Richard Linklater volta aos anos 1980 com o divertido Jovens, Loucos e Mais Rebeldes
A filmografia de Richard Linklater é bem irregular. O homem que dirigiu obras tão intensas quanto a trilogia “Antes do Amanhecer” (1995), “Antes do Pôr-do-Sol” (2004) e “Antes da Meia-Noite” (2013) tem em seu currículo alguns filmes inexpressivos e que muitas vezes passam batido. Porém, não dá pra dizer que ele seja um diretor sem uma marca autoral. Uma das características de seus filmes, como dá para perceber pela citada trilogia, é a preocupação com a passagem do tempo, em pensar sobre o tempo como algo fugaz e por isso mesmo tão valioso. “Jovens, Loucos e Mais Rebeldes” (Everybody Wants Some, 2016) é uma continuação espiritual de “Jovens, Loucos e Rebeldes” (Dazed and Confused, 1993), que mostrava as aventuras de um grupo de estudantes do ensino médio no último dia de aula em 1976, com todo aquele espírito dos anos 1970 impresso. O novo filme traz outro grupo de jovens, desta vez em seu primeiro dia no ambiente universitário, antes de as aulas começarem no ano de 1980. A virada da década está presente nos figurinos, no comportamento, na bem selecionada trilha musical, na direção de arte, na fotografia colorida e no espírito festivo do filme. O que pode incomodar um pouco, especialmente aos fãs do cineasta que gostam de conversas de cunho mais aprofundado, é o quanto é rasa a filosofia de vida dos vários personagens que passeiam pela tela, especialmente se pensarmos que estamos diante de um filme do mesmo diretor de “Acordar para a Vida” (2001). Mas Linklater também é o cara que dirigiu “Escola de Rock” (2003) e que também gosta de pura diversão, sem muitas pretensões intelectuais. O olhar principal do filme é o de Jake Bradford (Blake Jenner, da série “Glee”). Sua perspectiva apresenta e filtra os demais membros da turma que farão parte dessa importante etapa de sua vida. Cada um deles tem a sua importância em um filme que não se preocupa com o enredo, mas que prefere deixar fluir um fluxo narrativo com naturalidade e leveza, como se estivéssemos testemunhando aquele momento e olhando com carinho para aquelas pessoas, sem nenhuma preocupação com uma conclusão. Afinal, a vida deles está mal começando. São jovens que estão mais interessados em jogar beisebol, namorar e brincar do que exatamente estudar. E é muito bom testemunhar o otimismo de quem que está acabando de chegar àquele ambiente e se enturmando. Para aqueles jovens, estar ali era uma questão de autoafirmação. Por isso, em muitos momentos, o grupo fica parecendo um clube do Bolinha com pouca sensibilidade, quase machista, embora haja algumas personagens femininas bem marcantes e encantadoras – principalmente a personagem de Zoey Deutch (“Tinha Que Ser Ele?”). A alegria contagia pela liberdade que os jovens finalmente encontram, depois de superar tudo o que lhes é proibido durante o colegial. E uma vez que o público consiga embarcar nessa atmosfera, “Jovens, Loucos e Mais Rebeldes” (título brasileiro tosco e nada a ver) pode ser uma experiência muito divertida.
Introdução à Música do Sangue é filme autoral brasileiro que merece mais público
“Introdução à Música do Sangue” é um exemplo de filme autoral brasileiro que, apesar de sua sensibilidade e beleza, provavelmente alcançará um número reduzido de espectadores. No foco da narrativa, um casal de idosos vive no interior de Minas Gerais ainda sem energia elétrica, uma existência muito simples e pobre, bem discrepante em relação às possibilidades tecnológicas que se estabeleceram ao longo do século 20 e deslancharam no 21. Ney Latorraca e Bete Mendes, dois intérpretes brilhantes, compõem os personagens do casal de idosos. Ela, à espera ansiosa da chegada da luz elétrica, para poder costurar numa máquina que lhe poupe o esforço físico do pedalar mecânico. Já ele, rejeita a chegada da energia elétrica, não quer mudar seu mundo, nem ter de pagar uma conta mensal de algo que ele julga desnecessário. Por outro lado, há o despertar da sexualidade de menina (Greta Antoine) agregada à vida do casal, quando por lá aparece um jovem peão (Armando Babaioff), que vai acabar produzindo conflitos naquela vida pacata e parada no tempo. Angústias vêm à tona, a repressão, o desejo, o descontrole se inserem na trama, instalando o drama e a tragédia onde nada parecia estar acontecendo. O que estava por vir, aflora subitamente. O que estava represado, emerge. O que estava contido, transborda. O filme parte do argumento inacabado do escritor Lúcio Cardoso, com direção e roteiro do veterano Luiz Carlos Lacerda (“For All”, “Leila Diniz”) e uma magnífica fotografia de Alisson Prodlik. “Introdução à Música do Sangue” é todo filmado com a luz natural do dia e dos lampiões e velas acesos, à noite, o que contribui para criar uma ambiência poética para o mundo rural primitivo que retrata. A direção de arte de Oswaldo Lioi, na zona rural de Cataguazes, onde ocorreram as filmagens, insere o espectador naquele ambiente. A música de David Tygel é bonita e envolvente. E ainda se destaca a belíssima melodia de Tom Jobim, “Derradeira Primavera”, em tratamento instrumental. Será uma pena se esse trabalho artístico de qualidade passar despercebido, enquanto tantas mediocridades comerciais alcançam cifras expressivas de público.
