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Filme|26 de agosto de 2016

Bruno Barreto entra na comissão que indicará candidato brasileiro ao Oscar 2017

Diretor de um dos últimos longas nacionais a emplacar uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o cineasta Bruno Barreto entrou na comissão avaliadora do Ministério da Cultura, que determinará o candidato brasileiro a tentar uma vaga na categoria em 2017. A informação foi confirmada pelo Secretário do Audiovisual Alfredo Bertini, após publicação no jornal O Globo.

Barreto concorreu ao Oscar com “O Que É Isso, Companheiro?”, em 1997, e assumirá o lugar originalmente oferecido ao produtor Guilherme Fiúza Zenha, que alegou motivos pessoais para não continuar no júri. Zenha se recusou a dar detalhes, mas a atriz Ingra Lyberato, que também pediu para sair, publicou um longo desabafo no Facebook, mencionando pressões extremas da “classe” para abandonar a comissão.

O objetivo seria, segundo consta num texto publicado no Facebook pelo cineasta Roberto Berliner, tentar forçar a “retirada” de um membro da comissão, que desagrada a “classe” por sua postura mais crítica. Lyberato chegou a dar nome à vítima, em seu desabafo. “Estamos sendo extremamente pressionado por todas as notícias a ponto de ter gente pedindo para sair. Qual é o objetivo? Forçar o Petrucelli a sair? Forçar todos a sair?”, ela escreveu.

O alvo é o crítico Marcos Petrucelli. Desde que seu nome foi incluído na comissão, o cineasta Kleber Mendonça Filho abriu uma frente de ataque à sua participação.

Petrucelli não poderia participar da comissão, na visão do diretor, por ter criticado a photo-op da equipe de “Aquarius” em Cannes, quando Filho e seus atores ergueram cartazes para denunciar, em inglês e francês, que “o Brasil não é mais uma democracia” após sofrer um “golpe de estado”. Ele não seria isento, portanto, para escolher o filme que representará o país no Oscar.

Este discurso foi encampado por três outros diretores, que anunciaram a retirada de seus filmes da apreciação da comissão: “Boi Neon”, de Gabriel Mascaro, “Mãe Só Há Uma”, de Anna Muylaert, e “Para Minha Amada Morta”, de Aly Muritiba.

Em comunicado sucinto, postado no Facebook, Muritiba resumiu a situação, ao afirmar, em nome da equipe de “Para Minha Amada Morta”, que “não reconhecemos a legitimidade da comissão constituída pela SaV (Secretaria do Audiovisual) para escolher o representante brasileiro na disputa do Oscar 2017”.

Pela lógica de panelinha, portanto, qualquer crítico de cinema que tiver se manifestado, ainda mais por escrito, como é da profissão, sobre qualquer filme nacional, a favor ou contra, estaria automaticamente impedido de participar da comissão, eliminando assim uma classe inteira do processo. Seria a vingança final dos diretores contra os críticos? A Abraccine, que surgiu como uma espécie de sindicato dos críticos de cinema, não fez, até o momento, nenhum comentário a respeito da situação.

Claro que, com Bruno Barreto, fica difícil continuar falando em falta de legitimidade. Ainda mais quando se lembra do filme de seu irmão Fábio, “Lula, o Filho do Brasil”, escolhido para representar o país no Oscar em 2010, durante o mandato de Lula, em votação unânime da comissão do Ministério da Cultura do governo do próprio Lula. Faz só seis anos, mas nossos cineastas democratas, que se mostram tão engajados contra a falta de transparência, legitimidade e ética, podem ter se esquecido, já que não se manifestaram na ocasião.

Bruno Barreto, por sinal, foi quem entregou, na noite de sexta (26/8), o prêmio pela carreira para Sonia Braga, durante o Festival de Gramado. Os dois trabalharam juntos em “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976) e se reencontraram durante a projeção de “Aquarius” no festival. “Ela é a minha musa eterna”, disse o cineasta, abraçando a atriz. Será que nossos cineastas paladinos vão questionar a legitimidade de seu voto por essa manifestação pública da afeto para a estrela de “Aquarius”, na véspera da votação da comissão? Imagine só.

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Marcel Plasse

Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna.

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