Carnaval do novo Peter Pan tem reciclagem de fantasias
A ideia de encarar mais uma entre as mil releituras de “Peter Pan” para o cinema soa como tortura. Mas a versão de Joe Wright (“Anna Karenina”) opta por um olhar inédito dentro da saga; não do cinema, porque segue a tendência de Hollywood neste século em explorar as origens de histórias clássicas. Embora poucos tenham curiosidade em saber o que aconteceu antes (e a indústria não aprende), o prelúdio respeita e jamais distorce a criação de J.M. Barrie; apenas imagina como Pan chegou à Terra do Nunca e se envolveu em aventuras fantásticas com personagens famosos como Capitão Gancho e Sininho. Talvez, por isso, o filme não tenha muito que criar ou explorar, a não ser a inesperada amizade entre Pan e Gancho, que é o coração da versão de Joe Wright. Mas, até chegar lá, o público tem que se contentar com uma colagem de vários outros filmes recentes. Deixado pela mãe em um orfanato, Peter (Levi Miller) vive a desilusão de uma Londres escura e cinzenta na época da 2ª Guerra Mundial. Para piorar, ele e seus amigos órfãos precisam lidar diariamente com uma freira que comanda o local com rigorosa e exagerada disciplina. Mas, no fundo, ela é má como uma bruxa, uma vilã do tradicional universo infantil. Esconde a comida gostosa da garotada e faz uso da palmatória para punir quem sai da linha. É um belo início para o filme, recheado de amargura, mas fica a impressão de que estamos vendo “Oliver Twist”, não “Peter Pan”. Ainda bem que os piratas não demoram muito para levar as crianças para a Terra do Nunca. E quando J.M. Barrie começa a tomar forma, Joe Wright inventa uma cena de ação desnecessária, com aviões de guerra perseguindo o navio pirata. Temos ecos de “As Crônicas de Nárnia” e até do pouco visto “Capitão Sky e o Mundo de Amanhã”, menos “Peter Pan”. A entrada pelos portões da colorida Terra do Nunca, que contrasta com a escuridão de Londres, lembra a Oz de Sam Raimi e o País das Maravilhas de Tim Burton, e não “Peter Pan”. Quando conhecemos o pirata Barba Negra (Hugh Hackman), todos cantam “Smells Like Teen Spirit” (!), do Nirvana, e “Blitzkrieg Bop” (!!), do Ramones. Parece “Moulin Rouge”, nunca “Peter Pan”. Depois disso, a fuga de Peter – e seu mais novo amigo Gancho – pelas florestas remete diretamente a “Avatar”. Até mesmo o resgate dos dois pela Princesa Tigrinha (Rooney Mara) lembra como Neytiri (Zoe Saldana) salva Jake Sully (Sam Worthington) na cena que marca o primeiro encontro dos personagens principais do filme de James Cameron. Na verdade, assim como os recentes “Oz: Mágico e Poderoso” (2013) e “Alice no País das Maravilhas” (2010), o visual desse “Peter Pan” sofre com a falta de identidade própria, seguindo o caminho fácil de requentar uma mistura entre Terra-Média e Pandora. Onde o filme cresce: os atores são bons e Joe Wright deixa que eles brilhem apesar do uso exagerado de CGI. Rooney Mara e seu olhar chamam a atenção da câmera sempre que entram em cena. Garrett Hedlund, como Gancho, está perfeito ao imprimir ambiguidade, carisma e simpatia a um personagem que pode ou não ser confiável, e que todos sabemos onde vai parar. Sem falar que o menino Levi Miller é um achado. Mas ninguém se destaca tanto quanto Hugh Jackman, que se diverte como Barba Negra sem medo de passar vergonha. O ator se entrega de corpo e alma ao vilão carnavalesco como se estivesse em “X-Men” ou “Os Miseráveis”. Sem essa de filme sério ou fantasia, para ele todos os papéis devem ser levados a sério. E Jackman vale o show. Sem personalidade, esse “Peter Pan” é inofensivo e divertido enquanto dura. Como “Hook” (1991), de Steven Spielberg, e até mesmo “Em Busca da Terra do Nunca” (2004), de Marc Forster, jamais ousa avacalhar com a obra de J.M. Barrie, que sempre estará lá. Mas também terá dificuldade para ser lembrado, até porque arma o tabuleiro, mas não termina onde começa o verdadeiro “Peter Pan”. Nem explica como o protagonista carrega o estigma de ser o menino que não queria crescer. Será que estavam pensando numa continuação? Uma trilogia? Difícil dizer agora, já que o filme foi massacrado pela crítica e, ignorado pelo público americano, fracassou nas bilheterias.