Ótimo vilão impede Homem-Aranha de virar comédia adolescente
O novo filme do Homem-Aranha é o segundo recomeço do herói em 15 anos, e o primeiro em parceria com o Marvel Studios, o que, se rompe a conexão com os títulos anteriores do herói, acaba exigindo do espectador um conhecimento de todos os outros lançamentos do estúdio. Afinal, os filmes da Marvel estão 100% conectados. No caso de “Homem-Aranha: De Volta ao Lar”, a principal conexão é com “Capitão América: Guerra Civil” (2016), que trouxe a primeira aparição do personagem dentro desse universo, e isso já interliga a produção com a trama dos Vingadores. Entretanto, ao contrário do que o marketing sugere, as aparições de Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) são apenas pontuais, e o Homem-Aranha lida com situações mais corriqueiras do seu bairro, como ladrões e coisas do tipo. Isto porque, além do pretexto de estabelecer o protagonista num universo em que outros super-heróis existem, o novo reboot tem uma segunda e maior motivação: aproximar mais o herói das histórias de Stan Lee e Steve Ditko, ou seja, representá-lo como um adolescente desajeitado e com pouca popularidade na escola, destacando mais sua turma de colegial. Ironicamente, para cumprir esse objetivo simples, o roteiro opta por complicar, realizando uma simbiose entre o Peter Parker que todos conhecem e a versão Ultimate do personagem, com a inclusão de um melhor amigo, Ned Leeds (Jacob Batalon), que na verdade é um gordinho trazido da versão do universo alternativo criada pelo roteirista Brian Michael Bendis – o personagem original se chama Ganke Lee, que não é nada parecido com o jornalista adulto Ned Leeds das histórias de Stan Lee. O problema é que ele, assim como tantos outros elementos do filme, foram incluídos na trama para fazer o público rir. Fala-se numa suposta influência de John Hughes, mas mesmo a referência explícita de “Curtindo a Vida Adoidado” (1986) não é exatamente eficiente. O humor forçado, aliás, é uma constante em grande parte dos filmes da Marvel, mas se torna ainda mais evidente no primeiro Homem-Aranha do estúdio, escrito por especialistas em comédia (Jonathan Goldstein e John Francis Daley), como as péssimas “Quero Matar Meu Chefe 2” (2014) e “Férias Frustradas” (2015). Para efeito de comparação, “Mulher-Maravilha”, de Patty Jenkins, fez o público rir sem se esforçar tanto, com muito mais naturalidade. São dois estúdios diferentes e rivais, mas como a distância entre os dois lançamentos foi muito próxima, as diferenças se acentuam. Aliás, as cenas de ação, de pouco impacto, são outro problema que chama atenção. O que, então, funciona em “De Volta ao Lar”? Tom Holland convence como o adolescente que ganhou super-poderes e mal se contém de empolgação. Mas é Michael Keaton quem arrasa no papel do Abutre – uma escalação perfeita, logo após o ator, que já foi Batman, ter interpretado um super-herói alado, “Birdman”, no premiado filme de Alejandro González Iñárritu. Seu personagem está presente nas duas cenas que realmente funcionam no filme: a visita à casa de Liz (Laura Harrier), o interesse amoroso de Peter, e a cena no carro, em conversa com Peter. Ambas trazem elementos de suspense que até então o filme não havia explorado. Na filmografia do diretor Jon Watts, há pelo menos dois filmes dos gêneros suspense e terror, “Clow” (2014) e “A Viatura” (2015), e é bem provável que isso seja o seu forte. Também é possível considerar um acerto a escalação de Marisa Tomei como a Tia May. É inusitado ver uma mulher tão jovem e bonita fazendo o papel de uma personagem representada nos quadrinhos tradicionalmente como uma senhora idosa. Mas a May de Marisa Tomei faz um bom contraponto ao mulherengo Tony Stark, como sugere uma piada/elogio logo no início do filme. Já o que mais destoa é a opção curiosa de incluir uma cota racial na produção e mudar a caracterização de praticamente todos os colegas de escola de Peter Parker. A ideia de