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  • Filme

    Ela Volta na Quinta projeta cotidiano na ficção de forma desconcertante

    27 de fevereiro de 2016 /

    Interessante como o jovem cineasta mineiro André Novais Oliveira aposta na aparente simplicidade para criar um corpo de trabalho inteligente e tendo seu próprio cotidiano como objeto de inspiração. Em seu primeiro curta, “Fantasmas” (2009), ele utilizou um recurso inteligentíssimo para tratar de um assunto ligado a relações amorosas passadas. Em “Pouco Mais de um Mês” (2013), lá estava ele expondo a si mesmo, discutindo relação com a namorada, que também aparece em sua estreia em longa-metragem, “Ela Volta na Quinta”. Pois este filme é ainda mais extremo nessa exposição, embora seja evidente que se trata de uma construção de ficção e de encenação. “Ela Volta na Quinta” traz o próprio diretor como personagem da história, que é protagonizada por seus pais, Norberto e Maria José. Essa premissa dá à câmera um condição de onisciência, pois mostra aquilo que André, o personagem, não sabe. Em alguns momentos, é possível perceber um pouco da fragilidade dos (não) atores à frente das câmeras, como na cena da dança ao som de uma canção do Roberto Carlos, mas na grande maioria das vezes o método do diretor, que deixa fluir – pelo menos aparentemente – a fala dos personagens, contribui para injetar no filme um elemento raro, de verdade. O melhor exemplo disso é uma cena em que a mãe de André está sozinha com ele no quarto. Ele confere sua pressão arterial, manifesta preocupação com sua saúde, e ela lhe conta algo sobre o pai dela, canceriano como André, que também gostava de sonhar, era pouco pragmático. Como do outro lado da tela sabemos que André é cineasta, e que a vida de cineasta no Brasil não é fácil, por mais que isso não seja explicitado no filme, “Ela Volta na Quinta” acaba por revelar que essa atividade é ainda menos glamorosa do que se possa imaginar. Glamour, por sinal, é uma palavra que jamais surge no filme, em que os personagens aparecem com seus trajes do cotidiano, sem maquiagem ou coisa do tipo. A fotografia também tem uma textura bem simples, sem o interesse de enfeitar a realidade. Desses filmes que borram a realidade e a ficção em sua construção narrativa, talvez “Ela Volta na Quinta” encontre mais semelhanças com “Castanha”, de Davi Pretto, que também lida com um personagem real em meio a elementos inventados pelo roteirista/diretor. Mas o filme de Novais é bem menos sombrio e mais afetuoso. A obra deixa no ar até que ponto a crise no casamento dos pais foi um elemento puramente fictício ou se era, de fato, algo que já estava mesmo ocorrendo. Ou se a saúde frágil da mãe também também estava de alguma maneira presente na realidade. As respostas para essas questões até seriam interessantes numa entrevista com o diretor, mas, em relação ao filme, em nada contribuiriam para melhorar sua apreciação. Afinal, quando as luzes do cinema se acendem, todas as respostas que o espectador precisa estão dadas. Com “Ela Volta na Quinta”, André Novais Oliveira se revela um autor de primeira.