Um Amor a cada Esquina é comédia à moda antiga de um mestre do cinema
“Um Amor a cada Esquina” marca o retorno ao cinema de Peter Bogdanovich, um dos nomes mais importantes da chamada Nova Hollywood, responsável por clássicos como “Na Mira da Morte” (1968) e “A Última Sessão de Cinema” (1971). Com a carreira voltada nos últimos anos para a televisão, seus filmes são cada vez mais raros. Tanto que, após “Um Sonho, Dois Amores” (1993), só tinha dirigido um longa, “O Miado do Gato” (2001). O retorno pode não ser o mais glorioso, mas é muito difícil ver “Um Amor a cada Esquina” sem dar boas gargalhadas ou ficar sorrindo com as situações, que parecem mesmo tiradas de comédias antigas, como as tramas malucas das produções da década de 1930, por exemplo. O começo do filme, ao som de jazz dessa época, reforça a referência. Embora se passe nos dias de hoje, o estilo é mesmo de filme velho, embora muita gente o compare com o tipo de humor que Woody Allen ainda faz – o que não deixa de ser uma comparação válida, já que ambos são contemporâneos e compartilham as mesmas influências. A personagem central da trama é uma moça chamada Isabella, interpretada por Imogen Poots (“Need for Speed”), que tem um tipo físico que parece agradar Bogdanovich, semelhante ao de Samantha Mathis, de “Um Sonho, Dois Amores”, e Kirsten Dunst em “O Miado do Gato”, justamente os dois últimos longas do diretor. Isabella é uma moça de família humilde que sonha virar atriz, mas, enquanto isso não é possível, vai ganhando a vida como garota de programa. Um dia, a jovem encontra um diretor de teatro da Broadway (Owen Wilson, que também estrelou “Depois da Meia-Noite”, de Woody Allen) e ele simpatiza tanto com ela que lhe paga uma boa quantia em dinheiro para largar aquela vida. Como o jogo de coincidências é o combustível desta comédia, ao decidir seguir seu sonho Isabella vai parar justamente na audição de uma peça do tal diretor, para interpretar, claro, uma prostituta. Ela encanta a todos da equipe com sua capacidade de encarnar a personagem. Até a esposa do diretor (Kathryn Hahn, de “A Vida Secreta de Walter Mitty”) a vê como a atriz perfeita para o papel. Aquela situação também se mostra ideal para que o ator principal da peça, vivido por Rhys Ifans (“O Espetacular Homem-Aranha”), possa se valer do que sabe para dar em cima da esposa do diretor. Nessa ciranda de amores e confusões, muita coisa acontece, e há até uma participação interessante de Jennifer Aniston (“Família do Bagulho”) como uma psicóloga meio maluca. Engraçado como a atriz tem se especializado nesse tipo de papel – lembra, por exemplo, a dentista de “Quero Matar Meu Chefe”, o que passa uma sensação de que já vimos isso antes. No mais, é um filme tão despretensioso que poderia ser facilmente esquecido se não tivesse a assinatura de Bogdanovich, capaz de reunir esse bom elenco.
Ponte dos Espiões retoma parceria entre Tom Hanks e Spielberg
Em “Ponte dos Espiões”, Steven Spielberg alimenta uma obsessão que permeia a maior parte de sua filmografia dramática: a perplexidade diante da complexidade das relações humanas. A trama aborda a história do advogado James B. Donovan (Tom Hanks), que é levado a defender o espião soviético capturado Rudolf Abel (Mark Rylance), segundo o preceito da lei americana de que todos merecem um advogado. Entretanto, o prejulgamento do caso já aconteceu, pois comunistas são tidos como verdadeiros demônios pela comunidade americana. Assim, as autoridades tratam o processo como mera formalidade, de forma a conduzir logo o vilão à pena de morte. Mas o advogado tem outra visão do caso. Para ele, o sujeito estava apenas prestando um serviço ao seu país, como também fazem os espiões americanos infiltrados na União Soviética ou em qualquer outro país comunista naquele cenário da Guerra Fria. As diferenças de pontos de vistas revelam como o ódio marcou o período, e a passagem de tempo, entre a época mostrada e os dias atuais, ajuda a demarcar o exagero das reações. O próprio Spielberg subverte as expectativas ao filmar o anticomunismo quase como o antisemitismo na Alemanha nazista, tratando do tema como algo de que os americanos deveriam se envergonhar. Como o filme ainda apresenta o espião como alguém bastante simpático, espirituoso e sensível (é um pintor, ainda por cima), torna-se ainda mais fácil para a audiência comprar a ideia do cineasta. Em seu papel, Tom Hanks repete a figura do homem determinado a fazer o que acredita ser o correto, vista em todos os filmes que rodou com Spielberg, sendo o mais extremo o oficial que se sacrifica em “O Resgate do Soldado Ryan” (1998). A obstinação de “Prenda-me Se For Capaz” (2002) e “O Terminal” (2004) também se enquadra no mesmo perfil. Além disso, o ator transmite como poucos a imagem clássica do bom moço, de um James Stewart contemporâneo, que funciona muito bem aqui. Desta vez, seu personagem é o típico homem comum, pai de família e classe média, que ganha contornos de herói ao encarar, sem muito apoio de seu próprio governo, uma negociação de troca entre prisioneiros, indo arriscar a própria vida em território inimigo, na Alemanha Oriental do início dos anos 1960. Por sinal, uma das cenas mais impressionantes do filme mostra a construção do terrível Muro de Berlim. É mais um exemplo do quanto o cinema pode transportar o público magicamente, como numa máquina do tempo, para um outro lugar e outra época, por meio de belas fotografia e cenografia. As imagens de Berlim devastada pela guerra e abandonada pelos soviéticos são desconcertantes e se aproximam da perfeição. “Ponte dos Espiões” é também o registro de um Spielberg maduro e sóbrio, mais próximo da contenção dramática de “Lincoln” (2012) que do sentimentalismo deslavado de “Cavalo de Guerra” (2011), para citar obras mais recentes. O que faz com que o espectador saia do cinema satisfeito com o excelente espetáculo, a reconstituição histórica, mas também considere importante seu debate ético.