inserir o herói num ambiente colegial não é, de maneira alguma, um equívoco. Vendo os créditos finais, com imagens de desenhos parecidos com os de uma criança e ao som de “Blitzkrieg Bop”, dos Ramones, percebe-se o potencial. Mas juntar esse conceito original de Stan Lee com a alta tecnologia do traje criado para o personagem por Tony Stark, num retcon radical, faz com que Peter Parker pareça às vezes um Homem de Ferro adolescente e atrapalhado. Apesar do entusiasmo palpável que provocou entre os blogueiros de quadrinhos, o resultado é menos empolgante que a impressão dominante na mídia. Ponto central da questão: a luta com o Abutre demora tempo demais para acontecer. E ela é o batismo de fogo do herói. Há outros vilões conhecidos dos fãs dos quadrinhos, mas suas aparições são muito discretas e, no máximo, funcionam como um aperitivo para um segundo filme. Ao final, “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” oferece uma longa introdução para o próximo filme, pois não chega a mostrar o Aranha estabelecido como super-herói ou nas situações mais conhecidas dos leitores – não há o ambiente do Clarim Diário. Com isso, fica a obrigação de caprichar mais na sequência. Senão, os pedidos de “volta, Sam Raimi!”, por enquanto tímidos, podem ganhar volume.
Poesia sem Fim evoca juventude de Alejandro Jodorowsky com beleza surreal
Escolher a poesia como ofício e condição de vida é um ato de coragem. Também de destemor, de enfrentamento do sistema, talvez revelando um irreal excesso de confiança. Coisa para se fazer aos 20 anos de idade, enquanto se pode arriscar mais, quem sabe, tudo. Alejandro Jodorowsky, poeta, escritor, ator e cineasta chileno, nascido em 1929, fez um filme irreverente, transgressor e inventivo sobre essa escolha de vida. Segunda parte de uma reflexão autobiográfica, após abordar sua infância em “A Dança da Realidade” (2013), “Poesia sem Fim” dispensa de forma quase absoluta o realismo. Com uma câmera ágil, irriquieta, constrói um universo plástico belíssimo, que respira liberdade, sensualidade, autenticidade. E vai desenrolando sua narrativa de forma fantástica, metafórica, realizando um cinema que é pura magia, como sempre foram os filmes do diretor dos clássicos psicodélicos “El Topo” (1970) e “A Montanha Sagrada” (1973). Sedutor para quem se entrega, se deixa levar. Mais do que os fatos que, de alguma forma, também estão lá, o que vale são as sensações, os sentimentos, a libertação. O encontro com o que se é e se deseja criar, produzir, realizar, como sentido de vida. Quem vê o mundo por uma forma poética, artística, acaba percebendo que precisará contestar muito, transgredir sempre, para chegar a se encontrar e dar sua contribuição à sociedade com aquilo que lhe é natural e precioso. Alejandro Jodorowsky nos conta isso no filme, inovando bastante, quebrando convenções, provocando e nos trazendo muita beleza. Ou seja, sua forma é o seu conteúdo, é a sua história e a sua luta. Trabalho de um homem de 87 anos que se mostra fiel a seus ideais de juventude, desenvolvidos ao longo de toda sua vida. O relacionamento pai e filho, que remonta aos anos 1940 e 1950 no relato de “Poesia Sem Fim”, é vivido por dois filhos do diretor, Adan e Brontis Jodorowsky. E o próprio Alejandro participa numa ponta. Uma família que enfrenta os conflitos pelo caminho da arte e embarca ao lado de um elenco todo dedicado à experimentação poética e visual do cineasta. Um filme como “Poesia sem Fim” não busca mercado, não aspira ao sucesso, quer se expressar, se comunicar, sem amarras. O jeito é buscar apoio financeiro, não nas instituições e mecanismos de financiamento, mas nas pessoas que possam se envolver no projeto. Foi o que fez Alejandro Jodorowsky. Com uma trajetória de filmes cults, que gerou muitos aficcionados, ele se valeu de 1 milhão de seguidores nas redes sociais para angariar contribuições individuais e, por meio de financiamento coletivo, viabilizar este novo trabalho.
