A Noite do Jogo marca o resgate das comédias americanas engraçadas
Já reparou que Hollywood não faz mais tantas comédias como há alguns anos atrás? Entre umas e outras baladas cinematográficas, sempre tinha aquele descanso merecido para rir com Katie Hudson, Anne Hathaway e Matthew McConaughey, além de Sandra Bullock, Hugh Grant e Julia Roberts antes deles. Talvez esses filmes tenham abusado demais da fórmula, deixando o público cansado. Hollywood é assim. Mesmo quando acham algo original como “Se Beber, Não Case!” e “Missão Madrinha de Casamento”, a mina de ouro é explorada excessivamente em continuações ou imitações desnecessárias até não sobrar mais nada. É por isso que as comédias de grandes estúdios protagonizadas por atores famosos se tornaram cada vez mais raras. Mas Hollywood também tenta se reciclar de tempos em tempos e um filme como “A Noite do Jogo”, mesmo com seus prós e contras, precisa ser notado simplesmente porque, às vezes, é bom rir à toa. E “A Noite do Jogo” ainda oferecer algo a mais, o que é louvável e a faz terminar com um saldo positivo. Vamos começar pela maior força do filme: o casal principal interpretado por Rachel McAdams e Jason Bateman, que são eufóricos e carismáticos na medida certa; daqueles que adoramos ver na tela e nos identificamos rapidamente. Bateman e McAdams podem tentar qualquer gênero, porque são bons atores, mas não há como fugir do fato de que são exímios comediantes. Bateman se projetou a partir da série “Arrested Development”, com seu jeito ponderado, porém exalando ironias e um olhar que dispensa palavras para se comunicar com o público. Ele nasceu pra isso. Da mesma forma que Rachel McAdams, que se destacou como a melhor arma de “Meninas Malvadas” (depois do roteiro de Tina Fey). Juntos, eles são perfeitos em “A Noite do Jogo”, lembrando os bons tempos das comédias com Goldie Hawn, Steve Martin ou Chevy Chase. Mas talvez tenha sido “Uma Noite de Aventuras”, dirigido por Chris Columbus e estrelado por Elisabeth Shue em 1987, a maior influência da jornada noite adentro do casal e seus amigos – um elenco maravilhoso, com destaque para o mulherengo e cérebro de azeitona vivido por Billy Magnussem e, principalmente, o policial solitário do fantástico Jesse Plemons, que rouba todas as cenas em que aparece. “A Noite do Jogo” é mais ou menos assim: Rachel McAdams e Jason Bateman vivem um casal viciado em jogos. A maior diversão é reunir amigos e brincar de mímicas, adivinhações e outras atividades ramificadas dessas ideias. Tanto que uma delas leva a uma aventura que mistura realidade e ficção, como uma versão cômica daquele filme pouco visto de David Fincher com Michael Douglas, “Vidas em Jogo”. Tudo bem que os mistérios não se seguram por muito tempo, mas o filme caminha imprevisível mais pelas reações dos atores que o roteiro em si. E isso já está de bom tamanho, porque algumas cenas arrancam risadas magníficas, como a que Rachel tenta tirar uma bala do braço de Jason Bateman (o efeito sonoro emitido pelo brinquedinho enquanto ela faz o corte me fez chorar de rir). E, cara, tem uma piada com Denzel Washington que é impagável. Espere pra ver. Melhor ainda: é um filme que não precisa se apoiar em piadas apelativas e bater em minorias. Sim, “A Noite do Jogo” é um saudável besteirol à moda antiga, devidamente atualizado para o público carente de risadas. E se dá ao luxo de contar com uma ótima direção – coisa rara nesse tipo de filme –, com direito até mesmo a um plano sequência muito bem orquestrado quando os personagens tentam capturar um “ovo”. John Francis Daley e Jonathan Goldstein fizeram antes disso aquele reboot frustrante de “Férias Frustradas”, mas mostram que são capazes de muito mais, com um humor herdado de tanto assistir o “Férias Frustradas” original e outros filmes da época. Não por acaso, a trilha sonora faz bom uso de sintetizadores, meio oitentista, em referência à era dos arcades, a era de John Carpenter. Os diretores também demonstram talento para criar concepções cenográficas originais, ao entregar cenas visualmente incríveis, que muitas vezes emulam jogos, como a perspectiva em terceira pessoa ao posicionar as câmeras atrás de alguns personagens, e a transformação de uma vizinhança inteira numa espécie de plataforma de game. Há um corte logo no começo que é brilhante, acompanhando a queda do casal ao chão que se torna um tabuleiro num passe de mágica da edição. É verdade que o ato final exagera na dose, com a barreira entre o que é realidade e o que é ficção extrapolando os limites do bom senso, conforme o roteiro de Mark Perez tenta ligar os pontos. Mas tudo bem, porque a esta altura a trama e seus heróis já conquistaram com seu bom humor. Além disso, a moral da história é ótima, ao ensinar que só envelhecemos quando queremos; conceito que se mistura com a escolha ousada nos dias de hoje de um elenco adulto, não adolescente, para um filme baseado em brincadeiras de criança. Enfim, “A Noite do Jogo” pode ser indício de uma volta das grandes comédias. E pelo resultado do público a este filme nos Estados Unidos a tendência é que Hollywood se estimule a lançar outras ainda melhores.
