Mulher-Maravilha estreia em mais de mil salas de cinema
“Mulher-Maravilha” é o maior lançamento da semana no Brasil, com uma distribuição em 1,2 mil salas. O longa chega precedido por críticas muito positivas, com 96% de aprovação no Rotten Tomatoes, que o apontam como uma das melhores adaptações de quadrinhos já feitas. Trata-se de uma mudança de percepção gigantesca em relação aos filmes de super-heróis da DC Comics, como “Batman vs. Superman” (2016), que introduziu a heroína. E isto acontece com a primeira superprodução de quadrinhos dirigida por uma mulher neste milênio. Patty Jenkins (do premiado “Monster: Desejo Assassino”) está fazendo História, mas também se destaca o desempenho de Gal Gadot, perfeita no papel. A segunda maior estreia é uma comédia nacional, “Amor.com”, com Ísis Valverde (“Faroeste Caboclo”) e Gil Coelho (“S.O.S.: Mulheres ao Mar 2”), que chega a 336 salas. Seu humor reflete o tema do reality show “As Gostosas e os Geeks”. Na trama, o geek conquista a gostosa, perde a gostosa e tenta reconquistá-la, com o diferencial de que boa parte disso é compartilhado nas redes sociais. Uma história convencional em tempos modernos. O filme marca a estreia solo na direção de Anita Barbosa, que foi diretora assistente de algumas das maiores bilheterias brasileiras do século – como “Se Eu Fosse Você 2” (2009), “De Pernas pro Ar” (2010) e “S.O.S.: Mulheres ao Mar 2” (2015). “As Aventuras de Ozzy” aparece em terceiro. Trata-se de uma animação espanhola sobre cachorros que, mesmo sem o pedigree de “Pets: A Vida Secreta dos Bichos” (2016), mostra que as alternativas no nicho da computação gráfica de bichos falantes estão se aprimorando. A premissa enfoca um dos grandes receios de quem tem cachorrinhos. Quando seus donos precisam viajar, Ozzy é deixado num hotel pet, cuja hospedagem de luxo se revela mera fachada para um regime carcerário, em que os cãozinhos são mal-tratadas e se vêem prisioneiros de ferozes cães de guarda. O drama épico “Z – A Cidade Perdida” completa a lista dos lançamentos de maior alcance. Com grande elenco, encabeçado por Charlie Hunnam (“Rei Arthur: A Lenda da Espada”), Robert Pattinson (“Mapas para as Estrelas”) e Tom Holland (o novo Homem-Aranha do cinema), conta a história do Indiana Jones da vida real, o Coronel Percy Harrison Fawcett (Hunnam), que deixou a carreira militar para se tornar explorador. Obcecado pela Amazônia, o britânico se embrenhou nas matas brasileiras para encontrar uma cidade que ele chamava de “Z” e acreditava ser El Dorado, a cidade de ouro. Sua última expedição aconteceu em 1925 no Mato Grosso, onde foi visto pela última vez. Há mais três filmes em circuito bastante limitado. “Inseparáveis” não é o que se poderia chamar de cinema de arte. Ao contrário, trata-se de uma comédia concebida como remake de um blockbuster internacional. Para resumir, é a versão argentina do francês “Intocáveis” (2014), que, curiosamente, elimina o elemento racial do original, alimentando o questionamento sobre a falta de negros no cinema argentino. A trama do paraplégico milionário que fica amigo de seu tratador pobre ainda ganhará remake americano em breve. O drama escandinavo “Ande Comigo” também lida com deficiência física e clichês. Após perder uma perna no Afeganistão, um ex-militar tem dificuldades para se reajustar à vida civil e é auxiliado em sua reabilitação por uma bailarina. Os opostos se atraem, como nos romances de cinema. Mas os cinéfilos podem minimizar os lugares-comuns por conta de mais uma boa performance do dinamarquês Mikkel Boe Følsgaard (o rei louco de “O Amante da Rainha”). Por fim, o documentário nacional “O Jardim das Aflições” tem lançamento apenas em sessões especiais, mas mesmo assim chega em cinco capitais (veja onde aqui). A obra do pernambucano Josias Teófilo é um passeio pelos pensamentos filosóficos de Olavo de Carvalho, o anticomunista que na juventude militou no PCB. Sem contraditórios, ele empilha discursos sobre a “autonomia da consciência individual” em oposição à “tirania da coletividade”, no conforto de sua residência nos Estados Unidos, mostrando-se culto e articulado. É bem feitinho com seu orçamento de R$ 300 mil, arrecadados em financiamento coletivo. Mas também um tédio, que se contrapõe à forma como eletrizou a esquerda, a ponto de cineastas provocarem o cancelamento do festival Cine-PE, ao se retirarem da programação num boicote coletivo contra sua inclusão no evento. As críticas ruidosas ao pensamento de Carvalho e a contrariedade com a ideia de se fazer um filme sobre ele são usadas, de forma inteligente, no material de marketing do lançamento. Mas as reações sobressaltadas dariam um filme bem melhor que o retrato plácido realizado. Clique nos títulos em destaque para ver os trailers de todas estreias da semana.