Perdidos em Paris se inspira no pastelão para divertir com poesia e inocência
Típica comédia pastelão francesa, “Perdidos em Paris” mostra a predileção dos diretores Dominique Abel e Fiona Gordon (ambos de “Rumba”) pelo cinema mudo de Charles Chaplin, o que, claro, oferece bastante comicidade visual a um roteiro que, inicialmente, soa bobinho, mas mostra potencial para surpreender o público. Um dos trunfos da trama é o divertido elenco, encabeçado pela dupla de diretores ao lado da maravilhosa Emmanuelle Riva, estrela de clássicos do cinema como “Hiroshima Mon Amour” (1959), de Alain Resnais, e “Amor” (2012), de Michael Haneke, aqui em uma de suas últimas aparições na tela (ela faleceu em janeiro de 2017 aos 89 anos, e ainda há um filme seu, “La Sainte Famille”, de Marion Sarraut, para estrear). Na trama, Fiona é uma bibliotecária que trabalha em uma pequena cidade canadense. Ela recebe uma carta de sua tia Martha (Emmanuelle Riva), que se mudou muitos anos atrás para Paris e agora, bastante idosa, pede ajuda da sobrinha, pois médicos do departamento de saúde parisiense querem coloca-la em um asilo. Fiona então parte para Paris, falando pouco francês e se envolvendo em diversas confusões. Numa delas, conhece o mendigo Dom (Dominique Abel) e juntos saem a procurar por Martha, que está vagando pelas ruas de Paris fugindo dos médicos. “Perdidos em Paris” soa excessivamente teatral em alguns momentos, mas pode fazer sorrir quem estiver procurando uma comédia leve e descompromissada, que não promove gargalhadas nem promete o filme do ano, mas diverte com poesia, dança e inocência.
O Círculo é tão constrangedor que deveria virar meme
Lançado em 2013, o romance ficcional “O Círculo”, de Dave Eggers, fez fama criticando e, em alguns momentos, demonizando com veemência os grandes conglomerados da web (Apple e Google em primeiro plano, mas sobra farpas para o Facebook também no livro) numa trama simplista que utilizava a narrativa com o intuito de alertar o público sobre algumas questões realmente importantes do mundo moderno, como superexposição nas redes sociais e controle midiático através de dados liberados sem cerimônia por internautas como você e eu. Trazido para o cinema com direção de James Ponsoldt (“O Maravilhoso Agora”) e um elenco de respeito (a nova querida de Hollywood, Emma Watson, o duas vezes vencedor do Oscar Tom Hanks e Bill Paxton, em seu último filme – até o cantor Beck faz uma ponta), “O Círculo”, porém, tropeça na incompetência de um roteiro que não tem foco certo e recheia a trama de obviedades absolutamente dispensáveis, de uma direção de atores vergonhosamente ineficaz (Emma Watson já provou ser uma ótima atriz, mas não consegue dar brilho a um personagem que teria tudo para ser interessante, mas foi desenhado de forma tão confusa que nem mesmo a atriz parece entendê-lo) e de uma mensagem tão banal que chega a constranger o público. James Ponsoldt, que divide o roteiro junto com o autor Dave Eggers, tinha temas importantes em mãos, e conseguiu fazer deles péssimo entretenimento, péssimo cinema e péssima crítica social. Sério concorrente ao Framboesa de Ouro 2017, “O Círculo” é tão constrangedor que os executivos da Apple, Google e Facebook devem estar gargalhando de Hollywood.
Z – A Cidade Perdida é jornada exasperante de um Indiana Jones real
Para um filme de James Gray, “Z – A Cidade Perdida” é um pouco desapontador. Apesar de embutir um tema comum a outros títulos do diretor, a questão da fuga (ou tentativa de fuga) da família por parte do protagonista, visto de forma mais forte anteriormente em “Amantes” (2008), o longa avança na trilha da grandiloquência épica que “Era uma Vez em Nova York” (2013) já sinalizava, numa narrativa exasperante que visa engrandecer sua tragédia. “Z” gira em torno de um personagem real, Percy Fawcett (Charlie Hunnam, de “Rei Arthur: A Lenda da Espada”), um coronel do exército britânico que desapareceu na selva amazônica nos anos 1920 à procura de uma cidade perdida, cuja descoberta renderia para ele e para o Império Britânico um feito glorioso. Anos antes, numa primeira expedição, ele quase morrera sob o ataque de uma tribo de índios canibais, mas conseguiu voltar para casa com seu fiel escudeiro Henry Costin (vivido por um irreconhecível Robert Pattinson). O retorno é curto e serve para incluir a presença de Sienna Miller como a esposa de Fawcett. Casada com um sujeito que vive perigosamente, enquanto ela cuida da casa e dos filhos, Sienna basicamente repete seu papel em “Sniper Americano” (2014), de Clint Eastwood, reforçando que costuma ser tão bela quanto esquecível. Por outro lado, o jovem Tom Holland (“Homem-Aranha: De Volta para o Lar”) está muito bem no papel do filho que tem ao mesmo tempo raiva do pai (por sua ausência) e grande admiração, inspirando-se a seguir seus passos como explorador. Sua passagem pelo filme é igualmente breve, mas muito mais marcante. Ainda mais porque ele entra em um momento em que a narrativa ameaça ficar enfadonha e sua chegada serve para dar um fôlego extra à reta final de um longa de 140 minutos de duração. Vale dizer que é melhor ver “Z” sem saber nada sobre a vida de Fawcett, até para aproveitar os momentos de surpresa, tensão e aventura que o filme proporciona. Mas a história desse Indiana Jones real surge na tela mais enfadonha do que poderia ser, o que faz com que “Z – A Cidade Perdida” seja o primeiro sinal de declínio na excelência mantida desde a primeira obra de Gray, “Fuga de Odessa”, no já distante ano de 1994.
