Joaquim é retrato sujo e realista do mártir que virou alegoria nacional
O cinema de Marcelo Gomes é um cinema de generosidade. Dos seus cinco longas-metragens, dois deles foram feitos em parceria com outros cineastas: “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” (2009), com Karim Aïnouz, e “O Homem das Multidões” (2013), com Cao Guimarães. Sua assinatura como autor acaba se tornando um pouco apagada, levando em consideração que os referidos trabalhos apresentavam algo muito em comum com a filmografia de seus colegas realizadores. Ele não havia dirigido sozinho um filme melhor do que sua brilhante estreia, “Cinemas, Aspirinas e Urubus” (2005) até agora, com “Joaquim”. Apesar de se passar no período colonial, o filme diz muito sobre o Brasil atual, seja na forma como mostra os índios como mendigos, os negros como um exemplo de alegria de espírito (que cena linda, a do escravo cantando com o índio à beira do rio), mas que devem se manter em posição subalterna, e os pobres explorados por interesse dos ricos. Sem importar quão raro tinha se tornado o ouro nas Minas Gerais, o reino europeu continuava cobrando pesados impostos. O quanto as coisas mudaram nos dias de hoje? No filme, Joaquim José da Silva Xavier lê os textos da independência das 13 colônias americanas e acredita que o Brasil também pode se livrar do fardo de Portugal. A trama se passa antes dos eventos mais famosos de sua vida, narrados em “Os Inconfidentes”, de Joaquim Pedro de Andrade, deixando claro que se trata de outra proposta, outro olhar cinematográfico, com um prólogo que parece didático na apresentação do personagem, mas cujo registro vai se provar o contrário já a partir da primeira cena com os personagens dialogando e agindo de maneira inquieta. O diálogo é ágil e natural, bem diferente do que se costuma ver em produções que retratam essa época, que em geral possuem uma linguagem mais empostada, o que acaba por distanciar o espectador. Aqui, até a câmera na mão nos aproxima de tudo. “Joaquim” quase nos faz sentir o cheiro daquele ambiente, em especial em uma das primeiras cenas: quando Preta (a atriz portuguesa Isabel Zuaa) leva comida para Joaquim (Júlio Machado) e Januário (Rômulo Braga). A câmera na mão segue inicialmente a escrava, para depois nos mostrar o relacionamento de proximidade entre aqueles personagens: Preta tirando piolho de Joaquim enquanto ele almoça. Esse aspecto mais sujo no retrato dos personagens e do ambiente também se distancia do que geralmente se vê em produções dessa época, mesmo as que trazem personagens pobres. Nessa mesma cena aparece um indiozinho pedindo comida. Januário diz para não dar, pra não acostumar. Joaquim é um pouco mais generoso. É um filme que faz questão de adotar um caminho contrário ou esperado o tempo todo. Em vez de vermos um herói, temos em Joaquim a figura de um perdedor. Marcelo Gomes o despe totalmente de sua glória, mesmo quando o reveste de uma obsessão pelo ouro para poder ficar rico e ter sua desejada mulher, que ainda por cima é uma escrava cujo corpo pertence a outro negro. O fato de Joaquim ter se tornado um mártir, e isso só é mostrado no prólogo, com uma apresentação dotada de ironia machadiana, é quase um acidente, fruto de sua revolta contra aquilo que ele acredita estar errado no Brasil colônia. No fim das contas, alguém precisou (precisou?) morrer por nossa causa e daí vem a imagem de Tiradentes até hoje parecida com a de um Jesus brasileiro, alguém que morreu por nós e que ganhou um feriado em 21 de abril que mais parece católico do que patriótico. No momento político opressivo e desesperançado em que vivemos, é natural que o público brasileiro se identifique não só com esse personagem, mas com todas as circunstâncias que o rodeiam, com figuras e eventos que podem muito bem ser vistos como alegorias do presente.
