Para Minha Amada Morta: Aly Muritiba conta como se faz suspense com um filme autoral

“Para minha Amada Morta” estreou mundialmente no prestigiado Festival de San Sebastián (Espanha), foi premiado no Festival de Montreal (Canadá) e recebeu seis troféus no Festival de Brasília (incluindo Melhor Filme) antes de iniciar seu desafio comercial, com o lançamento nos cinemas nesta quinta-feira (31/3).

O filme gira em torno de um homem que, após o desaparecimento da mulher, descobre um outro lado dela através de uma fita de VHS, e embarca numa jornada de aparente vingança.

Nesta conversa exclusiva com o Pipoca Moderna, o diretor e roteirista Aly Muritiba analisou os temas centrais (a desconstrução do amor romântico idealizado, entre eles), os recursos estilísticos para contar a sua história e considerou “sorte” encontrar uma distribuidora para lançar no Brasil sua produção autoral. De resto, Muritiba já trabalha em novos projetos – uma adaptação literária da obra de Daniel Galera, “Barba Ensopada de Sangue”, outra do livro “Jesus Kid”, de Lourenço Muratelli, e “Ferrugem”, no qual é responsável por argumento, roteiro e direção.

O filme traz uma espécie de duelo entre dois homens, onde a “amada morta” do título é uma espécie de peso “etéreo” que sufoca a vida dos protagonistas… Como é que surgiu a ideia para a história?

Eu queria fazer um filme sobre projeção e idealização, sobre a criação da imagem que fazemos de alguém e que nos faz amar esta pessoa. No fim das contas, todo o argumento do filme parte deste ponto: quem é a pessoa que amamos? É possível conhecê-la ou apenas fazer uma ideia do que ela seja a partir de fragmentos de informações que, juntas, formam uma projeção, uma imagem que aprendemos a amar? A partir daí, criei esta trama sobre um sujeito que ama e idealiza profundamente uma mulher, cuja imagem é confrontada por um registro numa fita VHS.

Em termos de abordagem, “Para minha Amada Morta” apresenta uma proposta de cinema de autor em função do ritmo, de alguns recursos típicos (fora de campo, fundo desfocado) e de intensidade, ao situar-se mais no diálogos que na ação. Ao mesmo tempo, roça o cinema de gênero com uma história de paixão, traição, investigação e vingança. Como pensou/geriu a combinação destes elementos?

Pensando sob o ponto de vista do roteiro, “Para minha Amada Morta” parte de uma premissa bastante simples: o que uma pessoa faz ao descobrir algo que, de certo modo, contradiz tudo o que ele pensava sobre o maior amor de sua vida? A resposta a esta pergunta, óbvio, depende da natureza da descoberta. O que proponho, então, é fazer com que o espectador sinta primeiro o amor devotado por uma pessoa à outra. Então construo este outro a quem o amor é devotado baseando-me em reminiscências (a ausência da pessoa amada, que no meu filme está morta, é presentificada por objetos, roupas, fotos e vídeos) para assim fazer com que o espectador, sem que ele se dê conta, experimente a idealização da pessoa amada. E por ultimo proponho que o espectador descubra junto o personagem aquilo que é capaz de desconstruir a idealização e, portanto, o amor.

Trocando em miúdos, eu faço com que o espectador esteja todo o tempo com o protagonista do filme, faço com que o espectador saiba tanto quanto o protagonista, sem, no entanto, saber qual será o próximo passo do protagonista. E esta manobra é muito característica do suspense: nunca saber qual o próximo passo, nunca conseguirmos nos antecipar aos eventos. Por outro lado, o meu protagonista, de posse da informação que deteriora a imagem que ele fazia de sua amada, parte numa espécie de investigação e reconstrução de fatos do passado, ações pertinentes ao thriller.

No que diz respeito à direção, aí a questão foi mais no sentido de encontrar a melhor maneira de colocar no espaço este sujeito tão deslocado e perdido, que é o meu protagonista, e, ao mesmo tempo, trabalhar com a duração (ritmo da montagem) de modo a maximizar a sensação de suspensão.