Atividade Paranormal – Dimensão Fantasma exalta agonia do terror “found footage”
Após um hiato de três anos, “Atividade Paranormal – Dimensão Fantasma”, quinto filme da franquia – que ainda inclui dois spin-offs passados no Japão e numa comunidade latina – chega aos cinemas para finalmente responder as perguntas da trama original. O problema é que os produtores parecem não saber como responder também à proliferação, repetição e esgotamento da tendência iniciada pelo primeiro filme: o terror baseado na estética “found footage” (gravações encontradas). A solução parece mais uma mostra de desespero do que realmente uma inovação: usar o 3D para tentar assustar mais as plateias. Acontece que, por mais que algumas cenas em close-up incomodem e até ameacem render sustos (daqueles bem baratos), o recurso só serve para tornar a fotografia (de câmera amadora) mais escura. É um tiro no pé, pois distrai ainda mais o espectador no cinema. E como o enredo é fraco, a direção é ruim e os atores piores ainda, sobram pontos negativos para o filme, que não consegue ser nem sombra dos demais. Nem mesmo do mais fraco da franquia, justamente o anterior. O fato deste quinto capítulo ter relação com eventos que ocorreram em vários longas é um complicador adicional, pois há a necessidade de relembrar/conhecer detalhes sobre uma seita diabólica de sequestro de crianças, com ligações com entidades malignas. Na nova trama, outra família se muda para a mesma casa que foi palco dos eventos mostrados anteriormente e lá encontra algumas fitas VHS antigas. A princípio, o pai acredita se tratar de fitas pornôs caseiras. Mas logo percebe o quão estranhas são as imagens, ainda mais quando elas dialogam com ele: a garotinha do vídeo parece enxergá-lo e ouvi-lo. Para completar, ele também encontra uma câmera que é capaz de visualizar espíritos ou entidades invisíveis ao olho humano. É a deixa para a entrada em cena do 3D, com efeitos especiais que destoam completamente da proposta dos filmes precedentes, de mostrar imagens mais realistas, mais próximas mesmo dos registros de uma câmera caseira. Ao final, o resultado escancara a referência, até então mal-disfarçada na franquia, de “Poltergeist” (1982), e consegue se sair muito pior do que o péssimo remake recente do clássico de Tobe Hooper. “Atividade Paranormal ” foi responsável pela popularização da estética “found footage “, este último (espera-se que seja mesmo o último) serve, ao menos, para enterrar de vez a tendência. “Found footage ” com 3D? Não há mais o que apelar.
Sicario provoca convicções morais com suspense e violência
Com “Sicario – Terra de Ninguém”, Denis Villeneuve deixa mais claras sua vocação temática e suas obessões. Assim como no anterior “Os Suspeitos” (2013), o novo filme é um conto moral elaborado com a intenção de adentrar o lado mais sombrio da alma humana. A trama acompanha a agente do FBI Kate Macer (Emily Blunt, de “No Limite do Amanhã”), que, após descobrir corpos de vítimas de um cartel do tráfico, é convidada a integrar uma força-tarefa secreta. O que ocorre, porém, é que os homens que a convidam a deixam no escuro sobre suas reais intenções, sabendo que ela é uma agente que atua de acordo com as normais legais, não se deixando corromper ou adentrar o caminho de perdição, por assim dizer. Concebida como uma operação de combate, a missão da força-tarefa é atacar um chefe do tráfico mexicano. Mas seus integrantes são homens de funções obscuras, vividos pelos ótimos Josh Brolin (“Homens de Preto 3”) e Benicio Del Toro (“Guardiões da Galáxia”). Este último rouba o filme, tanto pela força de sua caracterização quanto pela importância de seu personagem, principalmente à medida que o filme se aproxima de sua conclusão. Com algumas cenas de violência impactante, “Sicario” até poderia ser mais pesado, caso a intenção de Villeneuve