Maior estreia da semana, novo Piratas do Caribe tem distribuição de blockbuster no Brasil
Maior estreia de cinema da semana, “Piratas do Caribe – A Vingança de Salazar” chega em mais de 1,3 mil salas acompanhado de controvérsias de bastidores e críticas negativas – apenas 31% de aprovação no Rotten Tomatoes. Com o resgate de personagens da primeira trilogia, a produção acaba servindo de fecho para a franquia, já que seu próprio trailer a anuncia como capítulo final. Este é o maior atrativo para quem acompanha o Capitão Sparrow desde os primeiros filmes, mas é bom avisar que também há inúmeras reprises de situações já vistas. Além disso, o excesso de efeitos e atuações cartunescas funcionam como um desenho animado com atores, tendência dos últimos lançamentos da Disney. O grande circuito também recebe “Real – O Plano por Trás da História”, que radicais chamam de golpista – sua inclusão no Cine-PE teria motivado a desistência de cineastas de participarem do festival, em protesto contra a “direita conservadora e grupos que compactuaram e financiaram o golpe”. Seus problemas, porém, estão nas doses de fantasia e cartunismo com que descreve fatos e situações, contaminando seu potencial de docudrama com imaginação desvairada. Nem Itamar Franco foi um personagem de “Zorra Total”, nem Gustavo Franco foi o James Bond da economia nacional. Mas há um saldo positivo, na forma como o enredo explica, sem didatismo e com clareza, os debates por trás do plano Real, que tirou o Brasil do abismo – fatos importantes num país de memória seletiva. Infelizmente, faz isso com muitas frases de efeito e histeria, numa dramaturgia de telenovela, em que até os vilões são genéricos. A estreia nacional que merece maior destaque é outra: “Comeback”. Mas foi lançada em circuito limitado. Último filme de Nelson Xavier, falecido há duas semanas, traz o ator como um matador aposentado, que resolve voltar à ativa. Xavier foi premiado no Festival do Rio pela interpretação, e é uma pena que a distribuição não permita um alcance maior para a performance derradeira deste gigante do cinema brasileiro. A programação inclui outro filme brasileiro: “Muito Romântico”, coprodução alemã, dirigida e estrelada por Gustavo Jahn e Melissa Dullius em Berlim. Mas, neste caso, a distribuição limitada se justifica pelas atuações artificiais e abordagem experimental ao extremo. Com perfil de festival de cinema, onde pode agradar cinéfilos, a obra segue o manual de como entediar o espectador comum. O drama indie “Punhos de Sangue” tem a terceira maior distribuição da semana. E vale a pena. Trata-se da história real e obscura que originou um fenômeno pop. A cinebiografia resgata a façanha de Chuck Wepner, boxeador amador de Nova Jersey que aguentou 15 assaltos em uma luta de pesos-pesados contra Muhammad Ali em 1975, derrubando o campeão uma vez antes de ser derrotado. O feito foi tão impressionante que inspirou Sylvester Stallone a escrever “Rocky” (1976). Mas a vida de Chuck Wepner não teve direito a revanche vitoriosa, como em “Rocky II”. Sua façanha acabou esquecida, conforme Rocky Balboa se tornou mais e mais popular. Apesar do tom melancólico, o filme também inclui momentos doces e engraçados, além de uma performance campeã de Liev Schreiber (série “Ray Donovan”). Com maior alcance entre os lançamentos limitados, “Faces de uma Mulher” tem como atrativo a combinação de duas das melhores atrizes da nova geração francesa, Adèle Haenel (“Amor à Primeira Briga”) e Adèle Exarchopoulos (“Azul É a Cor Mais Quente”). A trama acompanha quatro mulheres em idades distintas, da infância à vida adulta, que flertam com o desastre permanente, até o título fazer sentido, mostrando que, por trás de nomes e intérpretes diferentes, há sempre a mesma mulher. Roteiro e direção são de Arnaud des Pallières (“Michael Kohlhaas – Justiça e Honra”), que transforma a trama complexa num filme fluído e acessível. O segundo filme francês da semana é o documentário “Reset – O Novo Balé da Ópera de Paris”, que capta com imagens belíssimas a criação do primeiro espetáculo de Benjamin Millepied como diretor artístico do Balé da Ópera de Paris. Millepied foi o criador da coreografia de “Cisne Negro” (2010), trabalho que lhe rendeu não apenas reconhecimento mundial, mas o casamento com a atriz Natalie Portman. Entretanto, foi considerado uma escolha pouco ortodoxa para seguir os passos dos gigantes da Ópera de Paris, como Serge Lifar e Rudolf Nureyev. Além de imagens deslumbrantes, o filme registra os dramas de bastidores, a luta contra o tempo e até um greve, entre os desafios que ele precisa superar. Mais restrita das estreias da semana, chega apenas no Rio. O circuito limitado ainda destaca filmes asiáticos das seleções do Festival de Cannes e Berlim do ano passado. O chinês “A Vida após a Vida” é um drama contemplativo e espiritual, que gira em torno de um menino possuído pelo espírito de sua falecida mãe, orientado a replantar uma árvore. Bem mais interessante, “Dégradé” combina comédia de salão de beleza com o clima da guerra permanente da Faixa de Gaza. O desequilíbrio é inevitável, mas não há como negar o apelo da premissa, em que se revelam vaidades de muçulmanas forçadas a usar véu, em meio ao cotidiano violento da Palestina. Clique nos títulos destacados para ver os trailers de todas as estreias da semana.
Estreias: Fracasso épico do ano encontra o terror mais bem-sucedido nos cinemas brasileiros
Quatro novos cineastas brasileiros fazem suas estreias no cinema nesta quinta (18/5). Mas são os filmes americanos “Rei Arthur – A Lenda da Espada”, “Corra!” e “Antes que Eu Vá” que ganham lançamentos amplos no circuito. Destes, vale a pena ver “Corra!”