Enfim, estes elementos do cinema do gênero já estavam no roteiro, mas, para mim, fazer cinema de gênero apenas copiando os códigos não faz o menor sentido, não é excitante. Então, fui buscar no espectador que sou o tipo e filme que gostaria de ver, e me dei conta de que seria um filme em que eu fosse convidado a participar todo o tempo, criando, descobrindo, escrevinhando mesmo, sabe. E, para mim, isto passa pela longa duração dos planos, pelo quadro mais aberto permitindo a varredura, pelos silêncios e pelo extra-quadro. Daí o desafio tornou-se conjugar este roteiro tão marcadamente de gênero com um desejo de direção distinto.

O filme também sugere questões complexas sobre o adultério, particularmente na perspetiva masculina. Um dos homens lida com a traição e com uma mulher que pode ser tanto vista como “liberal” quanto como “promíscua”; o outro tem uma mulher casta e submissa, que aceita o adultério da parte dele, mas que nunca receberia a mesma compreensão em contrapartida…

Mas, no fim das contas, é um filme de amor. São homens que amaram de maneira muito distinta a mesma mulher, que foi capaz de amá-los profundamente ao mesmo tempo. O mesmo vale para a personagem da Raquel (Mayana Neiva), a esposa evangélica, onde o amor se realiza como perdão.

Sabe, eu não costumo fazer julgamentos morais de meus personagens e acho que este é um péssimo caminho para que um roteirista enverede, mas se eu pudesse julgá-los agora, a posteriori, eu diria que a amada que dá nome ao filme é a personagem mais completa da trama, no sentido de que nasceu, amou e morreu. O ciclo dela foi completo, no sentido de termo, mas também de completude. Aos que ficaram é que sobrou o vazio, a falta, a saudade. Ou seja, ela era um baita ser humano, daqueles que amamos com todos os nossos músculos.

Os “duelos” entre os dois atores principais rendem sequências memoráveis. Como foi a escolha deles, particularmente do Lourinelson Vladimir?

O Lourinelson fez um filme pouco conhecido chamado “Curitiba Zero Grau” e foi ali que eu conheci seu trabalho. Ele é um baita ator, daqueles que dominam o palco e a plateia com poucos. Ao vê-lo atuar no cinema e depois nos palcos percebi que ele tinha a força de que eu precisava. No caso do Fernando Alves Pinto, bem, eu escrevi o papel para ele fazer. Não por acaso, o personagem carrega o nome do ator.

O bacana é que o Nando tem uma ternura muito bela no olhar, no sorriso, que é o contrário do que tem o Louri, um sujeito mais bruto. São seres humanos muito sensíveis, mas de naturezas muito distintas. Um é ar, o outro é terra. E era exatamente desta combinação que eu precisava para construir estes embates.

Os mercados mundiais de cinema ressentem-se de um monopólio na distribuição por poucas empresas que impõem um determinado tipo de cinema. Como é que vê a veiculação do filme no contexto da distribuição no Brasil?

Distribuir filmes pequenos, autorais, é uma tarefa inglória, afinal o parque exibidor é formado por empresários, que até podem gostar de cinema, mas sua prioridade é o lucro, e, convenhamos, nossos filmes não dão lucro. Então encontrar pelo caminho uma empresa distribuidora como a Vitrine Filmes, que topa botar no mercado filmes como o meu, é como estar perdido no exterior com seu cartão de crédito bloqueado e encontrar um amigo.

Como foi a passagem pelo Festival de San Sebastián?

San Sebastian foi super importante para maturação do projeto. O “Para Minha Amada Morta” esteve lá em 2013, quando ainda era apenas um roteiro, no Foro de Coproducción, uma ação de mercado de cinema onde você discute seu projeto com profissionais da indústria, e voltou lá em 2014 para o Cine En Construccion, que é uma sessão onde se exibem filmes ainda em processo de finalização e se recebe feedbacks. Ter estado lá estas duas feitas foi ótimo para mim e para que o filme se tornasse o que se tornou, um filme maduro. Quando em 2015 eu fui, enfim, exibir o meu filme no Festival de San Sebastian, eu estava bem seguro do filme que levava, e a indústria já sabia o que esperar, o que é bom, pois assim as surpresas ficam reservadas ao público, que aliás, recebeu “Para Minha Amada Morta” de maneira muito calorosa.

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