Velozes e Furiosos 8 transforma exagero em lugar-comum para superar os filmes anteriores
Quem lembra de “Uma Saída de Mestre” (2003), um belíssimo filme de assalto estrelado por Charlize Theron e Jason Statham? E que o diretor desse filme fez no mesmo ano “O Vingador”, com Vin Diesel? Pois 14 anos depois, F. Gary Gray está novamente à frente dessa turma, na direção de “Velozes e Furiosos 8”. Gray voltou a ser um nome quente em Hollywood com a aclamação de público e crítica a seu filme anterior, “Straight Outta Compton – A História do NWA” (2015), e é o principal responsável por a franquia furiosa sacudir a poeira e continuar acelerando após a trágica morte de Paul Walker. Galinha dos ovos de ouro da Universal, o oitavo lançamento da franquia tem orçamento milionário e se nota, pois tudo parece ainda maior, inchado e megalomaníaco. Se isso já era tendência nos trabalhos anteriores, no novo filme o exagero é o lugar-comum, desde a escolha de várias locações em países diferentes até o elenco de celebridades, que não só conta com uma vilã maravilhosa (Charlize Theron), como com uma coadjuvante de muito luxo (Helen Mirren). O que se percebe de imediato é que o quinto roteiro de Chris Morgan para a franquia foi concebido a partir das cenas de ação. Mais do que no fiapo de história, que até é interessante – já que traz a discórdia para a família de Dominic Toretto (Diesel) – , são as situações velozes e furiosas que se destacam. E elas são muitas. Algumas vão ficar grudadas na memória, envolvendo carros desgovernados, perseguição no gelo, fuga de prisão e o prólogo, em Cuba (trata-se do primeiro filme de Hollywood filmado na ilha de Fidel), que serve para lembrar ao público e aos próprios envolvidos na produção que essa história começou com um filme de rachas nas ruas. Apesar desse lembrete, a trama logo ganha ares de thriller de espionagem, com heróis e vilões tendo o poder de visualizar eventos em qualquer lugar do mundo, graças às maravilhas da tecnologia. O problema é que a ansiedade por mostrar ação ininterrupta não deixa tempo para um respiro e as tentativas de causar impacto emocional, como a própria separação de Toretto do grupo, acabam não sendo levadas a sério por ninguém. Se bem que essa falta de seriedade talvez seja intencional, já que Deckard, o personagem de Statham, acaba integrando-se ao grupo de protagonistas numa boa, mesmo tendo assassinado um deles em outro filme passado. A inclusão de Statham no time dos mocinhos rende, ainda, uma excelente parceria com Dwayne Johnson, resultando em algumas das melhores cenas da produção. Após ter participação reduzida no filme anterior – conflitos de agenda, segundo revelou o diretor de “Velozes e Furiosos 7”, James Wan – , ele assume a vaga de coprotagonista deixada por Paul Walker, aproveitando o gancho da trama, que mostra o personagem de Vin Diesel aliciado por uma megaterrorista (Charlize) para executar seus planos diabólicos. Conta muitos pontos positivos o fato de a vilã não ser nada estereotipada, o que poderia tornar tudo muito chato. Lembremos que Charlize já fez o papel de bruxa má duas vezes e se saiu muito bem. Ajudam também sua beleza, sua elegância e sua sensualidade natural, mas a verdade é que a atriz é uma força da natureza, como bem demonstrou em “Mad Max – Estrada da Fúria”. A combinação de filme leve de ação, paixão por carros e adrenalina, aliada a uma noção de amizade capaz de criar laços de família, faz com que “Velozes e Furiosos” continue sendo uma franquia apreciada pelo grande público. Seus personagens são carismáticos e encontraram espaço para se destacar individualmente, mesmo com o grupo se tornando maior a cada filme. Mas a franquia se beneficia mesmo é do show de pirotecnia, barulho e efeitos especiais sempre melhores, que superam as incongruências do gênero com o tipo de atordoamento que só Hollywood é capaz de criar.
Mulheres do Século 20 mostra surgimento da família moderna
O americano Mike Mills estava prestes a completar 40 anos quando finalmente decidiu se lançar como diretor de um longa de ficção com “Impulsividade” (2005), após produzir curtas e documentários. De lá, foi dirigir Christopher Plummer na interpretação que lhe valeu um Oscar em “Toda Forma de Amor” (2010). E agora retorna entregando aquele que é o seu melhor trabalho até aqui. Em “Mulheres do Século 20”, a própria adolescência do diretor serve de base para a narrativa, que enaltece a sua mãe, renomeada como Dorothea, numa interpretação magistral de Annette Bening (“Minhas Mães e Meu Pai”). No Sul da Califórnia do final dos anos 1970, era do punk/new wave, essa mãe solteira cuida do filho Jamie (Lucas Jade Zumann, de “A Entidade 2”) e divide a sua casa com Abbie (Greta Gerwig, finalmente num papel que não a obriga a repetir os cacoetes de “Frances Ha”), uma fotógrafa acometida por um câncer cervical, e William (Billy Crudup, de “Spotlight”), um carpinteiro que desconhece a importância de medidas estáveis. Embora não viva nesse mesmo teto, Julie (Elle Fanning, de “Demônio de Neon”) é uma das vizinhas que está a maior parte de seu tempo livre na residência, inclusive dormindo todas as noites com o jovem Jamie sem que esteja em jogo algo além da amizade. Desenha-se assim com esse quinteto uma espécie de panorama daquele período, especialmente importante para os modelos de novas famílias que se formavam com o boom dos divórcios e para a multiplicação de mulheres que vislumbraram um destino além daquele de meras donas de casa. Por se tratar de um projeto tão íntimo para Mike Mills, acaba havendo em “Mulheres do Século 20” certa superficialidade nos atritos entre mãe e filho, talvez por serem tão ratificados no curso do filme. Em contrapartida, existe um cuidado e carinho na construção de indivíduos que se atraem justamente por terem poucas coisas em comum. Paulatinamente, Jamie, um garoto em progresso, vai constituindo a sua própria personalidade com o processo de troca sempre enriquecedor com pessoas mais maduras, ainda que não seja o único a experimentá-lo, como se testemunha quando outros laços se estreitam, como o de Dorothea com William ou deste com Abbie. Por essas interações, as inevitáveis rupturas do desfecho, acompanhadas bela música de Roger Neill, tornam-se tão comoventes quanto uma última despedida.
