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Vidas Partidas
Filme|17 de setembro de 2016

Vidas Partidas destaca versatilidade de Domingos Montagner

Domingos Montagner foi certamente um talento que se revelou tardio para a televisão e para o cinema. Mas que bom que em 2016 tivemos a sorte de tê-lo em três produções para o cinema: “De Onde Eu Te Vejo”, de Luiz Villaça, “Vidas Partidas”, de Marcos Schechtman, e “Um Namorado para Minha Mulher”, de Julia Rezende.

O que se percebe nos personagens dos três filmes é uma versatilidade rara em atores em geral, que costumam se apegar a tipos e personas que lhe caem bem. “Vidas Partidas”, ainda que não seja tão bom e delicado quanto o filme de Villaça (leia a crítica aqui), é um trabalho que explora bastante a potência do ator, morto na quinta-feira (15/9), nas águas do Rio São Francisco, durante um intervalo das gravações da novela “Velho Chico”.

Logo que o filme começa, há uma cena de intimidade dos protagonistas: Raul (Montagner) e sua esposa Graça (Laura Schneider). Na cena, o casal vive um momento de sexo tórrido, enquanto os filhos estão fora de casa. Mas há algo no modo como Raul trata Graça que incomoda um pouco: sua selvageria passa quase a impressão de que estamos presenciando uma espécie de estupro consentido.

A impressão se justifica à medida que vamos conhecendo o caráter do personagem, e o quanto ele evolui ao ponto de parecer um psicopata. Ou de ser um psicopata, já que o que ele faz com a mulher ao longo da narrativa é inacreditável, de tão terrível. “Vidas Partidas” é um filme que tem a intenção de retratar a violência doméstica. Não é baseado em uma história real específica, mas, como informa no final, é baseado em diversas histórias reais de abusos domésticos que as mulheres sofrem diariamente.

O que pode contar pontos, tanto negativos quanto positivos, para o filme de Schechtman, um diretor vindo da televisão, são justamente as inacreditáveis ações de Raul, que transformam o filme num suspense com tintas bem carregadas. Laura Schneider também está muito bem como a mulher que sofre com a violência do marido e se vê forçada a buscar forças de onde parecia não ter para enfrentá-lo.

Em alguns momentos, “Vidas Partidas” até parece um suspense vulgar hollywoodiano, mas em outros parece uma obra cheia de vigor e brilho próprio, muito por causa do desempenho do casal de atores e pelo incômodo que provoca, à medida que as ações vão se intensificando. Dá para sair do cinema tenso.

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Ailton Monteiro

Ailton Monteiro é professor e vai ao cinema com frequência desde os 16 anos de idade. Mantém o blog Diário de um Cinéfilo, premiado com o Quepe do Comodoro de melhor blog de cinema em 2004.

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