Kristen Stewart, Denis Villeneuve e Léa Seydoux integram o júri do Festival de Cannes 2018
A organização do Festival de Cannes 2018 divulgou o júri que irá eleger a Palma de Ouro e premiar os filmes da mostra competitiva. Além da presidente, a atriz Cate Blanchett (“Thor: Ragnarok”), previamente anunciada, o corpo de jurados inclui mais quatro mulheres e quatro homens, de sete nacionalidades diferentes. O júri inclui a atriz americana Kristen Stewart (“Personal Shopper”), a francesa Léa Seydoux (“Azul É a Cor Mais Quente”), a diretora americana Ava DuVernay (“Uma Dobra no Tempo”), o diretor canadense Denis Villeneuve (“Blade Runner 2049”), o diretor russo Andrei Zvyagintsev (“Sem Amor”), o diretor francês Robert Guédiguian (“Uma História de Loucura”), o ator taiwanês Chang Chen (“A Assassina”) e a cantora e compositora Khadja Nin, do Burundi. Uma das principais críticas à seleção deste ano foi a baixa representatividade de cineastas mulheres na mostra competitiva. Por conta disso, o diretor artístico do festival, Thierry Fremaux, disse à revista Variety ter conversado com mulheres da indústria do audiovisual para ouvir conselhos de como resolver esse problema. Uma das sugestões foi aplicada na diversificação do júri, mas também será estendida para as comissões que escolhem os filmes, a partir da próxima edição. “Nós começamos a prestar mais atenção à proporção de gênero nas nossas comissões de seleção, por exemplo. Agora, duas de cada três comissões têm tantas mulheres quanto homens”, disse ele à publicação. O Festival de Cannes 2018 acontece de 8 a 19 de maio, quando serão anunciados os vencedores.
Festival de Cannes anuncia seleção de 2018 com filmes de Spike Lee, Godard e Jia Zhangke
O presidente do Festival de Cannes, Thierry Fremaux, anunciou nesta quinta (12/4) a leva inicial de filmes que serão exibidos no evento deste ano. Apesar da inclusão de alguns realizadores bastante conhecidos dos cinéfilos, houve um certo anticlímax na revelação, já que poucos filmes listados despertaram expectativas. O que mais chamou atenção foi a inclusão de novos longas de dois cineastas considerados prisioneiros políticos, o iraniano Jafar Panahi e o russo Kirill Serebrennikov, que estão em prisão domiciliar em seus países. Ambos vão disputar a Palma de Ouro. O caso de Panahi é um fenômeno. Desde que foi preso e proibido de filmar, já rodou quatro longas, contando o atual “Three Faces”. A 71ª edição do festival selecionou – até o momento – apenas dois diretores americanos: Spike Lee, que volta a Cannes depois de 27 anos – após “Febre da Selva” (1991) – e David Robert Mitchell, que lançou seus dois filmes anteriores na mostra paralela Semana da Crítica. Desta vez, ele vai competir pela Palma de Ouro com “Under The Silver Lake”, que teve seu trailer revelado. Já o filme de Spike Lee é “BlacKkKlansman”, história de um policial afro-americano que consegue se infiltrar na organização racista Ku Klux Klan. O festival também voltará a receber velhos habitués da Croisette, como o o japonês Hirokazu Kore-Eda, o italiano Matteo Garrone, o chinês Jia Zhangke e o veterano cineasta francês Jean-Luc Godard, atualmente com 87 anos de idade. A aparição mais celebrada na lista, porém, é de um estreante em Cannes, o polonês Pawel Pawlikowski, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2015 por “Ida”. Seu novo filme “Cold War” marca o retorno de uma produção polonesa à disputa da Palma de Ouro após duas décadas de ausência na competição. Como já é praxe e nem os últimos avanços parecem modificar, filmes dirigidos por mulheres continuam a ser minoria absoluta no evento. Apenas três diretoras estão na disputa pelo principal prêmio: a francesa Eva Husson, a libanesa Nadine Labaki e a italiana Alice Rohrwacher. Apesar disso, o júri da Palma de Ouro de Cannes será presidido por uma mulher, a atriz australiana Cate Blanchett, enquanto outra, a diretora francesa Ursula Meier, tem a responsabilidade de eleger o melhor filme de cineasta estreante para a premiação da Câmera de Ouro. Dois filmes de diretores brasileiros ganharão exibições fora de competição. Haverá uma sessão especial com a estreia mundial do musical “O Grande Circo Místico” (2016) de Cacá Diegues, e a projeção, entre as sessões à meia-noite, de “Artic”, drama de sobrevivência estrelado pelo dinamarquês Mads Mikkelsen, assinado pelo paulista