Galeria F documenta época trágica, quando presos políticos eram condenados à morte no Brasil
Num tempo em que a insanidade e a ignorância de alguns pretende trazer de volta os militares ao poder, é muito importante não esquecer o que foi o período de trevas da ditadura militar brasileira (1964-1985). Muitas histórias já foram contadas pelo caminho documental, outras foram recriadas pela via da ficção, mas ainda há muito a desvendar. E a memória precisa ser estimulada, refrescada, para que não nos esqueçamos do que vivemos e não venhamos a cometer os mesmos erros. Os mais jovens precisam se informar sobre o que aconteceu naquele período, para poderem avaliar o que se passa hoje e para se posicionarem com clareza, já que há muita confusão e desinformação no ar. O documentário “Galeria F”, de Emília Silveira, reconstrói uma história muito relevante do período: a do preso político baiano Theodomiro Romero dos Santos, que desde os 14 anos de idade lutou combatendo a ditadura. Entrou para a luta armada atuando junto ao Partido Comunista Brasileiro Revolucionário. Aos 18 anos, foi capturado junto com outros companheiros e reagiu à prisão, matando um militar que tentava alvejar um dos militantes detidos na rua. Foi preso, sobreviveu às bárbaras torturas que sofreu ao longo de 9 anos de prisão, até que veio a anistia, que não foi ampla, geral e irrestrita, como se pretendia. Classificado como terrorista, ficou de fora da anistia, foi mantido preso, enquanto poucos permaneciam encarcerados, e foi ameaçado de morte. Mais do que isso, estava de fato condenado à morte, o primeiro da história republicana. A única alternativa seria fugir da prisão, o que, surpreendentemente, aconteceu em 1979, deixando a todos perplexos. Incluído aí o governador Antônio Carlos Magalhães, que se refere na TV a essa fuga e à busca que se empreendeu a partir de então. O filme de Emília Silveira, ela também uma ex-prisioneira política, refaz com o próprio Theodomiro, seu filho Guga e outros participantes daquele período, a incrível fuga, os lugares por onde ele passou, os refúgios, e como foi possível ludibriar desde os carcereiros da prisão a toda a estrutura policial militar do cerco à sua recaptura. É um belo trabalho documental, cheio de humanidade, que não se alimenta de ódio nem de vingança, mas da retomada de um período histórico brasileiro que não pode ser esquecido, com os elementos emocionais que estão envolvidos na vida das pessoas. Por exemplo, o filho Guga, com o documentário, pôde finalmente conhecer a verdadeira história do pai. E a galeria F, onde fica a cela que abrigou o prisioneiro político por muitos anos, acaba sendo a testemunha de uma época trágica, que ainda estamos buscando superar definitivamente. Será possível?
A Vigilante do Amanhã é, acima de tudo, um espetáculo sensorial
Com a tecnologia avançando ao ponto de viabilizar a fabricação de robôs com capacidade de obedecer a muito mais que uma dúzia de comandos, a diferença entre a realidade e as projeções da ficção científica é cada vez mais menor. Baseado tanto no mangá de 1989 de Masamune Shirow quanto no anime de 1995, “A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell” trata essencialmente dessa questão, ambientando a sua história em um futuro indeterminado, mas já menos distante em 2017. Interpretada por Scarlett Johansson (“Os Vingadores”), a protagonista Major é a primeira de sua espécie, com uma anatomia inteiramente robótica denominada “concha”, capaz de abrigar o “espírito” de um ser humano. Ou melhor, o cérebro de uma jovem que teria sido vítima de uma explosão terrorista e que recebe uma segunda chance para servir a um propósito maior. Integrada a uma equipe policial cibernética (Seção 9), ela ganha um parceiro, Batou (o dinamarquês Pilou Asbæk, da série “Os Borgias”), a supervisão de Aramaki (o japonês Takeshi Kitano, de “Zatoichi”, que não se presta a falar em inglês), e uma missão para interromper os crimes cibernéticos de Kuze (Michael Pitt, da série “Boardwalk Empire”), que estaria se infiltrando como um hacker na consciência de humanos com ciber-cérebros. Porém, essa caçada a reconecta com o seu eu anterior, que desconhecia por ter ficado apenas com fragmentos de memórias. Diretor de “Branca de Neve e o Caçador” (2012), que tinha nos visuais o maior atrativo, o inglês Rupert Sanders prova que é dono de um senso estético arrojado, ao materializar os cenários futurísticos do mangá ao estilo de “Blade Runner” (1982). Além da imaginação para apontar abismos sociais, dos edifícios periféricos aglutinados à uma metrópole tomada por hologramas gigantes, impressiona a caracterização de personagens, como as gueixas robôs que cometem um ataque terrorista. É tudo muito bonito, ainda que este deslumbre visual seja por vezes comprometido por um excesso de profundidade de campo, que borra a cenografia digital. Mas o bombardeio sensorial de efeitos vertiginosos não substitui o fator humano, tão importante em premissas como a de “A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell”. Nem a “controvertida” escalação de Scarlett Johansson em papel originalmente japonês traz prejuízos, uma vez que a produção optou por um elenco essencialmente globalizado (com destaque para a francesa Juliette Binoche, de “Acima das Nuvens”, e a romena Anamaria Marinca, de “Corações de Ferro”, em um papel que merecia ser mais amplo), apresentando um mundo cosmopolita, étnica e culturalmente integrado, que reflete o contexto da história.
