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    Eu Te Levo é retrato em preto e branco da geração canguru

    30 de março de 2017 /

    “Eu Te Levo”, filme de Marcelo Müller, que também trabalhou no roteiro, toma como ponto de partida a chamada Geração Canguru, a dos jovens que permanecem vivendo na casa dos pais até uma idade avançada, por não conseguirem encontrar seus caminhos na vida e não serem capazes de prover o próprio sustento. Pesquisas indicam que cerca de 25% dos jovens entre 25 e 34 anos ainda moravam com os pais em 2014-2015 no Brasil. Encontrar-se, fazer escolhas, decidir seu rumo na vida, pode se tornar algo complexo, quando não encaminhado devidamente no período da adolescência. No filme “Eu Te Levo”, o personagem Rogério (Anderson Di Rizzi, da novela “Êta Mundo Bom!”), de 29 anos, se depara com a morte do pai e a herança de uma loja com a qual não se identifica, mas que representa muito, simbolicamente e como meio de vida, para sua mãe (Rosi Campos, também de “Êta Mundo Bom!”). Ele tem um sonho de criança, ser bombeiro, e uma experiência com uma banda de rock, como baterista, que ficou para trás. Na realidade, seus caminhos são nebulosos, ele não sabe o que quer. E os espectadores viverão esse dilema e essa angústia, embora não explicitada pelas ações do personagem, da indecisão, da perda de rumo. Isso se dá de modo abafado, já que Rogério é fechado, calado, prefere esconder do que compartilhar coisas. Tudo assim fica ainda mais difícil. Mas é interessante viver de dentro a indecisão do protagonista. Embora o filme pudesse explorar melhor as motivações e bloqueios do personagem. O jovem Cris (Giovanni Gallo, de “Califórnia”), a quem Rogério dá carona regularmente, a pedido de um amigo, é outro exemplo da Geração Canguru, um pouco mais jovem, mas igualmente em busca de algo que não se sabe bem o que é, desviando-se também do rumo que lhe foi traçado (ou que ele mesmo teria traçado?). Rosi Campos, grande atriz, faz a mãe Marta com a adequada intensidade, mas seu personagem não nos permite ir muito além do clichê da mãe sofredora. Um detalhe importante da trama chama a atenção para o papel da ideologia nas escolhas profissionais. Nas tratativas para chegar a se tornar bombeiro, Rogério é forçado a se posicionar frente ao comportamento da polícia militar do Estado de São Paulo, a quem pertence a corporação dos bombeiros. O que complicará enormemente a sua escolha. Ou seja, os dramas e conflitos não são só internos ao personagem. Dão-se objetivamente nas instituições, na sociedade. Rodada em preto e branco, a produção põe em discussão uma questão real dos jovens, sobretudo de classe média, que merece mesmo a nossa atenção, talvez ainda carecendo de personagens mais aprofundados. Para um primeiro longa-metragem como diretor, Marcelo Müller se saiu muito bem. Sua já larga experiência como roteirista – “Infância Clandestina”, “Amanhã Nunca Mais”, “O Outro Lado do Paraíso” – certamente contribuiu para esse resultado.

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