Crítica: O Futuro Perfeito demonstra como a linguagem pode ampliar fronteiras

 

“O Futuro Perfeito” (2016), da diretora alemã radicada na Argentina Nele Wohlatz é tão estranho quanto atraente. Isso porque o tom, por vezes bressoniano de interpretação (e um elenco formado por não-atores), acaba se tornando acessível até para um público menos familiarizado com um tipo de cinema mais hermético, e até lembra, em alguns momentos, a trajetória da Macabeia de “A Hora da Estrela” (1986).

Mas o caso de Xiaobin (Xiaobin Zhang), que adota o nome Beatriz na Argentina, é ainda mais complicado, já que ela chega àquela terra estranha sem saber nenhuma palavra do espanhol. Seus pais não se interessam em se integrar àquela sociedade, pois planejam ganhar dinheiro e voltar para a China e por isso só falam em mandarim, na empresa de lavanderia que cuidam. Mas a menina de 17 anos não: ela quer se adaptar àquele mundo novo. E para isso procura empregos simples e também cursos para aprender o espanhol. Até porque, no primeiro trabalho, ela não entendia nada o que os clientes falavam e isso lhe custou o emprego.

É possível também se identificar com a personagem se, em algum momento da sua vida, você também já se sentiu excluído ou um peixe fora d´água. Daí, é possível entender um pouco a atração que Beatriz sente por um rapaz indiano, que se demonstra interessado nela. Os dois estão unidos pela exclusão social. A cena do cinema, quando ele pede para casar com ela e ambos dizem que não estão entendendo o filme, é bem representativa dessa situação incômoda.

Interessante notar que Beatriz vai se tornando mais inteligente e mais esperta à medida que suas aulas de espanhol progridem. Se antes tudo era muito simples nas aulas, como dizer o nome de objetos ou das partes do corpo humano ou de eventos relacionadas ao passado ou ao presente dela, a coisa se torna mais complexa quando a professora introduz o estudo do condicional, com o verbo no que a gente chama em português de futuro do pretérito.

Assim, o futuro passa a ser visualizado em uma série de possibilidades. E se o rapaz indiano for casado, o você faria? E se seus pais descobrirem e não gostarem do rapaz, o que aconteceria? E se você viajar para a Índia, como seria? Assim, as imagens surgem na tela quase como verdades, embora saibamos que estamos diante de jogos de imagem a partir dos pensamentos de Beatriz.

Interessante como o drama mostra o quanto a linguagem é capaz de modificar o futuro das pessoas, após o cinema mostrar a questão com uma obra bem mais ambiciosa, no registro de ficção científica – “A Chegada” (2016), de Denis Villeneuve. Bem mais modesto, principalmente em seu orçamento, minúsculo, “O Futuro Perfeito” ganha uma dimensão enorme no que tange à reflexão sobre as influências da linguagem na vida e na mente de uma pessoa, no quanto isso pode aumentar suas fronteiras. Claro que também não é só isso, pois há toda uma angústia que acompanha a projeção da história pela ponto de vista de Beatriz. Mas “O Futuro Perfeito” realmente abre mentes e conquista corações.

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Ailton Monteiro é professor e vai ao cinema com frequência desde os 16 anos de idade. Mantém o blog Diário de um Cinéfilo, premiado com o Quepe do Comodoro de melhor blog de cinema em 2004.

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