Neve Negra prende a atenção com mistérios e descobertas surpreendentes
Narrativas que envolvem muitos personagens e diversas subtramas são um convite à dispersão. Elementos centrais podem perder a força e o tempo consumir a atenção e o interesse do espectador. Às vezes, é como aquelas pessoas que se perdem em longas explicações, perorações intermináveis, que a gente acaba por não ouvir ou entender mais nada. Muito diferente é o papo direto e reto. O jeito econômico de contar uma história ou desenvolver uma ideia. O thriller argentino “Neve Negra” é um bom exemplar de trama econômica, focada no que interessa, sem dispersões. Usa o recurso do flashback progressivo, que vai mostrando em doses homeopáticas o passado dos poucos personagens envolvidos na história, de modo a ir elucidando tudo até o final. Não é um vai-e-vem no tempo interminável e confuso, como, por exemplo, o que se pode ver em outro filme em cartaz nos cinemas, “Faces de Uma Mulher”, produção francesa, dirigida por Arnaud des Pallières. E há tantos outros exemplos, atualmente. Não, o filme de Martín Hodara (“O Sinal”) é cheio de mistérios e descobertas surpreendentes, mas tudo faz muito sentido e termina bem amarrado. Sem deixar fios soltos pelo caminho. Toca, também, na questão de que a verdade é aquilo em que a gente acredita ou admite que seja, aquilo que ficou estabelecido como tal. Um segredo bem guardado estabelece o que virá depois. Ou, quem sabe, segredos em série darão o rumo das coisas. Como de costume no cinema argentino contemporâneo, vê-se um roteiro bem construído, uma história bem concebida e que vai ao ponto. Além disso, “Neve Negra” conta com alguns dos maiores atores do momento, como Ricardo Darín (“Truman”) e Leonardo Sbaraglia (“O Silêncio do Céu”), e o veterano e grande ator Federico Luppi (“No Fim do Túnel”). A jovem atriz espanhola Laia Costa (“Victoria”) tem uma interpretação segura e emocionante, ao lado desses cobras. Mostra desenvoltura. A trama remexe uma dinâmica familiar apodrecida por tudo o que ficou encoberto, negado e virou tabu na relação entre os irmãos e deles com os pais. É bem assustador o que se estabelece a partir daí. O filme mostra como isso está hoje, quando um dos irmãos, Salvador (Ricardo Darín), vive isolado, caçando na região montanhosa e gelada da Patagônia, e se tornou bem agressivo no contato. Marcos (Leonardo Sbaraglia), o irmão mais novo, e sua esposa, Laura (Laia Costa), vão ao encontro dele, tentando convencê-lo a vender a propriedade onde ele está há décadas, longe das coisas. Tarefa quase impossível. Enquanto isso, a outra irmã, Sabrina (Dolores Fonzi, de “Paulina”), vive internada, tendo crises de descontrole emocional. Para entender o porquê de tudo isso, “Neve Negra” mergulha no passado desses irmãos e nas relações que se estabeleceram entre eles, na juventude. A neve da Patagônia, os espaços amplos, vazios, as árvores que ressaltam no branco da paisagem, as tempestades, nevascas castigando o ambiente, são a expressão visual do desarranjo familiar de contornos dramáticos, trágicos, na verdade. E acabam por determinar o destino daqueles sofridos personagens. O filme tem grande fluência e a narrativa prende de tal modo, que seus já econômicos 90 minutos passam tão rápido que mal dá para perceber. Quando a projeção termina, a sensação é de que “Neve Negra” tem uma duração muito curta. Mas seu tempo é o padrão, o mais utilizado pela sétima arte desde sempre. Grande mérito para o trabalho do diretor Martín Hodara e seu elenco admirável e de grande eficiência nos desempenhos. Não surpreende o sucesso que o filme vem fazendo na Argentina, onde foi a produção mais vista nos cinemas em 2017, até aqui.
Diane Lane faz turismo gastronômico enriquecedor em Paris Pode Esperar
Curiosa a trajetória de Diane Lane. Embora tenha aparecido e se destacado em filmes importantes quando jovem (seu primeiro filme é de 1979), foi só com “Infidelidade” (2002), de Adrian Lyne, que ela de fato chamou a atenção como protagonista. Em seguida, pôde ser vista em duas comédias leves e agradáveis, “Sob o Sol da Toscana” (2003) e “Procura-se um Amor que Goste de Cachorros” (2005). Tudo isso dentro do curto espaço de três anos. O melodrama “Noites de Tormenta”, de 2008, em que ela reencontra Richard Gere, talvez tenha sido seu último trabalho de destaque antes de se tornar mais conhecida como a mãe de Superman. Na verdade, nem são grandes filmes, mas que se tornaram dignos de atenção por causa da atriz. “Paris pode Esperar” (2016) é o seu retorno ao mundo das viagens na Europa (de “Sob o Sol da Toscana”) e também a uma possível infidelidade, ao menos uma tentação, durante uma viagem de carro de Cannes a Paris. Na trama, ela é Anne, esposa de um produtor de Hollywood (Alec Baldwin, e “Blue Jasmine”) que o acompanha no Festival de Cannes (edição de 2015). Acontece que ela está sofrendo de dores no ouvido e alguém sugere que ela não viaje de avião – o marido está indo a Budapeste antes de ir a Paris. A solução seria encontrar o marido em Paris e um amigo francês do marido, Jacques (Arnaud Viard, e “Grandes Amigos”), oferece-se para levá-la à capital. Há quem vá achar que “Paris pode Esperar” é só mais um filme sobre turismo gastronômico, mas pode ser uma experiência maior e melhor do que se espera. A matriarca Eleanor Coppola, esposa do cineasta Francis Ford Coppola, se aventura na direção de seu primeiro filme de ficção e sabe acentuar bem não apenas as diferenças entre americanos e franceses, mas também suas afeições mútuas. Vem de muito longe o namoro entre Estados Unidos e França e da mesma forma que tantos cineastas franceses homenagearam obras e diretores americanos, os franceses são apreciados em muitos aspectos pelos americanos, por sua maior sofisticação cultural e culinária. Enquanto Jacques é o homem que crê que a vida deve ser muito bem vivida a cada momento e cada sabor, Anne é uma mulher essencialmente visual. Ela está sempre tirando fotos de tudo que encontra pelo caminho, da comida, inclusive. Não que isso seja uma simplificação do que hoje se vê nas redes sociais. Suas fotos são mesmo obras de arte, como bem destaca Jacques, sempre elevando o astral de Anne e fazendo-a perceber o quanto ela é uma mulher especial. Esse francês galanteador tornará a viagem de Anne memorável, embora não se saiba o futuro dos dois. De todo modo, “Paris pode Esperar” não é exatamente sobre a relação desse casal e uma possível infidelidade, mas como esse percurso é importante para ambos, como, aliás, é tarefa de todo “road movie” que se preze. E também como deve ou deveria ser toda viagem que fazemos, enriquecendo nossa alma através do contato com novas pessoas, novos lugares e novos sabores. Com o filme, os espectadores ganham um passeio baratinho pela França, além de um olhar de cumplicidade para aqueles personagens. Que o diga o olhar final de Diane Lane para a câmera-espectador.