Rampage traz Dwayne Johnson fazendo o mesmo de sempre, ainda mais descartável
Dwayne Johnson é uma simpatia, um cara divertido que merece um high five, um abraço e aquela selfie para bombar no Instagram. Mas notaram como ele adora uma selva, muita destruição em CGI, exibir os músculos (e se gabar disso) quase sempre fazendo o mesmo personagem em filmes parecidos? “Rampage: Destruição Total” é mais um capítulo em sua trajetória que inclui vários filmes por ano (“Jumanji” chegou aos cinemas cerca de três meses atrás). Era para ser a adaptação para o cinema de um game antigo e sem história, em que se joga com um gorilão detonando prédios. Mas como a adaptação de “Goosebumps” se “adaptou” a Jack Black, “Rampage” se ajusta a The Rock. O ator até conta com a ajuda do “parça” Brad Peyton, o diretor de “Terremoto: A Falha de San Andreas”, que substitui abalos sísmicos por monstros gigantes, com os mesmos resultados. Ou seja, com concreto, metal, aço, poeira e fogo indo pelos ares. No filme, o gorila geneticamente alterado por humanos malvados – que, até por isso, atuam como se fossem doidos varridos e os verdadeiros monstros do filme – transforma Chicago numa arena para brigar com um lobo voador e um crocodilo. Gigantes, é claro. Ah, sim, The Rock está no meio da confusão porque é amigo de George, o gorila, e por isso tenta acalmar o bicho transformado pelos vilões, mas também apoiar a porrada contra os outros dois monstros quando não tem mais jeito. O filme ainda consegue contar com a ótima Naomi Harris, indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “Moonlight” (2016), fazendo absolutamente nada, e Jeffrey Dean Morgan, o Negan de “The Walking Dead”, se divertindo mais que a plateia. “Rampage” é passatempo para uma garotada pouco exigente e muito mais preocupada com pipoca e refrigerante que o que acontece na tela de cinema. Para não dizer que é um completo passa-perda-de-tempo sem nada a destacar, a produção faz um trabalho competente de CGI aliado ao desempenho de captura da performance do ator Jason Liles para dar vida a George, com bons efeitos visuais na criação do gorila. Só que quando você lembra que o remake, reboot, whatever de “Jumanji” estreou somente três meses antes e foi inesperadamente muito mais divertido, a comparação torna inevitável reparar o quanto “Rampage” é descartável e imbecil.
Com Amor, Simon é uma simpática Sessão da Tarde para mentes esclarecidas
Se o saudoso John Hughes estivesse vivo nesses dias de hoje, ele certamente faria um filme semelhante a “Com Amor, Simon”. Ou, no mínimo, o aprovaria com louvor. Com filmes como “Clube dos Cinco” (1985) e “Curtindo a Vida Adoidado” (1986), Hughes criou um gênero involuntário no início dos anos 1980. Pela primeira vez, Hollywood olhava com leveza, e também sinceridade, para adolescentes e seus problemas, desejos, amores e diversões dentro e fora da escola. Ele convidou espectadores de todas as idades para a brincadeira na mesma proporção em que pedia para adultos entenderem seus filhos e como qualidades e defeitos passam de geração para geração. Mas como toda fórmula, Hollywood desgastou os ensinamentos do bom e velho Hughes, e os filmes sobre e com adolescentes ficaram cada vez mais vazios, idiotas e entregues a soluções apelativas, tanto para fazer rir quanto gerar lágrimas. Ainda assim, volta e meia alguém aparece para resgatar a essência do “gênero”. O diretor Greg Berlanti, que tem no currículo boas séries adolescentes, como “Dawson’s Creek” e a atual “Riverdale”, recupera-se de sua última incursão cinematográfica (a bomba “Juntos Pelo Acaso”) ao conceber “Com Amor, Simon” no espírito de “Gatinhas e Gatões” (1984) e “A Garota de Rosa Shocking” (1986), além de longas daquela época influenciados pelo sucesso do lendário diretor-roteirista-produtor, como “Digam o que Quiserem” (1989) e, principalmente, “Admiradora Secreta” (1985), que tem muito de “Com Amor, Simon” (substituindo as velhas cartas pela comunicação via e-mail). Mas são apenas inspirações, porque “Com Amor, Simon” tem identidade própria e não copia estruturas de roteiros de filmes que já vimos tantas vezes. Baseado no livro “Simon vs A Agenda Homo Sapiens”, de Becky Albertalli, o filme acompanha o adolescente Simon Spier (Nick Robinson, de “Jurassic World”) tentando decidir se assume ou não sua homossexualidade. Tudo, entretanto, começa muito mal, com uma cena inicial que contradiz o discurso do protagonista sobre ser igual a qualquer um de nós. Embora ele esteja falando de outra coisa, Berlanti ilustra esse pensamento enquanto mostra o garoto ganhando um carrão do pai no jardim de uma casa gigantesca. Ok, John Hughes também retratava jovens de classe média alta – e “Curtindo a Vida Adoidado” jogou o carrão do pai literalmente no jardim de uma casa gigantesca – , mas “Com Amor, Simon” é um filme de uma época diferente e este não foi o melhor jeito de abrir um bom filme. Felizmente, Berlanti dá sequência à história com cenas do dia a dia de fácil identificação para todas as classes sociais. E isso ajuda “Com Amor, Simon” a lidar com todos os cacoetes desse estilo de filme, incluindo a trilha pop que gruda como chiclete. Apesar disso, há quem reclame que o longa deveria ser mais subversivo e menos politicamente correto. Mas quem determinou a regra de que filmes sobre “saída do armário” precisam chocar? O importante é que exista uma variedade de histórias, como “O Segredo de Brokeback Mountain” (2005), “Moonlight” (2016), “Me Chame Pelo Seu Nome” (2017) e “Com Amor, Simon”, porque qualquer roteiro e gênero de filme podem trabalhar a representatividade. Às vezes, teremos grandes filmes, outras vezes filmes ruins, mas também aqueles que se contentam em ser uma simpática e deliciosa “Sessão da Tarde” para mentes mais esclarecidas. “Com Amor, Simon” cumpre muito bem este papel.