estreante em longas Joe Penna. Com abertura de “Todos lo Saben”, longa-metragem rodado em espanhol pelo iraniano Asghar Farhadi, o Festival de Cannes 2018 vai acontecer entre os dias 8 e 19 de maio – sem filmes da Netflix, sessões adiantadas para a imprensa e selfies no tapete vermelho. Veja abaixo, a primeira lista de filmes selecionados. MOSTRA COMPETITIVA “Todos lo Saben”, Asghar Farhadi (Irã) “Le livre d’image”, Jean-Luc Godard (França) “BlacKkKlansman”, Spike Lee (EUA) “Three Faces”, Jafar Panahi (Irã) “Cold War”, Pawel Pawlikowski (Polônia) “Leto”, Kirill Serebrennikov (Rússia) “Lazzaro Felice”, Alice Rohrwacher (Itália) “Under The Silver Lake”, David Robert Mitchell (EUA) “Capernaum”, Nadine Labaki (Líbano) “At War”, Stephane Brizé (França) “Asako I&II”, Ryusuke Hamaguchi (Japão) “Sorry Angel”, Christophe Honoré (França) “Dogman”, Matteo Garrone (Itália) “Girls of the Sun”, Eva Husson (França) “Yomeddine”, A.B Shawky (Egito) “Burning”, Lee-Chang Dong (Coreia do Sul) “Shoplifters”, Kore-Eda Hirokazu (Japão) “Ash Is Purest White”, Jia Zhang-Ke (China) SESSÕES ESPECIAIS “Dead Souls”, Wang Bing (China) “10 Years In Thailand”, Aditya Assarat, Wisit Sasanatieng, Chulayarnon Sriphol & Apichatpong Weerasethakul (Tailândia) “Pope Francis – A Man Of His Word”, Wim Wenders (Alemanha) “La Traversée”, Romain Goupil (França) “To The Four Winds”, Michel Toesca (França) “O Grande Circo Místico”, Carlos Diegues (Brasil) “The State Against Mandela And The Others”, Nicolas Champeaux & Gilles Porte (França) SESSÕES DA MEIA-NOITE “Arctic”, Joe Penna (Brasil) “The Spy Gone North”, Yoon Jong-Bing (Coreia do Sul) FORA DE COMPETIÇÃO “Le Grand Bain”, Gilles Lellouche (França) “Han Solo: Uma História Star Wars”, Ron Howard (EUA) MOSTRA UM CERTO OLHAR “Long Day’s Journey Into Night”, Bi Gan (China) “Little Tickles”, Andréa Bescond & Eric Métayer ( França) “Sofia”, Meyem Benm’Barek (França) “Border”, Ali Abbasi (Irã) “Sextape”, Antoine Desrosières (França) “The Gentle Indifference Of The World”, Adilkhan Yerzhanov (Cazaquistão) “El Ángel”, Luis Ortega (Argentina) “In My Room”, Ulrich Kohler (Alemanha) “The Harvesters”, Etienne Kallos (África do Sul) “My Favorite Fabric”, Gaya Jiji (Síria) “Friend”, Wanuri Kahiu (Quênia) “Euphoria”, Valeria Golino (Itália) “Angel Face”, Vanessa Filho (França) “Girl”, Lukas Dhont (Bélgica) “Manto”, Nandita Das (Índia)
Cartaz do Festival de Cannes 2018 traz beijo clássico de O Demônio das Onze Horas
Em meio à polêmica com a Netflix, o Festival de Cannes divulgou nesta quarta (11/4) o cartaz oficial de sua 71ª edição, que destaca um beijo clássico da nouvelle vague, entre os atores Jean-Paul Belmondo e Anna Karina no filme “O Demônio das Onze Horas” (Pierrot le Fou, 1965), de Jean-Luc Godard. Veja acima a cena original e abaixo o pôster. O cartaz também presta homenagem ao fotógrafo de cena (“still”, no jargão cinematográfico) Georges Pierre (1927-2003), que começou carreira nos anos 1960 junto a nouvelle vague e também foi fundador da Association des Photographes de Films, entidade responsável pelo reconhecimento do ofício como arte. A arte final foi concebido pela designer francesa Flore Maquin, de 27 anos, que usa desenho, pintura e computação gráfica em seus trabalhos. Apaixonada por cinema, ela faz versões alternativas e releituras de vários cartazes clássicos de filmes. Seus trabalhos ficaram tão conhecidos que ela se tornou colaboradora de estúdios, canais e produtoras como Universal Pictures, Paramount Channel, Europacorp e Wild Side. A ilustração sucede uma arte polêmica. No ano passado, o uso de uma imagem da atriz italiana Claudia Cardinale acabou chamando atenção pelo excesso de retoques, que tornou a estrela bem mais magra do que realmente era. Claudia veio a público em defesa do trabalho. “É um pôster e, para além de me representar, representa uma dança, um voo. A foto foi retocada para acentuar o efeito da leveza e transformar em um personagem de sonho; é uma sublimação. Preocupações com o realismo não têm lugar aqui”, ela comentou. O Festival de Cannes 2018 vai acontecer de 8 a 19 de maio, tendo como presidente do júri a atriz Cate Blanchett (“Thor: Ragnarok”). O filme de abertura será “Todos lo Saben”, do iraniano Asghar Farhadi (“A Separação”), estrelado pelo casal espanhol Javier Bardem e Penelope Cruz (ambos de “Vicky Cristina Barcelona”).