. Dos outros, corra! O ator inglês Charlie Hunnam esteve no Brasil para promover seu “Rei Arthur” e deu um show de simpatia. Mas o filme é fraco, com muitos efeitos para compensar equívocos da premissa, que tenta fazer com Rei Arthur o que o diretor Guy Ritchie tinha feito anteriormente com “Sherlock Holmes” (2009). Assim, o futuro rei é apresentado como um rufião. Pior, um gângster medieval, que, após tirar a espada Excalibur da pedra, precisa provar a si mesmo o seu valor, antes de confrontar o rei usurpador para reivindicar seu trono. A avaliação do Rotten Tomatoes foi impiedosa: míseros 27% de aprovação. E o público norte-americano ecoou o desencanto nas bilheterias, ignorando a produção, orçada em US$ 175 milhões. É o maior fracasso de 2017. “Corra!” representa o oposto completo, um dos maiores sucessos do ano, com 99% de críticas positivas. Feito com orçamento de filme brasileiro, US$ 4,5 milhões, rendeu US$ 174 milhões e estabeleceu o recorde de maior arrecadação do gênero terror na América do Norte. O segredo foi misturar racismo numa história sinistra, que começa de forma romântica, num fim de semana em que a namorada de brancos ricos leva seu namorado negro para conhecer sua família numa casa de campo. Foi a estreia do comediante Jordan Peele como diretor e a repercussão já lhe rendeu inúmeros convites para novos trabalhos. “Antes que Eu Vá” é mais uma versão da trama de looping temporal de “Feitiço do Tempo” (1993), desta vez voltada para adolescentes. A ideia é exatamente a mesma, ainda que o roteiro, inspirado num best-seller infanto-juvenil, opte pela ausência de sutileza para explorar o moralismo inerente da situação: o dia se repete até a protagonista tomar decisões melhores, deixar de ser uma jovem cruel e progredir como pessoa antes de sua morte, que reinicia o looping. Com cara de filme de streaming, acabou passando em branco nos cinemas americanos, onde arrecadou míseros US$ 12 milhões – apesar de contar com 66% de aprovação da crítica. Outra história batida, moralista e melodramática, “Um Homem de Família” traz Gerard Butler (“Invasão a Londres”) como um capitalista que só percebe como negligencia sua família após o filho ser diagnosticado com uma doença fatal. Daí, óbvio, suas prioridades mudam da água para o vinho – uma descrição clichê para homenagear a produção, avaliada com inexoráveis 0% no Rotten Tomatoes. A programação inclui outro bom terror em circuito limitado. Trata-se de “O Rastro”, que também é a principal estreia nacional da semana. A produção investiu em acabamento caprichado e marketing, mas não conseguiu convencer os exibidores a abrir maior espaço nos cinemas lotados com blockbusters americanos. A trama combina assombração e o verdadeiro horror que é a saúde pública nacional. Envolve o fechamento de um hospital no Rio e acompanha o médico responsável por coordenar a transferência dos pacientes durante a noite. Quando uma paciente jovem desaparece, ele tenta localizá-la e acaba gradualmente engolido pelo prédio em condições precárias. Estreia de João Caetano Feyer (assistente de “Filme de Amor”) na direção de um longa-metragem, destaca em seu elenco Rafael Cardoso (novela “Sol Nascente”), Leandra Leal (“O Lobo Atrás da Porta”) e Alice Wegmann (“Tamo Junto”). “Entrelinhas” também marca a estreia de uma nova cineasta brasileira, Emilia Ferreira. O detalhe é que a mineira mora em Nova York, filmou em inglês a adaptação de um livro americano, com produtores americanos e atores americanos. Típico drama “cabeça”, acompanha o processo criativo de uma escritora que tenta materializar sua primeira peça de teatro, dividindo sua atenção entre o palco, a ficção e os relacionamentos de seu cotidiano. Ganha uma reduzidíssima estreia nacional, enquanto permanece inédito e sem previsão de lançamento nos Estados Unidos. A terceira cineasta estreante, Mônica Simões, chega às telas com o documentário “Um Casamento”, em que projeta uma história íntima: o casamento de seus pais, evocado com ajuda de um filme caseiro da ocasião, fotos e o depoimento de sua mãe. É bem melhor do que soa – e vale considerar que Naomi Kawase também começou registrando seu cotidiano familiar. Menor lançamento de todos, “Estamos Vivos”, de Filipe Codeço, assume o amadorismo em sua concepção, paradoxalmente ousada do ponto de vista formal. A trama gira em torno de um reencontro entre irmãos separados há muitos anos, registrado pela câmera de uma criança autista de oito anos, que gosta de ser o centro das atenções. O recurso da “câmera subjetiva”, geralmente usada em filmes de terror, acaba servindo perfeitamente ao drama, feito com baixíssimo orçamento e num único plano sequência. Claro que é preciso comprar a ideia de que um menino é capaz de manter enquadramento, conhecer profundidade de campo, fazer travelings, panorâmicas e perder pouco foco por 80 minutos de filmagem ininterrupta. Mas o verdadeiro cineasta atrás da câmera convence, apesar do roteiro culminar nas inevitáveis discussões histéricas que contrastam a opção estética com uma espécie de teatro filmado. Completa a programação o inevitável filme francês da semana, “Más Notícias para o Sr. Mars”, uma comédia absurda, em que uma espiral de eventos conspira para enlouquecer seu protagonista. A direção é de Dominik Moll (“O Monge”) e o Sr. Mars é vivido por François Damiens (“Os Cowboys”). Clique nos títulos destacados para assistir a todos os trailers das estreias da semana.
Festival de Cannes completa 70 anos de relevância cinematográfica
O Festival de Cannes começa nesta quarta-feira (17/5) sua 70ª edição, repleto de estrelas e provocações, mas também em clima de medo por ataques terroristas e em meio a uma polêmica de mercado. Em seu aniversário de 70 anos, o evento promete uma disputa acirrada pela Palma de Ouro, já que privilegiou cineastas veteranos. São todos nomes de peso. Mesmo assim, entre os diretores da mostra competitiva, apenas o austríaco Michael Haneke já foi premiado. E ele venceu duas vezes: por “A Fita Branca” (2009) e “Amor” (2012). Seu novo filme é “Happy End”, sobre a crise dos refugiados na Europa, em que volta a trabalhar com Isabelle Huppert após “Amor”. A abertura do evento está a cargo de “Les Fantômes d’Ismael”, do francês Arnaud Desplechin (“Três Lembranças da Minha Juventude”), com Marion Cotillard. “Talvez eu não devesse dizer isto, mas não é fácil ser um diretor francês em Cannes”, afirmou o cineasta na entrevista coletiva de seu filme. “Há uma tensão, uma pressão com a imprensa, os espectadores… Há menos indulgência com os cineastas do país”. Apesar dessa declaração, há mais franceses que nunca no festival deste ano. A seleção reúne alguns dos cineastas mais famosos da nova geração do país. A lista inclui “L’Amant Double”, do sempre excelente François Ozon (“Dentro da Casa”), “Le Redoutable”, filme sobre Godard de Michel Hazanavicius (“O Artista”), “Rodin”, a cinebiografia do mestre da escultura com direção de Jacques Doillon (“O Casamento a Três”), e “120 Battements par Minute”, de Robin Campillo, responsável por “Eles Voltaram” (2004), que deu origem à série “Les Revenants”. Por