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    A Fábrica de Nada reflete o crescimento do desemprego na fase atual do capitalismo

    30 de setembro de 2018 /

    Condição necessária para a existência da produção e, consequentemente, do lucro no sistema capitalista, é a mão de obra geral e especializada, que vem dos trabalhadores. Mas em tempos de tecnologia avançada, robótica e que tais, o próprio trabalhador começa a ser dispensável. Máquinas podem ser eliminadas ou substituídas por equipamentos mais recentes, que chegam a tornar obsoletos a própria estrutura física das fábricas e seu maquinário tradicional. Ou esse maquinário pode ser deslocado para onde a tecnologia não se sofisticou e que mantém custos de mão de obra tão baixos que se aproximam da escravidão. Esse é o pano de fundo da história do filme português “A Fábrica de Nada”, dirigido por Pedro Pinho (“Um Fim do Mundo”) a partir de ideia original do cineasta Jorge Silva Melo (“Agosto”), com base na peça “The Nothing Factory”, da escritora holandesa Judith Herzberg. A referência teatral não impede que o realizador trabalhe o material fílmico de forma documental, inclusive dedicando a obra aos trabalhadores da Fateleva, que, entre 1975 e 2016, levaram a cabo uma experiência de autogestão na fábrica de elevadores Otis portuguesa. Experiência que, certamente, inspirou “A Fábrica de Nada”, tanto quanto a peça original holandesa. Trata-se, de qualquer modo, de uma ficção. Quando equipamentos da fábrica vão desaparecendo, ou são roubados, à noite, esvaziando as condições de trabalho e produção, seus operários decidem fazer vigílias para impedir que isso continue a acontecer. A fábrica, porém, para de produzir. Eles não têm o que fazer e agora são os seus empregos que estão em jogo. Há um plano evidente de desativar a fábrica e dispensar os trabalhadores. Eles partem para a greve, recurso histórico e legítimo dos operários. Mas greve numa fábrica que já parou? A ideia do roteiro é ótima, muito bem desenvolvida e com um elenco convincente, que nos põe no mundo dessa fábrica estranha que, no entanto, é tão representativa dos dias econômicos atuais. E, de quebra, reflexões teóricas sobre a presente etapa do capitalismo, que se caracteriza pelo desemprego, vão sendo lançadas ao longo do filme, ilustrando as encenações, ou melhor, dando a elas um caráter mais geral, extrapolando o caso concreto que está sendo mostrado. Apesar das quase três horas de projeção, o filme flui bem, cria uma situação de expectativa e de suspense que mantém o espectador interessado no que vai ocorrer em seguida.

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