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    Neal Adams (1941–2022)

    29 de abril de 2022 /

    O gênio dos quadrinhos Neal Adams, um dos responsáveis por revitalizar Batman nos anos 1970, morreu na quinta (28/4) na cidade de Nova York, em decorrência de uma infecção generalizada, aos 80 anos. Com estilo inconfundível, seus desenhos fotorrealistas e de inspiração expressionista foram fundamentais para transformar Batman no Cavaleiro das Trevas, um personagem sombrio e torturado por traumas, radicalmente diferente do trapalhão engraçado da popular série de TV dos anos 1960. Adams começou a chamar atenção nos anos 1960 em publicações de terror em preto e branco da editora Warren, o que o levou a ser convidado pela DC para ilustrar o personagem Desafiador (Deadman), um fantasma vingador, capaz de possuir suspeitos para desvendar seu próprio assassinato. Ele ainda passou pela Marvel, desenhando os X-Men, antes de fazer História ao lado do roteirista Dennis O’Neill e o arte-finalista Dick Giordano. Em 1970, dois anos após o fim da série “Batman”, O’Neill recebeu do editor Julius Schwartz a difícil missão de fazer o público esquecer a versão cômica televisiva do herói, e buscou um especialista em terror para levar trevas ao personagem. Nesta reinvenção, escritor e desenhista trataram de afastar Robin, recriaram vilões clássicos como o Coringa e Duas Caras, transformados pela primeira vez em psicopatas assassinos, introduziram vilões monstruosos e deram ao herói um polêmico interesse amoroso, a femme fatale Talia al Ghul, filha de um novo, misterioso e perigosíssimo mestre do mal, Ra’s al Ghul. Com os desenhos de Adams (arte-finalizados por Giordano), as histórias se tornaram mais que sérias: sombrias, violentas e maduras. Não só cumpriram o objetivo de transformação de Batman como viraram algumas das mais influentes já publicadas com o personagem. A parceria entre Adams e O’Neil se estendeu a outra publicação que marcou época, “Lanterna Verde/Arqueiro Verde”, que juntou os heróis do título. A premissa era um desafio de Oliver Queen (o Arqueiro) para que Hal Jordan (o Lanterna) trocasse suas aventuras espaciais por uma jornada mais mundana para conhecer os problemas da Terra. Com isso em mente, a publicação abortou todos os temas polêmicos da época, do preconceito racial à epidemia de drogas, e se tornou a primeira revista a desfiar a censura estabelecida nos anos 1950 sobre os quadrinhos, numa edição premiadíssima de 1971, em que Ricardito (Speedy), o parceiro adolescente do Arqueiro, revelava-se viciado em heroína. Foi tão impactante que deu início a era dos quadrinhos adultos de super-heróis, não indicados para menores, 15 anos antes de Alan Moore (“Watchmen”) e Frank Miller (“O Cavaleiro das Trevas”) publicarem seus clássicos na editora. Seu último trabalho nessa passagem pela DC foi outro sucesso importante: uma edição especial de 1978 em que Superman enfrentou o campeão do boxe Muhammad Ali – situação que, por sinal, inspirou o filme “Space Jam” em muitos de seus detalhes. Adams chegou até a desenhar Pelé na capa da publicação, entre o público da luta fantasiosa. O desenhista acabou se afastando dos quadrinhos devido a seu inconformismo pela baixa remuneração e falta de reconhecimento das editoras. Ele chegou a se engajar em várias campanhas de direitos autorais, exigindo compensações justas do mercado, e foi um dos artistas mais ativos na luta para a DC reconhecer os direitos de Jerry Siegel e Joe Shuster como os criadores de Superman, após Shuster aparecer no prédio da Warner Bros. trabalhando como carteiro. Desgostoso, o artista decidiu mudar de ramo, formando a empresa Continuity Associates com o velho parceiro Dick Giordano. Os dois se especializaram em fornecer storyboards para filmes de Hollywood (desenhos de cenas descritas nos roteiros, para auxiliar a visão dos diretores). Mas quando Giordano voltou para a DC em 1980, em cargo de chefia, Adams se voltou a outros setores da indústria audiovisual. Ele chegou a desenhar um segmento para a cultuada animação “Heavy Metal – Universo em Fantasia” (1981) e até virou diretor de cinema, comandando “Death to the Pee Wee Squad” em 1988. Trash no último, o filme foi lançado direto em vídeo pela Troma e incluía em seu elenco os filhos do artista e alguns colegas dos quadrinhos. O artista também produziu a série animada “Bucky O’Hare” (1991–1992) e concebeu a atração infantil televisiva “Miss Danielle’s Preschoolbuds” (2016), além de ter colaborado com a Warner Bros. com ilustrações para vários documentários sobre Batman. Nos últimos anos, ele fez as pazes com a DC, passando a ganhar reconhecimento pela criação de diversos personagens – como John Stewart, o Lanterna Verde negro – , e acabou convencido a voltar aos quadrinhos, recebendo os maiores salários de sua carreira e tratamento de mestre em reconhecimento a sua trajetória, para trabalhar em novas minisséries de Batman, Superman e Desafiador. Até a Marvel o requisitou para ilustrar títulos dos X-Men, Novos Vingadores e Quarteto Fantástico. Seu último trabalho foi uma minissérie que colocou Batman contra uma de suas criações favoritas, o vilão Ra’s al Ghul, encerrada em março de 2021. Neal Adams deixa a mulher, Marilyn, com quem foi casado por mais de 45 anos, além de cinco filhos, seis netos, um bisneto e milhões de fãs.