Mulher-Maravilha enfrenta clichês de super-heróis para vencer limites do gênero
“Mulher-Maravilha” é um filme cheio de senões. É longo demais, limpo demais (choro, suor e sacrifícios são sempre impecavelmente iluminados e maquiados para parecem lindos), exagerado nos efeitos e, como aventura, está longe de apresentar fluidez narrativa. A diretora Patty Jenkins nunca equilibra as dosagens de ação, humor e drama com harmonia e leveza. Disso, resulta um espetáculo todo compartimentado e truncado. Tem trechos que são só cômicos, outros só de ação, outros exclusivamente dramáticos. Neste sentido, a engenharia da Marvel é bem mais azeitada, as peças são melhor encaixadas e os filmes, mais divertidos e redondos. A mão pesada de Patty Jenkins na direção, contudo, não impede o filme de superar seus limites. “Mulher-Maravilha” triunfa ao trabalhar questões especificamente femininas, sem fazer do rancor ou do proselitismo o centro de seu olhar. O roteiro (curiosamente assinado por cinco homens) tem achados e a presença da atriz Gal Gadot ajuda a sustentar a produção. A Diana Prince de Gadot é uma mulher cheia de nuances. Forte e dedicada, com sensibilidade e inteligência para driblar as burrices e patadas dos brutamontes. Jenkins filma a beleza escultural de Gadot e suas amigas amazonas, no mesmo espírito altivo que Leni Riefensthal registrava os atletas nazistas no cinema dos anos 1930. As mulheres no filme são como deusas, superiores num primeiro momento, mas quando olhadas de perto, revelam traços de ingenuidade e fraqueza. Diana é a mais contraditória das Amazonas. Ela nasce num ilha chamada Themyscira, um lugar paradisíaco, de rochedos e cascatas que parecem esculpidos por sonhos. Filha do mitológico Zeus, Diana é cuidadosamente escondida dos olhos dos desafetos, para nunca ser usada como elemento de barganha. Mas apesar da proteção de uma tribo de guerreiras, Diana revela ter poderes para se virar muito bem sozinha. E embora ainda não saiba, seu destino ou maldição será usá-lo por toda sua existência. O mundo exterior invade a terra confortável da princesa de Themyscira, graças a um soldado norte-americano. É a 1ª Guerra Mundial e o avião de Steve Trevor (Chris Pine) está sendo perseguido pelos alemães. O soldado leva dois sustos: o primeiro, quando atravessa o portal entre os dois mundos, o segundo, quando encontra as mulheres, fortes e destemidas. As amazonas de Themyscira deixam Steve contrariado ao dispensar qualquer ajuda masculina. Numa cena bem humorada, Diana explica para o rapaz que os homens são indispensáveis para a procriação. E só. Para o prazer, ela frisa, há métodos mais eficazes. Essa observação formidável, claro, acaba sendo acelerada, porque os produtores acreditam que é de ação que o público gosta. É preciso então que os personagem obedeçam a produção e comecem a correr. Como já mostraram muito a ilha, toca mudar o cenário para não cansar! Steve retorna às linhas aliadas e Diana espontaneamente decide acompanhá-lo. Ela tem uma espada e um escudo e a ideia ingênua de que, se puder localizar e matar Ares, deus da guerra, acabará com o conflito mundial. Essa motivação conduz à parte mais agradável do filme. Diana não sabe nada sobre os homens. Aliás, não sabe nada sobre a civilização moderna, e é divertido vê-la fazer suas descobertas. Na Londres de 1918, ela reage ao barulho e aos carros. Experimenta um sorvete e adora, e, como uma criança, grita de prazer ao descobrir o segredo de atravessar a porta giratória de um hotel. A mocinha também percebe que a opinião de uma mulher talvez não seja tão valorizada como em Themyscira. E, pra enlaçar o pacote de desilusões, um mundo cheio de destruição e miséria descortina-se para ela, numa escala inimaginável. É aqui que “Mulher Maravilha” torna-se mais do que apenas diversão e jogos de guerra. Este filme facilmente poderia ter sido outro exercício cansativo a definir o feminismo como a oportunidade de uma mulher ser tão ou mais violenta que o mais opressor de seus parceiros. Em vez disso, “Mulher-Maravilha” segue em direção oposta. Ele apresenta Diana como o princípio feminino que representa as artes da vida e, em última instância, o amor, em colisão com um mundo que homens tentaram coletivamente reprimir desde o começo da humanidade. Ao longo desta linha, “Mulher-Maravilha” atinge momentos emocionantes que são incomuns para um filme do gênero. Em particular, há uma cena em que Diana atravessa uma cidade que foi bombardeada com gás mostarda e todos os seus habitantes morreram. Vemos no rosto de Gadot a emoção da dor e da tristeza de deparar-se com o horror da guerra, e seu desencanto expressa algo muito além do que costumamos observar neste tipo de filme. Considerando que no centro desse quadro temos uma atriz israelense, que inclusive serviu no exército de Israel, fica patente que não temos apenas uma atriz representando, mas uma pessoa que com certeza já esteve mais próxima dos horrores de uma guerra química do que nós. Felizmente, nem todos os homens são ruins na história. Existem alguns bons, como Steve Trevor, que tem uma qualidade curiosa: ele está sempre tentando recuperar o atraso. Às vezes, Steve tem que evitar as conseqüências da ingenuidade de Diana, ele tenta argumentar, mas nem sempre consegue convencê-la. O rapaz tenta protegê-la, mas é ela quem o protege. Do elenco, sobressai também a atuação de David Thewlis como um parlamentar gentil, que encontra sempre nuances inesperadas para seu papel. E do outro lado das linhas, Danny Huston acrescenta mais um vilão odioso em sua extensa galeria, um general alemão à procura de vitória usando seu poderoso gás tóxico. Por vezes, os roteiristas baixam o nível e plagiam na cara de pau cenas de “Capitão América: O Primeiro Vingador” (2011). Há dois trechos que são quase decalques do filme do herói patriota, uma no momento em que Steve leva Diana a uma cantina para recrutar um pelotão particular, e outra em que a moça, com seu heroísmo, avança contra os inimigos e sensibiliza os acovardados soldados ingleses a saírem da trincheira. Ainda assim, entre mortos e feridos, o filme supera tudo graças ao carisma de Gal Gadot. O sentimento de esperança, que algum dia a racionalidade feminina ainda vai vencer a brutalidade masculina, está esculpido em cada close da atriz. Essa é parte empolgante que tira “Mulher-Maravilha” do lugar comum.