Um Lugar Silencioso é uma aula de cinema brilhante e assustadora
Quem diria que John Krasinski, um ator mais conhecido por seu papel numa série de comédia (“The Office”), seria capaz de entregar um filme tão espetacular como diretor? “Um Lugar Silencioso” passa longe de ser comédia. É um filme de terror – e bastante assustador como raramente conseguem fazer atualmente –, realizado com amor e respeito não somente pelo gênero, mas principalmente pelas regras básicas da origem da sétima arte erguida através da harmonia entre imagem, som e trilha. Remete aos filmes mudos de mais de 100 anos atrás, mas executa essa inspiração em um equilíbrio perfeito com o que entendemos ser o cinema dos dias de hoje, mais comercial e direcionado a um público essencialmente jovem, que se distrai fácil e está atrás de um consumo rápido e prazeroso ao mesmo tempo. “Um Lugar Silencioso” surpreende por ser uma aula de cinema de quem jamais suspeitaríamos. Basicamente, basta você saber que o filme acompanha uma família tentando sobreviver num futuro em que a humanidade foi dizimada por criaturas que não sabemos de onde vieram e o que realmente são. Sabe-se apenas que elas são cegas e, por isso, guiadas pelo som. De forma brilhante, o filme começa sem explicar nada verbalmente. É tudo muito visual, desde à introdução, que registra o próprio John Krasinski ao lado de Emily Blunt (sua esposa na vida real, em seu primeiro trabalho juntos) e os filhos do casal buscando (em silêncio) suprimentos antes de voltar para casa. Conduzido por Krasinski, o excelente trabalho da diretora de fotografia Charlotte Bruus Christensen (“A Garota no Trem”) capta primeiro os cenários, depois vultos nas sombras, revelados posteriormente pela luz como membros da família citada. E, só nos minutos seguintes, descobrimos de maneira terrivelmente impactante o que assusta aquela gente e motiva o silêncio geral. É quando surge o título do filme na tela, assim como a certeza de que ninguém ali está seguro. E já nessa introdução se dá uma aula de roteiro e direção, tanto pela evolução da narrativa quanto na apresentação de personagens e o desenvolvimento crescente do suspense. É cinema à moda antiga, clássico, porque confia na inteligência da plateia, no silêncio, nas imagens, nas linguagens de sinais expressadas pelos atores e no terror de que o som pode surgir aqui e ali a qualquer momento. Ora num volume baixíssimo, dando a incômoda impressão de que na verdade não ouvimos nada e foi coisa da nossa imaginação, ora num repentino estouro em volume máximo para impactar e provar o quanto o som é importante num filme, embora Krasinski queira mostrar também o mesmo peso em relação à ausência de palavras e efeitos sonoros. E é na linha tênue que separa o silêncio e o som que reside a beleza e o horror de “Um Lugar Silencioso” como espetáculo. Sem falas, Krasinski consegue quebrar um vício atual que emburrece o cinema, ao contar sua história sem diálogos expositivos, voltando a atenção do espectador para as imagens que falam por si. Em poucos segundos, o filme explica o que precisamos saber sobre os monstros usando apenas recortes de jornais, além de fotos, anotações e impressões presas na parede. Krasinski também é objetivo e sutil ao revelar que a personagem de Emily Blunt está grávida. E econômico, sem precisar se repetir para dar o recado, sendo que um belo exemplo está na cena final. E os olhares dos atores de um elenco incrível dizem muito mais que quaisquer palavras. Também é um filme moderno, entretenimento veloz e furioso, que nem por isso menospreza seu público. Vai direto ao ponto, com uma duração de 1h30, e não dá a mínima chance do espectador mais apressado ou com déficit de atenção reclamar. Mesmo com a escassez de diálogos, a tensão é construída de forma crescente, ininterrupta e insuportável. Ou seja, são poucos os momentos em que podemos respirar entre as várias cenas nervosas. Algumas sequências alcançam o medonho, como o momento em que Emily Blunt (em uma de suas melhores atuações) tira seu bebê do “berço” e seu movimento é acompanhado pela criatura emergindo lentamente da água. Krasinski disse que “Tubarão”, de Steven Spielberg, foi uma de suas inspirações para fazer este filme. E ele acerta ao deixar claro que inspirar não é copiar, porque não lembramos do clássico de 1975 em momento algum enquanto assistimos a “Um Lugar Silencioso”, mas o clima e o tom, desde a sensação de medo e a utilização de som e música para orquestrar suas intenções, são realmente bastante similares. Mais que o terror, “Um Lugar Silencioso” se conecta com o público por ser um filme sobre família e mostrar os sacrifícios que somos capazes de fazer por quem amamos de verdade, além de servir de metáfora para um mundo aterrorizante e real, no qual a repressão tenta manter a todos em silêncio. Assim como Jordan Peele, com “Corra!”, o melhor filme de terror de 2017, Krasinski demonstra que não se pode subestimar comediantes que resolvem assustar o público, dando razão a quem tem medo de palhaços. Dificilmente “Um Lugar Silencioso” será superado por outro exemplar do gênero em 2018.
Falta Guillermo Del Toro na continuação genérica de Círculo de Fogo
Alguns filmes não nasceram para gerar franquia. Guillermo del Toro destilou todo seu amor por monstros japoneses (os kaijus) e caprichou mais que deveria no divertidíssimo “Círculo de Fogo”, de 2013, que passa longe de ser apenas um festival de lutas épicas entre criatura colossais e robôs gigantescos. Mas a brincadeira deveria ter parado quando as luzes do cinema acenderam, afinal o diretor não deixou um final aberto e se preocupou em concluir sua história. Embora sempre tenha dito que gostaria de ver mais filmes sobre sua criação, del Toro preferiu fazer “A Forma da Água”, que não rendeu quatro Oscars à toa, incluindo os de Melhor Filme e Direção, a se repetir numa continuação. Pois não deu outra: “Círculo de Fogo: A Revolta” é uma bomba de proporções monstruosas. Os roteiristas Emily Carmichael, Kira Snyder, T.S. Nowlin e o próprio diretor Steven S. DeKnight não sabem o que fazer com a história e demoram mais de uma hora para arrumar uma desculpa tão esfarrapada quanto insólita (no pior sentido da palavra) para trazer os kaijus de volta. E quando eles aparecem, o filme já está acabando e com a plateia morrendo de tédio. Quem paga para ver um “Círculo de Fogo” não espera ver um filme dominada por diálogos clichês, disputas de egos inflados e personagens desinteressantes. Mas é o que a continuação entrega. Ao longo da projeção não há a menor evolução no arco do novo protagonista da franquia, Jake (John Boyega), que não é qualquer personagem, mas o filho – que ninguém sabia que existia – de um dos heróis do original, Stacker Pentecost (o cancelador de apocalipses Idris Elba). Boyega tem carisma e é conhecido do grande público como o Finn de “Star Wars”, mas aqui fica deslocado pelo esforço de demonstrar marra, especialmente quando fica nítido que a personagem mais bacana, e que merecia um tratamento mais caprichado do roteiro, é a menina Amara Namani (a cantora Cailee Spaeny), que rouba todas as cenas e é a melhor coisa do filme. “Círculo de Fogo: A Revolta” também sofre cada vez que Scott Eastwood, o filho do mito, entra em cena com toda sua canastrice. Pior que ele é o modo como Steven S. DeKnight e os outros roteiristas tratam os personagens do filme anterior. Charlie Hunnam, que foi somente o cara principal de “Círculo de Fogo”, não é sequer mencionado; Rinko Kikuchi tem participação especial (de ruim) e sai de repente de cena da forma mais burra (helicóptero deve pousar no meio de uma briga entre dois jaegers?); e Charlie Day deixa de ser um cientista excêntrico para assumir um novo papel, que fica no meio do caminho entre o engraçadinho e o grotesco, algo digno de “Power Rangers”. Até os efeitos especiais de “Círculo de Fogo” não impressionam mais. E têm o agravante de serem apresentados à luz do dia, que tornam perceptíveis qualquer borrão ou falha, quando Guillermo del Toro, de forma mais inteligente, criou um espetáculo visual ao explorar o contraste do excesso de cores com a escuridão da noite. “Círculo de Fogo: A Revolta” é um caso exemplar de como o diretor faz toda a diferença no resultado final de uma obra. Guillermo del Toro deixara claro seus sentimentos pelo material ao transformar um filme de monstros e robôs gigantes em algo que entendemos como cinema de verdade. Já a sequência foi feita no piloto automático. Ao retirar o coração que animava os robôs gigantes, o filme se torna sem emoção, genérico e pequeno como uma produção de streaming para se ver no celular.