Netflix anuncia que não exibirá mais filmes no Festival de Cannes
A Netflix decidiu contra-atacar o Festival de Cannes, após o presidente do evento anunciar que as produções da plataforma estavam banidas da disputa da Palma de Ouro, mas poderiam ser exibidos fora de competição. Ted Sarandos, diretor de conteúdo da Netflix, disse, então, que não via sentido em participar do festival francês, citando desrespeito a seus cineastas. “Queremos que nossos filmes participem em pé de igualdade com todos os outros cineastas”, disse o executivo, em entrevista à revista Variety. “Há um risco se seguirmos por esse caminho, de nossos cineastas serem tratados desrespeitosamente no festival. Eles definiram o tom. Não acho que será bom para nós participarmos.” Os filmes da Netflix que deveriam ser exibidos incluem “Roma”, de Alfonso Cuarón, “Norway”, de Paul Greengrass, “Hold the Dark”, de Jeremy Saulnier e até “The Other Side of the Wind”, filme inacabado de Orson Welles, que foi finalizado com investimento da plataforma. Além disso, alguns documentários estavam cotados, como “They’ll Love Me When I’m Dead”, de Morgan Neville, justamente sobre Welles. Sarandos considerou que Thierry Fremaux visou especificamente a Netflix em suas declarações, e não serviços de streaming em geral. “A regra era implicitamente sobre a Netflix, e Thierry falou explicitamente sobre a Netflix quando anunciou a regra.” O diretor do festival tomou a medida de barrar a Netflix da competição, após a plataforma participar com dois longas da disputa do ano passado, “Okja”, de Bong Joon-ho, e “Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe”, de Noah Baumbach, o que causou revolta entre alguns cineastas mais tradicionais, como Pedro Almodóvar, presidente do júri de 2017, e representantes do parque exibidor francês, contrariados por o festival abrigar filmes que não passariam nos cinemas. Na França, um filme só pode ser exibido em um serviço de streaming 36 meses após sua saída dos cinemas, o que não contempla os interesses da Netflix, que investe bilhões na produção de seus filmes. Trata-se da maior janela (espaço entre lançamento de cinema e chegada em outras mídias) de todo o mundo. O Festival de Cannes 2018 vai acontecer de 8 a 19 de maio, tendo como presidente do júri a atriz Cate Blanchett (“Thor: Ragnarok”). O filme de abertura será “Todos lo Saben”, do iraniano Asghar Farhadi (“A Separação”), estrelado pelo casal espanhol Javier Bardem e Penelope Cruz (ambos de “Vicky Cristina Barcelona”).
Han Solo terá première mundial no Festival de Cannes 2018
A organização do Festival de Cannes 2018 anunciou oficialmente a inclusão de um filme da franquia “Star Wars” em sua programação. “Han Solo: Uma História Star Wars” será exibido pela primeira vez no mundo durante o festival francês, numa sessão especial fora de competição. O anúncio foi feito nesta sexta-feira (6/4), após vários sites americanos “furarem” a revelação. Marcada para 15 de maio, a exibição ocorrerá dez dias antes do lançamento oficial do filme nos cinemas. Apesar de conhecido por sua seleção de “filmes de arte”, Cannes também serve de palco para grandes lançamentos comerciais. Como parâmetro, “Han Solo” será o terceiro “Star Wars” apresentado no evento, após “Ataque dos Clones”, em 2002, e “A Vingança dos Sith”, em 2005.
