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    Não Devore Meu Coração lida com amor e ódio de forma irregular

    1 de dezembro de 2017 /

    O novo filme de Felipe Bragança parece ser cheio de boas intenções. A narrativa se divide em capítulos, com letras grandes e de destaque e títulos chamativos. A trilha sonora meio anos 1980, com uso de sintetizadores, também contribui para algo elegante e retrô (está na moda, não é?). Mas “Não Devore Meu Coração” é uma obra irregular, que se apoia no talento de Cauã Raymond (“Alemão”), muito bem nas cenas com a família, o que só aumenta o contraste com o trabalho menos naturalista de interpretação dos atores jovens e pouco experientes do elenco. O resultado é uma obra torta, tanto do ponto de vista da atuação quanto em sua condução narrativa, que não consegue transmitir o sentimento que parece querer passar, seja o amor imenso do pequeno Joca (Eduardo Macedo) pela indiazinha paraguaia da fronteira (Adeli Gonzales), seja a relação de Fernando, o personagem de Cauã, com o ambiente hostil que o cerca. Este ambiente hostil, que evoca séculos de desavenças, desde a Guerra do Paraguai, traz como cenário principal uma guerra local entre gangues de motoqueiros: de um lado, um grupo de brasileiros do Mato Grosso do Sul com pinta de fascistas; do outro, um grupo de paraguaios-guaranis, que têm visto todos os dias corpos desovados no rio Apa, o rio que separa o Brasil do Paraguai. Bragança parece querer dar à trama um ar de fábula, a exemplo do que havia feito com “A Alegria” (2010), ainda mais estranho e menos palatável. Essa história de amor e ódio tem os seus momentos. Há algo de “Acossado” (1960) no momento em que o garotinho, inebriado pelo amor que sente pela jovem índia, conta algo sobre o irmão. Essa é uma das melhores cenas do filme. Mas é uma pena que ela pareça deslocada em uma obra que parece optar pelo distanciamento das emoções. Apesar de “Não Devore Meu Coração” ter sido exibido em festivais internacionais, a carreira de Bragança como cineasta até agora não emplacou, pelo menos não dentro de um circuito mais amplo. Mas ele busca um tom diferente, e isso não deixa de ser uma qualidade.

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