sua vez, os americanos se destacam com “Wonderstruck”, novo filme feminino de Todd Haynes (“Carol”), estrelado por Julianne Moore e Michelle Williams, “Good Time”, dos irmãos Ben e Joshua Safdie (“Amor, Drogas e Nova York”), com Jennifer Jason Leigh e Robert Pattinson, “The Meyerowitz Stories”, do cineasta indie Noah Baumbach (“Frances Ha”), que junta Adam Sandler e Ben Stiller, e o western feminista “The Beguiled”, de Sofia Coppola (“Bling Ring”), remake de “O Estranho que Nós Amamos” (1971), com Nicole Kidman, Colin Farrell, Kirsten Dunst e Elle Fanning. Outros destaques incluem “You Were Never Really Here”, da escocesa Lynne Ramsay (“Precisamos Falar Sobre o Kevin”), em que Joaquin Phoenix luta contra o tráfico sexual, “The Killing of a Sacred Deer”, segundo filme do grego Yorgos Lanthimos estrelado por Colin Farrell, após o sucesso de “O Lagosta” (2015), e o retorno de cineastas sempre apreciados no circuito dos festivais, como Sergei Loznitsa (“Na Neblina”), Hong Sangsoo (“A Visitante Francesa”), Bong Joon-Ho (“Expresso do Amanhã”), Naomi Kawase (“Sabor da Vida”), Fatih Akin (“Soul Kitchen”), Andrey Zvyagintsev (“Leviatã”) e Kornél Mandruczó (“White Dog”). Apenas três filmes são dirigidos por mulheres (Coppola, Kawase e Ramsay), mesmo número da seleção do ano passado. Mas o que tem mais se discutido na véspera do festival é a representação da Netflix na competição. Os exibidores franceses fizeram pressão contra os organizadores por terem selecionado dois filmes que não serão exibidos nos cinemas: “The Meyerowitz Stories”, de Noah Baumbach, e “Okja”, de Bong Joon-Ho. Ambos serão disponibilizados apenas via streaming na França, pois os exibidores não abrem mão de uma janela de 36 meses de exclusividade, antes que um filme possa ser disponibilizado por via digital no país. Por conta da controvérsia, o festival acabou se comprometendo a não selecionar mais filmes com distribuição exclusiva em streaming. Mas a questão é bem mais complexa que simplesmente barrar longas produzidos pela Netflix. No ano passado, o filme vencedor da Câmera de Ouro, o francês “Divines”, foi adquirido pela Netflix após passar no festival e não respeitou a janela de 36 meses para entrar no catálogo da plataforma de streaming. O presidente do júri deste ano, o espanhol Pedro Almodóvar, já se posicionou a respeito da polêmica, afirmando que seria um paradoxo que um filme premiado em Cannes não pudesse ser visto nos cinemas. “Seria um enorme paradoxo que uma Palma de Ouro (…) ou qualquer outro filme premiado não pudesse ser visto em salas” de cinema, disse Almodóvar, convocando as plataformas de streaming a “aceitar as regras do jogo”. A discussão ainda vai longe, conforme o mercado evolui com as novas tecnologias, como a digitalização que as próprias salas de cinema atualmente usufruem. E vale lembrar que até cartaz do festival (foto acima) foi acusado de retocar digitalmente as curvas clássicas de Claudia Cardinale. Maladies du 21ème siècle. Mas o simples fato de Cannes estar no centro da polêmica comprova a relevância duradoura do evento, 70 anos após seu primeiro tapete vermelho.
Powers Boothe (1948 – 2017)
Morreu o veterano ator Powers Boothe, um dos grandes vilões do cinema e da TV, que enfrentou Jean-Claude Van Damme, Superman e os Agentes da SHIELD. Ele morreu em casa, em Los Angeles, aos 68 anos, de causas naturais enquanto dormia. Boothe, que cresceu em uma fazenda no Texas, começou sua carreira de ator no teatro, em uma série de produções shakespearianas, e foi fazer sua estréia na Broadway no final dos anos 1970. Por coincidência, foi como um ator numa peça de Shakespeare que ele apareceu pela primeira vez no cinema, durante uma sequência do romance clássico “A Garota do Adeus” (1977), de Herbert Ross. Também teve um pequeno papel em “Parceiros da Noite” (1980), de William Friedkin, antes de se voltar para a TV. Ele conquistou o primeiro reconhecimento da carreira ainda em 1980, ao interpretar seu maior vilão: Jim Jones, o líder de uma seita suicida, no telefilme baseado na tragédia real da morte de seus seguidores. Boothe venceu o Emmy de Melhor Ator pela produção, exibida no Brasil como “Jim Jones: O Pastor do Diabo”. A repercussão do prêmio o levou a conquistar papéis importantes em filmes cultuados, como “O Confronto Final” (1981), de Walter Hill, “Amanhecer Violento” (1984), de John Milius, e “A Floresta de Esmeraldas” (1985), de John Boorman. Este último foi filmado no Brasil, ocasião em que Boothe contracenou com vários atores brasileiros, como Dira Paes e Gracindo Júnior. Paralelamente, ele continuou desenvolvendo trabalhos na TV, como uma série em que encarnava o célebre detetive noir Phillip Marlowe – vivido por Humphrey Bogart no cinema. Sua filmografia ainda destaca os últimos filmes de ação violenta à moda antiga, antes do gênero virar pastiche de si mesmo e passar a alimentar o mercado de vídeo. Em ótimos passatempos da época, enfrentou Nick Nolte como rei do crime em “O Limite da Traição” (1987), foi parceiro do falecido Brandon Lee como policial incorruptível em “Rajada de Fogo” (1992) e cultivou o extremo da canastrice como terrorista em “Morte Súbita” (1995), no qual lutou contra Jean-Claude Van Damme. Graças à voz grave e presença intimidadora, acabou consolidando um perfil de intérprete de malvadões, que explorou de forma caricatural em “Sin City” (2005) e sua sequência de 2014. E também como dublador dos supervilões dos quadrinhos Gorila Grodd, em duas séries animadas da “Liga da Justiça”, e Lex Luthor, no longa animado “Superman: Brainiac Ataca” (2006). Ao mesmo tempo, mostrou versatilidade ao ingressar em diferentes gêneros, como o western em “Tombstone – A Justiça Está Chegando” (1993), o romance em “Céu Azul” (1994) e o drama histórico em “Nixon” (1995), de Oliver Stone. Sua presença também engrandeceu séries premiadas. Um de seus papéis mais memoráveis foi como o implacável dono de saloon Cy Tolliver na melhor série já feita sobre o Velho Oeste, “Deadwood” (2004-2006). Viveu ainda o perigoso vice-presidente dos EUA Noah Daniels na série “24 Horas” e no telefilme “24 Horas: A Redenção” (2008), o juiz Valentine “Wall” Hatfield na premiada minissérie “Hatfields & McCoys” (2012), o pai de Connie Britton em “Nashville” (de 2012 a 2014) e o vilão Gideon Malick na temporada passada de “Agents of SHIELD”, papel também vislumbrado no filme “Os Vingadores” (2012).
