Cinemas recebem nova sci-fi de Steven Spielberg e a biografia de Edir Macedo
A programação da semana destaca a nova sci-fi de Steven Spielberg, uma fantasia grandiosa da Disney e a hagiografia de Edir Macedo, todos candidatos a blockbuster – o filme do fundador da Igreja Universal já arrasa quarteirões, com 4 milhões de ingressos vendidos antecipadamente e ocupação de 1.108 salas. Lembrando que o circuito cinematográfico brasileiro é de pouco mais de 3 mil telas e que há outros filmes muito bem sucedidos em cartaz, cabe a pergunta: tem espaço para tudo isso ao mesmo tempo? A Record está buscando uma alternativa com exibições itinerantes de “Nada a Perder” para somar à blitz da pré-venda, supostamente responsável por já ter esgotado os ingressos desse fim de semana. A popularidade do filme é impressionante, e tende a ser incensada, porque é o único aspecto visível da produção para a imprensa. Só os amigos e funcionários da Record foram convidados a assistir ao longa antes da estreia, por isso o lançamento chega aos cinemas sem críticas. Foi escondido da imprensa, talvez como estratégia para não colocar tudo a perder. Mas há relatos de que teria sido finalizado apenas na semana passada, o que realmente dificultaria sessões antecipadas. Rumores também dizem que o filme tem o maior orçamento da história do cinema brasileiro, superando os R$ 25 milhões, e recorde de figurantes, mobilizando 30 mil pessoas numa única cena. Mas os gastos teriam sido contrabalanceados com contratos internacionais – já estaria negociado em 80 países e até com o serviço de streaming Netflix. A trama se estende por três décadas e inclui a fundação da Igreja Universal do Reino de Deus e a compra da rede Record. A direção é de Alexandre Avancini (“Os Dez Mandamentos – O Filme”) e o elenco inclui Petronio Gontijo (da novela “Os Dez Mandamentos”) como Edir Macedo, além de Day Mesquita (mais uma de “Os Dez Mandamentos”), Dalton Vigh (minissérie “Liberdade, Liberdade”), André Gonçalves (novela “Salve Jorge”), Eduardo Galvão (novela “Malhação”), Marcelo Airoldi (novela “Sol Nascente”), Nina de Pádua (novela “Chamas da Vida”) e Beth Goulart (novela “A Terra Prometida”). Superproduções de Hollywood Se o filme de Edir Macedo é um mistério, a nova sci-fi de Steven Spielberg já foi aprovada pela crítica norte-americana. “Jogador nº1” teve premières aplaudidas e elogios rasgados da imprensa geek, por sua capacidade de transformar nostalgia em fonte de referências, com recorde de easter eggs espalhados na tela. Mas também houve ponderações – as animações de seu mundo virtual são antiquadas, a ação do mundo real menos interessante, etc. – , que evitaram a unanimidade e a multiplicação exagerada de exclamações de obra-prima. Mesmo assim, atingiu 76% de aprovação no Rotten Tomatoes. O longa que marca a volta de Spielberg à ficção científica é uma adaptação do livro homônimo de Ernie Cline. A história se passa em 2044, quando a humanidade se conecta no Oasis, uma utopia virtual, onde as pessoas podem viver o que sonham, interagir com outros jogadores e até se apaixonar. Mas o protagonista Wade Watts (Tye Sheridan, de “X-Men: Apocalipse”) quer mais que sonhar. Ele pretende resolver o enigma do criador do Oasis (Mark Rylance, de “Ponte dos Espiões”), que escondeu uma série de pistas na realidade virtual para premiar quem resolvê-las com a herança de sua enorme fortuna – e até o próprio Oasis. Milhões tentam conseguir o prêmio, sem sucesso, mas Wade está na frente da competição. Isto porque as chaves do enigma são baseadas numa cultura esquecida que ele domina: o entretenimento pop dos anos 1980 e 1990. Assim como o personagem procura pistas para o ovo dourado, escondido pelo Willy Wonka futurista, o público também tem centenas de easter eggs na produção para identificar, desde o protagonista da animação “O Gigante de Ferro” (1999) até o DeLorean de “De Volta para o Futuro” (1985). Já “Uma Dobra no Tempo” não se desdobrou como a Disney planejava. O êxito de “Pantera Negra” pode ter canibalizado o interesse no longa. Afinal, a fantasia infantil do estúdio buscava um nicho similar de mercado, com elenco multicultural, protagonista e diretora negras, numa adaptação de obra juvenil adorada por gerações. O fato é que a filmagem do clássico literário de Madeleine L’Engle por Ava DuVernay (“Selma”) implodiu nas bilheterias dos Estados Unidos, atingindo “apenas” US$ 76,3M (milhões) em três semanas. O valor não correspondeu às expectativas do mercado, representando uma volta à “normalidade” para a Disney, que não registrava fracassos clamorosos desde “Alice Através do Espelho” e “O Bom Gigante Amigo”, de 2016. “Uma Dobra no Tempo” teve abertura melhor que esses filmes, mas seu desempenho está à altura da frustração causada por “Tomorrowland” em 2015, que não conseguiu recuperar seu investimento. Embora a Disney não tenha revelado o orçamento da produção, o longa é repleto de efeitos visuais e estrelado por atores de renome – Oprah Winfrey (“Selma”), Reese Witherspoon (“Belas e Perseguidas”) e Mindy Kaling (série “The Mindy Project”) vivem coloridas mulheres místicas – , o que costuma vir com uma etiqueta de preço elevado. Para completar, as críticas não empolgaram. Com 41% de aprovação, foi considerado um “grande desapontamento” (The Wall Street Journal), repleto de efeitos que “não conseguem envolver” (Chicago Sun-Times) e com a profundidade de um “vídeo cheio de cores para distrair as crianças” (The Guardian). Curto-circuito feminino O excesso de superproduções não chega a esgotar completamente o circuito, que ainda traz cinco lançamentos limitados, três deles de ficção e dirigidos por mulheres. O grande filme da pequena lista é “Zama”, coprodução brasileira que foi escolhida para representar a Argentina na busca de uma indicação ao Oscar 2018. Drama épico de Lucrecia Martel ambientado na época da colonização, o longa conta a história de Diego de Zama, um oficial da coroa espanhola do século 18, que se encontra estagnado há anos em um posto de Assunção, no Paraguai, e decide se juntar a um grupo de soldados para capturar um perigoso bandido. Mas, nesses momentos de violência, ele descobre que tudo o que realmente deseja não é uma promoção, mas sobreviver. Lucrecia Martel é conhecida por filmes premiados como “O Pântano” (2001), “A Menina Santa” (2004) e “A Mulher sem Cabeça” (2008), entretanto não filmava há nove anos. “Zama” venceu o prêmio da crítica no Festival de Havana, apareceu em 4º lugar na lista dos melhores filmes de 2017 da revista Sight & Sound (publicação oficial do British Film Institute) e ainda disputa 11 categorias na premiação da Academia Argentina e 8 indicações ao Prêmio Platino. Até o Rotten Tomatoes aprovou, com 86% de avaliação positiva. “Deixe a Luz do Sol Entrar” também traz uma cineasta renomada atrás das câmeras, a francesa Claire Denis, frequentadora assídua dos grandes festivais europeus. A surpresa é que, desta vez, a diretora de dramas pesados como “Chocolate” (1988), “Noites Sem Dormir” (1994), “35 Doses de Rum” (2008), “Minha Terra, África” (2009) e “Bastardos” (2013) opta pela leveza. O filme consiste, basicamente, de uma hora e meia de rejeições, nas quais Juliette Binoche (“Acima das Nuvens”), fotografada como uma jovem, busca e afasta pretendentes. A obra tem sua graça e muito charme, como atesta a aprovação de 89% da crítica norte-americana. Foi premiada na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes do ano passado e ainda rendeu mais uma indicação ao César de Melhor Atriz para Binoche. Por outro lado, “Madame” não recebeu os mesmos elogios. Trata-se de uma comédia de erros convencional que chama atenção por ser falada em inglês e pelo elenco estrangeiro, com a australina Toni Collette (“xXx: Reativado”) no papel de uma madame que, por superstição, decide que precisa de mais uma mulher para compôr o número de convidados de um jantar fino. Assim, manda uma empregada trocar o uniforme por um vestido de seu closet para fazer figuração. A escolhida é a espanhola Rossy Palma (“Julieta”), velha conhecida dos filmes de Pedro Almodóvar, que acaba encantando um milionário. O mais curioso nessa história de Cinderela é que a madrasta malvada e a fada madrinha são a mesma personagem. Mas o trabalho da diretora francesa Amanda Sthers (“Eu Vou te Fazer Falta”) não passou dos 24% no Rotten Tomatoes. Como sempre, a programação se completa com documentários. “Árvores Vermelhas” é uma produção britânica que revisita o Holocausto, por meio das memórias do pai da diretora Marina Willer e viagem às locações atuais dos antigos cenários de horror na República Tcheca. E “Górgona” retrata a atriz brasileira Maria Alice Vergueiro, com uma extensa carreira nos palcos, que enfrenta dívidas e o mal de Parkinson, sem ter atingido o reconhecimento da indústria cultural.
