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    Estreias: “As Marvels” ocupam metade dos cinemas do Brasil

    9 de novembro de 2023 /

    “As Marvels” tem a maior estreia da semana, ocupando nada menos que 1,6 mil salas – o equivalente a metade do circuito cinematográfico do Brasil. Em um momento de crise criativa e de bilheteria da Marvel, a distribuição massiva sugere uma alternativa contra críticas negativas e falta do engajamento da mídia espontânea, buscando forçar um grande faturamento inaugural. Se vai dar certo, só saberemos no balanço do fim de semana, mas a iniciativa implica em diminuição das exibições de “Mussum – O Filmis”, que na semana passada teve a melhor estreia nacional do ano, e amplia as queixas contra a ausência de uma política de cota de telas em vigência no país. Por falar em cinema brasileiro, o melhor lançamento do fim de semana é uma produção nacional: o drama “Tia Virgínia”, premiadíssimo no recente Festival de Gramado e considerado um dos melhores filmes do ano – de qualquer nacionalidade. Chega em circuito limitado. Além dos títulos abaixo, filmes do Festival Varilux do Cinema Francês também ocupam a programação dos cinemas a partir desta quinta-feira (9/11).   AS MARVELS   O primeiro filme com um grupo de super-heroínas do MCU (Universo Cinematográfico Marvel) ecoa os problemas que têm acompanhado as últimas produções do estúdio. Seu índice de aprovação de apenas 59% no Rotten Tomatoes reflete um roteiro com abordagem formulaica, vilã genérica, falta de foco narrativo e uma ambição frustrante de conectar diferentes conteúdos. O filme tenta conciliar a trajetória de três protagonistas distintas, Carol Danvers (Brie Larson, a “Capitã Marvel”), Monica Rambeau (Teyonah Parris, introduzida em “WandaVision”) e Kamala Khan (Iman Vellani, a “Ms. Marvel”), que passam a trocar de lugar ao usarem seus poderes. A confusão é criada por uma inimiga da Capitã Marvel para dificultar que a heroína impeça seus planos de destruição. Mas isso aproxima o trio e as transforma em aliadas. Sem uma grande motivação além de vingar seu planeta por algo que aconteceu fora da tela, a vilã Dar-Benn (Zawe Ashton, de “Obsessão”) segue a tendência das produções da DC, com antagonistas que não apresentam uma ameaça convincente e uma lógica vilanesca que não se sustenta, mesmo após várias tentativas de explicação por meio de diálogos expositivos. Outro aspecto problemático é a sensação de que partes do filme parecem desconexas, como um casamento arranjado de Carol com um príncipe de um planeta musical ou a presença de gatos que disparam tentáculos – aproximando-se em alguns momentos de uma comédia pastelão. O que salva a falta de coesão é a energia e o carisma de Kamala Khan, que ajuda a trama a escapar da monotonia de suas cenas de lutas e sucessivas trocas de lugares resultante do entrelaçamento de poderes, um recurso narrativo que rapidamente se torna repetitivo. Além disso, a Marvel transformou o que diferenciava seus projetos em algo que os torna enfadonhos: o universo mais amplo deixou de ser atração para virar distração, a ponto de certas referências e aparições de personagens dependerem de o público conhecer um número suficiente de filmes e séries do estúdio. “As Marvels” foi escrito por Megan McDonnell (da equipe de “WandaVision”) e dirigido por Nia DaCosta (“A Lenda de Candyman”), e também destaca a participação de Samuel L. Jackson no papel de Nick Fury.   TIA VIRGINIA   O segundo longa de Fabio Meira (“As Duas Irenes”) venceu oito troféus no Festival de Gramado deste ano, incluindo o prêmio da Crítica e o de Melhor Atriz para Vera Holtz, que interpreta a personagem-título. A Tia Virgínia é uma senhora que, por não seguir os caminhos tradicionais de casamento e maternidade, assumiu o cuidado da mãe enferma. Sua rotina pacata é interrompida na véspera de Natal pela chegada de suas irmãs Vanda e Valquíria, interpretadas respectivamente por Arlete Salles e Louise Cardoso, além de familiares (Antônio Pitanga e outros), que se reúnem para festejar, mas desencadeiam uma série de conflitos e ressentimentos. Toda a história se desenrola num único dia, marcado pelos confrontos, tanto físicos quanto verbais, que destacam a disfuncionalidade