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Filme|23 de março de 2018

Patrulha ideológica exagera e critica “língua dos cachorros” no novo filme de Wes Anderson

Toda a mudança de paradigma tende a ser traumática. E se Hollywood ainda está atordoada com as críticas contra o embranquecimento que sempre fez de personagens africanos, asiáticos e árabes, a patrulha ideológica também é capaz de se empolgar demais e cair no ridículo. Lançamento deste fim de semana nos Estados Unidos, “Ilha de Cachorros”, o novo filme de Wes Anderson, está sendo criticado por causa da língua falada pelos cachorros na trama. É sério.

O crítico de cinema Justin Chang, do Los Angeles Times, que tem ascendência oriental, foi quem levantou a bola e alguns ativistas que defendem maior representação asiática em Hollywood entraram no jogo reclamando de pênalti no meio do campo.

“Ilha de Cachorros” é uma animação em stop-motion, em que Anderson presta homenagem à cultura japonesa, em especial aos filmes de Akira Kurosawa. Curiosamente, inclui em seu elenco Bill Murray e Scarlett Johansson, que estrelaram “Encontros e Desencontros” (2003), passado no Japão e bastante elogiado – embora alguns já tenham visto problemas no olhar americano do filme sobre clichês japoneses.

O trabalho de Anderson foi premiado no Festival de Berlim 2018, onde ninguém criou caso. Mas virou polêmica ao chegar aos cinemas americanos, a ponto de gerar acusações de “apropriação cultural” contra o diretor.

Algumas opções estéticas do filme renderam controvérsia. O questionamento mais politizado é: Pode um cineasta americano branco fazer um “filme japonês”?

Ninguém questionou o mesmo cineasta americano quando ele fez seu “filme europeu”, “O Grande Hotel Budapeste” (2015), premiado com quatro Oscars. Não houve polêmica. Nem rende questionamento o costume de cineastas japoneses, chineses, russos, brasileiros irem a Hollywood dirigir filmes americanos. Não acham controverso.

Outro ponto: o fato de “Ilha de Cachorros” se passar no Japão, incluir personagens japoneses e referenciar Kurosawa torna o filme de Anderson uma “apropriação cultural” maior que o “Godzilla” americano ou o filme dos kaiju (que nem traduz a referência) “Círculo de Fogo: A Revolta”, também lançado neste fim de semana? “Transformers” não é apropriação cultural? “Power Rangers” é 100% americano? E os desenhos animados inspirados em animes, como “Os Jovens Titãs em Ação”?

Deve-se fingir que não se vive num mundo globalizado, com internet, e voltar à época do Muro de Berlim? Ir mais adiante, odiar a miscigenação e defender culturas puras e o extremismo nacionalista, que originaram o nazismo? Afinal, o que já produziu de original a cultura branca americana? Nem a música country, que é inspirada pelo folk irlandês, sem falar do jazz e do rock, de origens negras.

Mas o questionamento troca a lógica pelo surrealismo ao adentrar o debate sobre o idioma falado pelos cachorros.

Os ativistas não podem reclamar que Anderson contratou americanos para dublar personagens japoneses, já que 90% dos personagens humanos foram dublados por atores do Japão – e Yoko Ono! Entretanto, os protagonistas do filme são cachorros. E eles foram dublados por americanos. Os humanos falam japonês e os cachorros inglês. E isto virou um problema, porque o destaque dado aos cachorros representaria como os ocidentais se impõem sobre outras culturas. Por conta disso, os bichos deveriam falar… bom, qual é a língua correta para se dublar um cachorro? Auaustraliano, auaustríaco?

O fato de Pantera Negra ter feito sucesso como um filme de herói negro dirigido por um cineasta negro e Mulher-Maravilha como um filme de heroína dirigido por uma cineasta mulher tem um lado obscuro, que é a sugestão de que o cinema deveria criar guetos. Nesta lógica politicamente correta, um filme como “Ilha de Cachorros” deveria ser dirigido e estrelado apenas por japoneses – azar de Anderson, que concebeu tudo, por ter nascido no país errado.

Deve-se proibir, então, Martin Scorsese de fazer “Silêncio”? “Apocalypse Now” deve ser queimado à Fahrenheit 451, por colocar um coronel americano como líder de um exército asiático? Angelina Jolie seria a pior de todos por só filmar em outras línguas e refletir culturas estrangeiras? No extremo, todos os cineastas que filmaram a vida de Jesus são culpados de apropriação cultural, por não terem nascido em Israel?

Quem patrulha não percebe, mas incentiva o oposto do que defende. Aquilo que tem aparência de avanço no microscópio, permitindo maior expressão às minorias, também pode se revelar um enorme atraso no telescópio. Ou seja, o “avanço” politicamente correto embute a tendência, em uma análise reversa, de segregar minorias no seu mundinho – forçar cineastas negros a só filmar filmes de temática negra, por exemplo. Isto é reducionista, impede diferentes pontos de vistas, limita conversações e não deveria ser um ideal almejado.

Há um limite sensato, que a prática tende a estabelecer. Marlon Brando de olhinhos puxados é ofensivo. Cachorros que falam inglês, por outro lado, está errado porque… pastores alemães falam alemão? Não.

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Marcel Plasse

Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna.

@Pipoca Moderna 2025
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