fosse apenas chocar a audiência – por exemplo, nas cenas de tortura. Mas a opção do diretor é mesmo pelo suspense, baseado na construção de uma atmosfera de tensão e auxiliado por um excelente desenho de som. Um dos pontos altos do filme acontece durante um engarrafamento em pleno México, quando o grupo de americanos, auxiliado pela polícia mexicana, percebe um grupo de criminosos nos carros ao lado. O que eles efetuam ali, em público, é impressionante. É a partir daí que o foco muda para Alejandro, personagem de Del Toro, que ganhará ainda mais força quando seu passado e o seu real interesse pela missão vier à tona. Mas até chegar onde precisa, o filme deixa os espectadores tão perdidos quanto a protagonista, alimentando uma situação desconfortável. Afinal, é possível confiar naqueles homens e em seus métodos? Até que a sensação de escuridão deixa de ser metáfora para assumir a forma de um túnel clandestino, sob a fronteira entre Estados Unidos e México. Claustrofóbica, a sequência sob a terra foi filmada pelo diretor de fotográfia Roger Deakins – de obras admiráveis como “Onde os Fracos Não tem Vez” (2007), “007 – Operação Skyfall” (2012) e o próprio “Os Suspeitos” – com câmeras termais e de visão noturna, que realçam a falta de iluminação. Trata-se, por sinal, de um momento-chave para a jornada da personagem de Emily Blunt. E é precisamente quando ocorre uma reviravolta no foco dos personagens, que acaba sendo muito bem-vinda. Algumas das melhores cenas serão guardadas para esse final. Cenas em que Villeneuve mais uma vez provoca o espectador a questionar suas convicções morais: até que ponto é possível aceitar violência em nome da justiça? O mesmo questionamento estava na base de “Os Suspeitos”. E, novamente, os resultados são danosos – sem falar nas implicações racistas de apresentar o México, caricaturalmente, como um lugar perigoso e que precisa ser “limpo”, nem que seja por pessoas dispostas a fazer o trabalho sujo.
Evereste é um filme de desastre sem surpresas
“Evereste” é aquele tipo de filme que todo mundo vai assistir sabendo o que vai encontrar. Situações limites, angústia e algum melodrama. Um produto calculado e realizado para despertar estes sentimentos em pessoas que querem passar por isso. O filme tem todos os clichês esperados do subgênero dos filmes de desastre. Estão lá o personagem irresponsável e o ultrarresponsável, os que ficam em casa e sustentam momentos piegas, além das inevitáveis decisões esdrúxulas. Na trama, um alpinista experiente transformou sua paixão em um negócio lucrativo. Jason Clarke (“O Exterminador do Futuro: Gênesis”) interpreta o dono de uma empresa especializada em conduzir escaladas pelo monte Evereste e acaba de juntar equipe e clientes para mais uma expedição. Só que uma tempestade inesperada acontece na metade da travessia, levando todos ao desespero. O elenco também inclui Jake Gyllenhall (“O Abutre”), Josh Brolin (“Os Caça-Fantasmas 3”), Keira Knightley (“O Jogo da Imitação”), Sam Worthington (“Fúria de Titãs”), John Hawkes (“As Sessões”) e Robin Wright (série “House of Cards”), entre outros. Mas isso acaba não fazendo muita diferença, porque, no meio do caos e sob camadas e mais camadas de roupa e neve, pouca gente consegue ser reconhecida. Além disso, a trama não exige grandes atuações. Poderiam ter convidado todo mundo que fez “Pânico na Floresta 13” que daria no mesmo. Mas se os clichês negativos estão presentes, há também bons momentos de tensão em travessias vertiginosas. Tanto que, para os não adeptos daquele modo de vida, é difícil entender porque alguém se sujeitaria a algo tão extremo. Outro destaque positivo do longa-metragem, a construção do Evereste e de seus perigos é impressionante. A fotografia, bastante auxiliada pelas locações, somada ao trabalho de efeitos visuais e de som, confere realismo ao filme.