da família e a maneira como essas relações moldaram a personagem principal. A casa, cheia de objetos e decorações que remetem a um passado que já não existe, simboliza o estado mental de Virgínia, que se recusa a aceitar o declínio de sua mãe e a realidade de sua situação​​. Para complicar, a casa e os pertences da matriarca são pontos de interesse para as irmãs, embora Virginia acredite que tenha mais direito por ter aberto mão da liberdade e de sonhos não realizados. A direção de arte premiada de Ana Mara Abreu confere à casa uma presença quase anímica, enriquecendo o cenário onde os dramas familiares se desenrolam. O roteiro premiado de Fabio Meira aborda de maneira sensível e crítica uma realidade comum na sociedade: o papel culturalmente imposto às mulheres como cuidadoras primárias no âmbito familiar, muitas vezes em detrimento de suas próprias vidas e aspirações. Virgínia reflete a figura de inúmeras mulheres que assumem a responsabilidade pelo cuidado de parentes enfermos ou idosos, um papel que frequentemente é esperado delas devido a normas de gênero enraizadas. Este aspecto do filme ressoa profundamente, evidenciando não só a dedicação e sacrifício da protagonista, mas também a complexidade e o peso emocional que acompanham essa escolha muitas vezes imposta, não escolhida. O filme também dá a Vera Holtz o melhor papel de sua carreira. Reconhecida por sua versatilidade e profundidade emocional em papéis anteriores, a atriz encarna a personagem-título com uma entrega que transita entre a força e a delicadeza, marcada por nuances que evidenciam não apenas o peso da responsabilidade que carrega como cuidadora, mas também suas camadas mais íntimas de frustração, amor e resiliência.   NINA – A HEROÍNA DOS SETE MARES   A animação francesa acompanha uma jovem ratinha em uma aventura mitológica ambientada na Grécia Antiga. Nina (ou Pattie no original) sonha em viver glorias comparáveis às de seu herói Jasão, que em sua juventude trouxe paz e prosperidade para a cidade ao enfrentar desafios para conquistar o Velo de Ouro. Agora, Jasão é um ancião e os deuses estão em desarmonia, com o destino da comunidade dependendo das ações de Nina, de um gato aspirante a ator e de uma gaivota desafinada e amputada. A ação desdobra-se quando a protagonista e o velho Jasão embarcam na lendária barca Argo em uma nova missão mitológica: encontrar um tridente para Poseidon, afim de apaziguar a ira do deus do mar. Ao longo do caminho, eles encontram escorpiões pacifistas, um Apollo narcisista e um grupo de ratos ninjas que executam um assalto ao som de música funk. A obra se destaca pela ousadia e pela capacidade de manter a atenção do público, apesar de misturar muitos elementos contrastantes. A produção, que encontrou seu espaço no mercado europeu, tem um nível visual superior às animações normalmente feitas na Europa, apesar do baixo orçamento – estimado de 10 milhões de euros.   MISSÃO ANTENA – UMA AVENTURA INTERGALÁCTICA   A animação dinamarquesa mescla elementos de ficção científica e aventura na história de um jovem garoto que, após o divórcio de seus pais, muda-se para uma nova cidade. A narrativa segue o pequeno Alan em sua busca por amizades e adaptação à nova realidade familiar, encontrando consolo em um encontro improvável com Britney, uma alienígena que pode ler mentes. O filme explora a temática do divórcio sob a perspectiva infantil, abordando como os jovens lidam com tal mudança, introduzindo valores educativos sobre a aceitação e o enfrentamento das alterações nos laços familiares. Já a aventura segue a fórmula “E.T.”, onde o pequeno Alan, juntamente com um entusiasta por OVNIs, embarca em uma missão para ajudar Britney a retornar ao seu planeta natal. A dinâmica entre os personagens principais, Alan e Britney, ressalta a importância da comunicação e do compartilhamento de emoções, uma vez que ambos lutam para expressar e entender sentimentos em um contexto onde as diferenças culturais e emocionais são pontuadas pela peculiaridade de Britney ser uma extraterrestre. Este aspecto fornece um pano de fundo para discussões sobre sinceridade e empatia. Mas a premissa não deixa de lado o suspense, com a presença de um antagonista que, também ao estilo “E.T.”, persegue Britney com intenções nefastas, injetando uma dose leve de tensão ao enredo infantil.   