Programação de cinema mais fraca do ano destaca estreias com robôs gigantes e bichos falantes
Robôs gigantes e bichos falantes ocupam os cinemas dos shopping centers, enquanto outros sete lançamentos buscam espaço no circuito limitado. Mesmo com nove filmes, a programação é das mais fracas do ano. Por isso, as opções recomendadas são exclusivamente documentários. Clique nos títulos abaixo para ver os trailers de todas as estreias. “Círculo de Fogo: A Revolta” é a maior estreia, quase do tamanho de um kaiju, com projeção em 846 salas. Trata-se da continuação do filme que Guillermo del Toro lançou em 2013, antes de se dedicar ao longa que venceu o Oscar 2018, “A Forma da Água”. Mas ele não comanda a sequência, que marca a estreia na direção de Steven S. DeKnight após uma longa carreira como roteirista e produtor de séries, como “Buffy”, “Spartacus” e “Demolidor”. E a diferença é gritante. O primeiro filme não fez grande sucesso de bilheterias, mas agradou a crítica pela disposição de criar uma nova mitologia a partir da cultura de monstros e robôs gigantes do entretenimento pop japonês, mostrando grande paixão pelo gênero. Já o segundo é assumidamente infantilizado como as imitações ocidentais de Hollywood, um cruzamento de “Power Rangers” com “Transformers”. E virou metal retorcido nas mãos da imprensa americana, com 46% de aprovação no site Rotten Tomatoes. Apesar de estrelado por John Boyega (“Star Wars: O Despertar da Força”), no papel do filho do personagem de Idris Elba no longa de 2013, os verdadeiros astros da produção são os robôs, chamados de Jaggers, que inclusive ocuparam todos os pôsteres divulgados da produção. Isto já devia servir de alerta. “Círculo de Fogo: A Revolta” é candidato a ocupar a vaga de “Transformers” na premiação do próximo Framboesa de Ouro. “Pedro Coelho” (Peter Rabbit) é um híbrido de animação e live action, que combina os famosos bichinhos falantes criados pela escritora britânica Beatrix Potter com humanos interpretados por atores de carne e osso. O ponto alto é a qualidade dos efeitos, que misturam perfeitamente digital e real. Já o ponto baixo fica por conta da alteração no tom das aventuras do coelho antropomórfico. Na “atualização” da trama do começo do século 20 para os dias de hoje, o coelho antropomórfico virou personagem de “Jackass”. Uma pena que Will Gluck, que escreve e dirige a adaptação, não tenha aprendido nada com o fracasso do remake de “Annie”, sua outra atualização frustrante de um clássico da literatura infantil (quadrinhos) dos primeiros anos 1900. A média da crítica americana ficou em 59% de aprovação, mas as crianças que gostam de histeria, cores, música alta e tombos, muitos tombos, podem gostar. Americanos limitados Há opções piores vindo de Hollywood nesta semana. Escrito e dirigido por Marc Forster (“Guerra Mundial Z”), o suspense “Por Trás dos Seus Olhos” traz Blake Lively (“Águas Rasas”) numa premissa de thriller doméstico dos anos 1990. Quando uma jovem cega passa por uma cirurgia e recupera a visão, seu marido começa a dar sinais de que a súbita independência dela ameaça o relacionamento. A metáfora não é sutil, mas o diretor tenta aplicar uma abordagem surreal, com imagens oníricas inspiradas na situação visual da protagonista. A mistura de convencional e experimental resulta em rejeição dupla, com apenas 28% de aprovação no Rotten Tomatoes. “A Melhor Escolha” é o novo drama de Richard Linklater (“Boyhood”) e reúne um trio de peso: Bryan Cranston (“Trumbo”), Steve Carell (“A Grande Aposta”) e Laurence Fishburne (“John Wick: Um Novo Dia Para Matar”). Na trama, os três se reencontram, 30 anos depois de servirem juntos na Guerra do Vietnã, para o enterro do filho de um deles, morto durante um novo conflito, na Guerra do Iraque. Como se pode imaginar, trata-se de um filme muito falado, lento, depressivo e politicamente engajado em sua crítica contra as guerras. Isto agradou a crítica americana, que lhe rendeu 76% de aprovação, mas, para o público brasileiro, sua exaltação do patriotismo “estadunidense” (como escreve a “esquerda”) pode ser mais difícil de suportar que o tom fúnebre da produção, baseada em livro de Darryl Ponicsan (autor do romance que virou o clássico “A Última Missão”). Europeus superestimados Estreia mais superestimada da semana, “A Livraria” venceu o Goya (o Oscar espanhol) de Melhor Filme, Direção e Roteiro Adaptado, os dois últimos prêmios conquistados pela cineasta Isabel Coixet. Apesar desse incensamento espanhol, o longa se projeta como um filme britânico antiquado. Elenco, locação, língua e texto original são ingleses. Trata-se de uma adaptação da obra homônima de Penelope Fitzgerald, publicada em 1978, mas passada nos anos 1950, sobre uma mulher que resolve abrir uma livraria numa cidadezinha conservadora e cria controvérsia ao vender exemplares de “Lolita”. Os espanhóis adoraram o retrato intimista da época. Os ingleses odiaram os clichês de drama lento britânico, cheio de diálogos pausados, surtos passivos e elenco de meia idade – Emily Mortimer (“A Invenção de Hugo Cabret”), Bill Nighy (“Uma Questão de Tempo”) e a americana Patricia Clarkson (“Maze Runner: A Cura Mortal”). Com as opiniões literalmente divididas, a aprovação ficou em 50%. O que também significa “medíocre”. “A Odisseia” é a cinebiografia do oceanólogo francês Jacques Custeau, cujos registros marinhos marcaram gerações. Não por acaso, o destaque do filme de Jérôme Salle (“Anthony Zimmer – A Caçada”) é justamente a fotografia submarina, algo aperfeiçoado por Custeau, inventor de equipamentos capazes de registrar a vida no fundo dos oceanos, que revelaram mundos desconhecidos numa série de documentários revolucionários. Mas a história de sua vida é narrada com a convencionalidade dos filmes biográficos que Hollywood faz para o Oscar. Para cada sequência fotográfica de tirar o fôlego, há o dobro de situações melodramáticas de telenovela, que nem o bom elenco – Lambert Wilson (“Homens e Deuses”), Pierre Niney (“Yves Saint Laurent”) e Audrey Tautou (a eterna “Amelie”) – consegue sustentar. 61% de aprovação no Rotten Tomatoes. Outra produção comercial francesa, “Chateau – Paris” explora comédia num bairro de imigrantes em Paris, evocando filmes americanos sobre salões de beleza, como a franquia “Uma Turma do Barulho”. O diferencial da malandragem francesa é a “cor local” da produção, com personagens das mais diferentes culturas, que cria uma atmosfera cosmopolitana para sua versão cor-de-rosa do “gueto”. Brasileiros relevantes Assim, as melhores opções da semana são os documentários brasileiros “Soldados do Araguaia” e “O Jabuti e a Anta”. Como os grandes exemplares do gênero, ambos abordam temas relevantes e inspiram bastante reflexão. O primeiro presta contas de uma história que a História oficial busca esconder, enquanto o segundo chama atenção para um drama em desenvolvimento, que também sofre pressão poderosa para permanecer desconhecido. O diretor Belisario Franca já tinha provocado uma reavaliação histórica da influência nazista no Brasil com seu premiado “Menino 23” (2016). Agora, encontra antigos soldados que combateram na Guerra do Araguaia, um conflito que simplesmente não existe nos livros didáticos, para revelar o