Guardiões da Galáxia Vol. 2 lidera bilheterias brasileiras pela segunda semana
“Guardiões da Galáxia Vol. 2” foi o filme mais assistido no Brasil pelo segundo fim de semana consecutivo. A nova produção de super-heróis da Marvel levou 672 mil pessoas aos cinemas brasileiros entre a última quinta-feira (4/5) e o domingo (7/5), arrecadando R$ 12 milhões. Já são 2,6 milhões de ingressos vendidos no país, totalizando R$ 45,3 milhões. A arrecadação nacional acompanha o sucesso mundial do filme, que soma US$ 427 milhões em todos os mercados, apesar de ter estreado nos EUA e na China apenas na sexta (5/5) – obviamente, em 1º lugar. “Velozes e Furiosos 8” também segue na 2ª colocação, visto por 425 mil espectadores e faturando R$ 7,2 milhões no último fim de semana. Apesar da queda, o oitavo capítulo da franquia de carros movidos a Vin Diesel é uma das maiores bilheteria de 2017, com 7,3 milhões de ingressos vendidos e R$ 118 milhões faturados. Até o 3º lugar permanece igual, mantendo a fantasia religiosa “A Cabana” entre os longas mais vistos da semana, com R$ 5,5 milhões. Malhado pela crítica por seu conteúdo apelativo e exibido sem maiores consequências nos EUA, o filme virou um fenômeno no Brasil, visto por quase 4 milhões de pessoas, com uma bilheteria acumulada de R$ 53 milhões. As estreias da semana ficaram entre o 5º e o 8º lugares, com o terror “A Autópsia” melhor colocado, seguido pelo besteirol nacional “Ninguém Entra, Ninguém Sai”. Filme com maior distribuição do fim de semana (400 salas), a comédia brasileira levou 78 mil pessoas aos cinemas e rendeu R$ 1,6 milhão.
Louis Garrel vive Jean-Luc Godard em novo teaser de cinebiografia
O filme francês “Le Redoutable”, em que o ator Louis Garrel (“Dois Amigos”) vive o cineasta Jean-Luc Godard, ganhou cinco fotos e um novo teaser. Com legendas em inglês, a prévia registra Godard em meio a uma passeata, possivelmente durante a primavera de Paris. O diálogo desdenha do Festival de Cannes, que em 1968, pela única vez em sua história, foi interrompido em função dos protestos sociais que agitaram a França no período. Além de Garrel, que está irreconhecível com as entradas de calvice de Godard, o elenco também destaca Stacy Martin, revelação de “Ninfomaníaca” (2013), como a atriz alemã Anne Wiazemsky. O filme vai contar o romance entre Godard e Wiazemsky, iniciado nos bastidores de “A Chinesa”, em 1967. Ela tinha apenas 19 anos na época, mas os dois se casaram e ficaram juntos por mais de uma década. A trama é baseada no livro autobiográfico “Un An Après”, de Wiazemsky, e tem direção de Michel Hazanavicius, que retorna ao tema dos bastidores cinematográficos de “O Artista”, seu filme mais conhecido – e que lhe rendeu do Oscar de Melhor Direção em 2012. “Le Redoutable” terá sua première no Festival de Cannes 2017 e fará sua estreia comercial em setembro na França. Ainda não há previsão para seu lançamento no Brasil.
Semana sem blockbusters infla besteirol nacional e oferece melhores opções alternativas
A primeira semana de maio é a última do ano sem lançamento de blockbuster americano. Por isso, as estreias mais amplas são um besteirol nacional, “Ninguém Entra Ninguém Sai”, e uma animação derivativa da China, “Rock Dog – No Faro do Sucesso”. Com maior distribuição, a comédia brasileira leva a 400 salas a premissa de “Vendo ou Alugo” (2013), trocando a casa à beira do morro carioca por um motel – ainda que supostamente seja baseada numa crônica de Luis Fernando Veríssimo. Já a animação, apesar de ser chinesa, tem direção do americano Ash Brannon (“Toy Story 2”) e elementos de “Kung Fu Panda” (2008) e “Sing” (2016), mas nenhuma das virtudes do roteiro ou da técnica de suas inspirações. Ironicamente, tanto a animação quanto a comédia de motel são infantis. Por sinal, “Ninguém Entra Ninguém Sai” deve ser a comédia de motel mais pudica já feita na história do cinema mundial. Quem busca uma sessão mais adulta pode se surpreender com o terror “A Autópsia”, premiado em vários festivais, inclusive no prestigioso Sitges e na mostra Midnight Madness do Festival de Toronto. A trama gira em torno da autópsia de uma mulher desconhecida, realizada por pai e filho legistas, durante a noite num necrotério. Ela foi encontrada no porão de uma casa onde aconteceu um massacre e quanto mais os dois descobrem sobre a causa de sua morte, mais o necrotério se torna sombrio como um local mal-assombrado, com direito a tempestade e eventos sobrenaturais. Apesar de falada em inglês, a direção é do norueguês André Øvredal, do cultuado “O Caçador de Troll” (2010). O resto da programação é restrita ao circuito limitado, mas as opções alternativas são um verdadeiro festival de cinema, com títulos que podem ser considerados obrigatórios para os cinéfilos que gostam de preencher listas de melhores do ano. A melhor sugestão americana vai para o drama “Melhores Amigos”, que só entrou em cartaz em 12 salas. Para se ter ideia, o longa tem 98% de aprovação no Rotten Tomatoes, foi premiado em festivais, apareceu entre os filmes favoritos da crítica americana em 2016, figurou em troféus indies e muitos questionaram sua ausência no Oscar, especialmente na categoria de Melhor Roteiro, onde se destaca um brasileiro, Mauricio Zacharias. Ele é parceiro do diretor Ira Sachs neste e em outros dramas premiados, como “O Amor é Estranho” (2014) e “Deixe a Luz Acesa” (2012), além de ter escrito no Brasil o