A Colina Escarlate materializa a beleza do terror
“A Colina Escarlate” oferece um sopro de beleza, de amor, de violência e de intensidade num ano escasso de obras de terror relevantes. E ainda assim tem dividido bastante as opiniões de público e crítica. Não é difícil entender porquê. Assim como seu filme anterior, “Círculo de Fogo”, homenagem aos filmes de monstros gigantes japoneses, a nova obra de Guillermo del Toro é um presente para os fãs de um subgênero muito específico: o horror gótico de Roger Corman (as adaptações de contos de Edgar Allan Poe), da produtora britânica Hammer (o sobrenome Cushing não foi escolhido à toa) e até dos pioneiros do giallo italiano. Trata-se de uma homenagem aos filmes de pavor dos anos 1960, inclusive no modo como o cineasta constrói seus personagens, que às vezes parecem um tanto exagerados em suas intenções. A direção de arte e a fotografia são impressionantemente estupendas em sua elegância, e por isso o local onde acontece a maior parte da trama é fundamental: um castelo decadente na Inglaterra. O castelo está submergindo numa espécie de lama vermelha, que é a matéria-prima da obsessão de Thomas, o personagem de Tom Hiddleston (“Thor”), que planeja, junto com sua irmã Lucille (Jessica Chastain, de “Interestelar”), conseguir dinheiro casando-se com a jovem herdeira americana Edith (Mia Wasikowska, de “Segredos de Sangue”). Na verdade, a intenção dos dois é ainda mais criminosa do que aparenta. Chama a atenção o modo como os monstros e os fantasmas são ao mesmo tempo horríveis e aterrorizantes na trama, mas não tanto quanto os vivos, esses sim capazes de causar dor e morte. Edith é assombrada pelo fantasma de sua mãe, que surge parecida com a criatura de “Mama” (2013), não por acaso uma produção de del Toro estrelada por Chastain. Entretanto, falta à “Colina Escarlate” justamente o sentimentalismo de “Mama” (dirigido pelo argentino Andrés Muschietti). A frieza marca os personagens, como costumava marcar os papeis de Vincent Price e Peter Cushing nos clássicos de referência da obra. Assim como a canastrice. Na pele de Lucille, a irmã fria e malévola, Jessica Chastain rouba todas as cenas em que aparece. Há quem considere uma composição exagerada. Mas é a melhor personagem do filme, a que mais se aproxima do mal arquétipo das bruxas de contos de fadas ou dos filmes de horror góticos. O forte do cineasta mexicano, porém, é a construção do conto macabro, pontuando a trama com violência gráfica, que mancha a tela de vermelho. O tom, aliás, já se pronuncia desde o início do filme, quando o logo da Universal Pictures desponta em escarlate, apontando para a valorização da cor pelo diretor A beleza das cenas sangrentas e violentas não encontra paralelos no horror contemporâneo, evocando os clássicos de Mario Bava e Dario Argento. Mas Del Toro não desaparece por trás das referências, manifestando sua marca autoral por meio de algumas de suas obsessões, como o pavor de insetos, insinuado desde seus primeiros filmes, “Cronos” (1993) e “Mutação” (1997), além de refazer o labirinto de “O Labirinto do Fauno” (2006) como a mansão que esconde segredos atrás de cada porta. Um terror belo não é um paradoxo. É uma obra de Guillermo del Toro.
Shaun, O Carneiro é um filme mudo que diz muito
A grande beleza de “Shaun, O Carneiro” não é ser uma espécie de filme mudo para crianças. Mas o fato de usar como arma uma falsa inocência para manipular como quiser a garotada e os adultos. Seja para fazer rir ou passar a mensagem sobre a principal mudança que podemos fazer em nossas vidas, que não é necessariamente sair de casa ou ir a lugares diferentes. A animação prega que a mudança de atitude é o que mais importa; logo, a felicidade está dentro de nós mesmos. A mensagem sobre mudança de atitude é importante para os pequenos, mas ela é sutil. Talvez não seja notada até mesmo por adultos, afinal não está desenhadinha e, claro, jamais é explicada através de palavras. Mas com elegância, e indo direto ao ponto, “Shaun, O Carneiro”conseguiu “dizer” isso bem mais rápido que uma produção badalada e consagrada como “Madagascar”, que levou três filmes para chegar a essa conclusão. É mais uma bela diversão em stop motion do estúdio Aardman, que nos brindou anteriormente com “Wallace & Gromit: A Batalha dos Vegetais” (2005) e o maravilhoso “A Fuga das Galinhas” (2000). Valorizando truques básicos da narrativa da época do cinema mudo, a versão para o cinema da série britânica de mesmo nome aposta em inspiradas gags para contar a história de Shaun, um carneirinho que cresceu numa fazenda e não aguenta mais viver a rotina no piloto automático. Numa tentativa de subverter positivamente o local e se divertir um pouco, algo dá errado pelo caminho e seu dono vai parar na cidade grande. E com amnésia. Resta a Shaun ir até lá e resgatá-lo. Ok. Não é exatamente um silent movie, porque os personagens emitem certos barulhinhos, mas a essência está presente em cada frame. Vale tropeçar, escorregar, trombar, transmitir emoções pelo olhar e manter as mesmas expressões faciais do início ao fim, inclusive a hilária risadinha de lado. Então Shaun e seus amigos são representações de Buster Keaton? Bom, por que não? Para um filme sob esse tipo de influência, a música tem um papel fundamental. E a trilha sonora de “Shaun, O Carneiro” é um capítulo à parte. Destaque para o tema “Feels Like Summer”, de Tim Wheeler, Ilan Eshkeri e o ex-Kaiser Chiefs Nick Hodgson, cujo significado traduz o espírito do próprio filme. Se a falsa inocência gera gargalhadas surpreendentes – e o filme é genuinamente engraçado –, o artifício permite mascarar referências. A aventura é repleta de menções a grandes produções do cinema, mas nenhuma delas quer chamar mais atenção que a própria história, como acontece em “Shrek”. De forma discreta, o cinéfilo é capaz de reconhecer citações a filmes que devem passar bem longe das crianças, como “O Silêncio dos Inocentes” (1991) e “Cabo do Medo” (1991). Tem até referência ao clássico “A Revolução dos Bichos”, livro de 1945 de George Orwell (com os porcos dentro de casa), e aos Beatles na Abbey Road. Pena que a animação não seja discreta o tempo todo, caindo na tentação das piadas grosseiras, incluindo flatulências e uma cabeça presa na bunda de um Cavalo de Troia. Bem light, de todo modo, porque a criançada adora.