Festival de Cannes 2018 veta filmes da Netflix e selfies no tapete vermelho
A organização do Festival de Cannes 2018 confirmou o veto a produções da Netflix na competição pela Palma de Ouro deste ano, após a polêmica causada pela exibição de dois filmes do serviço de streaming na mostra competitiva do ano passado. A informação foi dada pelo diretor do festival, Thierry Fremaux, em entrevista coletiva, que ressaltou que a participação de “Okja”, de Bong Joon-ho, e “Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe”, de Noah Baumbach, “causou enorme controvérsia ao redor do mundo”. Trata-se, claro, de um exagero provinciano. A polêmica foi localizada no mercado francês, que tem a maior janela de reserva de lançamentos cinematográficos do mundo – 36 meses entre a exibição em cinema e a disponibilização em streaming de uma produção, contra 3 meses nos Estados Unidos. “No ano passado, quando selecionamos dois de seus filmes, achei que poderia convencer a Netflix a lançá-los nos cinemas. Eu fui presunçoso: eles se recusaram”, disse Fremaux. “As pessoas da Netflix adoraram o tapete vermelho e gostariam de nos mostrar mais filmes. Mas eles entenderam que sua intransigência em relação ao modelo (de negócios) colide com a nossa”. A Netflix poderá, no entanto, exibir filmes à margem do festival, fora da competição oficial, disse Fremaux. O diretor do festival também anunciou a proibição de selfies no tapete vermelho e o fim das sessões matutinas para a imprensa. A partir deste ano, os críticos precisarão disputar lugar com o público e convidados na première mundial ou aguardar sessões posteriores dos filmes exibidos no festival. Para Fremaux, os selfies criam uma “bagunça” e são bregas. “Vão contra o que fez a reputação de Cannes: uma certa elegância, discrição”, concluiu. A seleção oficial dos filmes que participarão do festival será anunciada no dia 12 de abril. A atriz australiana Cate Blanchett vai presidir o júri do evento deste ano, que acontecerá na Riviera francesa de 8 a 19 de maio.
Em Pedaços transforma o ressurgimento da ameaça nazista em thriller
Um thriller assustador, provocador, que faz pensar… e muito. “Em Pedaços”, trabalho do cineasta alemão de ascendência turca Fatih Akin, mexe fundo na ferida do preconceito, no papel da justiça, na violência que gera mais violência, no dilema moral que se apresenta em situações desesperadoras. Muito bem realizado, com um diretor que não só sabe filmar bem, mas sabe o que quer e que debates impulsionar. Foi reconhecido pelo Globo de Ouro e pelo Critics’ Choice Awards como o Melhor Filme Estrangeiro do ano e Diane Kruger foi premiada como Melhor Atriz em Cannes. Foi, ainda, o indicado pela Alemanha para entrar na corrida do Oscar, mas ficou de fora da lista final. A personagem Katja, em brilhante desempenho de Diane Kruger, vê o mundo desabar aos seus olhos quando concretiza que perdeu tudo o que dava sentido à sua existência. Alemã, casada com um turco e com um filho de 7 anos que adorava, vê a vida deles ceifada por uma bomba, colocada no escritório do marido num dia em que o menino estava lá com o pai. Ela descobrirá que a morte brutal não foi atentado de nenhum muçulmano radical, como se pretendia, não tinha a ver com imigrantes ou com bandidos vindos de fora. Foi um produto genuinamente alemão, tão loiro quanto ela: um grupo de neonazistas. Envolvia até uma bela jovem alemã, que ela havia visto estacionar sua bicicleta no local do escritório. Como Katja lidará com essa situação demolidora é o que o filme desenvolverá, numa narrativa pra lá de envolvente e que mantém o suspense até o final. Provoca reações na plateia, que convidam a uma conversa daquelas de pensar na vida, nas sociedades do mundo atual, nos rumos da própria humanidade, nas nossas escolhas e nos nossos destinos. Nas contingências da existência, enfim. O fato de abordar crimes praticados por neonazistas é muito oportuno, num momento em que o mundo parece fazer uma inflexão pela extrema direita e as diversas expressões do fascismo têm sobressaído de onde menos se espera.