Meu Malvado Favorito 3 prova que a franquia esgotou a criatividade
“Meu Malvado Favorito 3” chega para provar que a franquia esgotou seu estoque de criatividade. Embora estivesse longe da perfeição, a primeira animação foi uma agradável surpresa, principalmente para a garotada. Era uma aventura redondinha e deu visibilidade ao então novato estúdio Illumination, rendendo uma continuação que até manifestava esforço de tentar levar a trama adiante. Se o primeiro contou a história de redenção do vilão Gru (voz de Steve Carell no original e Leandro Hassum na versão brasileira), que deixava as maldades para trás com a intenção de se dedicar à vida de pai, o segundo, pelo menos, o colocou do outro lado, como um agente contratado para acabar com os planos de um novo vilão, afinal ele sabe como os caras pensam. Já o terceiro… bom, volta para trás, com direito a um clichê de folhetim antigo: o irmão gêmeo que surge do nada. O gêmeo Dru ainda é malvado, mas inepto, e tenta convencer Gru a retomar a vida de crimes. Nada indica sinais maiores da falta de rumo que o arco de um personagem andar em círculos. Ao menos, em cada filme, Gru enfrenta um vilão diferente e o bandidão da vez, que não superou os anos 1980, é um barato. Na verdade, é a grande atração de “Meu Malvado Favorito 3”. Mas ele aparece pouco, porque os roteiristas precisam justificar a presença dos insuportáveis Minions, que em seguida ganharão seu segundo spin-off. As criaturinhas amarelas não têm muito o que fazer nesse terceiro episódio, além de atrapalhar a narrativa, desviando a atenção do público para uma trama paralela do tipo “enquanto isso, o que os Minions estão fazendo?” E para quem duvida que a franquia possa piorar depois dessa estreia, isso lembra que vem aí “Minions 2”.
Okja disfarça de fábula infantil uma aventura com tema adulto e atual
Somente um diretor fora do esquema de Hollywood, e com liberdade total para contar sua história como bem entender, seria capaz de fazer um filme como “Okja”. É o caso de Bong Joon-ho, um dos cineastas mais criativos, brilhantes e corajosos do século. Quando você pensa que o filme caminha por um gênero ou uma fórmula, ele distorce expectativas e entrega inúmeras reviravoltas de emoções distintas. Ainda bem. “Okja” seria uma fábula infantil? Bom, começa com a extraordinária Tilda Swinton (que trabalhou com o diretor em seu filme anterior, “Expresso do Amanhã”) pronunciando um palavrão. “Okja” até pode e deve ser visto por crianças sob a supervisão dos responsáveis, mas é um filme para todos e, principalmente, para o nosso tempo, em que um dos assuntos mais discutidos gira em torno da qualidade da carne oferecida ao consumo. Também aborda os maus tratos aos animais e a inexplicável loucura humana que distingue entre os bichos criados como pets e os que nascem para virar alimento, racionalização que, geralmente, é aceita sem debates. Para contar a saga de Okja – uma “superporca” cuidada por uma menina nas belíssimas montanhas sul-coreanas, que vira alvo de uma grande corporação perversa, como a JBS, mas comandada por Tilda Swinton –, o diretor Bong Joon-ho mistura com equilíbrio perfeito o cinema infantil e um tom de sátira, passando por cenas de ação, suspense, crítica social e o mais puro horror em sequências pesadas (como devem ser) em um matadouro. Ou seja, provavelmente estúdio algum em Hollywood deixaria Bong fazer o filme desse jeito – que você nunca viu antes e não tem a mínima ideia de onde vai chegar. O próprio diretor admitiu em entrevistas que sabichões de grandes estúdios queriam mudanças no roteiro para amenizar a aventura e deixá-la com uma pegada mais Disney. Com a Netflix, no entanto, ele pôde fazer o filme como quis. É curioso tocar no nome de Disney, porque o cineasta sul-coreano se aproxima mais de outro mestre do cinema animado, o japonês Hayao Miyazaki, na forma como combina fábula e realismo. Mas suas influências incluem até “Babe: O Porquinho Atrapalhado” (1995), ainda que “Okja” passe longe da inocência do clássico australiano Não só para todas as idades, para para todo o mundo, o cinema de Bong Joon-ho usa referências internacionais e busca numa audiência global, possibilitada pelo lançamento na Netflix. Para isso, combina atores de Hollywood – incluindo um exagerado Jake Gyllenhaal (“Vida”) – e de seu pais, com respeito a suas origens e seus devidos idiomas, sem perder sua identidade própria. Os filmes de Bong Joon-ho costumam apresentar uma consciência social e ambiental, como “O Hospedeiro”, que tinha um monstro gerado pela poluição de um rio urbano, e “Expresso do Amanhã”, passado após uma catástrofe climática. A isto se soma a luta pelos direitos dos animais em “Okja”. O tema se reflete em ações de militantes da causa, mas é simbolizado principalmente pelo afeto entre o bicho do título e a menininha vivida pela excepcional Ahn Seo-Hyun (“A Criada”), de apenas 13 anos de idade. Depois de trabalhar no filme, o próprio diretor ficou dois meses sem comer carne. Talvez ninguém se torne vegano apenas por ver “Okja”, mas poderá vibrar, rir, chorar e até pensar.