enfrentamento entre militantes de esquerda e o exército brasileiro na floresta amazônica, na fronteira paraense do Rio Araguaia. A maioria dos combatentes comunistas foi morta ou executada durante a expedição militar que durou dois anos, entre 1972 e 1974, enquanto os soldados receberam ordens para esquecer o que viram. O outro documentário também se passa em rios amazônicos. O título com bichos silvestres evoca espécies ameaçadas pelo homem. Mas o próprio homem corre risco de extinção na região, graças à obra da Usina de Belo Monte, uma construção que impactou o meio-ambiente e ocasionou mudanças de locação da população ribeirinha e de tribos ali estabelecidas desde antes das caravelas. Uma das vitrines do PAC, o plano de aceleração da corrupção de governos recentes, rendeu fortunas a empreiteiras e incentivou a especulação imobiliária, à revelia do interesse dos habitantes locais. A documentarista Eliza Capai (“Tão Longe É Aqui”) também navegou pelos rios amazônicos até o Peru, onde a população indígena conseguiu impedir obra similar, mostrando os contrastes ambientais dos dois lugares.
Festival É Tudo Verdade perde patrocínio do governo federal
Principal festival de documentários do Brasil – e da América Latina – , o É Tudo Verdade perdeu o patrocínio das estatais Petrobras e BNDES para a edição deste ano. Isto criou um rombo para cobrir as despesas do evento, orçado em R$ 3 milhões. A revelação foi feita pelos organizadores da mostra ao apresentar a programação de sua 23ª edição, na manhã desta terça-feira (20/3), em São Paulo. A Petrobras patrocinava o evento desde 2004, enquanto o banco o apoiava desde 2010. Ambos informaram que os processos seletivos de patrocínio deste ano foram prejudicados pela Lei das Estatais, com restrição de orçamento causada por ano eleitoral. A saída de Petrobras e do BNDES “em cima da hora” foi criticada por Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural, um dos parceiros históricos do É Tudo Verdade. Parte do rombo deixado pela ausência do patrocínio do governo federal foi coberto pela entrada de outro parceiro, o Sesc. Fundador e criador do festival, o crítico de cinema Amir Labaki disse que arrecadou até agora 2/3 do que esperava. Apesar da safra forte e do grande número de inscritos — são 1.600 títulos, entre eles 120 nacionais — foi necessário reduzir o número de filmes da competição, em função da queda na arrecadação. Por outro lado, a mostra terá recorde de cineastas brasileiros, com 13 títulos concorrendo nas categorias de longa e média-metragem. Além disso, a competição latino-americana vai acontecer pelo terceiro ano consecutivo. O festival tem abertura marcada para 11 de abril, no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo, e no dia seguinte na Cinemateca do MAM, no Rio. Dois documentários biográficos serão exibidos nessas ocasiões: “Adoniran — Meu Nome É João Rubinato”, sobre o músico Adoniran Barbosa, abre a versão paulistana do festival, e “Carvana”, sobre o ator e cineasta Hugo Carvana, inaugura a porção carioca. A homenagem do ano será para a documentarista americana Pamela Yates, cuja obra se debruça sobre a temática dos direitos humanos e a América Latina. Entre os destaques da programação estão os filmes exibidos no recente Festival de Berlim, “O Processo”, de Maria Augusta Ramos, sobre o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, e “Ex-Pajé”, de Luiz Bolognesi.
Trailer apresenta documentário pós-gravidez da cantora Pitty
O documentário “Do Ventre à Volta”, sobre a cantora Pitty, ganhou o primeiro trailer. O filme é um registro do retorno da artista ao palco, um ano e meio após dar à luz à sua primeira filha, mostrando como a maternidade a transformou. Além de rock, o filme é marcado pelas dúvidas existenciais que afligem as mães do século 21, que tentam conciliar filhos pequenos e carreiras. Isso alimenta em Pitty inspiração para uma nova fase em sua carreira. Com direção de Otavio Sousa, o vídeo será disponibilizada na íntegra, de graça, nesta segunda (19/3), nos canais do Facebook e do YouTube da cantora.
Documentário resgata vida e morte intensas de Torquato Neto
A escolha do personagem Torquato Neto para um documentário não poderia ser mais feliz. O poeta, que viveu pouco, mas teve intensa e profunda atuação cultural, estava mesmo precisando ser lembrado e resgatado em sua obra, que envolvia música, como letrista, cinema, como criador e intérprete, jornalismo, com seus textos e poemas, e a produção cultural, de modo geral. Isso foi feito. O filme de Eduardo Ades e Marcus Fernando resgata a poesia e a prosa de Torquato Neto, na voz do ator Jesuíta Barbosa, e compreende a sua atuação por meio de muitos depoimentos e trechos de filmes em que ele participou, com o personagem do curta “Nosferato no Brasil” (1970), dirigido por Ivan Cardoso, e muitos exemplares do cinema marginal, com quem ele interagia, e do cinema novo. Sua vida cultural envolveu trabalhos com Edu Lobo, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé, Jards Macalé, Wally Salomão, Hélio Oiticica, e muitos outros que compunham com ele a geleia geral brasileira do período em que ele viveu. Esse piauiense tão talentoso, inovador e provocador, suicidou-se aos 28 anos de idade, em 1972, e falar da sua vida é, inevitavelmente, falar dessa escolha, que sempre o acompanhou como ideia e que ele acabou por concretizar. Não há respostas, há tentativas de aproximação e entendimento. O que importa hoje é a obra que ficou, que é muito relevante e merece ser revisitada. Não faltam elementos, informações, referências visuais ao documentário “Torquato Neto – Todas as Horas do Fim”, mas ele seria mais interessante se tivesse se preocupado um pouquinho mais em ser didático, o que costuma ser mal visto pelos documentaristas atuais, mas que faz falta, muitas vezes. E não é nenhum pecado mortal, convenhamos. As falas, os depoimentos, são ouvidos quase o tempo todo, enquanto as imagens mostram filmes e fotos. Algumas vezes, aparece o nome da pessoa que fala, outras, não. Quem não identificar o tom de voz, fica sem saber quem está falando. Caetano, Gil, Tom Zé, têm timbres bem conhecidos e divulgados, outros, nem tanto. É possível dizer que o importante é o que se diz, não quem disse. Mas, sem dúvida, o espectador quer saber e tem esse direito. Outro aspecto que causa estranheza é a ausência de Edu Lobo no filme. A música de Torquato Neto que mais se ouve ainda hoje é “Pra Dizer Adeus”, parceria com Edu, tocada duas vezes no filme. Porém, a única referência a Edu Lobo na vida de Torquato é uma foto, junto com outras pessoas, e o crédito na música citada, ao final. Enquanto isso, Caetano e Gil aparecem prodigamente. Nada contra. Mas há um descompasso que poderia ter sido pelo menos compensado por alguma citação, se é que Edu não pôde ou não quis dar depoimento para o filme. Ficou faltando a sua presença, que certamente é menos provocadora, mas não menos importante. O tropicalismo, movimento que Torquato Neto ajudou a criar e militou culturalmente, tem grande destaque no documentário e as imagens dele, no papel de vampiro, perpassam todo o filme. As palavras que ele manejava como poucos inundam a tela. Ao final, um resgate bonito e necessário.