excelente “O Céu de Suely” (2006). Em “Melhores Amigos”, Zacharias e Sachs contam a história de dois adolescentes cuja amizade precisa enfrentar disputas financeiras entre suas famílias, num retrato sensível sobre como as dificuldades econômicas deixam marcas. Melhor que este, só “Clash”, uma alternativa que parece arriscada, já que se trata de uma produção egípcia distribuída também em apenas 12 salas, mas não lhe faltam a tensão e a ousadia que o cinema americano há muito perdeu. Com impressionantes 100% de aprovação no Rotten Tomatoes, é um suspense dramático passado durante a Primavera Árabe no Egito. Claustrofóbico, acompanha um grupo confundido com integrantes da Irmandade Islâmica, trancafiado pela polícia num caminhão de oito metros com fanáticos reais. Neste espaço exíguo, o que menos importa é provar sua identidade, já que o conflito acontece a seu redor, nas ruas e ao lado, entre os prisioneiros. A direção é de Mohamed Diab, que antes fez o igualmente impactante “Cairo 678” (2010), sobre mulheres em busca de justiça contra o assédio sexual na sociedade muçulmana. Com todos os elementos que rendem filmes cults, abriu a mostra Um Certo Olhar, do Festival de Cannes do ano passado, e foi premiado em diversos festivais. Outro drama indie bem cotado, “Norman – Confie em Mim” traz uma performance arrebatadora do veterano Richard Gere (“O Exótico Hotel Marigold 2”), obcecado em seu objetivo de conhecer pessoas importantes e conectá-las visando aumentar seu networking, até que, por acaso, finalmente tem a sorte de criar laços com o futuro Primeiro Ministro de Israel. O filme, que tem 89% de aprovação no Rotten Tomatoes, marca a estreia em Hollywood de Joseph Cedar, aclamado por seu filme anterior, “Nota de Rodapé” (2011). Apesar de ter feito carreira em Israel, ele nasceu em Nova York. “A Filha” é uma adaptação australiana e contemporânea de “O Pato Selvagem”, peça do final do século 19 do norueguês Henrik Ibsen. A conhecida fábula moral mostra que a mentira pode ter mais valor que a verdade, diante de uma revelação com capacidade de destruir uma família e conduzir ao suicídio. O diretor e roteirista estreante Simon Stone ganhou vários prêmios em seu país pela obra, que tem 76% de aprovação no Rotten Tomatoes. “Sobre Viagens e Amores” marca a volta de Gabriele Muccino ao cinema italiano, mas sem sair dos EUA. Especialista em dramas lacrimosos, ele caiu nas graças de Hollywood com “À Procura da Felicidade” (2006), estrelado por Will Smith e seu filho Jaden, mas seus filmes seguintes foram fraquinhos, fraquinhos. Desta vez, conta a história de um casal de estudantes italianos que viajam para San Francisco, nos EUA, onde vão passar uma temporada na casa de um casal gay. O problema é que a menina é católica e homofóbica e não sabia deste detalhe da hospedagem. “A Mulher que se Foi” é um longa típico do filipino Lav Dias, com as características que marcam sua filmografia peculiar. Ou seja, trata-se de um drama filmado em preto e branco, com takes demorados, longuíssima duração (em torno de 4 horas) e consagrado em festivais de prestígio. A história contemplativa acompanha uma mulher que, após passar 30 anos presa, resolve se vingar do antigo amante. Venceu simplesmente o Leão de Ouro do Festival de Veneza do ano passado. Dois filmes brasileiros que também marcaram grandes mostras internacionais completam a programação. “Beduíno”, do eterno marginal Júlio Bressane, tem uma das piores distribuições da semana. Traz Fernando Eiras e Alessandra Negrini encenando fantasias num apartamento, numa metáfora sobre a vida e a arte, de proposta similar ao experimentalismo de Jacques Rivette (1928-2016) nos anos 1960. Foi selecionado para os festivais de Locarno e Roterdã. Por fim, com exibição num único horário de uma única sala do Grupo Estação, no Rio, o provocante “Éden” finalmente faz sua estreia. O longa que consagrou Leandra Leal como Melhor Atriz nos festivais do Rio de 2012 e Gramado de 2013, e também passou no Festival de Roterdã, demorou cinco anos para chegar aos cinemas. E chega assim, escondidinho, no momento em que seu diretor, Bruno Safadi, vem recebendo elogios por sua trabalho numa novela, “Novo Mundo”. “Éden” foi rodado com baixíssimo orçamento e em tempo exíguo, mas chama atenção pela proposta ousada. Tão ousada que seu drama psicológico, que critica a exploração e o fanatismo evangélico, foi evitado pelas distribuidoras de cinema. Felizmente, o longa também está ganhando distribuição por streaming, pelo Telecine Play. Clique nos títulos dos lançamentos para ver os trailers de todas as estreias da semana.
Guardiões da Galáxia Vol. 2 estreia em 1º lugar no Brasil
“Guardiões da Galáxia Vol. 2”, novo filme da Marvel, deixou “Velozes e Furiosos 8” para trás em sua estreia no Brasil. Confirmando informações do mercado internacional, a produção levou mais de 1,2 milhão de pessoas aos cinemas do país, arrecadando R$ 21,7 milhões. Ainda inédito nos Estados Unidos e na China, “Guardiões da Galáxia Vol. 2” já arrecadou US$ 106 milhões mundialmente. Com o sucesso do filme de super-heróis, o oitavo “Velozes e Furiosos” caiu para a 2ª colocação, com 684 mil espectadores e faturamento de R$ 11,4 milhões. O pódio se completa com a fantasia religiosa “A Cabana”, visto por 396 mil espectadores. Os dados se referem ao fim de semana estendido, que vai da última quinta-feira (27/4) ao feriado desta segunda (1/5).