Colossal transforma monstro gigante em metáfora do feminismo
Como um filme com uma premissa tão boba pode render discussões relevantes e profundas? À primeira vista, “Colossal” é sobre uma mulher com uma estranha ligação com um monstro gigantesco que ataca Seul (!) Numa análise superficial, temos mais um filme estranho no mercado, aparentemente sem pé nem cabeça, que vai desagradar muita gente acostumada com o cinema comercial de Hollywood e ganhar status de cult graças aos poucos e bons admiradores sedentos por algo diferente numa indústria que não dá muito espaço para projetos criativos. O diretor espanhol Nacho Vigalondo, por sinal, parece só fazer filmes cults. Ele é especialista em sci-fis malucas como “Crimes Temporais” (2007) e “Extraterrestre” (2011). Desta vez, inclusive, optou por escalar um ator fantasiado para atacar a capital da Coreia do Sul, em vez de efeitos visuais de última geração. Não é apenas nisso que o filme se difere dos blockbusters de monstros gigantes tradicionais. Para começar, seu ritmo é lento. Talvez Nacho Vigalondo se preocupe demais em se distanciar do tom ágil da maioria das produções atuais. Mas isso também combina com o momento da protagonista, que está se recuperando de um baque e ninguém supera problemas de uma hora para outra. David Lynch disse certa vez que filmes devem ser sentidos e não entendidos. Enfim, temos mais um caso aqui que comprova a teoria. “Colossal” estabelece suas próprias regras para quem se dispõe a embarcar nessa viagem e, simpatizando com Gloria – e não é difícil se pegar encantado pela personagem de Anne Hathaway (“Interestelar”) –, a tarefa de acreditar nas loucuras vistas na tela torna-se facilmente aceitável, resultando em um filme estranhamente divertido. Por vezes, duro. Até porque nunca será confortável ver homens desrespeitando e batendo em mulheres. Ao mesmo tempo, após reviravoltas muito bem construídas, a catarse gerada pela volta por cima de Gloria recompensa qualquer espectador que tenha o mínimo de juízo. “Colossal” é uma história quase que inteiramente narrada sob o ponto de vista da protagonista. O que também influencia na forma como Jason Sudeikis (“Família do Bagulho”), principal parceiro de Anne Hathaway em cena, é retratado. Ele fala demais, a ponto de alguns de seus diálogos parecerem monólogos, de tão cansativos. Mas é assim que Gloria o vê, num olhar propositalmente patético em relação aos homens dessa história. O filme oferece a oportunidade, a quem enxerga além das entrelinhas, de notar que toda a esquisitice narrativa, incluindo a criatura, é uma metáfora “colossal” da tentativa de Gloria superar seus problemas, originados não pela bebida, como o início sugere, mas sim por relacionamentos com homens frouxos e descontrolados. O “monstro” liberado pela moça pode ser uma consequência da submissão e anos de maus tratos dos machistas, que simplesmente não conseguem compreender ou controlar o bicho. Não é melhor aceitar que essa é a proposta de “Colossal”? Ora, qual seria o sentido da trama se a levássemos ao pé da letra? Uma mulher levanta seu braço esquerdo numa cidadezinha do interior dos EUA e o monstro em Seul repete seu movimento? Fazendo sentido ou não, o importante é “Colossal” ser mais um exemplar da tendência (necessária) de empoderamento feminino na indústria cinematográfica. Graças a sua esquisitice, “Colossal” não agradará a todo mundo, mesmo com uma atuação inspirada de Anne Hathaway, que também assina como produtora executiva. Mas quem se arriscar a enfrentar seu monstro, pode descobrir que criaturas gigantes também refletem a luta do feminismo na sociedade contemporânea atual.