Lara Croft enfrenta Maria Madalena nas estreias de cinema da semana
Não há muitas estreias amplas na semana, apesar do circuito receber 12 lançamentos. Nada menos que cinco produções da lista são documentários. Há mais três filmes europeus, além de uma animação japonesa agendada para um único dia de exibição. Assim, é natural que o frequentador dos shoppings só note três novidades – e uma delas com algum esforço. Clique nos títulos abaixo para ver os trailers de toda a programação. “Tomb Raider” tem a maior distribuição, em 600 telas, numa aposta no reconhecimento da “marca” entre o público. Mas não escapa da sina das adaptações de games em Hollywood. Já faz 25 anos que os grandes estúdios insistem em transformar jogos eletrônicos em filmes dispendiosos. E o resultado tem sido sempre o mesmo: produções cheia de saltos, corridas, lutas e obstáculos, que tentam evocar o ritmo frenético dos games. Mas, sem interatividade, não passam do “modo demonstração”, sem conseguir replicar a emoção que o gamer sente ao jogar. Pois o longa da heroína Lara Croft é o típico filme de videogame, com muitas corridas e saltos, e já taxado de medíocre pela crítica americana, com 50% de aprovação na média do site Rotten Tomatoes. A nota só não é pior porque as considerações negativas foram equilibradas com elogios à atriz sueca Alicia Vikander. Após vencer o Oscar por “A Garota Dinamarquesa” (2015), ela mostrou versatilidade e potência física para convencer como heroína de ação. Entretanto, houve quem reclamasse do tamanho dos seus seios – menores que o da Lara Croft dos primeiros games. A piada de ter uma modelo siliconada de revista masculina no papel principal, poderia ajudar o filme a assumir-se como trash total, em vez de tentar disfarçar-se de entretenimento empoderador com uma atriz talentosa no papel de um pixel. Outra adaptação de “marca” famosa e “heroína” conhecida, “Maria Madalena” decepciona por motivos diferentes. Maior produção sobre o Novo Testamento desde “A Paixão de Cristo” (2004), de Mel Gibson, o filme tem elenco grandioso, com destaque para Rooney Mara (“Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres”) no papel-título e Joaquin Phoenix (“Vício Inerente”) como Jesus, e toma grande cuidado ao abordar os dogmas cristãos, mesmo quando se desvia dos textos oficiais em busca de uma abordagem politicamente correta. Na prática, o filme transforma a personagem icônica, considerada prostituta na tradição evangélica, em feminista e principal seguidora de Jesus Cristo. O resultado, porém, não é o “Evangelho de Maria Madalena” (manuscrito encontrado junto com outros textos do cristianismo primitivo em escavações do Egito e só publicado em 1955), mas a atualização dos ensinamentos cristãos que a própria Igreja Católica tem pregado sob o Papa Francisco. A visão do passado é sempre filtrada pelo presente, e isto resulta em anacronismos que diferem entre as décadas. Se Jesus Cristo era loiro de olhos azuis em “A Maior História de Todos os Tempos” (1965), agora Pedro, supostamente o primeiro Papa, é negro (vivido por Chiwetel Ejiofor). Isto reflete a visão “de inclusão” do filme, seu maior pecado para os tradicionalistas, mas, assim como em “Lion” (2016), o filme anterior – e igualmente inclusivo – do diretor Garth Davis, o “politicamente correto” chega até ao meio do caminho, retrocedendo quando se espera que ouse maiores avanços. A violência e o aramaico de “A Paixão de Cristo” foram muito mais subversivos. “12 Heróis” é um filme de guerra estrelado por Chris Hemsworth (“Thor: Ragnarok”) e Michael Shannon (“A Forma da Guerra”), com direito a patriotismo banal, mas também cenas de ação intensas. A trama é inspirada na história real da primeira equipe militar dos Estados Unidos enviada ao Afeganistão após o ataque de 11 de setembro de 2001: 12 soldados americanos que têm que aprender a montar a cavalo para avançar pelas montanhas, apenas para descobrir que suas montarias os tornam alvos melhores para tiros de tanques. Como típica produção patriota de guerra, não há nuances ou a menor profundidade em sua história, o que lhe rendeu cotação medíocre de 54% no Rotten Tomatoes. Cinema europeu premiado O circuito limitado destaca três produções europeias premiadas, que fizeram suas pré-estreias mundiais no Festival de Cannes 2017. Por coincidência, a opção mais acessível também aborda terrorismo e muçulmanos, mas conta um lado dessa história que Hollywood ignora vergonhosamente, no tremular nacionalista de bandeiras. Um dos longas mais aplaudidos de Cannes, “Em Pedaços” ilumina a face do terrorismo que tem olhos azuis e ataca muçulmanos. A produção alemã acompanha o desespero e a impotência de uma mulher, após seu marido e filho serem vítimas de um atentado à bomba. Loira ariana, ela era casada com um turco, o que fez sua família virar alvo de grupos de ódio. Depois do período de luto e espera por justiça, ela decide agir contra os neonazistas, transformando seu drama pessoal num thriller de vingança. Quem precisa de remake de “Desejo de Matar” quando se tem um filme desses? Dirigido pelo alemão Fatih Akin (“Soul Kitchen”), filho de turcos, o longa venceu o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira e rendeu o prêmio de Melhor Atriz em Cannes para Diane Kruger (“Bastardos Inglórios”). Acabou ignorado pelo Oscar, mas agradou a crítica americana, com 73% no Rotten Tomatoes. O ódio contra estrangeiros e uma noção de nacionalismo bandeiroso também alimenta a trama de “Western”, outra produção alemã exibida em Cannes e premiada no circuito dos festivais. Escrito e dirigido por Valeska Grisebach, que foi consultora de roteiro do sucesso “Toni Erdmann” (2016), acompanha, com abordagem semidocumental, um grupo de trabalhadores alemães, contratados para obras numa região rural da Bulgária. Sem entender a língua e vivendo choque cultural constante, eles se indispõem com os moradores locais, expondo preconceitos e a mentalidade hooligan das classes baixas. Tem impressionantes 92% de aprovação no Rotten Tomatoes. “Amante por um Dia” evoca a nouvelle vague em seu foco em relacionamentos modernos, slogans e filmagem em preto e branco. A trama acompanha uma jovem que volta para casa, após terminar um namoro, e encontra o pai se relacionando com uma mulher da sua idade. Os três passam a conviver sem crises, mas – como o pai é professor de Filosofia, tudo é pretexto para – muitas conversas. Dirigido pelo veterano Philippe Garrel (“Um Verão Escaldante”) e estrelado por sua filha, Esther Garrel (“Me Chame pelo Seu Nome”), foi igualmente exibido e premiado em Cannes, na mostra da Quinzena dos Realizadores. Registros do Brasil brasileiro A programação se completa com cinco documentários, sobre os mais diferentes assuntos nacionais, da pesquisa histórica a discussões atuais. Curiosamente, nenhum deles opta pela hagiografia, que costuma marcar o segmento. O que não significa que faltem personagens