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Filme|10 de março de 2016

White God usa beleza e agressividade de forma extraordiária

“White God”, do húngaro Kornél Mundruczó, engana quem pensa que se trata de “um filme de cachorro”. Ou seja, mais uma história de cãozinho abandonado/desaparecido, que passa por várias aventuras, como “Lassie” e similares. Desta vez, o bicho pega mesmo. Nos dois sentidos do termo.

O filme acompanha a jornada da menina Lili (Zsófia Psotta), que vai passar três meses com o pai, com quem não tem muita intimidade. Como ela leva seu cachorro consigo, começa a enfrentar uma série de dificuldades de aceitação: não é permitido cachorros no condomínio e, no dia seguinte, eles acordam com um fiscal da prefeitura informando que é preciso pagar uma taxa para mantê-lo, coisa que o pai não quer fazer de jeito nenhum. Para ele, o mais prático é largar o cão em algum lugar. E é o que ele faz, para desespero de Lili.

É fácil para o espectador se sentir nos sapatos da garota e também nas patas do cachorro naquele momento. E só por ter conseguido essa façanha, Mundruczó já merece respeito. Mas há muito mais por vir. Inclusive, cenas bem barra-pesada, que fazem alguns espectadores saírem antes de terminar a sessão, por não aguentarem ver os maus tratos. Mesmo que eles não sejam mostrados de maneira explícita, são bastante perturbadores.

Assim, o filme segue durante um bom tempo em duas narrativas paralelas que se complementam: a de Hagen, o vira-latas que tenta sobreviver a essa situação, encontrando, inclusive, outros cãezinhos que levam a vida fugindo da carrocinha e até mesmo de pessoas com intenções piores, e a de Lili, procurando por seu amiguinho, ao mesmo tempo em que tenta levar uma vida mais ou menos normal, tocando em uma orquestra e experimentando também a maldade de jovens da sua idade.

A trama funciona muito bem como um misto de drama e horror, envolvendo a maldade da sociedade contra os cães, especialmente aqueles que não são de raça, mas também serve de parábola sobre o racismo e a imigração. De fato, não há como não sentir um gosto amargo ao ver a transformação do animal, de manso e adorável, em uma máquina selvagem de matar. E nisso, o filme encontra similaridades com “Cão Branco” (1982), de Samuel Fuller, que também trata de racismo, mas de maneira menos alegórica.

Mundruczó consegue criar imagens de uma beleza rara, como antecipa, logo no começo do filme, ao mostrar Lili andando de bicicleta em uma cidade abandonada, perseguida por uma matilha de cães de todas as raças e cores. A cena é impressionante e parece saída de um sonho. E faz parte da trama central do filme, que une a beleza e a agressividade de maneira extraordinária.

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Ailton Monteiro

Ailton Monteiro é professor e vai ao cinema com frequência desde os 16 anos de idade. Mantém o blog Diário de um Cinéfilo, premiado com o Quepe do Comodoro de melhor blog de cinema em 2004.

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