Ao Cair da Noite transforma terror apocalíptico em filme de arte
Filmes sobre o fim do mundo, devastado por uma doença contagiosa e mortal, não são novidade, mas é novo o modo como a história de “Ao Cair da Noite” é contada. Na trama, só o que conhecemos é uma pequena família. Depois, um outro personagem adentra a casa e uma nova família é apresentada. No fundo, o diretor Trey Edward Shults trata, como em seu filme anterior “Krisha” (2015), de estruturas familiares. “Ao Cair da Noite” se distancia do que normalmente se vê de mais vulgar no gênero. Há muito pouco gore e os sustos são bem discretos. Na verdade, o filme não se apoia em sustos, mas na atmosfera, no medo do desconhecido, no que está escondido na floresta, no que está invisível aos nossos olhos, mas visível para os personagens. O filme apresenta algo que só o personagem Travis (Kelvin Harrison Jr., de “O Nascimento de uma Nação) vê e a câmera nos nega a visão. Os pesadelos de Travis, sua natureza, são baseados naquilo que lhe impressiona: os medos, os desejos, os traumas. Uma das primeiras cenas é extremamente cruel. O avô moribundo, pai de Sarah (Carmen Ejogo, de “Animais Fantásticos e Onde Habitam”), é levado em um carro de mão para ser abatido e enterrado longe, na floresta. Seu neto, Travis, está junto com o pai, Paul (Joel Edgerton, de “Aliança do Crime”), o chefe da família que toma medidas extremas para manter a si e aos seus vivos diante de um cenário apocalíptico. Esse tom mórbido e desolador contrasta com a beleza das imagens (seja dos exteriores, seja de interiores), tão bem enquadradas pela câmera de Shults. Mesmo quando não há nada no fundo, apenas a escuridão, como na cena do primeiro jantar sem a presença do avô, até a escuridão funciona como um trabalho de direção de arte admirável. Mais adiante, de dia, teremos vislumbres da casa, que possui uma intrigante porta vermelha, que se destaca do restante da mobília. Há uma cena exterior digna de nota: Paul leva Will (Christopher Abott, da série “Girls”) à bordo da caminhonete para buscar a mulher e o filho pequeno para morarem juntos com sua família. Mas o clima de tensão faz com que Paul fique constantemente olhando para Will no retrovisor da caminhonete. O que se segue é quase esperado, mas serve para mostrar um pouco daquele mundo desalmado, em que água e alimentos são preciosos. Quase um “The Walking Dead” sem zumbis. Cada cena de “Ao Cair da Noite” tem a sua importância, em um filme em que pouca coisa de fato acontece: não há monstros ou algo do tipo. Mas é justamente por isso que o segundo filme de Shults é cheio de tanta classe, já que tem um pé no arthouse, embora bem distante do drama tenso de “Krisha”. É cinema de gente grande, desses que restabelece a fé na renovação do gênero horror. Preste atenção nas últimas cenas, que assumem imagens vistas nos pesadelos de Travis. O que pode significar que aquilo tudo, aquela série de cenas mais movimentadas, é um pesadelo do rapaz que tomou conta da realidade (uma ideia interessante). Porém, há algo que desmonta ou perturba essa teoria, e que também coloca “Ao Cair da Noite” entre os melhores filmes de terror do ano.