marcantes. “A Luta do Século” é o mais consagrado. Venceu o Festival do Rio, na categoria de Melhor Documentário, ao registrar a rivalidade de mais de 20 anos entre os boxeadores Luciano Todo Duro e Reginaldo Holyfield, ídolos do esporte no Nordeste na década de 1990. Em seu auge, eles fizeram seis combates, com três vitórias para cada lado. E para desempatar, os dois ex-atletas, já com mais de 50 anos de idade, resolveram se enfrentar uma última vez. O resultado é uma vitória cinematográfica com grande força emotiva – e o melhor trabalho do diretor Sergio Machado desde sua estreia, em “Cidade Baixa” (2005). “Imagens do Estado Novo – 1937-45” traz outro cineasta renomado, Eduardo Escorel, que na obra demonstra sua habilidade com a edição de imagens. Montador de inúmeros clássicos do cinema nacional – “Terra em Transe” (1967), “Macunaíma” (1969), “São Bernardo” (1972), “Joanna Francesa” (1973), “Eles Não Usam Black-Tie” (1981), etc – , Escorel resgata a história da primeira ditadura assumida do Brasil, o Estado Novo de Getúlio Vargas, com imagens de arquivo, que mostram o carnaval do país que convivia com bandeiras nazistas e ataques à imprensa. Um documento importante para quem não tem memória, como a maioria dos “trabalhistas” brasileiros. Já os diretores de “Híbridos – Os Espíritos do Brasil” são franceses. Vincent Moon e Priscilla Telmon fazem um registro de diferentes cultos religiosos do país, do candomblé à missa evangélica, mostrando a força da fé nacional. O trabalho é belíssimo, graças à opção por colocar a câmera entre os fiéis para mergulhar nos transes e emergir com imagens potentes. Não há entrevistas, mas o registro é tão sublime que passa toda a experiência necessária. Apenas no final, cada religião representada é identificada, evidenciando como se aproximam, o que é a base do decantado sincretismo brasileiro. “O Silêncio da Noite É que Tem Sido Testemunha das Minhas Amarguras” oferece o oposto. É um filme que não cala, feito para destacar palavras e rimas, no registro de uma tradição quase extinta, que sobrevive na fronteira de Pernambuco com a Paraíba. O documentário de Petrônio Lorena (“O Gigantesco Imã”) registra a tradição repentista do sertão, por meio de histórias poéticas e da cantoria de seus entrevistados, em meio à beleza de um Brasil profundo e pouco explorado. “Rio do Medo” aborda a violência do Rio de Janeiro sob a perspectiva dos Policias Militares. Mais convencional da seleção, é feito de entrevistas como um trabalho televisivo, em que PMs de diferentes gerações relatam suas experiências dentro da corporação, marcadas pela violência, corrução e desconfiança do povo. O filme terá exibição única no Estação Net Rio na terça, dia 20 de março. Programação extra Para completar, o Cinemark também exibe a animação japonesa “Fireworks: Luzes no Céu” num única dia, igualmente em 20 de março. A fantasia adolescente segue uma premissa de efeito borboleta, ao inserir um artefato misterioso, capaz de reescrever a história, nas mãos de uma garota que quer salvar seu relacionamento com o menino de seus sonhos. Mas quanto mais ela zera o passado, mais distante fica seu final feliz. Um dos diretores, Nobuyuki Takeuchi, foi um dos principais animadores do Studio Ghibli, trabalhando com o mestre Hayao Miyazaki em inúmeros filmes – inclusive no vencedor do Oscar “A Viagem de Chihiro” (2001).
Farofeiros invadem os cinemas nas estreias da semana
A programação desta quinta (8/3) está sortida, com besteirol, ação e até lançamentos para celebrar o Dia Internacional da Mulher. São 13 longas e uma dica: reflita bem antes de encarar as filas, porque muitos dessas produções vão logo logo enjoar de tanto reprisar na TV. Clique nos títulos abaixo para assistir aos trailers de todas as estreias. “Os Farofeiros” tem a maior distribuição, levando a mais de 500 telas a décima parceria entre o diretor Roberto Santucci e o roteirista Paulo Cursino – no curto espaço de oito anos. Fábrica de hits, a dupla é responsável pelos blockbusters “De Pernas pro Ar” e “Até que a Sorte nos Separe”, e mantém algumas características “autorais”, como elenco de humoristas da TV, personagens caricatos e interpretações histéricas. As piadas do novo trabalho giram em torno do velho tema das “férias frustradas”, mas em vez de acompanhar uma família, reúne “colegas da firma” numa viagem para o litoral, onde tudo dá errado. Com direito a todos os clichês esperados, a história é melhor resolvida – e engraçada – que outras da dupla, ainda que seja inevitável pensar que funcionaria melhor com personagens e praia paulistas ou como lançamento de verão – ou, melhor ainda, como série do Multishow. Em outros anos, “Encantados” também flertaria com o grande público. Mas o filme já era datado quando foi feito, em 2014, tendo “desencantado” nos cinemas apenas agora – e trazendo consigo o “assediador” José Mayer, justamente no Dia da Mulher… A trama é uma versão tupiniquim dos romances adolescentes sobrenaturais que foram tendência em Hollywood há meia década atrás. Gira em torno da filha de um influente político paraense, que tem visões de um índio bonitão nas águas da Ilha de Marajó. Se o samba-enredo parece conhecido é porque a combinação de folclore, rios místicos e “realismo fantástico” tem sido a base de sucessos noveleiros como “Pantanal” (1990) e “Velho Chico” (2016) – sem esquecer que já há uma versão adulta similar, “Ele, o Boto” (1987). A direção é de Tizuka Yamasaki, que chegou a ser apontada como diretora promissora nos anos 1980, antes de se especializar em filmes da Xuxa. Os filmes B dos EUA Os três filmes americanos da semana foram rodados com baixo orçamento e chegam com atraso no Brasil. Caso mais extremo, “Medo Profundo” foi lançado há oito meses nos Estados Unidos, ocasião em que virou uma das maiores surpresas do ano passado. Custou US$ 5,5 milhões e faturou US$ 44,3 milhões só no mercado doméstico, apesar da trama limitada, que mostra as atrizes Mandy Moore (série “This Is Us”) e Claire Holt (série “The Originals”) presas no fundo do mar, cercadas por tubarões e contando os minutos de oxigênio que lhes restam. Sem maiores pretensões, o suspense aquático sobreviveu à cotação medíocre, de 55% de aprovação no Rotten Tomatoes, para sair direto em DVD em vários países. O Brasil é o último lugar do mundo em que será projetado. Apesar de mais verba para efeitos visuais, “O Passageiro” segue a fórmula de filme B das parcerias anteriores entre o ator Liam Neeson e o diretor Jaume Collet-Serra. Como sempre, o protagonista vive o homem errado, que vira alvo de alguém que irá se arrepender até o fim da exibição. O diretor, que já tentara matar o astro num acidente de carro, de avião e a pé nas ruas, desta vez o coloca numa trem em seu trajeto cotidiano para casa. Ao ser abordado no vagão por uma mulher misteriosa (Vera Farmiga), ele acaba envolvido numa conspiração criminal que ameaça não apenas a sua vida, como