Netflix revela planos de lançar seus filmes no cinema
Após a polêmica causada pela inclusão de dois filmes da Netflix no Festival de Cannes, a plataforma de streaming deixou claro que está revendo seus planos de lançamento, buscando uma alternativa cinematográfica. Mas para isso precisará superar um grande entrave para a exibição de suas produções nos cinemas do país: a janela de exibição. Na França, um filme só pode ser exibido em um serviço de streaming 36 meses após sua saída dos cinemas. “Estamos certos de que os amantes franceses de cinema não vão querer ver esses filmes três anos depois do resto do mundo”, disse a Netflix em um comunicado. “Com isso dito, nós estamos explorando a distribuição teatral destes dois filmes na França, para uma estreia limitada, na mesma data da disponibilização na Netflix. Estamos entusiasmados por explorar todas e quaisquer opções que deem a esses filmes a oportunidade de serem vistos por um público tão amplo quanto possível, em uma variedade de telas, porque, como os exibidores franceses, também queremos continuar a contribuir para o desenvolvimento e financiamento de filmes”. Os filmes da Netflix selecionados para o festival francês são “Okja”, de Bong Joon-ho, e “The Meyerowitz Stories, de Noah Baumbach. Mas os planos da empresa não se resumem apenas a estes dois lançamentos e exclusivamente à França. A diretoria da Netflix enviou um comunicado aos seus acionistas mencionando estar aberta a negociar com redes exibidoras em todo o mundo para levar suas produções aos cinemas em grande escala. “Como nossos assinantes financiam estes filmes, eles deveriam ser os primeiros a assisti-los”, diz o texto. “Mas nós também estamos abertos para apoiar grandes redes de cinemas dos Estados Unidos, como AMC e Regal, se elas quiserem oferecer nossos filmes, como ‘Bright’, com Will Smith”. A Netflix conta, especialmente nos EUA, com o interesse dos grandes estúdios de Hollywood para conseguir avanços sobre a barreira da janela de exibição. Os estúdios também estão interessados em disponibilizar seus filmes em serviços de streaming como a Netflix, mas para isso não querem esperar os 90 dias obrigatórios que um longa-metragem precisa aguardar após sua saída de cartaz no país para reaparecer em outro meio. Disponibilizar os filmes mais rapidamente para consumo online seria uma forma dos estúdios competirem não apenas com a Netflix, mas também com a pirataria, além de lhes dar uma nova fonte de renda. Por outro lado, os exibidores temem que isso prejudique o hábito de assistir filmes no cinema. A pressão de Hollywood deve resultar numa diminuição da janela de exibição, fazendo com que os grandes sucessos do cinema possam ser disponibilizados mais rapidamente para consumo doméstico. Seria uma grande reviravolta, já que a Netflix sofreu boicote das redes americanas ao buscar um meio termo em seu primeiro filme. O plano original da empresa para “Beasts of No Nation” em 2015 era exibir a produção em alguns cinemas selecionados dos Estados Unidos, mas as redes de exibidores proibiram que seu circuito fosse utilizado e o filme só entrou em 31 salas independentes. Por conta disso, o serviço de streaming acabou desistindo dos cinemas, lançando seus filmes posteriores diretamente na plataforma.
Guardiões da Galáxia Vol. 2 estreia em mais de mil salas de cinema
“Guardiões da Galáxia Vol. 2” é o blockbuster da semana, com lançamento em 1.118 salas de cinema. Quando a franquia era praticamente desconhecida, vendeu quase 3 milhões de ingressos no Brasil. Agora, a expectativa é por um caminhão maior de dinheiro. Por isso, há mais efeitos, mais personagens, mais uma galáxia a ser salva. E também mais humor. O novo filme da Marvel é o mais divertido do ano até aqui, uma adaptação de quadrinhos que cumpre seu objetivo de entreter. A crítica norte-americana aprovou com 87% de satisfação no Rotten Tomatoes, mas a percentagem deve mudar até a estreia, que só vai acontecer nos Estados Unidos na próxima semana. Com “Velozes e Furiosos 8” ocupando mais da metade dos cinemas que sobraram, todos os demais lançamentos da semana são limitados. E até o circuito de arte encontra dificuldades para agendar as projeções, que somam seis estreias. Cinebiografia da escritora Emily Dickinson (1830-1886), a produção britânica de época “Além das Palavras” tem 91% de aprovação no Rotten Tomatoes e prêmios em festivais internacionais. Dirigida pelo veterano Terence Davis (“Amor Profundo”), apresenta o cotidiano opressor da poeta, que se rebelava contra a cultura machista e só foi publicada após sua morte. Outro drama de época, o francês “Além da ilusão” reúne Natalie Portman (“Jackie”) e Lily-Rose Depp (a filha de 17 anos de Johnny Depp) como irmãs. A trama acompanha as duas se mudando para Paris na véspera da 2ª Guerra Mundial, onde pretendem explorar seus dons para contatar os espíritos em shows de performance sobrenatural e acabam chamando atenção de um produtor de cinema, que resolve transformá-las numa sensação da indústria do entretenimento. O problema é o ciúmes que o relacionamento desperta e a época perigosa em que a trama acontece. Terceiro filme da jovem diretora Rebecca Zlotowski (“Grand Central”), com roteiro escrito em parceria com Robin Campillo (“Entre os Muros da Escola”), foi indicado ao César de Melhor Desenho de Produção por sua bela cenografia. O documentário francês “O Grande Dia” completa a programação internacional, mostrando quatro crianças, de diferentes lugares do mundo, que precisam vencer obstáculos importantes no começo de suas vidas. As estreias ainda incluem três produções nacionais. Com maior alcance, o drama “Elon Não Acredita na Morte” chega a 34 salas. Na trama, Rômulo Braga, vencedor do troféu de Melhor Ator no Festival de Brasília, entra em desespero quando sua mulher desaparece e embarca numa jornada pelo lado mais sinistro da cidade em busca de seu paradeiro. Primeiro longa de ficção de Ricardo Alves Jr. (documentário “Permanências”), teve projeção nos festivais de Cartagena, na Colômbia, e Roterdã, na Holanda. Mistura de ficção e falso documentário, “Vermelho Russo” recria a viagem de duas atrizes brasileiras para Moscou, onde vão estudar teatro e acabam se envolvendo num triângulo amoroso, precisando superar suas diferenças para sobreviver num país diferente. A direção é de Charly Braun, que já havia feito outro ótimo filme de turistas, “Além da Estrada” (2011). Ele também assina a história junto com Martha Nowill, uma das atrizes-personagens, premiada como Melhor Roteiro no último Festival do Rio. Por fim, “Mais do que Eu Possa Me Reconhecer” chega em distribuição invisível – em cartaz numa sala, em apenas um horário, no Rio. A obra de Allan Ribeiro (“Esse Amor Que Nos Consome”) filma o artista plástico Darel Valença Lins, enquanto ele grava o próprio filme com uma câmera de vídeo. O caráter experimental rendeu prêmios em festivais de pouca repercussão popular, como os de Tiradentes, Triunfo e Vitória. Clique nos títulos em destaque para ver os trailers de todas as estreias da semana.