Netflix faz estreia impactante no cinema com Beasts of No Nation
Primeiro longa metragem produzido pelo Netflix, “Beasts of No Nation” conta a história do jovem Agu (o pequeno e impressionante Abraham Attah) que após a morte de sua família é adotado pelo Comandante de um grupo guerrilheiro de um obscuro país da África, tornando-se parte de um exército formado em sua maioria por crianças. Escrito e dirigido por Cary Fugunaga (da 1ª temporada de “True Detective”), possui ecos inegáveis de “Apocalipse Now” (1979), seja na figura ao mesmo tempo fascinante e repugnante do personagem do Comandante interpretado por Idris Elba (“Círculo de Fogo”) como na própria trajetória de Agu, que vai se tornando cada vez mais violenta e surreal, numa espiral de violência regada a lavagem cerebral, rituais sadísticos e abuso de todo os tipos. Baseado no livro homônimo de Uzondinma Iweala, “Beasts of No Nation” não faz questão de – e nem precisa – identificar o país em que Agu vive. Em determinando momento, sabemos que o exército nigeriano atua nas forças de paz, mas é o máximo que temos de qualquer localização possível. Não que isso importe. Para Fugunaka, a bestialidade da guerra não precisa de limites ou fronteiras para se estabelecer. Da mesma forma, aos poucos percebemos que tanto as forças do governo quanto os rebeldes são apenas dois lados da mesma moeda, já que veem espiões e conspirações por todos os lados, executando a sangue frio qualquer pessoa que passar pela frente. O filme mostra, a princípio, como Agu vive na miserável vila que habita. Há nestes momentos iniciais, uma sequência absolutamente fascinante, na qual Agu e seus amigos tentam vender uma carcaça de televisão – a TV da Imaginação – na qual enxergam e representam um mundo quase ideal, de brincadeiras, jogos, lutas de caratê e romances. Fica evidente que Fukunaga evita fantasiar tanto uma infância como um família ideal, mas é visível a segurança e a felicidade de Agu ao lado de seus pais. Quando o pai e o irmão são assassinados pelo exército do governo, Fukunaga trata estas sequências com uma displicência quase cruel, mostrando que na guerra a violência atinge qualquer um, objetificando pessoas e transformando-as em simples estatísticas de um massacre. Ainda que o garoto Abraham conduza o filme com a segurança de um adulto, é Idris Elba, no papel do Comandante, que merece todos os aplausos – e prêmios – do mundo por encarnar um dos personagens mais complexos de sua carreira, um líder carismático capaz de convencer dezenas a lutar por sua causa – e uma pessoa absolutamente abjeta por usar deste poder para sua satisfação e realização pessoal. Elba é um guerrilheiro falastrão, de roupas coloridas e óculos escuros, que usa de todo o seu arsenal de palavras e conceitos deturpados para convencer crianças a segui-lo. Quase como um pastor – a crítica religiosa é pontual e acertada -, sua eloquência atira para todos os lados: seja no discurso sobre justiça e sobre devolver o país a seus donos, na conversa ao pé da fogueira sobre como as mulheres amam homens de guerra ou nas danças e canções de viés ritualístico. E quando tudo isso já fez o seu estrago, há ainda a droga, injetada em crianças para que estas consigam sobreviver ao pesadelo em que vivem. Para as crianças menores, como Agu e seu amigo Stryka (o também impressionante Emmanuel Nii Adom Quaye), há ainda outros fardos mais pesados que o filme indica com uma frieza contundente. Beirando muitas vezes o insuportável, o filme estabelece com clareza o conceito de perda da inocência, tão comum em filmes de guerra. Que vejamos isso em crianças de 10 ou 12 anos tornadas assassinos frios e cruéis é algo absolutamente perturbador. Há outro momento particularmente impressionante e gráfico no filme, justamente na prova final de Agu para mostrar-se digno de carregar uma arma. Ali, aliado a uma narração em off econômica e pontual, percebemos que Agu trilha agora um caminho sem volta, algo que já havia evidentemente destruído seu irmão de armas Stryka. À medida que o filme avança, a narrativa vai se tornando cada vez mais surreal, culminando em um momento em que Fukunaga chega a trocar a paleta de cores e transforma toda a selva verde em um inferno vermelho, uma opção estética mais do que apropriada para o estado mental do pequeno Agu – que, em determinado momento, chega a acreditar que encontra sua mãe ao ver uma senhora indefesa numa casa, para logo em seguida tratá-la com a violência usual a que se acostumou. O filme ainda encontra espaço para lidar com as questões políticas referentes à guerra – repleta de acordos, tratados, cargos e dinheiro -, mas este desvio, ainda que importante por estabelecer ainda mais o caráter podre do Comandante, soa infinitamente menos interessante do que a trajetória de Agu. E ainda que o filme termine com uma nota levemente otimista, Fukunaga faz questão de nos mostrar – em um último e brilhante diálogo – que, para Agu, a TV da Imaginação será para sempre uma lembrança de uma época e de uma vida que não voltarão mais. Tudo o que resta para ele é viver a cada dia, com seus fantasmas e com o sangue que jamais sairá de suas mãos. “Beasts of No Nation” não é apenas um filme tecnicamente impecável e com interpretações antológicas. É uma obra tão atual e relevante que ninguém fica imune após conhecê-la.