a de todos ao seu redor. Um pouco acima da linha da mediocridade, atingiu 58% no Rotten Tomatoes e faturou US$ 36,2 milhões em três meses em cartaz na América do Norte. No “ajuste final”, foi salvo pelo público internacional, que pagou quase o dobro para ver o que Tony Scott filmaria em 2017 se ainda fosse vivo. Outra história de ação ferroviária, “15h17 – Trem para Paris” acabou virando um docudrama com direção do veterano Clint Eastwood. A trama acompanha três americanos de férias na Europa, que usam seu treinamento militar para impedir o ataque de um terrorista armado em um trem que viaja de Amsterdã para Paris. A premissa de filme de Steven Seagal dos anos 1990 aconteceu de verdade em 2015 e foi abordada por Eastwood com um tratamento quase documental, ao optar por dirigir os próprios três amigos, interpretando a si mesmos na recriação da viagem em que viraram heróis. Para ter assunto, o filme também mostra como eles se conheceram desde a infância e seu treinamento militar, e ainda serve como propaganda para o alistamento militar nos Estados Unidos. O resultado não convenceu, com 15% de aprovação. Orçado em US$ 30 milhões, dará prejuízo com apenas US$ 35,2 milhões em dois meses. O empoderamento do circuito limitado As melhores opções em cartaz começam com a produção britânica “Daphne”. Trata-se de uma anti-comédia romântica sobre a personagem-título, que transita pela noite de Londres entre bebedeiras e sexo casual, enquanto navega uma crise existencial a espera de um atrasado amadurecimento. A atriz Emily Beecham, mais conhecida como A Viúva da série “Into the Badlands”, foi premiada no Festival de Torino e indicada ao BIFA (premiação indie britânica) pelo papel. Já o filme tem só 100% de aprovação no Rotten Tomatoes. “A Número Um” é um suspense feminista passado no mundo das grandes corporações. Bastante atual, o longa francês acompanha sua protagonista numa campanha para ser promovida à CEO de sua empresa, defrontando-se com um rival sexista pelo cargo, que faz tudo para lembrá-la de “seu lugar”, inclusive jogar sujo para vê-la chorar como “mulherzinha”. Escrito, dirigido e estrelado por mulheres, destaca a interpretação de Emmanuelle Devos, indicada ao César (o Oscar francês) pelo desempenho. Outra história feminina francesa, “O Filho Uruguaio” acompanha a busca de uma mãe pelo filho pequeno, sequestrado pelo próprio pai. Após quatro anos do divórcio, sem que a polícia o tenha localizado, a mãe resolve procurar o filho por conta própria, planejando um reencontro no Uruguai. A realidade, porém, não acontece como em seus sonhos. O que não é exatamente inesperado. A maternidade também é o tema de “Uma Espécie de Família”, novo suspense do argentino Diego Lerman (“Refugiado”), que venceu o troféu de Melhor Filme do Festival de Chicago, Melhor Roteiro do Festival de San Sebastian e tem oito indicações ao “Oscar argentino”. A trama acompanha uma médica que viaja ao interior, num local distante, para o parto de uma jovem pobre. Pretendendo adotar o bebê, ela é surpreendida por um esquema de extorsão e, quando percebe a verdade sobre a situação em que se meteu, entra em desespero. No papel principal, a espanhola Bárbara Lennie foi coberta de elogios pela imprensa platina. Ela já tem o Goya (o Oscar espanhol) de Melhor Atriz por “A Garota de Fogo” (2014). E os documentários A programação se completa com quatro documentários brasileiros. O melhor é “Torquato Neto – Todas as Horas do Fim”, que resgata um dos expoentes menos lembrados da Tropicália. Culpa dele próprio, que se matou jovem. Jornalista, poeta, compositor, cineasta, deixou alguns clássicos da MPB como legado. “Santoro – O Homem e Sua Música” também resgata ícone esquecido da cultura brasileira do século 20. O amazonense Cláudio Santoro (1919-1989) chegou a ser considerado um dos maiores compositores eruditos do mundo. Mas, em vez de consagração, sofreu perseguição no Brasil por ser comunista. Impedido de exercer sua arte, precisou dar aulas particulares e até criar bois para sobreviver. Por fim, “Pra Ficar na História” registra os esforços de um gaúcho que criou um museu ao ar livre sobre a imigração italiana e “A Imagem da Tolerância” aborda o culto a Nossa Senhora de Aparecida.
Ao abordar crimes, Cartas Para um Ladrão de Livros revela valores culturais
O cidadão Laéssio Rodrigues de Oliveira, considerado o principal ladrão de obras raras no Brasil, é o foco do documentário “Cartas Para um Ladrão de Livros”, de Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros. Os feitos desse ladrão, que começou roubando revistas antigas com Carmen Miranda na capa e objetos relacionados à antiga cantora, a quem ele adorava, chegaram a atingir dimensões impressionantes. Ele praticou furtos em bibliotecas públicas de, pelo menos, cinco estados brasileiros, incluindo fotos da corte brasileira, mapas antigos feitos a mão, gravuras de artistas europeus icônicos, como Rugendas, e todo tipo de livro valioso e raro, ou de partes extraídas deles. Antes de mais nada, isso revela que o então estudante de biblioteconomia Laéssio era um cara bem informado, culto, que sabia o valor das coisas e também encontrou um meio de vendê-las a pessoas muito ricas que topavam pagar fortunas por esses roubos. Certamente, sabendo que seriam produto de roubo tais preciosidades. Como sempre acontece no nosso país, o ladrão está preso e já havia cumprido dez anos de detenção, anteriormente. Os muito ricos são desconhecidos e usam de seus poderes para permanecerem à sombra, sem qualquer consequência. Alguns, que teriam sido citados em depoimentos, utilizaram seus meios de pressão para que permanecessem desconhecidos e não pudessem ser investigados. Muito menos, punidos. Para além da audácia do ladrão sofisticado e de seu público comprador, há a questão da preservação da memória e do patrimônio nacional. É inacreditável a facilidade com que ele atuou nas bibliotecas e museus, sem que ninguém se desse conta do que estava acontecendo, sem registros filmados, sem controle de acervo periódico. Só quando, finalmente, ele foi indiciado e condenado é que alguns logradouros culturais se deram conta do desaparecimento das obras, ou de parte delas. Inacreditável! O filme foca nos depoimentos de Laéssio, de quem com ele conviveu ou foi furtado por ele, além dos agentes públicos e policiais que o investigaram. Destaca, também, a correspondência do ladrão com os diretores do filme, Carlos Juliano Barros e Caio Cavechini, durante períodos em que ele esteve preso. E, ainda, as cartas que ele trocou com um rapaz, seu amante, que acabou sendo também envolvido na questão dos roubos. “Cartas Para um Ladrão de Livros” ajuda a refletir sobre diversas questões ligadas à educação e cultura, valores e flagrantes desigualdades, a partir da figura retratada no documentário. Entre as pérolas de Laéssio, está algo assim: Não sei o que é melhor, estar livre pobre ou estar preso rico.