O Mundo Fora do Lugar faz do jogo de aparências um mistério repleto de surpresas
“O Mundo Fora do Lugar” é o mais recente trabalho de Margarethe von Trotta. A diretora e roteirista alemã já nos deu filmes importantes sobre grandes mulheres da história, como “Rosa de Luxemburgo” (1985) e “Hannah Arendt” (2012). Foi casada e trabalhou como codiretora com Volker Schlöndorff, importante cineasta do novo cinema alemão. Trabalhou como atriz em muitos filmes, inclusive de Rainer Werner Fassbinder, a grande figura de renovação do cinema alemão nos anos 1970. Tem em Barbara Sukowa sua atriz favorita e foi ela quem encarnou tanto Rosa de Luxemburgo quanto Hannah Arendt. Em “O Mundo Fora do Lugar”, Barbara Sukowa é novamente protagonista, mas não encarna uma figura histórica. Aqui ela faz uma diva de ópera, Caterina Fabiana, que vive em Nova York. Sua descoberta na internet por Paul Kromberger (Mathias Habich, de “O Leitor”) causa comoção, por ser muito parecida com sua falecida esposa, Evelyn, o que acaba levando Sophie (Katja Riemann, de “Sangue e Chocolate”), filha de Paul, a uma viagem a partir da Alemanha, em busca de conhecer essa mulher. É bom parar a informação sobre a trama do filme por aqui, para não prejudicar ou antecipar coisas a quem for assistir, porque “O Mundo Fora do Lugar” segue uma narrativa linear, mas carregada de mistérios desde o primeiro momento. É preciso se concentrar para não deixar passar informações sobre os personagens, quem são e que relação têm entre si. E o que viveram no passado. A história vai se formando, pouco a pouco. O mistério vai sendo compreendido. Mas, ainda assim, são muitas as surpresas que aparecem, em cada etapa da narrativa. As coisas são bem mais complicadas do que podem parecer. É preciso permanecer atento. O que se vê é a construção de uma trama muito bem engendrada, que o filme vai revelando. Quem gosta de deslindar uma boa história vai certamente apreciar. Destaca-se, além de Barbara Sukowa, sempre muito boa, Katja Riemann que, com muita competência, estrela o filme, estando em cena quase todo o tempo. O restante do elenco também está muito bem, mesmo sem ter a importância dos dois papéis femininos principais. A cena da briga física entre dois irmãos já anciões, muito bem construída e divertida, é uma prova disso. O roteiro realmente coloca aquele mundo todo fora do lugar, mas a produção alemã tem tudo sob seu controle, funcionando muito bem. Como seria de se esperar, por sinal, de um filme de Margarethe von Trotta.
Eu Te Levo é retrato em preto e branco da geração canguru
“Eu Te Levo”, filme de Marcelo Müller, que também trabalhou no roteiro, toma como ponto de partida a chamada Geração Canguru, a dos jovens que permanecem vivendo na casa dos pais até uma idade avançada, por não conseguirem encontrar seus caminhos na vida e não serem capazes de prover o próprio sustento. Pesquisas indicam que cerca de 25% dos jovens entre 25 e 34 anos ainda moravam com os pais em 2014-2015 no Brasil. Encontrar-se, fazer escolhas, decidir seu rumo na vida, pode se tornar algo complexo, quando não encaminhado devidamente no período da adolescência. No filme “Eu Te Levo”, o personagem Rogério (Anderson Di Rizzi, da novela “Êta Mundo Bom!”), de 29 anos, se depara com a morte do pai e a herança de uma loja com a qual não se identifica, mas que representa muito, simbolicamente e como meio de vida, para sua mãe (Rosi Campos, também de “Êta Mundo Bom!”). Ele tem um sonho de criança, ser bombeiro, e uma experiência com uma banda de rock, como baterista, que ficou para trás. Na realidade, seus caminhos são nebulosos, ele não sabe o que quer. E os espectadores viverão esse dilema e essa angústia, embora não explicitada pelas ações do personagem, da indecisão, da perda de rumo. Isso se dá de modo abafado, já que Rogério é fechado, calado, prefere esconder do que compartilhar coisas. Tudo assim fica ainda mais difícil. Mas é interessante viver de dentro a indecisão do protagonista. Embora o filme pudesse explorar melhor as motivações e bloqueios do personagem. O jovem Cris (Giovanni Gallo, de “Califórnia”), a quem Rogério dá carona regularmente, a pedido de um amigo, é outro exemplo da Geração Canguru, um pouco mais jovem, mas igualmente em busca de algo que não se sabe bem o que é, desviando-se também do rumo que lhe foi traçado (ou que ele mesmo teria traçado?). Rosi Campos, grande atriz, faz a mãe Marta com a adequada intensidade, mas seu personagem não nos permite ir muito além do clichê da mãe sofredora. Um detalhe importante da trama chama a atenção para o papel da ideologia nas escolhas profissionais. Nas tratativas para chegar a se tornar bombeiro, Rogério é forçado a se posicionar frente ao comportamento da polícia militar do Estado de São Paulo, a quem pertence a corporação dos bombeiros. O que complicará enormemente a sua escolha. Ou seja, os dramas e conflitos não são só internos ao personagem. Dão-se objetivamente nas instituições, na sociedade. Rodada em preto e branco, a produção põe em discussão uma questão real dos jovens, sobretudo de classe média, que merece mesmo a nossa atenção, talvez ainda carecendo de personagens mais aprofundados. Para um primeiro longa-metragem como diretor, Marcelo Müller se saiu muito bem. Sua já larga experiência como roteirista – “Infância Clandestina”, “Amanhã Nunca Mais”, “O Outro Lado do Paraíso” – certamente contribuiu para esse resultado.