Um Instante de Amor destaca grande interpretação de Marion Cotillard
Distúrbios mentais podem trazer comportamentos extremados, contrastantes e mesmo opostos na mesma pessoa, como, de um lado, a exacerbação do desejo, de outro, o isolamento, a depressão, ou o binômio agressividade e apatia. E, ainda, serem recheados de sentimentos persecutórios e a presença de delírios ou alucinações. Personagens assim costumam ser muito explorados pelos roteiros cinematográficos em filmes de mistério, suspense, fantasia ou terror, mas é menos frequente encontrá-los nas histórias de amor. A personagem Gabrielle, magnificamente interpretada por Marion Cotillard (“Aliados”) em “Um Instante de Amor”, de Nicole Garcia (“Place Vendôme”), é uma figura assim, cheia de contrastes e incongruências, com reações que escapam ao seu próprio controle e surpreendem os que com ela convivem. Os pais dela buscam acalmar seu furor por meio de um casamento arranjado, que vai complicar as coisas, envolvendo um contrato, digamos, alternativo, que colocará em jogo a vida sexual, a questão da gravidez e até mesmo a do aborto. O marido, o pedreiro José, em muito bom desempenho de Alex Brendemühl (“O Médico Alemão”), entra no jogo, mas mesmo assim sofre consequências inesperadas e doloridas para sua vida. O destino de Gabrielle acaba sendo um sanatório, que se baseava na cura ou no alívio proporcionado por águas termais. A razão desse rumo seriam dores renais, um mal de pedras do título original do romance de Milena Agus, “Mal de Pierres”, que inspirou “Um Instante de Amor”. Algo como o deslocamento do problema mental para um elemento físico do corpo, este mais possível de admissão e tratamento do que a “loucura”. Mas lá Gabrielle conhece um militar, o tenente André, papel de Louis Garrel (“Saint Laurent”), doente em estado terminal. E dessa relação algo importante surgirá. O que é objetivo ou subjetivo nessa história acabará sendo a grande questão do filme, uma vez que esses limites estão borrados pelas características da personagem de Gabrielle e de suas circunstâncias. Uma história de amor inusitada resulta dessa trama e acaba por surpreender o espectador, oferecendo à grande atriz Marion Cotillard uma oportunidade para explorar uma personagem complexa e intrigante. De Louis Garrel, ao contrário, se exige o minimalismo interpretativo de alguém que já perdeu suas forças, e de Alex Brendemühl, ambiguidade e contenção. Esse trio de protagonistas é um dos pontos altos do filme. A personagem Gabrielle e a atriz que lhe dá vida são a razão de ser e o sustentáculo de “Um Instante de Amor”.
Frantz prova que, com um grande diretor, até remakes podem surpreender
A impressão de que um remake pode não trazer surpresas é desafiada por “Frantz”, do prolífico François Ozon, que refaz o clássico “Não Matarás” (1932), de Ernst Lubitsch. Na nova versão, filmada em preto e branco como o original, as surpresas não param de saltar em inúmeros plot twists, ora feitos para nossa diversão, ora feito para machucar ainda mais os personagens e também a nós, espectadores. No filme de Lubitsch e na peça que o inspira, de Maurice Rostand, sabemos desde o início quem é o francês que está naquela cidadezinha alemã enlutada após o fim da 1ª Guerra Mundial. Sabemos que ele está ali para conhecer e pedir perdão à família de Frantz, o rapaz que ele matou no front, durante a guerra. No drama de Ozon, porém, as motivações do jovem francês se constituem um mistério durante boa parte da narrativa. Ozon, muito habilmente, manipula as expectativas do espectador, ao mesmo tempo que também brinca com subtextos homoeróticos, levando a crer que Adrien (Pierre Niney, de “Yves Saint Laurent”) tinha algo mais do que uma amizade com Frantz. Isto é subentendido a partir de imagens em cores, embaladas como possíveis flashbacks, que mostram bons momentos vividos pelos supostos amigos de países inimigos. O jogo de cores, aliás, é muito bonito, e geralmente elas surgem quando há algum momento de paz na trama. E se não temos um patriarca tão amoroso quanto Lionel Barrymore em “Não Matarás”, é porque o cineasta francês opta por enfatizar ainda mais a relação dos jovens: o atormentado Adrien e a moça que casaria com Frantz, Anna (a alemã Paula Beer, de “O Vale Sombrio”). Há uma cena que traz uma carga gay que torna mais complexa a relação entre Adrien e Anna. Ele tem a ideia de tirar a roupa para nadar em um lago ali perto, durante uma caminhada com a jovem. Sendo Ozon um cineasta que costuma integrar elementos queer em seus filmes com certa frequência, não seria difícil imaginar Adrien como um rapaz apaixonado não por Anna, mas pelo falecido Frantz. Acostumado a transitar por diversos gêneros e lidar com sentimentos e personagens mais profundos em longas como “O Amor em 5 Tempos” (2004), “O Tempo que Resta” (2005) e “O Refúgio” (2009), mais uma vez Ozon coloca o espectador no lugar de uma personagem atraente. Mas este não é Adrien e sim Anna. Afinal, é pelos olhos dela, principalmente, que vemos o filme. E é pelos olhos dela apenas que o ato final se transforma num dos mais brilhantes e mais tocantes da carreira do cineasta francês. O caminho que a heroína percorre na meia hora final diferencia o trabalho de Ozon completamente do filme de Lubitsch, que até se torna muito mais alegre e simples em comparação. No mais, vale deixar registrado: ouvir “A Marselhesa” cantada por franceses com sangue nos olhos é de arrepiar. Assim como o destino final dos atormentados personagens. Grande filme.