Último candidato ao Oscar 2018 enfrenta Maldição nas estreias de cinema
Abusando da metáfora, é possível dizer que existe uma maldição que impede bons filmes de ter melhor distribuição no Brasil, condenando-os a vagar pelo país sem serem vistos até sumir em salas escuras. O fato é que, em pleno fim de semana do Oscar 2018, o lançamento mais amplo no Brasil é um terror com maldição explícita no título. Um horror em mais de um sentido. A lista de estreias medíocres também ajuda a explicar porque Jennifer Lawrence decidiu dar uma pausa na carreira. Não falta nem sequer um desenho desanimado para crianças, que se divertiriam mais com um game no celular. Enquanto isso, um dos melhores filmes sobre a infância já feitos, indicado ao Oscar e que chega tardiamente junto da disputa ao prêmio, é enterrado-vivo no circuito limitado, entre documentários, filme francês-uruguaio e lançamentos nacionais. Leia sobre cada lançamento abaixo e clique nos títulos para ver os trailers de todas as estreias. “A Maldição da Casa Winchester” é o primeiro terror estrelado por Helen Mirren (“A Rainha”) e um dos piores filmes de sua carreira cinquentenária, com apenas 14% de aprovação no Rotten Tomatoes. Ela vive a herdeira do fabricante dos famosos rifles Winchester, populares no Velho Oeste, que acredita ser perseguida pelos fantasmas de todas as vítimas da arma e se tranca em uma mansão enorme e labiríntica para manter os espíritos distantes. O detalhe interessante é que a mansão tortuosa de Winchester existe de verdade, em San Jose, na Califórnia. Sua construção durou continuamente de 1884 a 1922, resultando na casa mais incomum do mundo, em forma de labirinto, com 160 quartos, 2 mil portas, 10 mil janelas, 9 cozinhas, 13 banheiros e 47 escadas, muitas das quais não levam a lugar algum. Entretanto, essa curiosidade chega ao cinema com vários clichês de casa mal-assombrada, fantasmas e possessão, que só assustam crianças que acreditam em gnomos. “Duda e os Gnomos” também se passa numa mansão mal-assombrada, em que gnomos (anões de jardim) enfrentam figurantes rejeitados de “Monstros S.A.” (2001). Sim, Gnomeu e Julieta viram Caça-Fantasmas e enfrentam os primos rejeitados de Mike Wazowski. As animações canadenses parecem apostar na reciclagem para emplacar no mercado internacional. Já tinha sido assim com o filme anterior de Peter Lepeniotis, “O Que Será de Nozes?” (2014), que tinha premissa similar a “Os Sem-Floresta” e designs de personagens já vistos em “Ratatouille” (2007) e diversos outros longas mais bem cotados. Derivativo, este filme nem sequer tem previsão de lançamento nos cinemas dos Estados Unidos. “Operação Red Sparrow” segue o padrão das premissas genéricas, reciclando a origem da heroína Viúva Negra que a Marvel esqueceu de filmar. Treinada desde jovem nas artes marciais e da sedução, a personagem de Jennifer Lawrence (“Mãe!”) faz parte de um programa considerado lenda na comunidade de inteligência. Mas ao receber a missão de conquistar um agente da CIA (papel de Joel Edgerton, de “Ao Cair da Noite”), ela é tentada a trair seu país. O jogo de sedução e cooptação segue um roteiro previsível, que apenas a interpretação de Lawrence torna atraente. A produção volta a reunir a atriz com o diretor Francis Lawrence, após trabalharem juntos em três filmes da franquia “Jogos Vorazes”, e também com o roteirista Eric Warren Singer, que assinou “Trapaça” (2013). Tem 61% de aprovação no site Rotten Tomatoes – mas somente 50% dos críticos de mídia impressa. Último lançamento de indicado ao Oscar 2018 antes da cerimônia, “Projeto Flórida” está na disputa da estatueta de Melhor Ator Coadjuvante com Williem DaFoe (“Meu Amigo Hindu”). Ele interpreta o gerente do hotel Magic Castle, que recebe turistas dos parques temáticos da Disney e precisa lidar com diversas crianças hiperativas durante as férias de verão, envolvidas em suas próprias aventuras, enquanto os adultos enfrentam seus problemas de gente grande. O filme teve première na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, ocasião em que encantou a crítica internacional, atingiu 96% de aprovação no site Rotten Tomatoes e venceu diversos prêmios. Mas foi menosprezado pela Academia com apenas uma indicação, possivelmente devido ao escândalo sexual que levou ao afastamento de seu produtor. A seleção estrangeira ainda inclui “O Filho Uruguaio”, drama francês sobre mãe que procura o filho pequeno, sequestrado pelo próprio pai. Após quatro anos do divórcio, sem que a polícia francesa o tenha localizado, a mãe resolve procurar o filho por conta própria, planejando um reencontro no Uruguai. A realidade, porém, não acontece como em seus sonhos. O que não é nada de novo. Quatro filmes brasileiros completam a programação. Dois são trabalhos de ficção. A opção mais popular é o terror “Motorrad”, inspirado no gênero slasher, mania dos anos 1970, a ponto de evocar a encenação de “Quadrilha de Sádicos” (1977). A produção se esmera na fotografia de motocross, até os protagonistas encontrarem uma segunda turma de motoqueiros, que não tira os capacetes negros enquanto saca seus facões ensanguentados para cometer assassinatos brutais. A história simplinha e carregada de clichês do gênero foi concebida por Danilo Beyruth, que atualmente desenha o “Motoqueiro Fantasma” nos quadrinhos da Marvel, e roteirizada por LG Bayão, que escreveu coisas tão distintas quanto “Irmã Dulce” (2014) e o besteirol “O Último Virgem” (2016). A direção é de Vicente Amorim (de “Corações Sujos” e também “Irmã Dulce”). Para completar, o elenco inclui alguns ex-integrantes da novela teen “Malhação”. Mas o verdadeiro massacre ficou fora da tela. Veio da crítica norte-americana, que eviscerou o filme após sua exibição no Festival de Toronto. Já os críticos brasileiros devem ter gosto diverso, pelo que se pode notar. “Todas as Razões para Esquecer” evoca outro tipo de filme americano. A trama compartilha angústias do cinema indie e chega a compartilhar o tema de “Homens, Mulheres e Filhos” (2014), sobre a contradição de um mundo extremamente conectado que gera pessoas extremamente solitárias. Diante de um arsenal de possibilidades tecnológicas para encontrar um novo amor, o protagonista vivido por Johnny Massaro não consegue esquecer a antiga namorada. Nem com terapia. Os dois documentários tem histórias mais originais. “Cartas para um Ladrão de Livros” conta a história do maior ladrão de livros raros do Brasil, ao mesmo tempo em que questiona valores culturais. O tema é desenvolvido de forma bastante instigante. Mas o grande destaque nacional da programação desta quinta (1/3) é disparado “Piripkura”. Vencedor do Festival do Rio e premiado no Festival de Roterdã, na Holanda, o filme de Mariana Oliva, Renata Terra e Bruno Jorge mergulha na floresta amazônica em busca dos últimos sobreviventes do povo indígena Piripkura, após anos de enfrentamento contra madeireiros. As câmeras dos cineastas fazem sua jornada ao lado de Jair Candor, um funcionário da FUNAI (Fundação Nacional do Índio), e de dois índios nômades do povo Piripkura, conhecidos como o “povo borboleta”. Praticamente extintos, os Piripkura sobrevivem cercados por fazendas e madeireiros numa área ainda protegida no meio da floresta amazônica. Candor os conhece desde 1989, e realiza expedições periódicas, monitorando vestígios que comprovem a presença deles na floresta, a fim de manter a preservação da área. Mas eles tem a cabeça a prêmio, pois o genocídio virou o negócio mais lucrativo dos empresários rurais brasileiros. A produção é importante diante da atual política indígena do Brasil. “O agronegócio está mais forte do que nunca. O governo impôs cortes significativos à administração da FUNAI. Uma das consequências dessa atitude foi o aumento de invasores nas terras indígenas”, explicou Mariana Oliva em entrevista à revista americana Variety.