120 Batimentos por Minuto registra radicalização histórica pela vida contra a Aids
Despontam os anos 1990 e há quase uma década a descoberta da Aids já produziu mudanças muito intensas no comportamento e na vida das pessoas. Estigmatizando grupos, como os homossexuais, bissexuais, prostitutas, dependentes de drogas, hemofílicos, pessoas encarceradas. A sociedade ainda não sabia lidar bem com uma questão que mexia diretamente com a vida sexual, com valores, comportamentos, hábitos. Que exigia prioridade e investimentos do Estado e um grande trabalho educacional, que envolvia, sobretudo, o combate aos preconceitos e a necessidade de encarar a vida real, sem tabus. Mais ainda do que isso: era preciso encarar a morte de frente. O filme de Robin Campillo trata desse momento político fundamental, na França, a partir da atuação de um grupo de ativistas, o Act Up Paris, que reunia soropositivos, doentes com Aids e colaboradores, em luta por uma prevenção eficaz e tratamento para os portadores do vírus HIV e para os doentes que acumulavam um número de mortes trágico. Enfrentar uma sentença de morte sem que a pesquisa evoluísse o suficiente para gerar esperanças, sem poder contar com tratamento efetivo e disponibilização dos medicamentos então existentes – AZT e DDI – e tendo de enfrentar o preconceito social e o descaso das autoridades, exigia, como ainda exige, que as pessoas se organizassem. O grupo retratado, como o filme mostra, partia para ações agressivas para poder ser ouvido e notado, como jogar tinta vermelha em pessoas e instituições que estavam sendo questionadas, denotando um desespero e a falta de mecanismos de diálogo eficazes. A ponto de simbolizar o rio Sena todo vermelho do sangue que contamina e mata. As sequências finais, que não vou revelar aqui, são muito fortes e representativas de uma luta radicalizada. Gente jovem encarando tanto uma sexualidade que buscava se expressar, apesar da contaminação, quanto a perspectiva da morte, se organiza politicamente e parte para o ativismo, tentando ser democrática. Não é fácil. A urgência acirra os conflitos, produz dissenção, julgamentos às vezes injustos, competitividade. E excessos. Mas a vida pulsa, os desejos se manifestam, ainda que não possam ser duradouros. É de tudo isso que o filme fala, em personagens emotivamente fortes e impactantes, que fizeram emocionar às lágrimas o presidente do júri do Festival de Cannes, Pedro Almodóvar. Ele sempre trabalhou com essa temática, mas num registro diferente, em que a compreensão, a solidariedade e o humor encontravam guarida e davam um respiro à situação retratada. Esses elementos também estão presentes em “120 Batimentos por Minuto”, mas são minoritários e a luta política se sobrepõe a tudo. Chama atenção no filme o contexto fortemente opositor entre a organização da sociedade civil, o governo, os laboratórios e as seguradoras. A realidade brasileira do período foi, certamente, menos conflitiva e alcançaram-se grandes avanços na prevenção e no tratamento da Aids, com a disponibilização universal dos medicamentos alcançando a todos. A ação das ONGs e do Estado resultou em sucesso no controle da epidemia e as ações educacionais prosperaram, detendo o quadro apocalíptico que muitos pintavam. Trabalhei bastante nessa área de prevenção, naquele período, e posso aquilatar que os avanços eram reais. Tanto que me preocupa, hoje, o retrocesso que estamos experimentando, tentando retornar a valores morais do século 19, em pleno século 21. Parece que temos de voltar a proclamar a necessidade do uso da camisinha, da discussão das relações de gênero e da diversidade sexual, como se isso fosse uma coisa nova. Será que a sanha por cortes no tamanho do Estado também vai atingir as políticas de saúde bem sucedidas do Brasil nesse terreno? É bom que o cinema trate do assunto com clareza, como faz “120 Batimentos por Minuto”. É hora de avançar, nunca de retroceder.