Dificilmente haverá sci-fi melhor que Aniquilação em 2018
Nada como um segundo filme para comprovar se um diretor, que acertou de primeira, é mesmo um gênio, ou apenas mais um entre os meros humanos com sorte de principiante. Alex Garland, roteirista que também virou diretor com o ótimo “Ex Machina”, brilhou em sua estreia atrás das câmeras com uma ficção científica cerebral, dramática, existencial, filosófica e feminista. E com a cerebral, dramática, existencial, filosófica e feminista “Aniquilação”, comprova que “Ex Machina” não foi uma jogada de sorte. De fato, seu novo trabalho mostra que a ficção científica moderna precisa de suas ideias e histórias para se renovar como um gênero relevante e inspirador para os fãs e o próprio cinema. Os melhores exemplares do gênero não são as viagens alucinantes da imaginação humana através do tempo e o espaço sem o mínimo compromisso com a realidade. São aqueles que colocam os dois pés no chão, sem que isso esteja evidente e debaixo dos narizes dos espectadores. São filmes que se agarram aos momentos mais discutidos e importantes de suas épocas ou costumes, dores, incertezas e preconceitos que a sociedade e, principalmente, as minorias enfrentam. São aqueles em que vemos nas telas as representações físicas de questões que se passam dentro de nós mesmos. Então é melhor você se desapegar do materialismo e da inquietante busca por respostas, porque “Aniquilação” é, sobretudo, sobre as falhas que tornam as pessoas humanas. Na verdade, sobre nossa capacidade, mesmo que inconsciente, porém inerente, de fazer merda. A autodestruição. E é só quando a alcançamos que resolvemos partir rumo à criação – um ciclo doentio, mas que justifica a existência. Baseado no primeiro livro de uma trilogia de Jeff VanderMeer, “Aniquilação” traz Natalie Portman como Lena, bióloga e veterana do exército que ainda sofre com a provável morte do marido, o militar Kane (Oscar Isaac), desaparecido há um ano após embarcar numa missão secreta. Mas o filme começa mesmo quando ele misteriosamente retorna do nada e entra em coma. Lena descobre que Kane foi o único de diversas expedições a conseguir sair vivo de uma área conhecida como “The Shimmer”, uma muralha ou uma bolha cuja estrutura visual lembra uma mistura entre a aurora boreal e a gosma de “Os Caça-Fantasmas 2”. Mas o que seria aquilo? A origem é extraterrestre? Seria um recado de Deus? Ou a resposta estaria ligada à ciência? Ou ao resultado da ação do Homem contra a natureza? Eis a questão. O importante neste momento é estudar o fenômeno e tentar impedir seu crescimento, afinal pode engolir o mundo todo em pouco tempo. Se isso é bom ou ruim, Lena entrará lá para descobrir ao lado de mais quatro mulheres, entre cientistas, geólogas e militares (Jennifer Jason Leigh, Tessa Thompson, Gina Rodriguez e Tuva Novotny). Você não precisa saber mais nada, se não quiser correr o risco de estragar a experiência de assistir a um filme que vai virar sua cabeça do avesso e te deixar pensando por um bom tempo no que acabou de ver. Ainda aqui? Ok. Daqui pra frente, encare “Aniquilação” como uma espécie de pesadelo em forma de ficção científica. Não tem sustos, mas sobra medo. À primeira vista, a razão passa longe das tentativas de compreender a trama e as sensações provocadas pelo filme começam a se tornar mais importantes que qualquer coisa que você vê na tela. Vale muito mais saber que Lena parte numa jornada rumo a uma nova vida após os erros que cometeu no passado. Não é o que está dentro do Shimmer que importa, mas o que se passa no interior de cada personagem e os segredos que elas mantêm umas das outras – características que geralmente acontecem em épicos, onde o que acontece na mente dos personagens tem uma escala maior que a imensidão de imagens que vemos na tela. “Aniquilação” não é um épico clássico como “Ben-Hur” ou “O Senhor dos Anéis”, mas são épicas as suas motivações e ambições, ao mesmo tempo intelectuais e viscerais. Por outro lado, algumas sequências são momentos de puro horror, que poucos filmes de terror conseguiram atingir. Alex Garland provoca da primeira à última cena e isso representa o talento de um diretor/roteirista com total respeito pela inteligência de seu espectador. Tanto nas discussões em torno da interpretação da história quanto nas referências que deixa durante o filme, nunca de maneira gratuita e óbvia, o cineasta traz à tona influências de “Alien: O Oitavo Passageiro”, de Ridley Scott, “Sob a Pele”, de Jonathan Glazer, “A Árvore da Vida”, de Terrence Malick, “A Fonte da Vida” e “mãe!”, ambos de Darren Aronofsky, “O Predador”, de John McTiernan, “2001: Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick, “O Enigma de Outro Mundo”, de John Carpenter, “A Chegada”, de Denis Villeneuve, e “A.I.: Inteligência Artificial”, de Steven Spielberg. E seu ato final rende o clímax mais esquisito do ano. É verdade que os efeitos visuais nessa parte do filme poderiam ser melhores ou apresentar um acabamento mais refinado, mas Alex Garland quer mostrar coisas estranhas e inéditas aos nossos olhos. Na verdade, ao final, ninguém vai questionar se o final tem bons efeitos ou não, ou se foi lento até ali ou não, porque a imersão é tão profunda que aceitamos como real qualquer projeção imaginada pelo cineasta – resultado que não seria possível sem a presença impactante de Natalie Portman, que é uma força da natureza, a fotografia alucinógena de Rob Hardy, e a trilha horripilante de Geoff Barrow e Ben Salisbury. O tempo dirá se “Aniquilação” é melhor que aparenta e merece figurar entre os grandes filmes do século. Ou se será engolido e considerado subproduto das referências de todos os exemplares citados neste texto. Mas é difícil ignorar que o cinema precisa de mais diretores corajosos como Alex Garland, que não deixam o estúdio mexer em seus filmes e propõem desafios às plateias acostumadas a blockbusters geralmente vazios. Ele pagou seu preço, que foi o presidente do estúdio vender a obra para a Netflix, com um lançamento em streaming no Brasil, em vez da merecida tela grande em que atordoaria ainda mais. Isto não muda um fato inescapável: dificilmente haverá sci-fi melhor em 2018.
