Crítica: Ave, César é homenagem dos irmãos Coen à velha Hollywood

Os irmãos Coen sempre tiveram um interesse muito grande pela História do Cinema, em especial pelos gêneros clássicos de Hollywood. Eles começaram a carreira fazendo um film noir sujo (“Gosto de Sangue”), seguiram com filmes de gângster (“Ajuste Final”), policial (“Fargo”), musical (“E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”), western (“Bravura Indômita”), etc. Inclusive, já tinham tratado dos bastidores da indústria cinematográfica dos anos 1940, no delirante “Barton Fink” (1991).

“Ave, César!” é praticamente uma síntese dessa obsessão, uma obra em esquetes que procura homenagear vários gêneros, com um registro cômico quase sempre satisfatório, sobre a Hollywood dos anos 1950, considerada a última década da Era de Ouro dos estúdios.

O fio que liga as tramas é a história do produtor (Josh Brolin) que precisa manter seus astros na linha, ao mesmo tempo em que recebe uma proposta indecente para mudar de emprego. Entre os astros de seu estúdio estão o protagonista de um épico cristão (George Clooney), que é sequestrado por comunistas, uma diva desbocada de filmes de balé aquático (Scarlett Johansson), um ator de musicais com sapateado (Channing Tatum) e um caubói com pouco talento que integra o elenco de um melodrama (Alden Ehrenreich, que acaba sendo a melhor surpresa do filme).

A cena em que Ehrenreich treina como deve dizer uma fala, sob comando do diretor afetado vivido por Ralph Fiennes, é uma das melhores do filme, numa homenagem ao cinema melodramático de Douglas Sirk.

A trama também explora a indústria da fofoca (representada pelas jornalistas gêmeas vividas por Tilda Swinton) e a tentativa dos produtores de evitar que certas verdades vazassem para a mídia. Eram tão bem sucedidos no resguardo da intimidade dos astros da época, que pouco se sabia sobre suas verdadeiras orientações sexuais – embora houvesse burburinhos.

O problema é que, por ser conduzido por esquetes, “Ave, César” tende à irregularidade e, mesmo se mostrando afiado, nem sempre seu humor resulta engraçado. A impressão é que os Coen fizeram o filme pelo prazer de recriar as cenas (caprichadas) de balé aquático e de coreografia de sapateado (com marinheiros dançando), que homenageiam de maneira explícita a Era de Ouro de Hollywood. São os momentos que enchem os olhos dos cinéfilos. Tão bem feitos que até devem entrar em futuras antologias sobre a história do Cinema.

https://www.youtube.com/watch?v=2sf7T3heCxg

Ailton Monteiro é professor e vai ao cinema com frequência desde os 16 anos de idade. Mantém o blog Diário de um Cinéfilo, premiado com o Quepe do Comodoro de melhor blog de cinema em 2004.

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