The Square simplifica o que Buñuel já transformou em clássicos
Nas premiações em festivais, “The Square – A Arte da Discórdia” vem se mostrando imbatível. Venceu a Palma de Ouro deste ano em Cannes, foi considerado o melhor de 2017 no European Film Awards e será o provável favorito ao Oscar de Filme Estrangeiro, mas toda essa festividade não esconde as contradições que o filme oferece. Na sessão prévia para os jornalistas havia uma parte entusiasmada saudando como obra-prima, assim como um grupo se reservava o direito de fechar a cara e sair do cinema em silêncio. Nem tanto o céu, nem tanto o inferno. “The Square”, em princípio, funciona bem como sátira da crise de valores políticos sociais e culturais que andam assolando nosso mundinho, mas, no decorrer, o que parece incisivo, descamba para o usual. Como muito do que é produzido hoje, o filme é oportunista e conveniente. Oportunista, porque trata o mal-estar europeu em lidar com o drama dos refugiados como se fosse um “case” publicitário, e conveniente pelo modo como ligeiramente escamoteia a questão social para centrar-se no papel que a arte adquiriu dentro dos museus no século 21. Está tudo interligado? Não, cada assunto merece uma discussão à parte. O diretor sueco Ruben Östlund, que antes criou outro sucesso, “Força Maior” (2014), sobre uma avalanche nos Alpes, agora desloca sua atenção para mais perto de casa. “The Square” desenvolve-se em Estocolmo, onde um curador do museu, Christian (Claes Bang), manobra suas exposições na vanguarda da arte moderna. É um sujeito fino, suave, e o filme é projetado para desconstruí-lo. Perto do começo, ele é roubado e se diverte com o fato de ser feito de bobo. Duas horas depois, Christian se arrasta no meio da chuva, vasculhando sacos de lixo quase como um mendigo. O título refere-se a um trabalho instalado no pátio do museu: um pequeno quadrado vazio delimitado por uma luz de neon. Na placa, a artista refere-se a obra como “um santuário de confiança”, onde quem entrar, deve compartilhar direitos e obrigações iguais. Parece um pouco vago? O que um quadrado vazio é capaz de ativar no público? A conceito em si é de grande beleza. É um quadrado no chão, mas podia ser um papel em branco, um cartaz, uma tela de cinema. O diretor Östlund usa os limites da figura geométrica, para demonstrar como se comporta o pacato cidadão do século 21. Na visão de Östlund, pensamos de uma forma, mas agimos de outra, muito diferente. O idioma que descreve a instalação sugere que o estado natural da humanidade tende para o equilíbrio e a justiça – ou que estes podem pelo menos ser alcançados como ideia. Mas quando esse pensamento é levado para o mundo real, é claro, o caos ocorre e, através de suas vinhetas um tanto calculadas, que a trama avança. Seja por meio de uma cena de encontro sexual onde um preservativo usado torna-se uma questão de disputa e desconfiança impagáveis, ou numa discussão da diretoria do Museu, onde a todo momento se fala em arte, mas quase ninguém parece interessado no produto, e sim em debater sua repercussão. Christian pensa em si mesmo como uma pessoa decente e justa. Mas sua visão de si mesmo é seletiva. Quando ele está se sentindo bem, ele dá dinheiro aos mendigos; Quando está preocupado e distraído, ele os ignora. Ele é um progressista boa praça e justo em teoria, mas quando as pessoas menos privilegiadas que ele cometem a injustiça de enfrentá-lo, ele se irrita e esbraveja. No fundo, sua preocupação maior reside em administrar os grupos de pressão que giram em volta, as panelinhas, para manter seu status quo. Que o ator Claes Bang consiga transformar este protagonista num sujeito encantador, mesmo que o filme interrogue seu privilégio e sua própria natureza, certamente é uma conquista. Outro ponto admirável e que rende bem em “The Square” é o potencial de encenador de Östlund. O diretor tem um domínio de quadro, de tempo, de comicidade fabulosos. É muito estimulante como ele associa imagens de “quadrados” no filme todo, até mesmo a espiral de uma escada, a certa altura, sugere que o personagem está preso num cercado. Östlund também tem uma predileção para criar cenas provocativas, que alguns espectadores vão adorar. Seus alvos maiores são os limites da correção política e a pompa pequeno burguesa. O ataque mais delicioso que desfere, acontece num jantar de gala de museu. O evento é interrompido por um homem que finge ser um primata (interpretado por Terry Notary, o dublê americano que viveu o macaco Rocket na trilogia “Planeta dos Macacos”). A experiência primeiro é tomada por todos como divertida mas, eventualmente, o artista extrapola os limites e, então, as pessoas furiosas, esquecem-se dos bons modos e partem para espancá-lo com selvageria. A cena reitera algumas das questões-chave no coração de “The Square”: quando deixado para seus próprios dispositivos, a humanidade encontra equilíbrio ou se desintegra em agressores? Ou numa sociedade moderna, onde se estabelece a fronteira da civilização? Claro, nada disso é novo. Luis Buñuel desferiu ataques muito mais obscenos a tradição em seus clássicos “O Anjo Exterminador” (1962) e “O Discreto Charme da Burguesia” (1972). “The Square” tem uma maneira incrivelmente clara e simplificada de fazer as mesmas perguntas.