Melhores Amigos é retrato sensível da amizade na adolescência
O cineasta Ira Sachs, que virou querido da crítica desde “Deixe a Luz Acesa” (2012), anda trilhando um caminho curioso em sua tentativa de alcançar um público cada vez maior com seus filmes de temática homoafetiva. De seu primeiro filme de grande repercussão ao seguinte, “O Amor É Estranho” (2014), já é possível notar uma tendência rumo ao mainstream, conforme o sexo deixa de ser prioridade para se destacar o amor entre seus protagonistas. O mesmo acontece em “Melhores Amigos”, desta vez sem relação de contato físico entre os dois protagonistas, meninos de 13 anos. A obra pode ser vista como um filme sobre a importância das amizades na adolescência, sem que se resuma à história do surgimento do primeiro amor, ou algo do tipo. Até porque o roteiro, feito em parceria com o brasileiro Mauricio Zacharias e indicado ao Independent Spirit Awards (o Oscar indie), é muito sutil ao abordar a questão. Assim como em “O Amor É Estranho”, o relacionamento é afetado por questões de ordem socioeconômicas. A trama apresenta primeiramente Jake (Theo Taplitz, um prodígio que aos 13 anos já dirigiu oito curtas), um garoto que está se mudando para o Brooklyn com seus pais, vividos por Greg Kinnear (“A Pequena Miss Sunshine”) e Jennifer Ehle (“Além das Palavras”), que herdaram uma nova casa, deixada pelo patriarca recém-falecido. O velho arrendava uma parte do prédio para uma mulher chilena (Paulina García, de “Glória”) e seu filho Tony (Michael Barbieri, uma revelação) cuidarem de uma pequena loja de roupas. Mas o aluguel era antigo e barato, e a chegada dos herdeiros, que querem aproveitar o potencial lucrativo daquele espaço, acaba prejudicando a vida daquela família simples. Os meninos, porém, não sabem o que acontece, e a proximidade súbita acaba por torná-los os melhores amigos do título. E é justamente no modo delicado como o filme trata essa amizade que está o grande desafio e o grande mérito da produção. No fim das contas, por mais que a história seja importante, é o que acontece entre os diálogos que torna o filme um dos mais bonitos trabalhos sobre a amizade na adolescência, esse período complexo em que a vida adulta começa a bater à porta. A cena mais importante do filme reflete essa questão, da iminência do futuro, num diálogo entre Jake e seu pai, que perto do fim transcende e, mesmo de forma delicada, parte corações. Ao mesmo tempo, ilumina como a filmografia de Ira Sachs evoluiu em sua associação com Mauricio Zacharias – que não é seu parceiro de vida, mas de arte. O diretor de “40 Tons de Azul” (2005) e “Vida de Casado” (2007) virou outro após “Deixe a Luz Acesa” e “O Amor É Estranho”, justamente os primeiros frutos da parceria com Zacharias.
Faces de uma Mulher oferece retrato fragmentado de uma personagem múltipla
“Faces de uma Mulher” é um filme que cresce à medida que pensamos nele. A trama do cineasta Arnaud des Pallières (“Michael Kohlhaas”) apresenta quatro estágios da vida de uma mesma mulher, mas de maneira desconcertante e um tanto confusa à princípio. Até que o espectador perceba que as diferentes atrizes representam a mesma pessoa demora um pouco, embora essa estranheza e esse desconforto sejam bem-vindos e provoquem no espectador um interesse em unir as pontas. A confusão se dá pelo fato de as personagens aparecerem com diferentes nomes, embora o filme, logo no início, revele que uma delas usa nome falso. Trata-se de Renée (Adèle Haenel, de “A Garota Desconhecida”), que tem sua rotina de vida (como professora de crianças) perturbada pela chegada de uma mulher recém-saída da prisão (Gemma Arterton, de “Gemma Bovary”). A chegada daquela mulher representa o fim de seu sossego. Percebe-se, logo de cara, a fotografia que destaca os rostos com seus detalhes ressaltados: as olheiras nos olhos de Haenel; as sardas de Arterton; mais à frente os hematomas, feridas e uma maquiagem com um exagerado uso de baton vermelho, como na tentativa de restaurar a beleza dessas mulheres maltratadas. E haja maus tratos. As mulheres do filme de Pallières recebem porrada a todo instante, o que dói até no espectador, testemunha dos atos de violência, sempre praticados por homens mais velhos. Logo em seguida, entra em cena Sandra (Adèle Exarchopoulos, de “Azul É a Cor Mais Quente”), uma jovem em seus 18-20 anos que está em busca de dinheiro, seja através de um emprego normal, seja através da “adoção” por um homem mais velho. Essa oferta, ela recebe de um senhor viciado em jogos e corridas de cavalos. A vida de Sandra cruzará com Tara (Arterton) também. Só mais à frente se percebe que se trata de um flashback da personagem anteriormente apresentada. Mas o filme vai mais longe e apresenta outras duas interessantes atrizes/personagens: Karine (Solène Rigot, de “Renoir”), a garota de 13 anos que se rebela, sai em festas noturnas e é violentada pelo pai, e a garotinha de 6 anos Kiki (a estreante Vega Cuzytek), que tem uma vida normal até que um evento envolvendo seus amiguinhos de infância muda sua forma de ver o mundo. Ou parece ser essa a intenção do filme, visando justificar o comportamento posterior da personagem, em suas diferentes encarnações. Algumas situações ficam pouco claras, mas isso não chega a ser um grande problema. Ao contrário: dá ao filme seu charme. Os personagens masculinos, em sua maioria, são egoístas ou pouco compreensivos, mas dois deles fogem a essa regra: os personagens de Sergi Lopez (“Um Dia Perfeito”) e Jali Lespert (“Amor e Dor”). Este último é parte fundamental de um dos momentos mais especiais do filme, envolvendo a gravidez da protagonista. Às vezes parece faltar um pouco mais de ligação entre as histórias dessas personagens. Contudo, esse aspecto fragmentado também pode ser visto como um ponto positivo, por valorizar não apenas a narrativa, mas também a construção de climas tensos e sensuais, que preenchem a vida sofrida dessa mulher múltipla e fugidia.
