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    Vidas Duplas empolga com internet, livros, filmes e amantes

    21 de abril de 2019 /

    Os filmes anteriores do diretor francês Olivier Assayas, “Acima das Nuvens” (2014) e “Personal Shopper” (2016), são bastante ambiciosos na forma. Por isso, “Vidas Duplas” (2018) parece um trabalho menor e menos desafiador, semelhante talvez a “Horas de Verão” (2008), outra obra sobre pessoas conversando sobre comportamento, mudanças no cenário político e social e relacionamentos. É como se o cineasta estivesse descansando um pouco enquanto prepara outra obra-prima. Mas engana-se quem subestima “Vidas Duplas”, que encanta não apenas por trazer um elenco muito talentoso, mas por colocar nas bocas de seus personagens falas tão inteligentes e sensíveis que fazem com que eles se materializem em criaturas reais. O que dizer, por exemplo, de Vincent Macaigne, que brilha como o romancista Léonard Spiegel, um homem inseguro que coloca todos os seus dramas e relacionamentos em suas obras literárias? Os momentos em que ele se mostra especialmente deprimido, ao lado do editor vivido por Guillaume Canet, da amante vivida por Juliette Binoche ou da esposa interpretada por Nora Hamzavi, são pontos altos de um filme cheio de pontos altos. As cenas envolvendo Macaigne, uma espécie de coração do filme, tornam-se grandes por serem mais relacionadas a discussões da vida real, de problemas ligados a relacionamentos. Os outros personagens se tornam menos sensíveis por discutirem assuntos do mundo contemporâneo, como o fim ou não do livro de papel, a diminuição do número de leitores de livros, a popularização dos audio-books etc. E o filme faz isso dando nomes aos bois: Facebook, YouTube, Kindle, Twitter. Todo esse filosofar sobre o mercado editorial também vem acompanhado por discussões acerca da natureza autobiográfica da arte e de sua imunidade a essas mudanças. Assayas, que havia trazido à tona um debate bem interessante sobre os blockbusters em “Acima das Nuvens”, mostra-se agora tão entusiasmado com a discussão sobre a revolução trazida pela internet que chega a contagiar. E no debate, há espaço tanto para Adorno quanto para Taylor Swift, para “A Fita Branca” e “Star Wars: O Despertar da Força”. Falando nesses dois filmes, um dos momentos mais engraçados de “Vidas Duplas” envolve sexo oral durante a sessão de um dos filmes e o modo como isso é contado em um romance. Sim, há o cuidado para não cansar o espectador com tanta discussão sobre internet e mercado editorial, já que a ciranda de amores dos personagens se tornam tão ou mais importantes do que o debate. Quase todos no filme têm um(a) amante e isso é outra coisa que diverte: a cumplicidade do público com os personagens. Ao final, a sensação de bem-estar faz com que gostemos tanto do filme, de seus personagens tão vivos, de suas discussões tão empolgantes, que o sentimento de gratidão pelo diretor e por todo o elenco se torna inevitável.

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