Vencedor da Palma de Ouro, The Square discute o que é arte no mundo atual
Em 1917, o dadaísta Marcel Duchamp colocou num museu uma das suas mais famosas obras, A Fonte, que nada mais era do que um urinol virado de cabeça para baixo. Considerado polêmico por muitos na época, este ato suscitou diversas discussões acerca da natureza da arte e do papel do artista – discussões que perduram até hoje. O filme sueco “The Square – A Arte da Discórdia”, grande vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes 2017, retoma essa percepção polêmica da arte, por meio uma abordagem bem-humorada, criticando de maneira ávida não apenas aqueles que produzem arte, mas também quem a aprecia e, principalmente, aqueles que a expõe. Escrito e dirigido por Ruben Östlund (do ótimo “Força Maior”), o longa-metragem acompanha a rotina de Christian (Claes Bang), o curador de um conceituado museu que se prepara para receber uma exposição intitulada The Square (o quadrado). Visando atrair um grande público para a exposição, o museu realiza coquetéis para convidados da alta sociedade – que parecem mais interessados na comida do que no conteúdo da exposição – e contrata dois jovens publicitários “especializados” em marketing digital – que querem, a qualquer custo, criar um conteúdo viral. Desta forma, a exposição surge apenas como uma desculpa para que possamos conhecer melhor a rotina daqueles indivíduos. Vivendo no alto de um pedestal de arrogância, Christian defende as peças que expõe como sendo a “arte de hoje”, ou até mesmo a “arte do futuro”. Sua erudição, porém, é uma fachada, já que logo no início ele não consegue sequer explicar à jornalista americana Anne (Elisabeth Moss) o significado de um texto que ele próprio escreveu. Já em outro momento, ele sugere remontar uma peça danificada, ignorando completamente a “aura” da arte e o fato de ela ser a expressão única e inimitável do artista. Ou seja, essas supostas “pessoas cultas” viram alvo do humor sagaz do cineasta, uma vez que elas habitam um mundo próprio, longe da realidade. Permitindo-se bizarrices como levar um cachorro ao local de trabalho ou invadir um castelo durante uma noite de bebedeira, os habitantes desse universo paralelo vivem num mundo muito diferente do restante da população, em especial daqueles menos favorecidos. São mundos distintos, que não se misturam. E o diretor expõe essa diferença ao mostrar como a população nem quer entrar em alguns espaços do museu ou só entra para tirar selfies ao lado das peças, ou ainda ao destacar a dificuldade de um faxineiro para limpar o ambiente de uma exibição feita de montes de sujeira. Quanto mais baixa for a condição social, menos visível o povo se torna para essa alta sociedade, e é preciso um esforço muito grande para ser notado pelos cidadãos “importantes” – o homem com Síndrome de Tourette que atrapalha uma entrevista é um exemplo irônico disso. Assim, embora o garotinho que exige um pedido de desculpas após ter sido acusado injustamente de roubo receba um mínimo de atenção, os mendigos que se enfileiram nas calçadas são ignorados até mesmo pela população mais simples, pois ninguém repara naquele que está abaixo na escada social. O arco dramático do personagem principal se completa quando ele começa a notar essas pessoas. Christian é visto como um sujeito pedante durante quase toda a projeção, e Östlund destaca isso por meio dos pequenos detalhes, como ao mostrá-lo ensaiando um discurso de tal forma que este pareça improvisado, vestindo as luvas antes de cometer um “delito” ou quando, durante o sexo, seu olhar foge do rosto da garota e foca no lustre do teto. Mas quando as coisas começam a fugir do seu controle, ele sai da sua zona de conforto e sua figura até então inabalável, como uma estátua de mármore, torna-se confusa e sem nexo, tal qual aquelas peças que ele exibe em seu museu. Apesar de essa “redenção” soar um pouco exagerada, como a tentativa de trazer humanidade a um ser inanimado, é preciso levar em conta que até mesmo quando o protagonista tem que – literalmente – se arrastar pelo lixo, o cineasta enquadra essa cena de tal maneira que parece ter se inspirado no conceito de “estetização da pobreza” – o que, por sua vez, é algo bastante elitista. Assim, “The Square – A Arte da Discórdia” apresenta um olhar ácido sobre o mundo da arte e seus habitantes. E se sua crítica social parece um pouco didática em alguns momentos, isso não o impede de ser um excelente longa, pois as discussões que suscita vão além do que é dito no filme e estão presentes no mundo da arte há muito tempo – e no mundo real, como demonstram manchetes sobre performances de homens nus no Brasil.