Velozes e Furiosos 8 lidera bilheterias com público de 5 milhões de pessoas no Brasil
Assim como nos EUA, “Velozes e Furiosos 8” não teve dificuldades para se manter no topo das bilheterias de cinema no Brasil. Em seu segundo fim de semana de exibição, o longa protagonizado por Vin Diesel e Dwayne Johnson vendeu 1,6 milhão de ingressos e rendeu R$ 27,8 milhões. Os números são impressionantes, porque, em apenas 11 dias, o longa ultrapassou a marca de 5 milhões de ingressos vendidos e faturou R$ 82,7 milhões nas bilheterias brasileiras. A diferença entre a venda de ingressos do oitavo filme da franquia de carros e os demais lançamentos é simplesmente brutal. Segundo o levantamento da consultoria Comscore, “Velozes e Furiosos 8” responde sozinho por metade da bilheteria do Top 10 do último fim de semana. Os dez filmes de maior sucesso renderam juntos R$ 54,5 milhões e venderam 3,2 milhões de ingressos. Ou seja, “Velozes e Furiosos 8” rendeu praticamente o mesmo que a soma total dos outros filmes. Antes da estreia do longa, o top 10 brasileiro vinha se mantendo no patamar de cerca de R$ 40 milhões de renda e 2,5 milhões de ingressos. Na semana em que “Velozes e Furiosos 8” chegou aos cinemas, os números subiram para R$ 62,6 milhões e 3,7 milhões de ingressos. Isto porque o filme teve a maior estreia do ano no país. Apesar da diferença abissal, o blockbuster da Universal não foi o único filme a repetir seu desempenho da semana passada. O resto do Top 3 também se manteve inalterado, com a fantasia religiosa “A Cabana” na 2ª colocação, com R$ 9,5 milhões e 582,3 mil ingressos, e a animação “O Poderoso Chefinho” em 3º lugar, com R$ 5,5 milhões e 356,3 mil ingressos. Já as estreias da semana não empolgaram. “Vida”, “Gostosas, Lindas e Sexies” e “Paixão Obsessiva” levaram, respectivamente, 660 mil, 494 mil e 386 mil espectadores aos cinemas. Mas este “fracasso” era esperado. O maior lançamento da quinta-feira (20/4), a sci-fi “Vida”, abriu em apenas 220 salas. Em comparação, “Velozes e Furiosos 8” foi lançado, uma semana antes, em cerca de 1,4 mil salas, o que é quase metade de todos os cinemas disponíveis no país (são pouco mais de 3 mil, ao todo). Nesta quinta, outro blockbuster vai enfrentar a correria de Diesel e Johnson nos cinemas: “Guardiões da Galáxia Vol. 2”.
Estreias: Nem feriado de Tiradentes faz Joaquim ter o lançamento que merece
Os cinemas demonstram pouco sinal de “Vida” neste feriadão. Com “Velozes e Furiosos 8” ocupando boa parte das telas do país, o maior lançamento desta quinta (20/4), a sci-fi “Vida”, tem que se contentar com 220 salas. Jake Gyllenhaal (“Animais Noturnos”) e Ryan Reynolds (“Deadpool”) são astronautas presos numa trama influenciada por “Alien” (1979), que até agradou a crítica americana (68% de aprovação), mas deu grande prejuízo (custou US$ 58 milhões e só fez US$ 28 milhões nos EUA). Segundo maior lançamento, o suspense “Paixão Obsessiva” leva a 130 salas um trash com cara de telenovela, que foi escondido da imprensa. O filme também estreia nesta semana nos EUA, com Katherine Heigl (série “State of Affairs”) determinada a tornar um inferno a vida de Rosario Dawson (série “Punho de Ferro”), nova mulher de seu ex-marido. Quase com o mesmo circuito, o besteirol nacional “Gostosas, Lindas e Sexies” deve gerar discussões… sobre gramática. A comédia gira em torno das aventuras de quatro gordinhas – Carolinie Figueiredo (novela “Malhação”), Cacau Protasio (“Vai que Cola”), Mariana Xavier (“Minha Mãe é uma Peça 2: O Filme”) e Lyv Ziese (novela “Boogie Oogie”). Enquanto isso, “Joaquim”, drama sobre Tiradentes, lançado no feriado de Tiradentes, fica restrito a 33 salas. Dirigido por Marcelo Gomes (“Cinema, Aspirinas e Urubus”), o filme apresenta um olhar bastante diferenciado sobre o personagem histórico brasileiro e foi selecionado para a mostra competitiva do Festival de Berlim, onde conseguiu repercussão internacional com críticas bastante positivas. O que aparentemente não faz a menor diferença para os exibidores de cinema no Brasil. Outros títulos excelentes também chegam no circuito limitado, após se destacaram em festivais europeus. O americano “Paterson”, de Jim Jarmusch (“Amantes Eternos”), foi um dos dramas mais elogiados de Cannes no ano passado e chegou a figurar em diversas listas de melhores de 2016 nos EUA. Muitos consideram que Adam Driver, no papel do motorista de ônibus que escreve poemas nas horas vagas, deveria ter sido indicado ao Oscar. Chega em 28 salas espraiadas por 13 cidades. Exibido no Festival de Berlim de 2016, o australiano “O Sonho de Greta” é uma comédia juvenil sensível, que mostra o delírio de uma garota no dia de seu aniversário de 15 anos. A projeção chama atenção para o formato inusitado em que foi filmado – numa proporção de imagem de 4:3. Venceu vários prêmios na Austrália. Também voltado ao público jovem, o francês “O Novato” conquistou troféus em festivais menores, como o IndieLisboa e o My French Film Festival. A produção gira em torno do mais novo e menos popular aluno da escola, que resolve dar uma festa para conquistar os colegas. Estreia em seis salas. A programação se encerra com o menor lançamento da semana: o documentário brasileiro “O Profeta das Águas”, sobre Aparecido Galdino Jacintho, mentor de um grupo religioso de camponeses que foi preso como subversivo nos anos 1970. O filme será exibido em apenas uma sala do Cine Araújo Campo Limpo, em São Paulo. Clique nos títulos de cada filme para assistir a todos os trailers das estreias.