Respire destaca direção inspirada de Mélanie Laurent
Mélanie Laurent é uma artista multifacetada. Além de ser aquela atriz fantástica que vem chamando atenção desde, pelo menos, “Bastardos Inglórios” (2009), ela também é excelente cantora e diretora de cinema. “Respire” já é o seu segundo longa-metragem, tendo participado, inclusive, do Festival de Cannes. Ela também assina o roteiro do filme que, por sua vez, é baseado no romance de uma escritora, Anne-Sophie Brasme. O longa precisava mesmo de um toque feminino para abordar com tanta segurança o universo íntimo de duas jovens garotas colegiais. Na trama, Charlie (Joséphine Japy) é uma jovem relativamente popular na escola, embora se perceba logo no início que lhe falta entusiasmo no trato com suas amigas, bem como na rotina de sua vida, seja na escola, seja em casa. Essa vontade de viver com mais intensidade surge quando ela conhece Sarah (Lou de Laâge), recém-chegada na escola e já demonstrando muito charme e um brilho todo próprio. Aos poucos, as duas viram melhores amigas. E essa amizade também passa a se tornar algo a mais, principalmente na cabeça de Charlie, que vai se mostrando cada vez mais apegada a Sarah, que por sua vez vai revelando uma faceta um tanto sádica. Pode-se dizer que “Respire” é um filme dividido em dois registros complementares: a delicadeza de um filme de amizade e intimidade entre duas garotas e também a tensão de um suspense de tirar o fôlego. O fato de Charlie ser asmática ajuda bastante na composição desse segundo momento, e é o motivo mais óbvio para o título desse trabalho de Laurent, embora haja outros motivos também. E por isso é importante ter cuidado para não entregar o impactante final. “Respire” ainda chama atenção pela forma como retrata as mães das protagonistas, que ou moram sozinhas ou são mal-tratadas por seus maridos. No caso do pai de Charlie, ele é pintado como um sujeito mau caráter que a mãe teima em amar. Esse tipo de relação acaba por se refletir na relação entre as duas adolescentes, em meio à humilhações e tudo o mais que envolve a narrativa. A maior parte do elenco é de estreantes, o que destaca o modo como Laurent extrai de suas atrizes momentos de forte carga dramática, como se elas tivessem nascido para aqueles papéis. O trabalho foi reconhecido com indicações ao Cesar (o Oscar francês) e o prêmio Lumiere para as jovens Joséphine Japy e Lou de Laâge, na categoria de Atrizes Mais Promissoras do ano. Além disso, a obra também registra um uso extremamente elegante da movimentação de câmera, entre vários outros. Por isso, que venham os próximos filmes dirigidos por esta moça talentosa.
Operações Especiais não é Tropa de Elite 3
Ecoando o momento de desencanto, onde se percebe a corrupção em cada canto do país, chega aos cinemas o filme de ação “Operações Especiais”, dirigido por Tomas Portella (“Isolados”) e com Cleo Pires (“O Tempo e o Vento”) no papel principal. A atriz interpreta Francis, uma jovem formada em Turismo que resolve fazer concurso para a Polícia Civil pelo motivo mais bobo do mundo. Depois de ser aprovada no curso de formação com louvor, ela passa seus dias desempenhando trabalho burocrático. Até a tomada do Morro do Alemão e a consequente migração dos chefes do morro para cidades próximas ao Rio de Janeiro. Essa, pelo menos, é a ideia que o filme quer passar, ao apresentrar o aumento da violência na fictícia São Judas do Livramento. Quando duas crianças morrem, vítimas de bala perdida, a Polícia Civil fluminense resolve dar um jeito na situação. Para isso, monta uma equipe especial, mesclando policiais veteranos e novatos. Chefiados pelo delegado Fróes (Marcos Caruso, de “Sorria, Você Está Sendo Filmado”), o único pré-requisito necessário para entrar na operação é ser honesto. E assim a inexperiente personagem de Cleo Pires vai parar no meio dos tiros cruzados. Bobinho no argumento, o filme acaba se valendo de bons momentos de tensão. O jogo de câmeras nas incursões, além de boas sequências de perseguição e tiroteio, chegam exatamente onde gostariam de chegar e conseguem causar sensações na plateia. Como já comprovado em “Isolados”, o diretor é capaz de criar ambiência e manipular sentimentos. Apesar de não sobreviver a certos tropeços na direção de atores. As atuações são irregulares. Embora a maioria do elenco não comprometa, Fabrício Boliveira (“Faroeste Caboclo”) está muitos tons acima dos colegas de cenas, seja na empostação da voz ou nos muitos e exagerados trejeitos. Outra que também deixa a desejar na construção de seu personagem é Fabíula Nascimento (“O Lobo Atrás da Porta”), mas a dificuldade parece vir de um sotaque que não funciona em hora nenhuma. O cinema policial brasileiro já conseguiu combinar ação, desempenho e roteiro capaz de gerar reflexão, mas “Operações Especiais” não é “Tropa de Elite 3”. Trata-se apenas de um passatempo, que prefere divertir o público a fazê-lo pensar.
