “Se eu tivesse saído do armário durante minha carreira na década de 1950, eu não teria tido uma carreira. Nada mudou muito em Hollywood em 60 anos. Eu realmente não falei sobre minha sexualidade até escrever minha autobiografia, porque minha carreira cinematográfica já tinha acabado há muito tempo.”



Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna



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