Haters não impedem Punho de Ferro de ser ótima e aprovada pelo público da Netflix
Quarta produção de super-heróis Marvel produzida pela Netflix, a série “Punho de Ferro” é um grande sucesso, segundo a empresa Parrot Analytics, que mede a popularidade de programas de streaming com base nas interações dos usuários nas redes sociais. A Parrot determinou que o público adorou a produção com base em manifestações positivas encontradas na internet. Entre todas as atrações da Marvel/Netflix, só teria gerado menos repercussão que “Luke Cage”. Os haters não devem se conformar, pois imaginavam uma rejeição maciça após as pedradas de críticos precipitados, que determinaram que “Punho de Ferro” eram ruim com base nos seis primeiros episódios – o número de capítulos antecipados pela Netflix para a confecção de resenhas. Diversas críticas lamentaram um suposto ritmo lento, as lutas mal coreografadas de artes marciais e, por incrível que pareça para os fãs dos quadrinhos, o fato de o protagonista não ser asiático. Mas a verdade é que “Punho de Ferro” não é, nem de longe, a pior série de super-herói produzida pela Netflix. Muito antes pelo contrário. Tendo como comparação a fraca “Luke Cage”, a mediana “Jessica Jones” e os altos e baixos de “Demolidor”, é a série mais coesa, que nunca se desvia de sua história central, num crescendo constante. Seu principal defeito é ser vítima de um formato estabelecido e repetido pela Marvel desde a 1ª temporada de “Demolidor”. As quatro atrações que o estúdio criou para a Netflix têm praticamente a mesma estrutura. Todas usam flashbacks para contar a origem de seus protagonistas, deixando muitos “buracos” na história, que os fãs dos quadrinhos precisam completar com as recordações de suas leituras. No caso do “Punho de Ferro”, a situação se complica pela falta de orçamento para dar aos flashbacks a grandiosidade do filme do “Doutor Estranho”. Afinal, Danny Rand, o herói do Punho de Ferro, tem uma origem mística não muito diversa da jornada de Stephen Strange. Criado nos anos 1970 por Roy Thomas, o roteirista que substitui Stan Lee como editor da Marvel, os quadrinhos do herói combinavam dois grandes sucessos televisivos da época, as séries “Kung Fu” (que estabeleceu a estrutura da origem em flashback) e “Dallas”. A adaptação, porém, preferiu passar por cima de todo o aprendizado do “gafanhoto” Danny Rand para se concentrar na história do empresário Danny Rand, lutando para retomar o controle da empresa criada por seu pai. Mas mesmo limando o aprendizado do protagonista e sem jamais mostrar a tão citada cidade mística de K’un-Lun, a produção consegue ser bem-sucedida em sua proposta de juntar “Dallas” com lutas de kung fu. E, sim, as lutas melhoram muito, conforme os episódios avançam, chegando a superar as de outras séries da companhia nos últimos episódios. É importante destacar ainda que “Punho de Ferro” lançou a melhor personagem feminina da Marvel (sorry, Jessica Jones). Collen Wing rouba as cenas com uma jornada repleta de reviravoltas e um desempenho encantador de Jessica Henwick (série “Game of Thrones”) – de dar vergonha na forma como Elektra foi utilizada na 2ª temporada de “Demolidor”. Na verdade, não há nada de ritmo lento em sua trama, que aproveita cada minuto disponível para desenvolver muito bem seus personagens, que são os mais matizados de todas as produções da Marvel. Não há ninguém mau demais nem bom demais. Todos tem falhas, inclusive o herói. E há grandes atuações, como a de um surpreendente Tom Pelphrey (série “Banshee”), capaz de evocar as dualidades rival/aliado, vilão/herói e fazer o espectador mudar várias vezes de ideia a respeito de seu personagem, o empresário Ward Meachum. Faltou um grande supervilão? Talvez por a trama visar maior realismo que as outras séries. Até os ninjas do Tentáculo entram em cena com trajes de tropa de elite. Por outro lado, a tentativa de fincar a produção num plano mais factível é responsável pelo único equívoco realmente notável. Não há wire fu, o kung fu voador dos filmes chineses de wuxia, embora tudo na história pedisse por isso, desde as menções à cidade mística ao mundo mágico do Tentáculo. E embora Finn Jones (série “Game of Thrones”) seja o elo mais fraco, a sugestão de escalar um ator asiático para viver o protagonista – um jovem herdeiro americano – não foi evocada na adaptação de “Doutor Estranho” – cuja origem também envolve monges, filosofia oriental e encenação nas mesmas cordilheiras. Bruce Wayne (Batman), Oliver Queen (Arqueiro Verde) e Tony Stark (Homem de Ferro) também são herdeiros bilionários que desenvolveram suas habilidades no oriente. Se a história de Danny Rand não traz novidade nesse sentido, dizer que Punho de Ferro deveria ter uma etnia mais “politicamente correta”, apenas com base no kung fu, ecoa o oposto de um pensamento progressista. Apenas reforça o estereótipo do tipo de papel que um asiático pode interpretar em Hollywood.