Dégradé acompanha cotidiano de um salão de beleza da Palestina
Num salão de beleza cheio de mulheres, rola papo sobre os relacionamentos com os homens, as fofocas, notícias e amenidades. Num salão de beleza em dia de verão, na Faixa de Gaza, com a energia ligada, também. Entretanto, o clima é muito mais tenso e incerto. Para começar, porque a energia pode acabar a qualquer momento e aí tudo se complica. O salão de Christine tem até um precário gerador próprio, para amenizar a situação. Mas lá fora podem-se ouvir tiros, há um leão, o único do zoo local, que foi roubado e circula pela rua monitorado por bandidos. O exército israelense exerce um controle opressor sobre o pedaço. Imagine se o grupo terrorista Hamas decidir acertar as contas por lá. Tudo muito difícil. Só que um salão desses continua funcionando, ainda que nas condições aqui descritas. Uma noiva, uma grávida, uma religiosa, uma divorciada insatisfeita, uma viciada em remédios tarja preta e uma interessada demais na vida dos outros estão por lá, tentando se arrumar e se cuidar. Convivem num microcosmos que pretende refletir a realidade das mulheres daquela sociedade e o seu entorno infernal. É disso que trata o longa palestino “Dégradé”, dirigido pelos jovens irmãos gêmeos Tarzan e Arab Nasser (nomes artísticos de Ahmad e Mohammed Abou Nasser), que contou com a participação financeira da França e do Qatar, e teria se inspirado em fatos reais, ocorridos em 2007. É estranho, mas perfeitamente possível. A realidade, por vezes, supera a mais audaciosa ficção. O filme, sem ser nenhuma obra de arte, é um bom trabalho, com boas sequências e boas atrizes, com destaque para a excelente Hiam Abbass, que já estrelou muitas produções do Oriente Médio, como “A Noiva Síria” (2004), “Paradise Now” (2005), “Uma Garrafa no Mar de Gaza” (2007), “A Fonte das Mulheres” (2011) e até longas hollywoodianos, como “Munique” (2005), de Steven Spielberg, e “Êxodo: Deuses e Reis” (2014), de Ridley Scott. Não é todo dia que se pode ver um filme da Palestina, que consegue nos trazer as emoções do que se vive por lá, nessa zona conflagrada, onde parece não haver espaço para a vida comum do dia a dia. A vida a que todos têm o direito de ter.
Real – O Plano por Trás da História traça o acirramento da divisão do Brasil
Os filmes, por mais que tentem retratar uma época, acabam sendo reflexo da época em que foram realizados. Com “Real – O Plano por Trás da História” não é diferente. É possível perceber que a rixa existente entre esquerdistas e neoliberais que abre o filme é muito mais rancorosa hoje do que era naqueles tempos em que Lula ainda não tinha conseguido vencer uma eleição. É também um filme que acabou chegando em um momento particularmente infeliz para o PSDB, que poderia usá-lo como propaganda política. Se bem que também é possível vê-lo sem esse viés. Até porque, no fim das contas, Fernando Henrique Cardoso não aparece no filme como o criador solitário do Plano Real. Ele apenas, espertamente, juntou uma equipe que transportou uma ideia pré-existente em uma tese acadêmica para a realidade brasileira. Foi um projeto arriscado, mas até hoje se elogia a criação da moeda forte, por mais que isso tenha custado bastante ao povo brasileiro, que sofreu um desemprego gigante, além de taxas de juros absurdas, para manter a estabilidade da moeda. Mas era pior antes, com a hiperinflação. O filme se foca em Gustavo Franco, que aparece na tela como o principal responsável pela existência do Plano Real e quem tentou de tudo para que a moeda persistisse estável, mesmo com uma crise mundial e nacional que pedia que o Brasil cedesse. Não dá para dizer que ele é exatamente um herói. E nisso o filme tem como mérito a boa interpretação de Emílio Orciollo Netto, no papel do egocêntrico e arrogante economista. Ainda assim, não deixa de ser ridículo quando ele grita “Eu não vou desvalorizar a minha moeda!”. De fato, tirando Tato Gabus Mendes como Pedro Malan, todos os demais soam ridículos, seja Norival Rizzo, como FHC, seja Bemvindo Sequeira como o Presidente Itamar Franco. Até Paolla Oliveira, mais uma vez, só serve para enfeitar a tela, com aquela que talvez seja sua interpretação mais constrangedora. Se nas telenovelas já é assim, nos filmes suas limitações se agigantam em tela grande. Enfim, não dava para esperar grande coisa de um filme de Rodrigo Bittencourt, o diretor da tenebrosa comédia “Totalmente Inocentes” (2012). Por outro lado, por mais que os problemas sejam evidentes, principalmente interpretação, escalação de atores e diálogos, trata-se de uma narrativa até bem envolvente, por tratar de um assunto que interessa ao brasileiro médio, especialmente a quem viveu os anos 1990. Além dos bastidores da criação da moeda, “Real – O Plano por Trás da História” também permite traçar o acirramento das polaridades extremas que dividem o Brasil atual, entre esquerdistas, costumeiramente chamados de comunistas (como se isso fosse uma ofensa), e neoliberais (idem). A divisão preenche as entrelinhas do filme, extrapolando numa sequência de discussão entre Franco e um amigo que votou em Lula. A impressão que dá é de que esse cenário apenas se radicalizou, mesmo em meio à podridão generalizada, que mistura todos os lados.
