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Filme|26 de julho de 2018

Documentário sobre os 100 anos de Bergman projeta defeitos no brilho do gênio

O cineasta sueco Ingmar Bergman (1918-2007) é, indubitavelmente, um dos maiores talentos revelados pela história do cinema, em todos os tempos. Um dos poucos que merece, genuinamente, ser chamado de gênio. Seu trabalho no cinema inclui uma obra tão densa, rica e sofisticada, que não pode ser esquecida e merece ser sempre revista, principalmente na tela grande. Isso tem acontecido por conta do centenário de Bergman neste 2018. Algumas de suas obras-primas têm sido reexibidas em cópias restauradas nos cinemas. É o caso de “Gritos e Sussurros” (1972), “Persona” (1966), “Fanny e Alexander” (1982), “Cenas de um Casamento” (1974), “Face a Face” (1975), entre outras.

O documentário recém-lançado “Bergman – 100 Anos”, de Jane Magnusson, reconhece esse talento todo e enfatiza a espantosa produtividade de Bergman, apontando para o ano de 1957. É incrível constatar que duas das maiores obras-primas do cinema tenham sido realizadas por ele nesse mesmo ano: “O Sétimo Selo” e “Morangos Silvestres’. Ainda em 1957, ele faria o filme “No Limiar da Vida”, montaria duas peças importantíssimas no teatro sueco, “Peer Gynt”, de Ibsen, e “Fausto”, de Goethe. Faria, ainda, duas outras peças teatrais e um telefilme. Isso aos 38 anos, já com seis filhos de três mulheres diferentes. Nesse ano, e nos seguintes, essa produtividade se manteve, em meio a dores estomacais que faziam com que ele se alimentasse basicamente de bolacha Maria e iogurte, tendo tido episódios de internação hospitalar por conta disso.

O filme de Jane Magnusson está interessado em compreender como esse homem lidou com essas coisas simultaneamente e de que modo vida e obra se imbricam. Com isso, celebra a genialidade do trabalho que Bergman realizou, mas se debruça no lado negro da força, ou seja, nos problemas e defeitos pessoais que marcaram o diretor.

Aborda, por exemplo, seu gênio difícil, sua competitividade com lances de crueldade, sua infidelidade em relação às mulheres e seu descaso em relação aos filhos. E sua condição de workaholic, indispensável para explicar tal produtividade. Lembra que Bergman chegou a ser um admirador de Hitler na juventude, e outras coisas mais. Uma homenagem nada chapa branca, portanto.

Confesso que não me agradou muito essa “humanização” do artista, que se comporta como desconstrução de sua figura mítica. Ele próprio tratava de questões como essas em seus escritos, reconhecendo defeitos, admitindo erros e falhas de caráter. Mas, segundo o documentário “Bergman – 100 Anos”, ele mentia frequentemente. Muitas histórias que ele conta que viveu na infância, segundo seu irmão mais velho, não foram vividas por ele, mas pelo irmão. Enfim, não se poderia confiar nem no que ele escreveu a respeito de si mesmo. Pode ser, mas que importa isso agora?

Tudo que ele viveu ou observou serviu de base para suas histórias, seus questionamentos, e habitou alguns dos personagens mais complexos de sua filmografia, com destaque para as mulheres. Um grande criador se vale de tudo isso, mescla e retrabalha lembranças, modifica, amplia, inventa. Além do que, a memória é seletiva, para todo mundo. Quantas vezes a gente acredita que viu e viveu coisas que, de fato, não aconteceram. Ou não desse modo, pelo menos. A obra de Ingmar Bergman é tão grande que tudo isso parece pouco relevante e não explica muita coisa, não.

Temer a morte, ou as dores e sofrimentos que podem vir antes dela, todo mundo teme. Mas quantos, em função disso, produziram obras de arte significativas para nos fazer refletir sobre o tema, como Bergman fez em muitos de seus filmes?

Bergman viveu 89 anos e deixou uma marca inconfundível na produção artística mundial. Seus filmes estão aí para testemunhar. Os livros que escreveu, também. Das grandes montagens teatrais restaram fotos e depoimentos. Celebrar os 100 anos do seu nascimento deve ser motivo de orgulho para toda a humanidade.

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Antonio Carlos Egypto

Antonio Carlos Egypto é psicólogo educacional e clínico, sociólogo e crítico de cinema. Membro fundador do GTPOS - Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual. Autor de "Sexualidade e Transgressão no Cinema de Pedro Almodóvar","No Meu Corpo Mando Eu","Sexo, Prazeres e Riscos", "Drogas e Prevenção: a Cena e a Reflexão" e "Orientação Sexual na Escola: um Projeto Apaixonante", entre outros. Cinéfilo desde a adolescência, que já vai longe, curte tanto os clássicos quanto o cinema contemporâneo de todo o mundo. Participa da Confraria Lumière, é associado da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e edita o blog Cinema com Recheio

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