T2 Trainspotting é sequência digna, que equilibra saudosismo e frescor
O mundo mudou muito dos últimos 20 anos para cá, embora muita coisa tenha permanecido igual, como o consumismo e a superficialidade das pessoas, principalmente em tempos de redes sociais. Isso fica bastante explícito no ótimo monólogo de Renton (Ewan McGregor), atualizando para os novos tempos o “Choose life” do clássico original de 1996. Em tempos de sequências caça-níqueis descaradas, é bom ver um filme que faça sentido, tenha frescor e não apenas tente emular o espírito do anterior – isso seria complicado, levando em consideração que a história também se passa com um intervalo de 20 anos. Se antes havia uma conexão de amizade entre os quatro personagens, agora, depois da traição de Renton no final do primeiro filme, a noção de amizade é posta à prova. Quem continua sendo puro em seus sentimentos é Spud (Ewen Bremner), até por não ter evoluído. Ao contrário: como o vício da heroína não o abandonou, sua vida se tornou ainda mais miserável, levando em consideração que agora está sozinho nessa. Ao mesmo tempo de rir e de chorar, o momento em que ele fala de sua tentativa para se adaptar à sociedade traz a confissão de que ele nem sabia que existia um horário de verão. E assim sempre chegava aos compromissos com uma hora de atraso. Por tudo isso, “T2 Trainspotting” é um filme que funciona melhor após se rever o original, que continua sendo a melhor obra já dirigida por Danny Boyle. Muito do mérito está na construção dos personagens criados por Irvine Welsh, autor dos romances “Trainspotting” (1993) e “Pornô” (2002), em que os dois filmes são baseados. Uma história sobre reencontros após vários anos é quase sempre um ponto de partida interessante. Ainda mais quando esses personagens são tão icônicos e compartilharam histórias incríveis, ainda frescas na memória dos fãs. E Boyle não desaponta. Os quatro rapazes, Renton, Spud, Begbie (Robert Carlyle) e Sickboy, que agora prefere ser chamado de Simon (Jonny Lee Miller), estão muito bem representados de volta, ainda que Simon e Begbie, cada um à sua maneira, tenham sido mais envenenados pelo tempo e pelo estilo de vida. Simon por ter se transformado em um chantageador cheirador de cocaína e Begbie por nunca ter sido um exemplo de boa pessoa – e 20 anos passados na prisão não costumam melhorar as pessoas. Quem faz muita falta, ainda que apareça em uma rápida, mas marcante, aparição é Diane, a adorável personagem de Kelly Macdonald, que foi o interesse amoroso de Renton no primeiro filme. O filme opta por uma personagem feminina mais jovem, Veronika (Anjela Nedyalkova), que apesar disso é bastante interessante e um elemento de fundamental importância para a trama. Aliás, falando em trama, se o primeiro filme é composto por cenas fragmentadas, mais ou menos soltas, que formam uma espécie de caleidoscópio, “T2 Trainspotting” possui maior coesão na sua construção narrativa, para o bem e para o mal. Como os personagens estão mais sóbrios, é até natural que esse tipo de construção funcione melhor, embora, no fim das contas, isso acabe significando menor quantidade de cenas marcantes. O bom é que o enredo é sólido e empolgante, além de contar com uma cinematografia linda, a cargo de Anthony Dod Mantle, que vem trabalhando com Danny Boyle desde os tempos de “Extermínio”(2002), embora o tom colorido lembre mais o de outro filme menos badalado do diretor, “Em Transe” (2013). No quesito música, também não há tantos momentos marcantes quanto no primeiro filme, embora a brincadeira de trazer novamente “Lust for life”, do Iggy Pop, em versão remixada pelo Prodigy, seja muito boa. Outra canção marcante e que Boyle deixa rolar até o final para arrepiar os saudosistas é “Dreaming”, do Blondie. “Radio Ga Ga”, do Queen, já aparece de maneira mais discreta, o que é uma pena. Talvez o problema esteja no fato de a junção de velhos clássicos com canções contemporâneas nem sempre funcionar bem para aqueles que viram o filme original no cinema nos anos 1990, no auge do Britpop e a caminho de uma revolução na música eletrônica. A nova geração britânica não consegue evocar o mesmo impacto causado por “Born Slippy”, do Underworld, que, por sinal, é outro clássico revisitado na trilha.