A Vida Após a Vida aborda o fantástico com singeleza
O longa-metragem chinês do cineasta estreante Zhang Hanyi pode ser definido como um filme singelo e, ao mesmo tempo, fantástico. Ou que trata do fantástico com singeleza. Ele nos leva à província chinesa de Shanxi, uma espécie de local abandonado pelos próprios moradores, esquecido, parado no tempo. Obviamente, decadente. Como diz o protagonista: ninguém mais morre aqui, todo mundo vai embora antes. O cenário é desolador, há muitas árvores, mas todas secas de outono e as casas são escombros ou muito precárias. A trama é de grande simplicidade, embora apele ao sobrenatural, como o próprio título do filme, “A Vida Após a Vida”. Ocorre que uma pequena parte dos antigos moradores, que já partiram e morreram, voltam na forma de fantasmas, buscando solucionar questões que deixaram pendentes em suas vidas na Terra, ou, mais precisamente, em Shanxi. É o caso do espírito de Xiuying, morta há mais de dez anos, que toma o corpo de seu filho Leilei (Zhang Li) para reencontrar o marido, Ming Chu (Zhang Mingjun), e resolver uma coisa importante para ela: mover uma árvore plantada quando se casou. Aí vemos o filho falando e se comportando como a mãe, em contraste com o que foi mostrado antes, um garoto agitado e contestador. O jovem Zhang Li se sai muito bem nesse desempenho, tanto quanto Zhang Mingjun, que faz o pai e terá, a todo custo, de resolver a questão do transporte da árvore, o que não se colocará como uma tarefa fácil. Além de conviver com a mulher materializada num adolescente, o que também traz algumas dificuldades interpretativas. Para quem não tem familiaridade com a complexa cultura chinesa, não é simples entender a relação dos seres humanos com as árvores que os conhecem e com quem têm uma história em comum. A relação com a natureza é muito forte e simbólica, especialmente numa pequena localidade rural do interior do país. A transcendência que existe aí também não cabe nos conhecidos parâmetros religiosos ocidentais. A mulher que morreu não reencarna para viver uma nova vida na Terra. Ela toma emprestado o corpo de seu filho para poder resolver um problema e, então, se liberar para viver em paz fora da Terra. Também não sei se se coadunaria com algum preceito budista e há que se reconhecer que tem similitude com os espíritos ou entidades que baixam temporariamente em pessoas vivas. O que é mostrado no filme é que o espírito se apossa da pessoa e continua caminhando pelo campo, observando as árvores, o ambiente, e agindo para alcançar seu objetivo, que é imediato. Não remete a questões morais, nem de largo espectro. É, como disse, singelo. A direção de Zhang Hanyi combina com isso. Ele não usa nenhum efeito especial, nenhuma fantasmagoria, nem passa perto das possessões que chacoalham as pessoas. Tudo permanece absolutamente calmo, tranquilo, até desolado, como é a localidade. A relação do casal, separado pela morte dela, não apresenta nenhuma dramaticidade que ultrapasse a questão em foco, a da árvore. Embora alguns diálogos remetam ao passado comum, à ausência, à saudade e ao tempo percorrido. Mas tudo muito discreto. Uma curiosidade, que recomenda o filme, é que ele é produzido pelo grande diretor Jia Zhang-Ke (“As Montanhas Se Separam”). Evidentemente, não se poderia esperar que, por isso, o filme fosse chegar perto do talento do cineasta produtor. Mas a presença de Zhang-Ke nos créditos abre portas importantes, principalmente nos festivais de cinema pelo mundo. O filme já passou pelos festivais de Berlim e Hong-Kong. Neste último, Zhang Hanyi recebeu um prêmio concedido a cineastas estreantes. Já passou por aqui, no Festival Indie 2016, e agora entra em cartaz no circuito comercial dos cinemas.
Clash confina tensões da Primavera Árabe num camburão
O filme egipcio “Clash” trata das turbulências que têm atingido o país após o que se convencionou chamar de Primavera Árabe e a revolução egípcia de 2011. O diretor Mohamed Diab focaliza momentos que se seguiram à deposição do presidente eleito Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, derrubado pelos militares em 2013 por meio de um golpe, que produziu muitos protestos nas ruas e confrontos que marcaram um país dividido. Para abordar a questão da radicalização política que envolve os dois grupos principais – os militares e a Irmandade Muçulmana – , além da participação de grupos minoritários – como os cristãos e os judeus – e até a atuação da imprensa, a estratégia do cineasta foi agrupá-los num único dia de protestos intensos, pela cidade do Cairo, dentro de um camburão. Presos extraídos dos protestos, os diferentes personagens convivem obrigatoriamente uns com os outros e têm de lidar com suas diferenças e seus ódios recíprocos. Tudo se passa, claustrofobicamente, dentro do camburão, o tempo todo. A rua é vista de lá, os muitos protestos, a repressão policial, os tiroteios, as bombas, tudo está lá, mediado pela velha caminhonete-prisão. Quando a porta do camburão se abre, o horizonte se insinua, mas logo ela se fecha e voltamos à tensa dinâmica desse carro-prisão. A filmagem é muito tensa e intensa. A agitada câmera na mão chega a incomodar, mas isso é intencional, nos põe no olho do furacão. O tempo decorrido é o de um dia de protestos no centro de Cairo, absolutamente revelador do ambiente de confronto, aparentemente intransponível, que tomou conta do Egito. O encontro dos detidos no camburão mostra a face humana, óbvia, que todos têm, encastelados em suas verdades políticas, religiosas, comportamentais. É, pelo menos, uma tentativa de empatia, de se colocar no lugar do outro. Única forma de procurar compreender algo para além das verdades ideológicas estabelecidas por cada grupo. A imprensa, que se arrisca nesse ambiente conturbado, em busca do registro dos fatos, se sai bem, na visão do filme. Não sem registrar suas discordâncias, representadas pelos dois jornalistas trancafiados. O diretor Mohamed Diab já é conhecido do público brasileiro pelo filme ”Cairo 678”, de 2010, que tratava do machismo e do assédio sexual às mulheres da cidade do Cairo, nos ônibus. Um trabalho muito bom. Mas “Clash”, do ponto de vista cinematográfico, é mais criativo na concepção e execução dos planos. Indica, portanto, uma evolução técnica do trabalho desse cineasta, que merece toda a atenção. Se mais não for, por sua capacidade de lidar no cinema com questões pungentes do seu tempo e do seu país.