Bata Antes de Entrar encontra diversão na tortura erótica
Eli Roth fez “Bata Antes de Entrar” (2015) depois de “Canibais” (2013), seu filme-homenagem a “Canibal Holocausto” (1980), mas com as dificuldades enfrentadas para distribuir aquela obra, o novo trabalho acabou chegando antes aos cinemas. Muito provavelmente por ser um exemplar mais leve da filmografia sangrenta do cineasta, que ganhou notoriedade por conta de “O Albergue” (2005). Vale lembrar que “O Albergue” surgiu durante um momento particularmente intenso dos filmes de horror, a fase ultraviolenta dos chamados “torture porns”. A mistura de sexo e tortura ainda está presente em “Bata Antes de Entrar”, mas seu terror é muito mais psicológico do que físico, num diálogo com “Violência Gratuita” (1997), de Michael Haneke. Pena que Eli Roth não tenha a classe de Haneke para compor a história do homem de família (Keanu Reeves) que cai na teia de duas moças sedutoras, ao abrir a porta de sua casa para um inferno crescente. A premissa é típica de VHS pornô. Duas gostosas batem na porta de um pai de família que passa o fim de semana sozinho. Apropriadamente molhadas de chuva, elas só querem usar o telefone. E, claro, tirar logo as roupas para materializar a cena de sexo a três. O fato de Keanu Reeves estar exageradamente canastrão – como se ele não estivesse levando a sério o filme – contribui para que a sensação de suspensão da descrença seja abalada. Reeves é um ator limitado, mas já demonstrou ser mais funcional em outras ocasiões. Assim, o filme sobra nas mãos das duas meninas, as chilenas Lorenza Izzo (mulher do diretor) e Ana de Armas. Elas dominam as cenas em todos os sentidos, explorando a fraqueza masculina para benefício próprio e impondo suas presenças até quando deixam de ser bem-vindas. Por mais que os filmes de horror tenham como característica recorrente punir a promiscuidade com a morte, Roth parece não ter a intenção de criar um conto moral sobre tentação e pecado. Embora se preste ao formato de parábola sobre infidelidade conjugal, “Bata Antes de Entrar” está mais para uma sátira desse tipo de horror moralista, assumida na diversão delirante das duas atrizes – embora as acusações de pedofilia brandidas contra o protagonista tendam a cruzar a fronteira para o tipo de acerto de contas de “Menina Má.com” (2005). Na verdade, a ideia não é original. “Bata Antes de Entrar” é um remake de “Jogo Mortal” (1977), um suspense obscuro, mas cultuado, dirigido por Peter S. Traynor e estrelado por Sondra Locke e Colleen Camp, que aparecem no filme de Roth como coprodutores. O original era sombrio, perigoso e tratado quase como tabu, pelo conteúdo sadomasoquista. Já a refilmagem se dá com cores vivas, clima lúdico e liberada para maiores de 14 anos no Brasil.
Possessão do Mal é prego no caixão dos terrores de vídeo encontrados
Protagonistas de filmes de terror não são os seres humanos mais inteligentes da face da Terra, mas Michael King, personagem de Shane Johnson (série “Power”) em “Possessão do Mal”, bate o recorde em termos de estupidez. Após a morte da esposa, ele resolve provar para o mundo que nem Deus ou o Diabo existem sob o Sol. Para isso, ele passa a documentar e participar de diversos rituais obscuros e bizarros. Como todo mundo imagina, isso não vai muito certo. O filme é mais um prego no caixão do estilo “found footage” (dos vídeos encontrados), esquecendo frequentemente do formato e fazendo a gente acreditar que, mesmo possuído pelo coisa-ruim, King ainda se preocuparia em filmar e editar sua obra para a posteridade. No mais, sobram cenas genéricas do protagonista sendo puxado para trás, pegando fogo, fazendo contorcionismo e desenhando pentagramas em si mesmo. Nem o cachorro da família escapa. Contando com alguns momentos hilários no melhor estilo “Um Espírito Baixou em Mim” (1984), o filme ainda conta com uma conclusão que plagia “O Exorcista” (1973) sem a menor vergonha.’,’Possessão do Mal é prego no caixão dos terrores de vídeos encontrados