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  • Etc

    Dennis O’Neil (1939 – 2020)

    12 de junho de 2020 /

    O escritor e editor Dennis “Denny” O’Neil, um dos melhores roteiristas dos quadrinhos da DC Comics em todos os tempos, morreu na quinta (11/6) em sua casa de causas naturais, aos 81 anos. Ele nasceu no mês e no ano em que Batman estreou nos quadrinhos e foi responsável pelas mudanças mais importantes da trajetória do personagem. Mas, curiosamente, sua carreira começou na editora rival, contratado pelo próprio Stan Lee para escrever para a Marvel nos anos 1960. Seu começo foi com histórias do Doutor Estranho e dos X-Men. Mas, para completar sua renda, ainda desenvolvia tramas para a editora Charlton, sob pseudônimo. Só que esse “segredo” foi por terra quando o editor da Charlton, Dick Giordano, foi contratado para comandar a DC em 1968 e decidiu levar consigo seus roteiristas favoritos. Dennis, que na época assinava Denny O’Neil, foi responsável por uma revolução nos quadrinhos da DC. Em suas histórias, tornou-se pioneiro na abordagem de temas sociais em quadrinhos de super-heróis, especialmente na publicação que juntou Lanterna Verde e Arqueiro Verde numa jornada pelos rincões dos EUA. Em vez de supervilões, os personagens se depararam com racismo, miséria e vício em drogas. A história em que o antigo parceiro mirim do Arqueiro, Ricardito (Speedy), revelou-se viciado é considerada até hoje uma das mais impactantes e relevantes do gênero. Estes quadrinhos foram os primeiros a chamar atenção da grande imprensa para o fato de que super-heróis podiam ser mais que diversão infantil. “Eu saí da obscuridade total para ver meu nome em destaque no The New York Times e ser convidado para fazer talk shows”, lembrou O’Neil numa entrevista de 1986. O’Neil também tirou os super-poderes da Mulher-Maravilha, explorando sua identidade de Diana Prince em histórias de espionagem, mudou pela primeira vez a formação da Liga da Justiça, mas nenhuma dos personagens da editora foi tão afetado por seus textos quanto Batman. Na época, ninguém queria escrever Batman. O personagem estava desacreditado na editora, após ser ridicularizado na série de TV, exibida entre 1966 e 1968. Ele recebeu a missão de salvar o herói. E sua ideia foi mergulhar fundo nas trevas. Batman sofreu um reboot completo, sem que O’Neil anunciasse que era isso que estava fazendo. Para começar, tirou Robin de cena – faculdade, briga, rompimento, Titãs, etc – deixando Batman sozinho pela primeira vez em 30 anos. Um por um, ele também foi reintroduzindo os vilões clássicos. O’Neil foi quem explorou a loucura do Coringa, transformando o palhaço do crime num psicopata assassino. Fez o mesmo com o Duas Caras, etc. E ainda criou um dos maiores inimigos do herói, Ra’s Al Ghul, assim como o maior amor – Tália, a filha do vilão. O escritor também criou a personagem coadjuvante Leslie Thompkins. E suas histórias desenhadas por Neal Adams, Jim Aparo e Dick Giordano figuram entre as mais influentes já feitas sobre Batman. Ele também ajudou a ressuscitar O Sombra, personagem da era do rádio e dos pulps, que sob sua direção se transformou em personagem da DC, e ainda assinou a famosa graphic novel da luta entre Superman e Muhammad Ali. Seu sucesso o levou de volta à Marvel, onde assumiu o carro-chefe da editora, o Homem-Aranha, além de Homem de Ferro e Demolidor durante os anos 1980. Neste período, criou a Madame Teia e os vilões Homem Hídrico, Monge de Ferro (Obadiah Stane) e Lady Letal (Yuriko Oyama). Ainda editou a fase de Frank Miller à frente do Demolidor. E, ao supervisionar o lançamento dos quadrinhos dos Transformers, concebeu e nomeou ninguém menos que Optimus Prime. A DC o trouxe de volta em 1986 com uma promoção, tornando-o editor de Batman, papel que ele cumpriu durante toda a era das graphic novels sombrias do personagem, até os anos 2000. Ele lançou a revista “Batman: Lendas do Cavaleiro das Trevas” dedicada a coleções de minisséries adultas de Batman, também se dedicou ao herói Questão, criou Richard Dragon, o personagem Azrael e ainda adaptou os roteiros dos filmes “Batman Begins” (2005) e “O Cavaleiro das Trevas” (2008) em quadrinhos. Sua carreira não se resumiu aos quadrinhos. Ele escreveu livros sobre a arte sequencial e também roteiros de séries, tanto para a versão animada de Batman quanto para a primeira série live-action do Superboy. Mas também trabalhou fora do gênero, roteirizando episódios de “Fuga das Estrelas” (Logan’s Run), a série derivada do filme “Fuga do Século 23” (1976), e da animação “Comandos em Ação” (G.I. Joe). Para completar, foi professor da Escola de Artes Visuais de Manhattan. Jim Lee, atual editor-chefe da DC, chamou Denny O’Neal de “um dos arquitetos visionários da DC Comics”, citando como ele “ajudou a reviver o Batman nos anos 1970” e como continua a ser o seu “escritor favorito do Lanterna Verde até hoje”. Lee resumiu a impacto de suas obras ao lembrar que, “por meio de sua edição e redação, Denny foi um dos primeiros escritores cujo trabalho e foco em questões sociais impulsionaram os quadrinhos” para fora de seu universo infantil.

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