Alicia Vikander é boa demais para o reboot de Tomb Raider
Ninguém conseguiu fazer boas adaptações de games para o cinema até hoje. Existem filmes legais sobre o tema, como o “Tron” original, “O Último Guerreiro das Estrelas”, “Os Heróis Não Têm Idade” e “Detona Ralph”. Mas, novamente, ninguém conseguiu fazer boas adaptações de games existentes para o cinema até hoje. O reboot de “Tomb Raider” tenta, mas é apenas OK. Ele tenta preencher a tela com mais que uma coletânea de referências e fan service para quem jogou as aventuras de Lara Croft ao longo dos anos. Mas não consegue superar os abismos exagerados dos clichês cinematográficos. Após os fracassos de “Lara Croft: Tomb Raider” e “Lara Croft: Tomb Raider – A Origem da Vida”, a personagem interpretada anteriormente por Angelina Jolie, que sempre fazia a heroína segura, infalível, rica, nada humilde e cheia de si, ganhou uma versão mais realista. Não o filme, claro. Mas sua protagonista. Era de se esperar que Hollywood fosse resgatar a personagem nessa época em que os estúdios descobriram que mulheres podem protagonizar qualquer roteiro. Além disso, a Lara Croft dos games atuais já é resultado de um reboot em busca de maior realismo. Na pele de Alicia Vikander, mais uma vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante (ela ganhou por “A Garota Dinamarquesa”, enquanto Angelina levou por “Garota, Interrompida”), Lara Croft retorna mais frágil, vulnerável, mas não menos forte, enquanto aos poucos descobre sua verdadeira vocação para a aventura. É uma caracterização compreensível, pois temos uma trama que conta sua origem. E Alicia Vikander entrega o que a personagem necessita. Digamos que ela leva o papel mais a sério que precisava. O longa pode ser bobo, mas a atriz não. Sua disposição faz com todos ganhem: Lara Croft, o filme, os fãs e a franquia (se tiver mais episódios). Assim, embora você saiba tudo que vai acontecer do começo ao fim, “Tomb Raider”, que ganhou o subtítulo “A Origem”, não faz a a franquia passar vergonha como naquelas duas porcarias com a Angelina Jolie. As sequências de ação são boas, Alicia é incrível, você vai rever o filme na “Sessão da Tarde” (do qual ele é a cara), mas algo incomoda: o roteiro é fraquíssimo, feito no piloto automático, reciclando diversas aventuras já feitas por Hollywood. Mesmo se o modelo fosse “Os Caçadores da Arca Perdida”, os clichês e fórmulas para lá de desgastadas lembram mais “Tudo Por Uma Esmeralda”, com Michael Douglas e Kathleen Turner, e “A Múmia”, o primeiro com Brendan Fraser e Rachel Weisz. O que garante que o filme seja igual há vários feitos antes. Nem o primeiro nível de um game seria tão previsível. Os engôdos de “Tomb Raider: A Origem” vão desde o blá blá blá meloso de papai pra cá e filhinha pra lá aos minutinhos finais descarados para deixar claro que os produtores planejaram uma continuação – além de uma Kristin Scott Thomas mal aproveitada e agindo como teaser para uma participação maior na sequência. E se o roteiro é frouxo, não dá para colocar toda a culpa no diretor norueguês Roar Uthaug, que tem sua primeira grande oportunidade em Hollywood e, provavelmente, com a obrigação de seguir muitas regras em um projeto desse tamanho. Mas a verdade é que Lara Croft e Alicia Vikander mereciam um filme melhor e mais empolgante.
Me Chame pelo seu Nome é um romance tão arrebatador que até seu sofrimento é bonito
Inspirado no livro homônimo de André Aciman, “Me Chame Pelo Seu Nome” descreve o primeiro amor de Elio (a revelação Timothée Chalamet), um menino de 17 anos aproveitando a juventude na casa dos pais em algum lugar do norte da Itália no ano de 1983. Elio tem uma namoradinha, mas rapidamente se encanta pelo estudante mais velho, Oliver (Armie Hammer), que ficará hospedado em sua casa durante seis semanas, a convite de seu pai. Os dois rapidamente travam uma amizade, que evolui para uma paixão. Afinal, não se vai para uma Itália tão ensolarada somente para devorar livros e estudar. É como se o diretor italiano Luca Guadagnino (“Um Sonho de Amor”) utilizasse a arte que pulsa ao redor, assim como as belezas naturais do cenário, como convites para um romance inevitável. É possível sentir o calor da região, o cheiro das plantas, o gosto da comida e os drinks. Os grandes diretores conseguem transmitir isso à plateia. Por exemplo, David Lean colocou o espectador na temperatura infernal do deserto em “Lawrence da Arábia” (1962) e Steven Spielberg fez a sala de cinema se transformar num campo de batalha com cheiro de fogo e morte em “O Resgate do Soldado Ryan” (1998). Luca Guadagnino fisga os sentidos ao aproveitar o ambiente para que os jovens não tenham escapatória e se entreguem um ao outro da mesma forma que o cinéfilo ao filme. Se o sentimento existe, por que alguém decidiria ignorá-lo? Inicialmente, Elio se faz essa pergunta. Não sabe se diz a Oliver o que realmente sente ou se esconde a verdade para evitar um sofrimento desnecessário. É claro que o ato de reprimir sentimentos ou impulsos gera sofrimento, embora as pessoas não estejam habituadas a aceitar isso quando estão na linha tênue entre se jogar ou não numa relação amorosa. O roteiro de James Ivory (cineasta veterano, responsável por “Retorno a Howards End” e “Vestígios do Dia”) provoca perguntas que todo mundo se fez ou fará algum dia: Se Elio jamais tivesse contado a verdade a Oliver, isso o pouparia de futuras dores ou mágoas? Seria o amor uma maldição? Teria sido melhor apenas manter a amizade? Ou será que ninguém precisa temer um momento especial mesmo sabendo que existe começo e fim para tudo? Mas Elio escolhe arriscar – senão, não teríamos filme. E ao fazer isso, leva o espectador a lembrar do primeiro beijo, do primeiro amor, daquele relacionamento mal-resolvido, mas também daquela pessoa a quem nunca scontou o que realmente sentia por ela. Esse é o poder do filme de Luca Guadagnino, que gruda na retina e não sai mais, com sua beleza e ternura, principalmente após a fala nos minutos finais do personagem de Michael Stuhlbarg, que interpreta o pai de Elio. Um monólogo que jamais será esquecido ao fazer a cabeça girar em torno de memórias, amores jamais superados, responsabilidade afetiva e desejos não concretizados. Porém, a maior qualidade de “Me Chame Pelo Seu Nome” é materializar algo simples e bastante corajoso: uma história de amor entre dois homens sem que, acredite, existe uma cena ou qualquer diálogo que sugira manifestações de preconceito. Mesmo assim, é um romance que só poderia ser contado nos dias de hoje, uma proposta que nunca teria uma visibilidade tão grande no mercado cinematográfico antes dos sucessos de obras como “Brokeback Mountain” e “Moonlight”, que fizeram todos os públicos pensarem. Filmes que ajudaram todos a olhar em volta, entender como é o mundo de verdade e as pessoas que nele vivem com suas próprias escolhas no caminho para a felicidade. “Me Chame Pelo Seu Nome” vem na sequência de algumas histórias que já foram contadas, mas é a virada de página. Não importa se Elio e Oliver são dois homens ou duas mulheres. Importa que eles sejam felizes enquanto o filme dura na tela. É o recado otimista de Luca Guadagnino, que carrega nas cores fortes para imaginar um mundo melhor e sem medo de amar. Uma experiência arrebatadora, de sensibilidade rara, que torna bonito até o sofrimento.