Corra! diverte e assusta ao fazer terror com a hipocrisia da tolerância racial
Se equilibrar entre dois gêneros tão extremos como o terror e a comédia não é tarefa para muitos. Jordan Peele, o diretor de “Corra!”, realiza a proeza de nos surpreender continuamente com risadas nervosas e sustos. A trama estranhamente parece obedecer até demais os lugares comuns do gênero. Mas é aí que está sutileza. Peele estica os clichês a um limite tão agudo, que a normalidade começa a incomodar. O horror em “Corra!” nasce dessa sensação. Percebe-se que há alguma coisa errada, mas é terrível quando você não consegue identificar exatamente de que se trata. Na primeira metade do filme, há apenas um episódio sombrio. Numa rua escura e deserta, um sujeito mascarado sequestra um rapaz negro. A cena parece completamente dissociado da seguinte, que mostra, numa vibe bacana, o personagem central, o fotógrafo Chris (o ator britânico Daniel Kaluuya, visto antes em “Sicário”), vivendo um romance de sonhos com uma garota branca de olhos azuis (Allison Williams, da série “Girls”). Rose acha que está na hora de levá-lo para conhecer seus pais. Chris resiste e ela insiste, o que leva o rapaz a uma pergunta desajeitada mas necessária: “Eles sabem que eu sou preto?” Rose cai na gargalhada, chama o namorado de bobo e lembra que eles estão no século 21. Depois acrescenta: “Meu pai teria votado em Obama pela terceira vez, se pudesse”. E então: “Eles não são racistas”. Podemos observar em primeira mão como eles não são racistas quando Chris e Rose dirigem para o norte e, depois de um pequeno acidente rodoviário, chegam à bela mansão suburbana da família. O pai de Rose (Bradley Whitford, da série “Trophy Wife”) não faz cerimônias; puxa Chris para um abraço de “homem”, tagarelando sobre o privilégio que é ser capaz de experimentar a cultura de outras pessoas. Sua mãe (Catherine Keener, de “Capitão Phillips”), uma psiquiatra, é um pouco mais tática, oferecendo infinitas xícaras de chá enquanto fala sobre as virtudes da terapia de hipnose. Só o estranho irmão de Rose, Jeremy (Caleb Landry Jones, de “Byzantium”) parece destoar daquele mundo de mil maravilhas. Até os empregados, curiosamente todos negros, aparentemente estão risonhos. Aliás, tão risonhos que soa incomodo. Os pais de Rose fazem uma festa para seus ricos vizinhos brancos, e Chris de repente se toca que ele está virando o centro das atenções. Os convidados o abordam com suas maneiras de clube e elogiam seu físico, fazendo referências forçadas a Tiger Woods e acariciando os músculos de Chris com o mesmo espirito dos velhos comerciantes de escravos sulistas do século 19. Mas ninguém ameaça chicoteá-lo ou mesmo ofendê-lo, ao contrário, um dos insights mais persistentes do filme é que mesmo a cortesia, de indivíduos presumivelmente educados, pode ser sufocante e opressiva. Claro, a ameaça está diretamente ligada às revelações mais profundas, e, para quem é cinéfilo, não é difícil adivinhar que o enredo deve algo a “O Homem de Palha” (1973) e “Vampiros de Almas” (1956), mas o grande público não sabe disso. Como nesses filmes, a paranoia inquietante dá lugar ao pânico de aceleração total, enviando Chris para um buraco do qual será muito difícil de escapar. Peele sabe tudo de ritmo e cadência, domina a linguagem das alternâncias, trafega pela estética de Hollywood sem perder seu estilo, e transforma o filme, em sua segundo parte, numa vertiginosa montanha russa de aflições. Mas não é pelos sustos e pelas reviravoltas que “Corra!” marca uma posição tão significativa dentro do cinema norte-americano atual, e sim graças ao desmantelamento que o diretor inteligentemente faz de várias décadas de estereótipos racistas, para mostrar, com um riso safo no rosto, que por trás desse exterior aberto e tolerante, a América continua hipócrita e conservadora. Assim como Barry Jenkis fez em “Moonlight”, Peele é o mais novo representante infiltrado no velho recinto de exaltação branca que é Hollywood, a conquistar uma nova posição na indústria do cinema norte-americano. E ele constrói esse caminho com uma delicadeza e inteligência imensas.
Documentário Um Casamento encontra em registros de família as angústias da humanidade
Logo em suas primeiras cenas, “Um Casamento” dá a dimensão do apetite pela autenticidade com que a documentarista Mônica Simões retoma o passado de seus pais, o professor de filosofia Ruy Simões e a atriz baiana Maria da Conceição Moniz, para levantar um importante debate sobre a sociedade e o casamento. Numa tomada fixa, ela explica à mãe, que todo o trabalho de restituição será filmado em ordem cronológica e estabelece um pacto: tudo que as duas conversarem durante o filme será gravado uma única vez. Não importa os erros, os gaguejos: para chegar o mais próximo da verdade, a espontaneidade será a lei. Dada as coordenadas, Mônica começa a tirar do baú as relíquias da família. A mais inusitada delas, é o filme do casamento da mãe. Ou melhor, o que sobrou daquele registro, já que mal vemos a festa em si. Temos borrões e uma nebulosidade, que, vez por outra, revela o casal abraçado, uma pessoa sorrindo, um bolo sendo cortado… O tempo foi implacável com a cópia de 16 mm. Mas o registro, embora deficiente, permanece. O material quase abstrato, com mais de 50 anos, se espalha pela superfície da tela, enchendo cada quadrante de signos misteriosos. Esses pequenos trechos de verdades quase que inteiramente diluídas deve ter tido uma imensa influência sobre a vida da diretora. São imagens que convidam a imaginar e a especular como o projeto do casamento de Ruy e Maria fracassou. É claro que a cineasta entendia que um dia podia sentar com os pais para uma conversa franca. Aliás, essa não é uma história atípica da natureza humana: somos curiosos, queremos tomar contato com as histórias mal contadas de nossos pais. Queremos saber. Queremos compreendê-los. Só não podemos demorar demais. No caso de Mônica Simões, ela adiou (como todos nós adiamos) essa conversa até se tocar que, com a morte de seu pai, uma parte da história não poderia mais ser revista. Restava para se apegar a mãe, o filme do casamento, os álbuns de família. Há um sentido majestoso na forma como se desenrola o fio das memórias do casamento dos Simões. O exercício do registro das conversas por vezes são bem íntimos. O realismo das relações com a mãe são filmadas sem pudor inútil numa luz que derrota a hipocrisia e adquire uma dimensão moral quase metafísica. O filme do casamento volta