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Filme|29 de novembro de 2016

A Chegada desafia o público com sci-fi autorial que foge do óbvio

Muito bom poder acompanhar o processo de maturidade criativa de um cineasta que conquista seu espaço sem fazer concessões, como é o caso do canadense Denis Villeneuve, que tem mostrado autorialidade através de filmes bem distintos entre si. Com relativamente poucos, mas marcantes títulos no currículo, ele já pode se dar ao luxo de fazer autorreferências. Quem viu “O Homem Duplicado” (2013) e “Sicario – Terra de Ninguém” (2015), para lembrar de obras mais recentes, pode perceber intercessões claras com seu novo filme, “A Chegada”.

É possível encontrar referências ainda a outros filmes de ficção científica, como os clássicos “O Dia em que a Terra Parou” (1951), de Robert Wise, “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (1968), de Stanley Kubrick “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” (1977), de Steven Spielberg, e o mais recente “Contato” (1997), de Robert Zemeckis. Mas Villeneuve prefere seguir outro caminho, mais arriscado. O trailer, embora entregue alguma coisa, não é suficiente para dar a dimensão das surpresas e do grau de encantamento que “A Chegada” proporciona.

Assim como em “Sicario”, temos uma protagonista feminina em uma situação e num ambiente perigosos. Agora, é uma conceituada linguista, a Dra. Louise Banks (Amy Adams, de “Batman vs Superman”, como sempre adorável), recrutada por militares americanos para decifrar a língua de enigmáticos alienígenas que acabaram de aparecer em 12 diferentes lugares do planeta.

O público é rapidamente informado, em pouquíssimos mas eficientes quadros, do passado doloroso da personagem, envolvendo uma filha, que ela perdeu para uma doença rara, estabelecendo sua condição de mulher solitária e traumatizada. E esse passado, revivido em breves flashbacks, será bastante explorado ao longo do filme, durante o processo de comunicação com os extraterrestres, que são mostrados de forma um tanto assustadora. Aliás, podemos dizer que Villeneuve é um dos cineastas em atividade que melhor sabe explorar o medo através de maneiras distintas, seja em situações mais realistas, seja em uma narrativa do gênero fantástico.

Medo é o que acontece quando o público é apresentado ao interior daquilo que pode ser chamado de nave, um objeto gigante e vertical, que paira sobre o solo. Por isso, comparações com o monolito negro de “2001” tendem a surgir. Até porque ambos os filmes optam pela utilização do gênero para transcendê-lo e falar de algo maior, sem que, com isso, o entretenimento seja prejudicado.

Embora Amy Adams seja o foco da ação, também tem importância o personagem de Jeremy Renner (“Os Vingadores”), um matemático que auxilia a protagonista a decifrar a linguagem complexa daqueles alienígenas. Eles trabalham incansavelmente para responder o que querem os visitantes que pairam sobre a Terra.

O roteiro de Eric Heisserer (“Quando as Luzes se Apagam”), baseado num conto premiado de Ted Chiang chamado “Story of Your Life”, é bastante detalhista, e isso ajuda a gerar um grau de interesse para o espectador, que até torce para que a conclusão faça jus à introdução e ao desenvolvimento brilhantes.

Felizmente, ao optar se distanciar do óbvio e dar um nó na cabeça do espectador, Villeneuve aumenta ainda mais o grau de encantamento inicial, através de uma trama em que futuro e passado não devem ser vistos como algo linear, mas talvez como em um daqueles círculos complexos fornecidos pelos extra-terrestres durante as tentativas de comunicação. Assim, não só a noção de tempo passa a ser questionada, mas também a noção do que poderíamos considerar como sendo mais importante, seja do ponto de vista pessoal ou global. Além do mais, é sempre bom sair de uma sessão de cinema arrebatado, sabendo, ou pelo menos achando, que acabou de ver um dos melhores filmes dos últimos anos.

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Ailton Monteiro

Ailton Monteiro é professor e vai ao cinema com frequência desde os 16 anos de idade. Mantém o blog Diário de um Cinéfilo, premiado com o Quepe do Comodoro de melhor blog de cinema em 2004.

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