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Filme|27 de abril de 2017

Paixão Obsessiva é tão ruim que até diverte

Impressionante como há obras que conseguem ser deliberadamente ruins. “Paixão Obsessiva”, estreia na direção de longas da produtora Denise Di Novi, parece ter sido feito a partir da seguinte ideia: “ei, por que não fazemos um filme totalmente ruim, desses bem vagabundos mesmo, para lançar no mercado internacional? E aí a gente convida um par de atrizes mais ou menos do primeiro time de Hollywood, que dá tudo certo.” Lembrando que Denise tem no currículo outro notável filme ruim, ainda que como produtora, “Mulher-Gato” (2004), que também contava com duas atrizes respeitadas em papéis constrangedores.

O grande trunfo de “Paixão Obsessiva” é Katherine Heigl (“Como Agarrar Meu Ex-Namorado”) no papel de Tessa, uma “Barbie psicopata” (termo usado no próprio filme por uma das personagens) que faz de tudo para destruir o casamento do ex-marido (o apagado e inexpressivo Geoff Stults, da série “The Odd Couple”) com a sua nova noiva, Julia, vivida por Rosario Dawson (série “Punho de Ferro”). No começo do filme, Tessa ainda não sabe que o relacionamento do ex está prestes a chegar a um casamento e logo que descobre passa a fazer coisas inimagináveis, como trazer de volta o grande pesadelo da vida de Julia, um homem que a espancou e que está sob uma ordem judicial para se manter distante.

A semelhança com alguns thrillers da década de 1990 é evidente, tanto que o aspecto de reciclagem marca a trama até o fim, horrível como tem que ser. Afinal, se é para ser ruim, que seja o pior possível.

Mas há uma grande desvantagem deste longa na comparação com os thrillers de psicopatas femininas que ganharam força há 20 anos. Os originais tinham apelo erótico, o que hoje é minimizado por um mercado mais conservador e politicamente correto, ainda que de vez em quanto surja um “O Garoto da Casa ao Lado”, para explorar o sex appeal de sua protagonista.

“Paixão Obsessiva” não tem coragem e nem vontade de fazer o mesmo com Rosario e Katherine, ainda que insinue uma cena sensual muito sutil em determinado momento: a cena do banheiro do casal de noivos entrecortada com uma conversa apimentada via Messenger. Não há, claramente, a intenção de fazer uma cena erótica dali. Aquele momento é para ser psicologicamente perturbador para Julia e por isso a diretora usa uma montagem picotada que tenta trazer à tona o estado de espírito fora de controle da personagem. Na verdade, o filme até poderia ser acusado de ser ainda mais vagabundo se usasse esse momento para explorar a nudez ou a sensualidade das atrizes.

No fim das contas, é possível se divertir com “Paixão Obsessiva”. Não é o tipo chato de filme ruim, a ponto de funcionar como uma comédia involuntária. Nos Estados Unidos, as poucas críticas positivas a esse trabalho se referiram a ele como um “good trash”. Ou seja, é filme com roteiro estúpido e manjado, intriga de telenovela barata, mas que ao menos sabe investir na briga de puxar cabelos entre as duas protagonistas, com a vantagem ainda de trazer a sempre boazinha Katherine Heigl para o lado negro, o que quase redime o resultado final e cria uma curiosidade que vale a espiada.

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Ailton Monteiro

Ailton Monteiro é professor e vai ao cinema com frequência desde os 16 anos de idade. Mantém o blog Diário de um Cinéfilo, premiado com o Quepe do Comodoro de melhor blog de cinema em 2004.

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