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  • Filme

    Estreias da semana: Cinemas recebem zumbis, médiums e Deuses do Egito

    25 de fevereiro de 2016 /

    A programação dos shoppings desta semana é para rir. Muitas comédias – e premissas que viram cômicas sem querer – entram simultaneamente em cartaz. O que não significa que sejam lançamentos engraçados. Nenhum é. O maior lançamento pertence à “Deuses do Egito”, que vai testar nos cinemas a tese de que é possível ignorar o elefante na sala. No caso, em 829 salas. O filme é uma aventura escapista, cheia de efeitos visuais, escrita por Matt Sazama e Burk Sharpless, os autores de “Drácula: A História Nunca Contada” (2014) e “O Último Caçador de Bruxas” (2015), e como estes se revela uma história genérica de filme B tratada como superprodução. Não bastasse a unidimensionalidade da trama estilo videogame, a escalação de atores loiros para viver egípcios – de deuses a escravos – transforma o longa num caso exemplar da incapacidade de Hollywood para lidar com a diversidade em pleno século 21. Por coincidência, a estreia acontece no fim de semana do Oscar mais racialmente engajado de todos os tempos. Uma controvérsia diferente espreita o público de “Como Ser Solteira”, comédia escrachada que entende machismo como conquista feminina. Na trama, Dakota Johnson (“Cinquenta Tons de Cinza”) recebe dicas da desbocada Rebel Wilson (“A Escolha Perfeita”) sobre como ser sensual e fazer os homens pagarem suas bebidas. O conceito é “Sex and the City” – baseado num livro de Liz Tuccillo, ex-roteirista da série da HBO – , mas com uma moral da história similar ao arrependimento que acompanha as ressacas. Em exibição em 187 salas. Outro besteirol americano, “Orgulho e Preconceito e Zumbis” faz paródia do romance clássico de Jane Austen, transformando a heroína romântica Elizabeth Bennet (interpretada pela “Cinderela” Lily James) numa espadachim lutadora de artes marciais, que prefere enfrentar zumbis a seguir a etiqueta social. Provou-se um grande fiasco comercial nos EUA, como a outra adaptação pós-engraçadinha do mesmo escritor, “Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros” (2012). Entra em 92 salas. Estreia em Hollywood do diretor brasileiro Afonso Poyart, o thriller “Presságios de um Crime” junta o FBI e um médium na caça de um serial killer com poderes psíquicos. Se a premissa não empolga é porque já foi filmada antes, em “Instinto Fatal” (1990). No elenco, estão alguns atores que costumavam ter prestígio, como Anthony Hopkins (“Thor”) e Colin Farrell (série “True Detective”), mas mesmo assim deve ser lançado direto em DVD nos EUA. Por aqui, chega em 103 salas. Os shoppings ainda recebem a comédia brasileira “Amor em Sampa”, terceira produção realizada em família por Bruna Lombardi, seu marido e seu filho. Além de os três estrelarem o longa, também compartilharam sua criação. A atriz escreveu a trama, que teve a direção dividida entre Carlos Alberto e Kim Riccelli. Seguindo a fórmula das comédias românticas de histórias paralelas, o filme acompanha cinco narrativas que se entrelaçam em cenários paulistas, rumo ao lugar-comum. O mote é uma campanha publicitária sobre uma São Paulo idealizada, em que os motoristas de táxi não estão em pé de guerra e até cantam. isto mesmo: é um musical. Estreia em 80 salas. Por coincidência, o drama brasileiro “Ela Volta na Quinta” também é estrelado pela família do diretor André Novais Oliveira, mas o resultado é bem diferente, discutindo, na linha clássica de “Era uma Vez em Tóquio” (1953), a impessoalidade nas relações familiares. Premiado na Semana dos Realizadores de 2014, o filme tem exibição restrita a nove salas. O circuito limitado traz outros dois filmes premiados de 2014. O húngaro “White God”, que estranhamente manteve o título internacional, venceu a mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes, apresentando um violenta revolução canina nas ruas de uma metrópole, enquanto o filipino “Do que Vem Antes”, vencedor do Festival de Locarno e da Mostra de São Paulo, é uma maratona em preto e branco de Lav Diaz, com mais de 5 horas passadas no campo, durante a instalação da ditadura no país, via Lei Marcial, em 1972. O primeiro será exibido em três salas, em São Paulo e Recife, e o segundo apenas em duas, em São Paulo e Rio de Janeiro. Para completar, numa iniciativa louvável, o espaço Itaú vai exibir gratuitamente o documentário “A Paixão de JL”, de Carlos Nader, vencedor do festival É Tudo Verdade, em seis cidades em que possui salas. O Itaú patrocinou a obra, criada a partir dos diários gravados em fitas cassete pelo artista plástico José Leonilson, registrando seus últimos anos de vida, antes de morrer vítima da Aids em 1993. Tão impactante quanto belo, é um presente para os cinéfilos. Veja outras sessões gratuitas da semana aqui. Estreias de cinema nos shoppings Estreias em circuito limitado

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