Mãe! é a obra mais original, ousada e demente da carreira de Darren Aronofsky
David Lynch já disse que filmes não devem ser explicados, mas sentidos. Poucas vezes neste século isto foi tão pertinente em relação a um filme bancado por um grande estúdio. “Mãe!” é capaz de abalar plateias acostumadas a respostas fáceis, roteiros redondos e diversão com começo, meio e fim previsíveis em 90% dos casos. Com a assinatura de um dos diretores mais elogiados da atualidade, Darren Aronofsky (“Cisne Negro”) em um de seus trabalhos mais pessoais, a estrela do momento Jennifer Lawrence (“Passageiros”) como protagonista e o selo de um dos maiores estúdios de cinema de todos os tempos, Paramount, distribuindo o filme não somente em circuitos alternativos, mas tomando de assalto o conforto dos multiplexes. Esqueça os trailers e o receio de ver um novo “O Bebê de Rosemary” (1968), embora a influência do clássico de Roman Polanksi esteja ali de alguma forma. Você pode amar ou odiar, mas tenha certeza de uma coisa: “Mãe!” vai incomodar. No meio de tantos blockbusters, Aronofsky surge com um conto original que se passa 100% dentro de uma casa isolada no meio de um campo verde e florido, onde vive um casal sem nome, interpretados por Jennifer Lawrence e Javier Bardem (“007 – Operação Skyfall”). Ele é um escritor tentando criar seu novo poema, enquanto ela é uma… dona de casa, que faz todo o resto. De uma hora para outra, a rotina vira do avesso com a chegada de dois estranhos interpretados por Ed Harris (série “Westworld”) e Michelle Pfeiffer (“A Família”). Pronto. A fagulha está acesa e dá início a desentendimentos e novas ideias que podem mudar o casamento dos anfitriões para sempre. Apesar do cenário teatral, não espere tampouco um “Quem tem Medo de Virginia Woolf?” (1966) nem uma DR de duas horas. E não há como explicar o que acontece além disso sem entregar spoilers. Bom, isso é apenas a superfície do filme, porque as intenções de Aronofsky são mais profundas do que deveriam. Podemos enxergar “Mãe!” como uma grande metáfora. Primeiramente, em relação ao papel da mulher, sua situação em um mundo dominado por homens, o machismo imposto a elas, uma realidade em que tudo que o personagem de Javier Bardem faz é mais importante que as conquistas e atitudes da moça interpretada por Jennifer Lawrence – e como a soma de tudo isso destrói seu casamento aos poucos. Mas o “filme metáfora” segue em frente. A crise conjugal é apenas um pretexto para Aronofsky orquestrar um caos cada vez mais crescente e insuportavelmente tenso até a meia hora final mais louca que você verá este ano em um filme. E durante essa viagem, jorram referências ao Gênesis e o Apocalipse, Caim e Abel, Adão e Eva, Deus e o Diabo, a Mãe Natureza (como a mulher, ela é maltratada pelo Homem), as grandes guerras que destruíram e recriaram o mundo, o caos no princípio de tudo com personagens sem nome por não serem batizados. Enfim, digamos que casamento é algo muito complicado. Mas Aronofsky quer abraçar tudo e nada ao mesmo tempo. Tem o objetivo máximo de agarrar o espectador pela jugular e explodir sua cabeça numa sucessão de eventos insanos, como em um pesadelo que faz você acordar gritando e não permite tempo suficiente para reflexões. Apesar dos temas, o diretor é ateu e, talvez, use “Mãe!” como uma espécie de terapia para entender um mundo do qual ele não faz parte. E, da mesma forma que Aronofsky, a personagem de Jennifer Lawrence observa e interage com esse ambiente como se estivesse em um filme de terror, deslocada, assustada, tentando assimilar tanta informação enquanto a vida acelera diante de seus olhos. Com a câmera ora na altura do ombro, ora agindo como sua própria visão, afinal quase tudo que vemos em “Mãe!” é o ponto de vista da protagonista, o diretor espreme a mente, a alma e o corpo de Jennifer Lawrence (e da plateia que se revira na cadeira) até ela explodir de tensão no clímax, assim como faz com a bailarina de Natalie Portman, em “Cisne Negro” (2010), e Mickey Rourke, em “O Lutador” (2008). Desta vez, pelo menos, digamos que podemos vislumbrar uma espécie de redenção brilhando escondida no meio da escuridão. Mas nem mesmo os trabalhos anteriores de Darren Aronofsky prepararam você para essa descida ao inferno. Não há necessariamente um final surpresa estilo M. Night Shyamalan, tampouco lampejos de Stanley Kubrick ou David Lynch, o que atesta a originalidade de Aronofsky. Goste-se ou não, “Mãe!” é uma aposta ousada, especialmente por se tratar de um filme de grande estúdio. Se fosse da Netflix, seria mais um exemplo para lamentar que o cinema não assume riscos como as produções do serviço de streaming. Mas não é. É, mais que qualquer coisa, uma obra para cutucar e extremamente relevante para a nossa época. Pode-se até criticar as escolhas de Aronofsky, seu festival de alegorias (que compõe uma experiência sensorial) e o mix entre estéticas caprichadas e desleixadas em seu filme mais demente, mas não se pode dizer que o cineasta não tem coragem. Se “Mãe!” é um filme genial ou uma completa bobagem, só a revisão temporal dirá. O importante agora é reconhecer o esforço do cineasta em testar seu público com um filme perturbador que justifica a exclamação no título. Se todos os diretores consagrados se dedicassem a oferecer algo digno de seus talentos, fora do comum, teríamos mais esperança em relação ao futuro do cinema. E, por que não, também quanto ao futuro da humanidade.