Cate Blanchett vai presidir o júri do Festival de Cannes 2018
A atriz australiana Cate Blanchett, vencedora de dois Oscars, por “O Aviador” (2004) e “Blue Jasmine” (2013), será a presidente do júri do 71º Festival de Cannes. Blanchett é a 12ª atriz a presidir o júri do festival, e assume a função quatro anos após a última mulher, a cineasta neozelandesa Jane Campion. No ano passado, o júri foi presidido pelo diretor espanhol Pedro Almodóvar, ocasião em que a Palma de Ouro foi para a comédia sueca “The Square”, que por coincidência estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta (4/1). “Vou a Cannes há anos como atriz, produtora e para as festas de gala e sessões de competição, inclusive pelo mercado. Mas ainda não fui pelo mero prazer de aproveitar a abundânica de filmes deste grande festival”, afirmou a atriz em um comunicado. “Estamos muito felizes de acolher uma artista rara e singular, cujo talento e convicções preenchem as telas de cinema e os palcos de teatro. Nossas conversas com ela nos prometem que será uma presidente comprometida, uma mulher apaixonada e uma espectadora generosa”, afirmaram Pierre Lescure, presidente do Festival de Cannes, e Thierry Frémaux, diretor-geral. Além de seu trabalho nos cinemas, Blanchett acaba de criar a fundação Time’s Up, junto a outras estrelas como Natalie Portman e Meryl Streep, para ajudar as vítimas de assédio sexual. O Festival de Cannes 2018 vai acontecer entre os dias 8 e 19 de maio, na Riviera francesa.
Trailer legendado de Em Pedaços destaca interpretação premiada de Diane Kruger
A Imovision divulgou o trailer legendado do suspense alemão “Em Pedaços” (In the Fade), um dos filmes mais aplaudidos do Festival de Cannes 2017, que rendeu o prêmio de Melhor Atriz para Diane Kruger (“Bastardos Inglórios”). A prévia mostra como ela vai da felicidade com a família ao desespero, após seu marido turco e filho serem vítimas de um atentado de neonazistas. Na trama, depois do período de luto e espera por justiça, a protagonista se cansa das desculpas da polícia e decide procurar vingança. Dirigido pelo alemão Fatih Akin (“Soul Kitchen”), que é filho de imigrantes turcos, o longa ilumina a outra face do terrorismo na Europa, que tem olhos azuis e ataca muçulmanos. A trama foi inspirada por atentados cometidos pelo NSU, um grupo neonazista que explodiu diversas bombas contra imigrantes desde 1999. Além do prêmio em Cannes, “Em Pedaços” concorre ao Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira, Já em cartaz na Alemanha, o filme estreia em 23 de dezembro nos Estados Unidos e apenas em 8 de fevereiro no Brasil.
Joaquin Phoenix mergulha na violência em trailer de filme premiado no Festival de Cannes
A Amazon divulgou o trailer de “You Were Never Really Here”, novo filme da cineasta escocesa Lynne Ramsay (“Precisamos Falar sobre o Kevin”), premiado no Festival de Cannes 2017. A prévia tem imagens deslumbrantes e brutais, ao acompanhar Joaquin Phoenix (“O Mestre”), cujo personagem faz bico numa empresa de segurança, aceitando uma missão para resgatar a filha adolescente (Ekaterina Samsonov) de um político das garras de traficantes. Algumas cenas evocam “Oldboy” (2003). Além do clássico ultraviolento sul-coreano, o filme também foi comparado a “Taxi Driver” (1976) durante sua exibição no Festival de Cannes deste ano, que rendeu troféus de Melhor Ator para Phoenix e Melhor Roteiro para Ramsay. A comparação se deve à ambiguidade moral do protagonista, que, como o Travis Bickle de Robert De Niro, é um militar veterano traumatizado que tenta salvar uma garota abusada sexualmente. Baseado no romance homônimo do escritor Martin Amis (criador das séries “Bored to Death” e “Blunt Talk”), o filme também tem no elenco Alessandro Nivola (“O Ano Mais Violento”) e Alex Manette (“Precisamos Falar sobre o Kevin”), e sua trilha sonora foi composta pelo guitarrista do Radiohead Jonny Greenwood (“Sangue Negro”). A estreia está marcada para março no Reino Unido, abril nos Estados Unidos e não há previsão para o Brasil.