HOW TO HAVE SEX   Vencedor da mostra Um Certo Olhar, no Festival de Cannes deste ano, o longa de estreia de Molly Manning Walker acompanha três amigas britânicas – Tara (Mia McKenna-Bruce), Skye (Lara Peake) e Em (Enva Lewis) – ao fim do Ensino Médio. Decididas a esquecer as preocupações, elas partem para Malia, na Grécia, ansiosas por uma temporada de liberdade e descobertas – particularmente Tara, que almeja vivenciar sua primeira experiência sexual. A atmosfera de Malia se alterna entre festas ensolaradas e vida noturna vibrante. A dinâmica entre as amigas é inicialmente marcada pela cumplicidade típica da juventude, mas logo as garotas começam a competir pelo mesmo rapaz, influenciando as decisões de Tara e afetando a harmonia do trio. Logo a protagonista se depara com situações que testam os limites do consentimento e exploram a dinâmica de suas amizades. A performance de McKenna-Bruce (de “Academia de Vampiros”) se destaca, pois sua personagem enfrenta experiências que desafiam suas expectativas e a obrigam a confrontar uma realidade áspera e dolorosa. É uma história familiar, mas contada com atenção aos detalhes. A experiência de Manning Walker em curtas-metragens e como diretora de fotografia é evidente – neons impressionantes capturam a energia frenética e decadente dos clubes – , enquanto retrata as áreas cinzentas das políticas sexuais e de gênero que adolescentes são forçadas a enfrentar na passagem para a vida adulta.   TOLOS SÃO OS OUTROS   A obra, que estreou no Festival de Karlovy Vary, emerge como a narrativa mais desafiadora do cineasta polonês Tomasz Wasilewski, enfatizando o poder da maternidade e os limites do amor incompreendido pela sociedade. A trama acompanha Marlena (interpretada por Dorota Kolak) e seu parceiro Tomasz (Lukasz Simlat), cuja existência compartilhada é abalada pelo retorno do filho enfermo terminal de Marlena, Mikolaj (Tomasz Tyndyk). O reencontro familiar desencadeia um turbilhão de emoções e reavaliações dos laços afetivos, e se desdobra em um ambiente opressivo, onde a convivência diária é pontuada por cuidados intensivos a Mikolaj e confrontos emocionais. A tensão cresce conforme a realidade do filho doente se entrelaça com o ressurgimento de um passado oculto, conferindo ao drama o tom de uma tragédia grega, marcada pelo fatalismo que se intensifica com o desenrolar dos acontecimentos. Os elementos visuais de “Insensatos” reforçam a narrativa dramática, com sequências simbólicas que representam os conflitos internos dos personagens. A relação entre os protagonistas e o filho enfermo é explorada sob uma ótica crua, sem subterfúgios sentimentais, refletindo a essência do cinema de Wasilewski, que também se diferencia por fazer uma abordagem audiovisual sem música, valorizando os sons do ambiente para embalar o drama vivido pelos personagens.   A BELA AMÉRICA   O diretor português António Ferreira tem uma trajetória caracterizada por obras que frequentemente exploram as profundezas da condição humana e as complexidades sociais. Sua filmografia inclui títulos como “Pedro e Inês” (2018), “Embargo” (2011) e “Respirar (Debaixo D’água)” (2000), que lhe renderam reconhecimento e diversas indicações a prêmios. Seu novo filme não foge à regra. Na trama, Lucas (interpretado por Estêvão Antunes) é um cozinheiro de origens modestas e vida difícil, que cruza com América (São José Correia), uma estrela da televisão e aspirante à presidência. Quando Lucas e sua mãe cega são despejados de sua casa, América enxerga na história do rapaz o potencial de uma narrativa emocionante para sua campanha eleitoral. Entretanto, a conexão vai além da política, evoluindo para uma paixão unilateral. Movido pelo desejo de impressionar América e talvez alcançar uma vida melhor, Lucas começa a infiltrar-se clandestinamente na casa dela para preparar pratos requintados como uma forma de expressar sua admiração e afeto. Ele não se revela, criando um ritual secreto de cozinhar para a bela América. Este ato, ao mesmo tempo romântico e obsessivo, também reflete a desconexão entre os mundos...

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