Com os Punhos Cerrados é para poucos, entre eles seus próprios diretores
O coletivo cinematográfico Alumbramento surgiu com um modelo de produção que alude muito ao cinema de invenção (ou marginal, como é popularmente chamado), apropriando-se da democratização do digital para dar luz à narrativas que não atendem a estruturas convencionais, na qual a palavra é expressa com uma prosa particular em atos não muito bem demarcados. Por isso mesmo, o alcance de seus filmes é restrito, recebendo poucas chances no circuito comercial após uma trajetória por festivais mais susceptíveis a propostas experimentais por vezes radicais. Com atraso de três anos, “Com os Punhos Cerrados” finalmente chega em circuito limitadíssimo e seduzirá somente aos que apreciaram os feitos anteriores dos realizadores, como “Estrada para Ythaca” (2010) e “Os Monstros” (2011). Aqui, os irmãos Pretti e Pedro Diogenes se desdobram em inúmeras funções em nome do espírito coletivo, respondendo inclusive pelo protagonismo da trama, como um trio que se ocupa com transmissões de uma rádio clandestina, ouvida desde táxis até alto-falantes expostos em postes de Fortaleza. O propósito é recitar conteúdos de caráter subversivo, bem como problematizar questões de cunho artístico e político. Com muita boa vontade, é possível identificar na “anarquia” dessa ação um comentário sobre a condição de como um feito artístico libertário como “Com os Punhos Cerrados” se infiltra clandestinamente na sociedade. Porém, a experiência é como impor a comunicação de algo quando não há receptores muito interessados. Isso acontece justamente pelo caráter masturbatório do texto, com direito até mesmo à nudez frontal de Samya De Lavor (que debutou aqui antes de sua participação em “Boi Neon”) ilustrando discursos mais pretensiosos do que propriamente efetivos em seus tons críticos. Nada mais do que um filme feito para satisfazer unicamente aos seus realizadores e que nada acrescenta para as possibilidades de uma cinematografia ainda em progresso.
Power Rangers alonga história de origem e frustra fãs que esperavam mais ação
Para crianças e adolescentes que viveram nos anos 1990, “Power Rangers” era um verdadeiro evento. Quem estudava no período matutino, o desejo era de que as aulas acabassem imediatamente para assistir a 20ª reprise de um episódio. Já para os alunos do período vespertino, abandonar a etiqueta para almoçar em frente à TV era uma infração diária. Além do mais, era uma opção de entretenimento voltado tanto para garotos quanto para meninas com sobrevida fora da tela, pois os brinquedos dos personagens eram itens obrigatórios na casa de toda família. Portanto, a tentativa de resgate dos Power Rangers nos cinemas – 20 anos após o fiasco de “Power Rangers: Turbo” – tinha tudo para agradar. No entanto, o diretor Dean Israelite (“Projeto Almanaque”), com base em um roteiro escrito por John Gatins (indicado ao Oscar por “O Voo”), parece mais preocupado em atrair novos fãs do que contar com o benefício de já ter um público assegurado pelo poder da nostalgia. De tão preocupado em entregar uma história de origem, essa versão de 2017 parece menos um filme sobre os Power Rangers e mais uma ficção científica teen qualquer, confundível com diversos exemplares do gênero. O desregrado Jason (Dacre Montgomery, um Zac Efron genérico e simpático que o orçamento permitiu contratar) é o protagonista e inevitável Ranger Vermelho aqui. Preso em um programa de reabilitação após se envolver em um acidente automobilístico, o rapaz acaba fazendo amizade rapidamente com Billy (RJ Cyler) e Kimberly (Naomi Scott), também fãs de algumas transgressões. As habilidades sobre-humanas são herdadas quando invadem uma mina abandonada local, cada um levando consigo uma pedra preciosa com colorações diferentes que os transformam em guerreiros em luta para salvar o planeta que habitam. Simultaneamente, caem de paraquedas nesse balaio Zack (Ludi Lin) e Trini (Becky G.), outros jovens que formarão o quinteto esperado de rangers. Mesmo com um primeiro ato em que nem todos são contemplados com a mesma atenção, é possível dizer que “Power Rangers” encaminha sua intenção de fincar as suas garras em uma geração moderna. Mas tudo cai por terra quando o filme finalmente mostra as novas faces de Zordon (Bryan Cranston), o robô Alpha 5 (voz de Bill Hader) e a vilã Rita Repulsa (Elizabeth Banks). Extremamente tedioso, o segundo ato de “Power Rangers” peca principalmente por alongar as informações sobre as responsabilidades que esses jovens precisarão assumir, preparando um processo de adequação em forma de treinamento que só adia a ação que os fãs tanto querem ver. É como se o filme ignorasse os atrativos do material original, preferindo andar em círculos. Só lá nos 25 minutos finais as engrenagens entram em seus lugares para dar algum movimento a “Power Rangers”, com todas as criaturas bizarras ganhando vida pelo cajado de Rita Repulsa, enquanto os rangers vão descobrindo o potencial de destruição de seus veículos, que unidos formam o Megazord. Muitos fãs vão vibrar nesse clímax, mas a sensação é de que, com a duração de um longa-metragem, fizeram o equivalente a meio episódio da série original. O produto final não se compara com a ilustração atrativa de sua embalagem.
