Impeachment de Dilma vai render pelo menos cinco documentários
São pelo menos cinco os documentários que estão sendo rodados em torno do Impeachment de Dilma Rousseff, apurou o jornal Folha de S. Paulo. As equipes se tornaram presença frequente nos corredores do Congresso e do Palácio da Alvorada, mas principalmente entre os políticos do PT, o que teria fomentado desconfiança da oposição. “Me incomoda muito acharem que vamos fazer um filme panfletário. É um trabalho de nuances, um registro histórico”, disse Petra Costa (de “Elena”) ao jornal, sobre sua intenção. Só o seu documentário teria registrado mais de 500 horas de gravações. Assim como o filme de Petra, o documentário da brasiliense Maria Augusta Ramos (“Justiça”) também teve acesso à reuniões fechadas de senadores da bancada do PT, que compõem a maioria das horas de sua filmagem. Mas haveria registros também de desabafos e críticas à atuação da própria Dilma e do partido. Para Maria Augusta, a decisão de filmar o impeachment foi motivada por “angústia pessoal”. Outro documentário está sendo tocado a três, por Anna Muylaert (“Que Horas Ela Volta?”), César Charlone (“O Banheiro do Papa”) e Lô Politi (“Jonas”), que centram sua narrativa na crise política a partir da perspectiva de Dilma. “É sobre o afastamento da primeira mulher eleita”, diz Lô, que teve acesso ao Palácio da Alvorada e à privacidade da presidente deposta. Sem a mesma intimidade com os poderosos, o goiano Adirley Queirós (“Branco Sai, Preto Fica”) optou por documentar a crise fora dos corredores do poder. Intitulado “Era Uma Vez Brasília”, seu filme é feito de entrevistas com pessoas comuns da capital e da cidade-satélite de Ceilândia, onde vive. “É político, mas o foco é como as pessoas que não são políticas veem tudo isso”, explicou à Folha. Fontes sugerem ainda que um quinto documentário estaria sendo rodado pelo especialista Silvio Tendler (“Jango” e “Os Anos JK”), um dos principais documentaristas brasileiros, que seria mais focado em toda a crise política, mas o jornal não conseguiu contato com o diretor para confirmar. É importante observar que os documentários não deverão ter isenção, o que é absolutamente normal, já que cabe aos cineastas decidirem o que devem filmar. Melhor assumirem lado do que tentar convencer o público de que oferecem visões imparciais do Impeachment. Afinal, Anna Muylaert chegou a participar de manifestações contra o Impeachment, César Charlone pediu voto para Dilma em vídeo que circulou nas últimas eleições e Lô Politi foi ainda mais longe, trabalhando junto com o marqueteiro João Santana na mitológica campanha da reeleição de Dilma. A cineasta Maria Augusta Ramos, por sua vez, assinou em março a “Carta ao Brasil, em defesa da democracia e contra a tentativa de golpe”. Já a família de Petra Costa é muito próxima de Lula, tendo, segundo o blog O Antagonista, pago uma cirurgia plástica para Luriam, filha do ex-presidente e a hospedado em Paris. Além disso, Petra é herdeira da Andrade Gutierrez, uma das empresas enredadas na Lava Jato, cujo ex-presidente delatou ter pago despesas da eleição de Dilma. Não há informações sobre a origem do financiamento dos filmes.
Olmo e a Gaivota documenta o imprevisto da vida
Quando surgiu a ideia de fazer um documentário com a atriz italiana Olivia Corsini (“Les Naufragés du Fol Espoir”), o projeto previa falar sobre um dia na vida de uma mulher, suas reflexões, suas realizações e sua percepção da própria vida. Porém, um imprevisto mudou a proposta original. A atriz descobriu que estava grávida e o documentário virou uma espécie de diário dessa jornada, sem deixar para trás algumas das ideias originais. Outra mudança no direcionamento do longa acontecem quando descobre-se que a gravidez é de risco e um repouso forçado tira Olívia de sua rotina, e da turnê que seu grupo de teatro faria para apresentar a peça “A Gaivota”, de Anton Tchekhov, em Nova York e Montreal. Visualmente belo, o longa-metragem dirigido em parceria pela brasileira Petra Costa (“Helena”) e pela dinamarquesa Lea Glob acompanha os nove meses da gestação, da descoberta com um exame de farmácia até os últimos dias da gravidez. Com formato de diário, com espaço para divagações sobre a vida, envelhecimento, frustrações, inseguranças e memórias, “Olmo e a Gaivota” mistura cenas do cotidiano da atriz e seu marido Serge, também ator teatral, com várias imagens de arquivo, de maneira funcional e pouco invasiva, dando ao produto final uma homogeneidade interessante. Por ser um documentário, a interação de Petra com o cotidiano do casal altera o convívio diário. Mas essa intromissão é escancarada e chama a atenção por seguir uma trilha bastante diversa do gênero. O fato de o casal ser formado por dois atores, com a possibilidade de estarem sempre encenando, também. A confusão entre a determinação do alcance do que é documento e o que é encenação é curiosa. É como se uma caixa ficcional fosse preenchida apenas com conteúdo real, como se todos aqueles pensamentos e divagações de Olívia surgissem aleatoriamente, mas seguissem um caminho determinado. Uma bela experiência, premiada nos festivais internacionais de Locarno e CPH:DOX.