a ser exibido várias vezes. Como se fosse a estrofe de um poema a ser reiterada. São as mesmas imagens, mas cada vez elas parecem ganhar um novo significado. Primeiro, transmitem uma sensação de alegria e inocência perdidas, depois, numa segunda exibição, evocam uma certa angústia de como o tempo destrói o passado e, numa terceira vez, torna-se justificativa de como aquele casamento não podia dar certo. Seis anos depois, a mãe pediu a separação. Maria Moniz conta que o marido não gostava de seu lado independente e, quando ela foi trabalhar num jornal, ele teria ficado enciumado com os modos como Maria partilhava ideias libertárias com um companheiro de trabalho. O rompimento foi decisivo para Maria Moniz mudar de vida: tornou-se atriz, articuladora de encontros com poetas e virou uma figura influente no mundo dos tropicalistas baianos. Como não temos em cena depoimentos do pai, a presença paterna torna-se enigmática. Em recordações, mãe e filha sinalizam que Ruy parece ter guardado um rancor de tudo que se passou. A filha encontra nos pertences paternos, fotos em que ele devia estar acompanhado, mas todas essas imagens estão cortadas ou rasgadas, sinal de que talvez ele quisesse apagar suas memórias. Ou ainda tivesse raiva do que fora e de como tudo terminou. É curioso, porque isso leva a intuir sobre o estado deteriorado do filme do casamento. Será que foi o tempo mesmo que destruiu o filme? Ou o pai poderia ter algum tipo de influência no estado de deterioração do registro? Eis, mais uma pergunta sem resposta. Há qualquer coisa de indizível em “Um Casamento”, da natureza das relações, e é realmente fabuloso. No olhar íntegro de Mônica Simões, a ordem secreta do mundo se inscreve sobre a tela com uma naturalidade irresistíveis. Ele não explica nada; o fortuito revela a existência. A beleza de “Um Casamento” escapa a essa hierarquia chata, que, aliás, anda afligindo muitos dos documentários atuais. Essa tendência de tentar vender um cotidiano falso, oportunista, calculado e maquiado, como no Facebook. Uma última palavra: em “Um Casamento”, a coragem de se expor é das mais dolorosas. A filha mantém a obsessão pela verdade, custe o que custar, e percebe-se seu sofrimento por isso. Já a mãe preserva sua meta admirável, de condessa descalça errante, à procura sempre de algo novo mesmo aos 82 anos de idade. Ambas, belas em suas metas e contradições, frágeis e muito humanas. Nada disso é fácil. Mas o resultado tem uma força e verdade ricas e desconcertantes.
O monstro de Alien Covenant não é o que se espera – e nem o filme
Embora a imprensa, no geral, esteja fazendo pouco caso, “Alien: Covenant” não é filme a se menosprezar. No gênero ficção científica, consegue o status de acima da média. Decepcionante sim é ele ser dirigido por Ridley Scott. Quando se trata de Scott, a expectativa sempre é grande. Não que ele mereça crédito de confiança, mas criou-se uma aura mítica em torno de seu nome, por conta de “Alien – O Oitavo Passageiro” (1979) e “Blade Runner” (1982), que talvez tenha colocado o diretor num patamar muito mais alto do que ele possa entregar. “Alien – O Oitavo Passageiro” e “Blade Runner” são dois filmes seminais, feitos um seguido do outro, e que trouxeram para o cinema dois pesadelos soturnos, contrapontos perfeitos a diversão e escapismo a que George Lucas e Steven Spielberg promoviam como tendência. Scott preferia o mistério, o estranhamento, e, mais que tudo, a desorientação do homem frente a um futuro complexo demais para entender. Os olhos do replicante no começo de “Blade Runner” tenta abarcar toda a extensão da Los Angeles de 2019, e se prostra frente ao mar de prédios, luzes e carros voadores. Essa perplexidade que nem o homem-máquina é capaz de processar, provoca um desconforto, uma aflição metafísica. A mesma razão leva os tripulantes da Nostromo, no primeiro “Alien”, a serem reticentes na busca e captura do visitante clandestino pelos corredores da nave, que, aliás, é escura e sinistra como uma caverna do principio dos tempos. Havia mesmo no Scott, daquela época, uma vontade de fazer filmes que escapassem ao controle da análise, e que revelassem a existência de uma realidade indizível do mundo. Parece viagem? Pois era a viagem do diretor, e ele não estava nem um pouco preocupado com o eco servil do poder financeiro do cinema. Mas isso tudo é passado. Os tempos mudaram e o mistério, o estranhamento por trás do “velho” “Alien” já não tem vez. “Alien: Covenant” é um filme que busca certezas. O espectador recebe uns chacoalhões, toma uns bons sustos, visita um planeta inóspito, enfrenta feras babonas e, no fundo, não quer escapar das convenções. Anseia por um terreno seguro. De olho na bilheteria e nas planilhas de sua produtora, a Scott Free, o diretor dá o que eles pedem. É tudo muito bem feito, com aquele apuro visual que o realizador aprendeu a vender como grife. Só falta uma trama bem amarrada e um desenvolvimento coerente e, se possível, inteligente. A inteligência dá as caras na abertura. Acena-se para uma reflexão filosófica sobre a natureza divina. Verdade que, para não correr riscos, o conceito será rapidamente abandonado. Mas está lá, desenvolvido enquanto o espectador se ajusta na poltrona e saboreia sua pipoca. O prólogo mostra o nascimento do personagem central de “Prometheus” (2012), o andróide David (Michael Fassbender). Ele abre os olhos e se vê, de pé, vestido de branco, em uma sala vasta e elegante, enquanto seu criador, Peter Weyland (Guy Pearce), provoca-o com perguntas oblíquas. O robô perceptivo já pode identificar uma estátua de Michelangelo, o mobiliário medieval em torno deles, e os acordes de um clássico de Richard Wagner. Ele foi programado para reconhecer e apreciar milhões de coisas, antes mesmo de tomar consciência da vida. Então a conversa se encaminha para um nó. Vida? O que é vida? Uma questão puxa a outra, num bombardeio de perguntas que só cessam quando David percebe a certeza única de sua existência. Ele sabe que o cientista o criou. Essa lógica, contudo, pertence ao mundo robótico. Mas quem criou o cientista? Em seguida, saltamos para 10 anos após os eventos de “Prometheus”, para a nave de colonização Covenant fazendo o seu trajeto através do espaço. Centenas de passageiros dormem numa viagem que levará sete anos até chegar em seu planeta destino. Apenas um único tripulante está acordado, o andróide Walter, coincidentemente um robô da mesma série que David (Fassbender também interpreta o personagem). Passa-se