Fragmentado evidencia talento de M. Night Shyamalan para assustar com competência e classe
M. Night Shyamalan, o diretor de “O Sexto Sentido” (1999), sai do buraco depois “O Último Mestre do Ar” (2010) e “Depois da Terra” (2013), e faz um suspense a altura de seu talento. “Fragmentado” é sobre um sequestrador que sofre de transtorno de múltipla personalidade (James McAvoy, o professor Xavier jovem da franquia “X-Men”), e acua e aterroriza três mocinhas num covil subterrâneo. A mais esperta das vítimas, Casey (Anya Taylor-Joy, de “A Bruxa”), estabelece um diálogo com o captor, mas a cada momento ele se transforma. De homem severamente autoritário, como num passe de mágica ele passa a um menino de nove anos, depois veste uma saia e vira uma dama inglesa estilosa, seguido por um jovem obcecado por moda. Ao todo, o homem desenvolve 23 identidades, o que torna qualquer tipo de trato com a figura sutil como um jogo de xadrez. Um cineasta menor poderia ficar satisfeito com os sobressaltos proporcionados a cada reação do vilão, mas Shyamalan não fica nesse registro superficial. O cinema deste indiano, radicado nos Estados Unidos, é baseado em seu próprio senso de observação. A forma como ele capta as paranoias em pequenas atitudes do cotidiano e as amplifica em seus filmes, no fundo são engraçadas. Shyamalan, na verdade é um sátiro. Desde “A Vila” (2004), ele vem ridicularizando os EUA, mostrando o quanto o empenho de uma sociedade puritana é capaz de pregar peças em si mesma. Em “Fim dos Tempos” (2008), por exemplo, as pessoas correm de medo do vento. E em “A Dama da Água” (2006), o horror se esconde não no fundo de um lago escuro, mas de uma piscina limpa, cristalina e segura de um condomínio de classe média. O senso de ridículo não vem do lugar ou da natureza, mas do comportamento social. Buñuel já tinha nos mostrado antes que em situação de desespero o pequeno burguês revela seus instintos mais baixos, e Shyamalan cutuca a mesma ferida. Ele não é tão ácido quanto o cineasta catalão, mas compartilha de igual cinismo. Em “Fragmentado”, o medo vem das inesperadas reações mentais do doente. O personagem de McAvoy, seja como “Barry”, “Hedwig”, “Patricia”, “Dennis”, “Kevin” e outras personalidades menos identificáveis, está inclusive passando por sessões de terapia com uma psiquiatra (Betty Buckley, de “Fim dos Tempos”), mas a mulher flerta com o perigo por conta de uma tese que está desenvolvendo e usa o paciente como cobaia. Segundo ela, as 23 personalidades estão compondo uma 24ª e, como médica, ela acredita que é capaz de inibir o sujeito. Claro, será um erro de cálculo. No terceiro ato, quando começa a carnificina, “Fragmentado” fica mais previsível, porque Shyamalan acaba caindo nas armadilhas fáceis do suspense. Ainda assim, recorrendo a poucos efeitos visuais e se valendo da atuação rica e realmente complexa de McAvoy, ele cria um novo bicho-papão que assusta com competência e classe. E ainda inclui uma surpresa final, em referência a “Corpo Fechado” (2000).
Era o Hotel Cambridge é ficção, mas parece documentário
“Era o Hotel Cambridge” é um filme de ficção, porém, tão colado à realidade dos fatos e situações que representa, que, muitas vezes, é difícil distinguir a encenação do documentário. A história que o filme conta é a da ocupação de um prédio abandonado no centro de São Paulo, na avenida 9 de julho, que foi, era, o hotel Cambridge, pelo Movimento dos Sem-Teto do Centro. O filme foi feito lá mesmo, com os ocupantes representando seus papéis, sua história e a de outros, ao lado de atores profissionais. A diretora Eliane Caffé (“Narradores de Javé”), com sua equipe de filmagem, frequentou a ocupação por dois anos, conviveu e se envolveu com a vida dos moradores até criar sua ficção, que é uma interação entre personagens e situações daquele espaço e de relatos que vieram deles. Eliane descobriu, ao lado dos chamados sem-teto, refugiados estrangeiros vindos do Congo, da Síria e da Palestina, recém chegados ao Brasil. Buscou também registrar o convívio desses refugiados com os “refugiados” do próprio país, ou seja, os “refugiados da falta de direitos”. Aqui, o cinema não observou a realidade, se envolveu com ela (e ainda se envolve, diga-se de passagem). Mergulhou na situação vivida pelas pessoas que ocupam aquele prédio, mostrou fatos relativos a outras ocupações, à repressão policial, e se envolveu também com os aspectos psicológicos, humanos, daquelas pessoas sofridas, mas ativas e lutadoras. Mostrou o comando e a força do gênero feminino nessa batalha diária e constante que é a ocupação. Carmen Sílvia desponta como liderança popular, forte e decidida, e acaba se revelando como atriz. José Dumont (novela “Velho Chico”) e Suely Franco (“Minha Mãe é uma Peça 2”) estão muito integrados à situação, vivendo tudo aquilo junto com os ocupantes sem-teto, como se fossem eles próprios moradores e integrantes do movimento de moradia. “Era o Hotel Cambridge” reflete o amálgama de fatos, situações, encenações, personagens, que se confundem no real e no imaginário, oriundos do mundo interno ou da dimensão sociológica, sem delimitações claras. Toma o partido da FLM – Frente de Luta Pela Moradia – e dos demais movimentos a ela associados. Realiza uma imersão comprometida com a questão social que retrata. É um filme emocionante e envolvente. Um filme de luta, eu diria. A produção recebeu muitos prêmios pelo Brasil. O público da 40ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o do Festival do Rio 2016 o elegeu como melhor longa brasileiro. Venceu também o Festival Aruanda, de João Pessoa, e foi premiado no Festival Cinema de Fronteira em Bagé, além de se destacar em festivais internacionais, como os de San Sebastian e Roterdã.