O Mínimo para Viver é um dos piores filmes bem-intencionados já feitos
Drama de doença, “O Mínimo para Viver” (To The Bone) é o primeiro longa-metragem dirigido por Marti Noxon, criadora das séries “UnReal” e “Girlfriends’ Guide to Divorce”. E é um prato cheio para quem quiser ilustrar uma aula sobre como não se deve fazer cinema. De forma apropriada, a produção evita as salas e chega direto em streaming pela Netflix. Por mais que seja motivada por boas intenções, ao tocar um assunto delicado e pouco explorado em filmes, a diretora novata passa a sensação de ter medo de enfrentar o problema da anorexia de frente e prefere, em vez disso, olhar com simpatia sua protagonista. Obviamente, quer abrir os olhos de todos, inclusive busca diálogo aberto com quem sofre ou sofreu com a doença. Mas é o filme mais feliz e censura livre que você verá na vida sobre o tema. Este problema se manifesta porque “O Mínimo para Viver” não parece saber qual caminho quer percorrer e o desequilíbrio entre cada mudança na história é grave. Tem hora que a trama quer ser dura, mas não demais. Depois, descamba para um estilo mais John Green, o autor de “A Culpa É das Estrelas”. Em outro momento, sem intenção, lembra “A Viagem”. A novela, não o filme, refletindo problemas na comunicação entre pacientes e o médico interpretado por Keanu Reeves (“John Wick”), coadjuvante de luxo, mas o pior doutor dos filmes recentes, que trata a protagonista sorrindo e pregando que a vida é bela. Anorexia é uma doença que pode levar à morte e pede uma abordagem e situações mais contundentes. Para piorar, a diretora parece não saber onde posicionar a câmera para convencer o público de que Lily Collins (“Os Instrumentos Mortais – A Cidade dos Ossos”) realmente ficou magra como o roteiro pede, pois os planos poucas vezes flagram a magreza da atriz, preferindo esconder seu corpo. E quando vemos Lily por inteiro, talvez seja tarde demais para crer. Fica parecendo que toda a revelação é um truque visual. É claro que o trabalho de atuação não se limita somente ao aspecto físico, mas, caramba, como fazer um filme sobre anorexia sem que isso seja importante?
Transformers – O Último Cavaleiro é barulho e poluição visual sem sentido algum
É impossível lembrar ou explicar o que acontece do início ao fim em “Transformers: O Último Cavaleiro”, espécie de lobotomia disfarçada de cinema. Não que a culpa seja somente da ação exagerada, que faz com que os olhos se percam e não consigam focar coisa alguma, com tanta poluição visual na tela (sem falar no barulho ensurdecedor e ininterrupto que maltrata os ouvidos). É tudo desconexo em nível básico de desenvolvimento de um roteiro e até na função do diretor como um contador de histórias, conduzindo a trama de um ponto ao outro. Estes pontos são inexistentes no quinto “Transformers”. Não é falha ou buraco. Eles simplesmente não existem e a sensação é que o filme se resume a explosões e efeitos visuais justificados por qualquer absurdo. Bom, você pode dizer: “Ah, mas isso é um filme do Michael Bay!” Verdade. E parece um greatest hits dos outros “Transformers”, com o diferencial de contar com um plot envolvendo o Rei Arthur (!), Merlin (!!) e os cavaleiros da távola redonda (!!!), além de ter Anthony Hopkins pagando mico (!!!!). Claro, Bay já fez isso antes com gente boa como John Malkovich e Stanley Tucci. Mas não é questão de o roteiro ser ruim ou a ação ser mais importante que tudo. As soluções que desenvolvem a narrativa, muitas vezes, fazem menos sentido que roteiro de filme de Renato Aragão (pós-Trapalhões!). Imagine um menino de seis anos brincando e misturando personagens em sua inocente imaginação, criando situações e histórias diferentes, tudo ao mesmo tempo agora e uma pessoa (mais velha) observando aquilo sem entender o que está acontecendo e para onde a cabeça da criança está indo. Pois “Transformers: O Último Cavaleiro” é exatamente assim: uma cena não tem nada a ver com a outra, e quem quiser encontrar sentido nisso vai se sentir frustrado. Por sinal, tem tanta gente nesse filme que provavelmente o público não seja capaz de guardar os nomes de seus personagens. Além de incluir novidades no elenco, como Laura Haddock (a nova Megan Fox) e Isabela Moner, o longa ainda resgata atores dos primeiros filmes, como Josh Duhamel e o pobre John Turturro, em participação especial tão desnecessária que não tem a menor importância na trama. Michael Bay é reconhecido por criar espetáculos em larga escala com câmeras que usam a tecnologia mais avançada existente. E seu novo filme abusa disso. Ao contrário de Christopher Nolan, por exemplo, que também usou câmeras de IMAX em “Dunkirk”, Bay aponta as câmeras megaultrahipermodernas para fogo e fumaça, sem compromisso algum com a linguagem cinematográfica. Ao menos, ele é consistente. Nunca decepciona em relação ao que se espera dele. Impressionante mesmo é lembrar como o primeiro “Transformers”, há dez anos, até tinha algum nexo e levava em consideração a inteligência do público apesar dos pesares. De lá para cá, cada filme ficou pior que o outro, mas suas bilheterias bilionárias estimularam Bay a considerar sua abordagem imune à críticas. A impressão é que ele decidiu extrapolar de vez e fez “Transformers: O Último Cavaleiro” para rir de todo mundo. Não há outra razão para ele responder a um repórter que a diferença em relação aos filmes anteriores é que “O Último Cavaleiro” tem mais ação.