Cinema brasileiro bate recorde de reconhecimento com cinco prêmios no Festival de Berlim 2018
O cinema brasileiro saiu consagrado do Festival de Berlim 2018 com a conquista de cinco prêmios paralelos, entre eles os de favoritos da crítica e do público. Ao todo, três documentários, um longa de ficção e uma coprodução latina foram premiados na programação do evento alemão, um recorde de reconhecimento para a produção cinematográfica nacional. Três prêmios já tinham sido antecipados na sexta (23/2) e mais dois foram anunciados na tarde deste sábado. Veja abaixo o que cada filme venceu. “O Processo”, documentário de Maria Augusta Ramos sobre o impeachment de Dilma Rousseff, venceu o Prêmio do Público como o Melhor Documentário da mostra Panorama, a segunda mais importante do evento. “Zentralflughafen THF”, documentário de Karim Aïnouz sobre o centro de apoio a refugiados instalado no antigo aeroporto de Tempelhof na capital alemã, recebeu o prêmio Anistia internacional. “Tinta Bruta”, dos gaúchos Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, venceu o prêmio Teddy, concedido por um júri independente aos melhores filmes com temática LGBTQ da seleção oficial do festival. O filme acompanha um jovem que usa o codinome GarotoNeon para trabalhar como camboy, fazendo performances eróticas com o corpo coberto de tinta para milhares de anônimos ao redor do mundo, pela internet. O mesmo júri selecionou “Bixa Travesty”, de Claudia Priscilla e Kiko Goifman, sobre a cantora e ativista transexual Linn da Quebrada, com o Teddy de Melhor Documentário. Para completar, a Federação Internacional de Críticos de Cinema (Fipresci) elegeu “Las Herederas”, do paraguaio Marcelo Martinessi, com o vencedor do Prêmio da Crítica. Coproduzido pela diretora carioca Julia Murat (“Pendular”), “Las Herederas” também conta com apoio de produtoras do Uruguai, da França e da Alemanha. A coprodução internacional, segundo o cineasta Marcelo Martinessi, é a única forma de se fazer cinema de qualidade no Paraguai. Leia a entrevista do diretor aqui.
Filmes brasileiros vencem os principais prêmios paralelos do Festival de Berlim 2018
Dois longas nacionais e uma coprodução brasileira foram consagradas no Festival de Berlim 2018 com os principais prêmios paralelos do evento. “Tinta Bruta”, dos gaúchos Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, venceu o prêmio Teddy, concedido por um júri independente aos melhores filmes com temática LGBTQ da seleção oficial do Festival de Berlim. O filme acompanha um jovem que usa o codinome GarotoNeon para trabalhar como camboy, fazendo performances eróticas com o corpo coberto de tinta para milhares de anônimos ao redor do mundo, pela internet. O mesmo júri selecionou “Bixa Travesty”, de Claudia Priscilla e Kiko Goifman, sobre a cantora e ativista transexual Linn da Quebrada, com o Teddy de Melhor Documentário. Para completar, a Federação Internacional de Críticos de Cinema (Fipresci) elegeu “Las Herederas”, de Marcelo Martinessi, com o vencedor do Prêmio da Crítica. E por coincidência o filme também tem temática LGBTQ. Em sua apresentação do prêmio, a comissão de críticos afirmou que escolheu o filme de estreia de Martinessi pela “descrição de um assunto secreto e proibido: a homossexualidade feminina na sociedade paraguaia”. A trama gira em torno de um mulher sexagenária (Ana Brun, aplaudidíssima em Berlim) separada de sua parceira de toda a vida, enquanto precisa se desfazer dos móveis e obras de arte da família para pagar as contas da casa em que viveram juntas, atualmente em estado de ruína. As dívidas se acumulam, após uma delas ser presa por fraude bancária, deixando a outra sozinha no casarão. Até que, aos poucos, a senhora solitária cede aos convites da vizinha mais jovem, que gosta de sair para jogar pôquer com as amigas, e transforma o antigo Mercedez Bens herdado do pai em transporte particular. Primeiro longa paraguaio selecionado para a Berlinale, a obra é sutil, mas lida com temas poderosos, como amor e companheirismo entre mulheres, decadência da classe média, crise econômica, Terceira Idade, etc, tudo num microcosmo doméstico. E ganhou críticas elogiosas da imprensa internacional durante a exibição no festival alemão. Coproduzido pela diretora carioca Julia Murat (“Pendular”), “Las Herederas” também conta com apoio de produtoras do Uruguai, da França e da Alemanha. A coprodução internacional, segundo o cineasta Marcelo Martinessi, é a única forma de se fazer cinema de qualidade no Paraguai. Leia a entrevista de Martinessi aqui.
Filme sobre o impeachment de Dilma inspira mini-protesto no Festival de Berlim 2018
A exibição no Festival de Berlim 2018 do filme “O Processo”, documentário de Maria Augusta Ramos sobre o impeachment da presidente Dilma Rousseff, atraiu um pequeno grupo manifestantes políticos. Mas se cerca de 200 pessoas “encheram” as redes sociais de disposição, cerca de 20 surgiram de fato nas ruas de Berlim, sob a temperatura de 2 graus, para protestar na Potsdamer Platz, praça próxima ao Palácio do Festival. O ato teve os já indefectíveis cartazes denunciando um “golpe” no país e manifestação de apoio ao ex-presidente Lula, condenado em segunda instância por corrupção e réu em diversos processos em andamento. Ao contrário do protesto da equipe de “Aquarius” no Festival de Cannes de 2016, o ato não tem ligação com a produção de “O Processo”. O documentário está entre os cinco longas brasileiros selecionados para a mostra Panorama. Quatro são documentários: “Aeroporto Central”, de Karim Aïnouz, “Ex-Pajé”, de Luiz Bolognesi, e “Bixa Travesty”, de Claudia Priscilla e Kiko Goifman. O único filme de ficção selecionado foi “Tinta Bruta”, de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher. Mas, pelo conteúdo político e politizável – certa revista já o denominou de “documentário contra o golpe do impeachment” – , “O Processo” é o que tem chamado mais atenção. Os manifestantes de Berlim aproveitaram a deixa, por exemplo, para ler uma carta pedindo “o resgate imediato do Estado democrático e de direito; o direito de Lula ser candidato; a volta da presidenta eleita; o enquadramento dos golpistas e imediata revogação dos seus atos; e por eleições limpas, transparentes e sem o aparelhamento dos golpistas”.
Mostra de Tirandentes 2018 premia filme sobre a noite de BH e atriz transexual
O filme “Baixo Centro”, dirigido por Ewerton Belico e Samuel Marotta, venceu a Mostra de Tiradentes 2018, festival de filmes independentes brasileiros. Foi o segundo ano consecutivo em que o evento registrou vitória de um filme mineiro. O anterior, “Baronesa”, permanece inédito até hoje em circuito comercial. Exibido na seção Aurora, “Baixo Centro” acompanha personagens jovens pelas noitadas do centro de Belo Horizonte, entre encontros e desencontros, e muitos lamentos por possibilidades que não se cumpriram, em meio ao saudosismo de uma época melhor. Durante seus agradecimentos, os diretores fizeram algo até então nunca visto no evento – ou em qualquer outro festival de cinema brasileiro: uma manifestação contra o PT. Eles leram um manifesto contra a Secretaria de Cultura do governo Fernando Pimentel, que exinguiu o Filme em Minas, principal meio de incentivo ao audiovisual no estado. Se a edição do ano passado premiou filmes dirigidos por mulheres – a começar do mencionado “Baronesa”, de Juliana Antunes – , o destaque deste ano foi a premiação de uma atriz transexual, Julia Katharine, como vencedora do troféu Helena Ignez, destinado à maior personalidade feminina entre os filmes exibidos. Protagonista do documentário “Lembro Mais dos Corvos”, em que recita um monólogo sobre sua vida, ela foi aplaudida de pé pelo público. O documentário “Escolas em Luta”, de Eduardo Consonni e Tiago Tambelli, sobre a crise na educação do Rio, recebeu o Prêmio do Público. E outro documentário, “Inaudito”, de Gregorio Gananian, sobre o lendário guitarrista Lanny Gordon, venceu a Mostra Olhos Livres.