uns 50 minutos, antes que esses dois andróides se encontrem num inóspito e misterioso planeta. O primeiro diálogo entre ambos é fabuloso, pela forma como se estudam. Outros encontros virão, e gradativamente os dois robôs se revelarão tão competitivos quanto os humanos que eles criticam. Surpreende o fato que os aliens não são o prato principal do filme. Os técnicos de efeitos até concebem um monstro híbrido mais bizarro que o original, mas a criatura xenomorfa não causa mais grande impacto (seis filmes depois, o que poderia nos assustar?). “Prometheus” já tinha deixado claro que esse bicho papão não impressiona mais. Lá, Fassbender roubou a cena do monstro. Torna a dominar as atenções aqui, agora em papel duplo. O verdadeiro clímax de “Covenant” acontece do confronto desses dois androides. Um espelha o outro, e a briga obviamente é tão balanceada, que fica difícil prever quem sairá vencedor. A frustração do público advém dessa mudança de rumo inesperado. Pagaram esperando ver uma coisa e, pelas indecisões dos roteiristas e do diretor, estão vendo outra. Como se não bastasse, todo o resto do elenco, inclusive a nova mocinha guerreira, vivida por Katherine Waterston (a heroína de Animais Fantásticos e Onde Habitam), são pouco expressivos. Não passam de adereços em volta dos aliens e da dupla de robôs. Pra desculpar a falta de interesse de Scott por eles, somos constantemente lembrados que os tripulantes da Covenant não são soldados ou pessoas treinadas para lidar com emergências; ou seja, não passam de um bando de zé ninguém, que muitas vezes tentam ajudar e cometem trapalhadas. A maior patetada desta equipe ocorre quando aterrissam no planeta. Parece piada. Se a turma do 8º ano do meu filho fosse fazer uma exploração interplanetária, certamente que não se portaria de forma tão estúpida como os colonos. O quê, o nível de oxigênio está bom? Então vamos tirar os capacetes, certamente não existem agentes patogênicos no ar! Isso dá uma boa medida de como começará a contaminação desta vez. Pior em “Alien: Covenant” é constatar que o tempo de Ridley Scott também expirou. Ele será sempre um cineasta lembrado pelos dois filmes supracitados que dirigiu 40 anos atrás. Cabe uma pausa aqui. Um exame frio sobre a filmografia do cineasta, para recapitular o que de verdadeiramente relevante, ele realizou ao longo da carreira. Após “Alien” e “Blade Runner”, há um honroso “Thelma & Louise” (1991), seguido de meia dúzia de filmes medianos ou decepcionantes, e então “Gladiador” (2000) e “Falcão Negro em Perigo” (2001). Depois, meia dúzia de bombas e, então, “O Gângster” (2007). Finalmente, mais algumas bobagens e finalmente “Perdido em Marte” (2015). A filmografia de Scott parece o gráfico de um paciente terminal: de vez em quando, dá uns picos, gera certa animação, mas em seguida descamba. Um mito se desfaz aqui. É duro admitir, mas se havia alguma vitalidade criativa em Scott, a sobrevida artística está sendo mantida por máquinas. Ele se acomodou na função de artesão. Permanece o incrível bom gosto visual, mas é um diretor que perdeu o senso de ambição, um cineasta à mercê de um time de roteiristas inspirados. Quando encontra um, se sobressai. Como aconteceu em “Perdido em Marte”. Quando não encontra, temos no pior dos casos algo infame como “Êxodo: Deuses e Reis” (2014) ou, na sorte, algo passável como “Alien: Covenant”. A carpintaria bem feita e, quase toda digital, dá uma enganada, mas, no fim, o filme funciona de soquinho. Avança um pouquinho, para, avança outro, emperra… Resta torcer para que não haja a mesma filosofia por traz da aguardada sequência de “Blade Runner” que Scott produz.
O Cidadão Ilustre usa humor negro para mostrar como o sucesso provoca inveja
Um escritor oriundo de uma pequena cidade argentina, Salas, se projeta como grande nome da literatura mundial, vivendo na Europa por três décadas, e conquista nada menos do que o Prêmio Nobel de Literatura. Esse personagem é Daniel Mantovani (Oscar Martínez). O início do filme “O Cidadão Ilustre” é a sua consagração na cerimônia de entrega do Nobel, em Estocolmo, e ali já se vê seu espírito crítico e a insubmissão que lhe são característicos. Se algum dia esse escritor, famoso mundialmente, resolver voltar para rever a pequena cidade natal de Salas, aproveitando um convite singelo para receber a medalha de Cidadão Ilustre da localidade, após cerca de 40 anos ausente, o que pode acontecer? Esta é a situação que o filme de Gastón Duprat e Mariano Cohn (mesma dupla de “O Homem ao Lado”) explora, na forma de uma comédia ácida, que lida com o efeito do sucesso cosmopolita sobre o mundo provinciano. De um lado, o orgulho do conterrâneo mal disfarça a inveja. De outro, uma espécie de entusiasmo patriótico é incapaz de ver o mundo para além das fronteiras nacionais. Há ambiguidade em ver sua pequena localidade também se tornar famosa, mas pelo que ela tem de pior. O desejo de usufruir das vantagens de ser o berço natal de um nome famoso no mundo vai de encontro à constatação da pequenez e mediocridade daquele espaço provinciano. A descoberta de que a grande literatura se alimentou das lembranças desse pequeno mundo limitado e opressor acaba por trazer à tona o que as pessoas têm de mais obscuro: a agressividade destruidora. Tom Jobim dizia que, no Brasil, o sucesso ofende as pessoas. Elas não podem suportá-lo. Quando esse sucesso revela sua face crítica, inevitável, aliás, muitos se sentem diminuídos, rejeitados, dispostos até a matar, por inveja. Isso não é um atributo brasileiro, ou argentino, é do ser humano frustrado, insatisfeito, que se sente rejeitado. De qualquer modo, essa visão da história não é necessariamente a única, nem precisa ser assim. É a visão do escritor, que a ela agrega fantasia, exageros, dramaticidade. O conflito existe, é real, mas pode adquirir diferentes configurações. Uma vez mais, se coloca o tema da verdade, o que ela é, como alcançá-la, se é que existe. E do que é factual e ficcional. O filme lida com isso também, embora de modo pouco original. No entanto, o conjunto do trabalho é muito bom. A atuação de Oscar Martínez (“Relatos Selvagens”), excelente, e o tom cáustico da comédia funciona muito bem. Além de tratar de um tema relevante. Não é nenhum besteirol, nem é nada apelativo. “O Cidadão Ilustre” foi escolhido para representar a Argentina na disputa pelo Oscar de filme estrangeiro. É uma coprodução com a Espanha e levou o prêmio Goya de melhor filme ibero-americano.