Carros 3 é o melhor filme da trilogia animada da Pixar
Ninguém pediu “Carros 3”, mas a Pixar foi lá e fez. Por quê? Porque esse é o produto mais voltado para a criançada que o estúdio tem em seu acervo. Aceite: esse é o verdadeiro público-alvo das aventuras de McQueen e Mate. Mas pode ficar tranquilo que o filme é bem melhor que “Carros 2” (o que não seria muito difícil). E ainda saímos no lucro, afinal conclui o arco de Relâmpago McQueen com extrema dignidade – se “Carros 3” for o último da série, claro. Em qualquer franquia lucrativa do cinema, a decisão de ajustar o tom dos episódios seguintes de acordo com a idade dos fãs que cresceram com o filme original é, digamos, um tanto arriscada (do ponto de vista dos negócios que rolam nesse setor). A Pixar poderia fazer “Carros” para sempre e do mesmo jeito, já que a animação não é como “Harry Potter”, com atores de carne e osso, que envelhecem e amadurecem, assim como seu público. Mas Relâmpago McQueen está velho em “Carros 3”. E, pior, não sabe disso. Tenta, inclusive, superar em vão um carro de corrida moderno com os features mais atuais que a tecnologia pode proporcionar. Em uma cena chocante – até mesmo para os fãs que acompanham essa história desde 2006 –, McQueen capota feio na pista após acelerar tudo que pode, e é obrigado a dar um tempo para se recuperar, treinar muito e tentar dar a volta por cima superando o novo rival. Ora, ele decide a hora de parar. Ou será que é o tempo que decide? Eis a questão. Dizem, por exemplo, que um jogador de futebol morre duas vezes. Uma delas quando se aposenta. Máxima que deve servir para todos os atletas. Enfim, a franquia sempre quis homenagear a febre americana por carros. Mas, no fundo, foi uma oportunidade para revisitar temas de produções e gêneros que marcaram o cinema hollywoodiano com a presença de diferentes modelos de automóveis. A Pixar se agarrou aos dramas de mensagens positivas de Frank Capra no primeiro “Carros”, homenageou os filmes de agentes secretos em “Carros 2” e, agora, a influência é de “Rocky” – mais ainda das continuações da série estrelada e criada por Sylvester Stallone, cujo longa original foi elogiado na época de seu lançamento por ninguém menos que… Frank Capra. E Mate, o personagem coadjuvante mais popular da franquia? Ele está no filme, mas após as críticas a “Carros 2” (2011), a Pixar optou claramente por reduzir sua participação, assim como George Lucas foi obrigado a fazer com Jar Jar Binks, em “Star Wars: Ataque dos Clones” (2002) e “Star Wars: A Vingança dos Sith” (2005). Talvez “Carros 3” pudesse ser ainda mais melancólico para combinar com seus emocionantes minutos finais, como, por sinal, “Toy Story 3” (2010) não teve medo de ser. Mas o miolo de “Carros 3” apronta algumas gracinhas para arrancar risadas e o público infantil não estranhar tanto. Até que vem o final. E que final. Por mais que possa levar os marmanjos às lágrimas, a solução encontrada para fechar o ciclo de Relâmpago McQueen não só honra o legado do personagem como as próprias inspirações da Pixar em algumas das melhores histórias de superação já contadas pelo cinema. Fãs que cresceram com McQueen – e adultos – devem aceitar bem a conclusão. Mas fico pensando o que os pequeninos, que viram McQueen somente em home video, irão pensar. Se fosse para apostar, eu diria que também não deve ser um problema, afinal as novas gerações surgem para evoluir nossos modelos ultrapassados. E a evolução que o filme aponta é um futuro com menos preconceito e machismo, onde o cinema destaca protagonistas femininas fora de comédias românticas e papéis de princesas, mães ou donas de casa – percepções que a própria Disney vem ajudando a mudar com seus filmes recentes. Se “Carros” é uma franquia imperfeita, ao menos seu desfecho termina bem. Com ou sem Relâmpago McQueen.
Meu Malvado Favorito 3 prova que a franquia esgotou a criatividade
“Meu Malvado Favorito 3” chega para provar que a franquia esgotou seu estoque de criatividade. Embora estivesse longe da perfeição, a primeira animação foi uma agradável surpresa, principalmente para a garotada. Era uma aventura redondinha e deu visibilidade ao então novato estúdio Illumination, rendendo uma continuação que até manifestava esforço de tentar levar a trama adiante. Se o primeiro contou a história de redenção do vilão Gru (voz de Steve Carell no original e Leandro Hassum na versão brasileira), que deixava as maldades para trás com a intenção de se dedicar à vida de pai, o segundo, pelo menos, o colocou do outro lado, como um agente contratado para acabar com os planos de um novo vilão, afinal ele sabe como os caras pensam. Já o terceiro… bom, volta para trás, com direito a um clichê de folhetim antigo: o irmão gêmeo que surge do nada. O gêmeo Dru ainda é malvado, mas inepto, e tenta convencer Gru a retomar a vida de crimes. Nada indica sinais maiores da falta de rumo que o arco de um personagem andar em círculos. Ao menos, em cada filme, Gru enfrenta um vilão diferente e o bandidão da vez, que não superou os anos 1980, é um barato. Na verdade, é a grande atração de “Meu Malvado Favorito 3”. Mas ele aparece pouco, porque os roteiristas precisam justificar a presença dos insuportáveis Minions, que em seguida ganharão seu segundo spin-off. As criaturinhas amarelas não têm muito o que fazer nesse terceiro episódio, além de atrapalhar a narrativa, desviando a atenção do público para uma trama paralela do tipo “enquanto isso, o que os Minions estão fazendo?” E para quem duvida que a franquia possa piorar depois dessa estreia, isso lembra que vem aí “Minions 2”.












