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    O Fim da Viagem, O Começo de Tudo é de uma delicadeza impressionante

    29 de setembro de 2019 /

    Considerado por muitos um dos maiores cineastas de cinema de horror do Japão, Kiyoshi Kurosawa tem, com frequência, demonstrado interesse em variar. Basta lembrar que um de seus mais recentes trabalhos, “Para o Outro Lado” (2015), por mais que adentre o terreno do espiritual, não opta pelo medo como fator principal, é sobre um grande amor que retorna da morte, tudo de maneira muito serena. “O Fim da Viagem, O Começo de Tudo” (2019), seu mais recente filme, exibido no Festival de Locarno, é de uma delicadeza impressionante. É, desde já, um dos melhores lançamentos deste ano. O filme nos apresenta a uma repórter de um programa de variedades do Japão que está com sua equipe no Uzbequistão para gravar a história de um lendário peixe de dois metros de comprimento que habita, supostamente, um lago. Como não conseguem gravar o tal peixe, a equipe procura alguma coisa que possa ser interessante para o tal programa. Enquanto passa esse tempo em território estrangeiro, a protagonista de nome Yoko procura conhecer os pontos turísticos do lugar, ao mesmo tempo que lida com a solidão e o sentimento de saudade do namorado e uma forte insegurança também, tendo em vista que em determinado momento ele deixa de retornar suas mensagens. Yoko é protagonizada por Atsuko Maeda, em terceira colaboração com Kurosawa. A primeira foi, inclusive, em outro filme ambientado fora do Japão, “O Sétimo Código” (2013). Outra informação muito interessante sobre Atsuko é que ela é uma cantora famosa no Japão, e em “O Fim da Viagem…” mostra este talento em duas lindas cenas. Ela canta uma versão em japonês de “Hino ao Amor”, sucesso de Edith Piaf, nas duas cenas, mas o sentido da canção muda de acordo com o que acontece na vida da personagem e com o fluxo de seus sentimentos. Impressionante como o filme nos faz próximos de Yoko. Sentimos medo quando ela sente medo; sentimos solidão quando ela se sente só; sentimos o seu mal estar diante do trabalho quando ela assim se sente; o sentimento de não pertencimento etc. Só por isso o filme já é louvável. E explica porque o diretor não economiza elogios a Atsuko, que consegue passar emoção sozinha em cena. E há muitas cenas em que ela está sozinha naquele país estrangeiro e estranho. Há uma cena especialmente tocante, na qual ela tem a ideia de produzir uma matéria sobre um bode que está preso em uma casa, com o objetivo de libertar o animal. Como a equipe compra a ideia, eles vão em busca de realizar a ação. E as cenas de Yoko com o bode são tão cheias de ternura que só aumentam ainda mais o grau de quase inocência que a personagem transmite. De vez em quando, personagens assim fazem bem para o espírito cinéfilo. E por isso filmes assim são tão valiosos.

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    Era uma Vez em Hollywood é o melhor filme de Tarantino da década

    1 de setembro de 2019 /

    Cada novo filme de Quentin Tarantino é um acontecimento que movimenta tanto cinéfilos assíduos quanto esporádicos. Claro que a capacidade do cineasta de trazer astros do primeiro escalão também ajuda bastante. Ter Leonardo DiCaprio, Brad Pitt e Margot Robbie no mesmo filme, sem falar em participações muito especiais, como a de Al Pacino, é um chamariz e tanto. Um luxo e tanto. Mas as pessoas vão ao cinema principalmente porque se trata de um filme do cineasta. Seu novo trabalho, “Era uma Vez em… Hollywood”, é seu melhor filme desde “Bastardos Inglórios” (2009) e tira um pouco do gosto amargo que ficou com “Os Oito Odiados” (2015). Seja através dos diálogos sem pressa, seja com o modo como Tarantino brinca com o tempo mais uma vez, estendendo-o às vezes para causar suspense, como na cena de Cliff Booth (Brad Pitt) em um cenário rodeado pelos hippies liderados por Charles Manson; seja na sequência final, que nos leva à fatídica noite do dia 9 de agosto de 1969, quando ocorreu a chacina que pôs fim a vida de Sharon Tate; em todos os momentos do filme, Tarantino é dono do tempo e do espaço. Um espaço que ele recria a partir da Los Angeles do final dos anos 1960. Vale lembrar que boa parte de seus filmes se passam em um tempo indeterminado, mas com uma aura de apego ao passado muito intensa. O melhor exemplo disso é o de “Pulp Fiction – Tempo de Violência” (1994). Mas em “Era uma Vez em… Hollywood” há ueventos e pessoas reais combinadas à criações puramente tarantinescas. Em especial os protagonistas, o ator decadente Rick Dalton, vivido por DiCaprio, e seu dublê, o já mencionado personagem de Pitt. Há um clima de bromance entre os dois que lembra alguns filmes da Velha Hollywood, como os dirigidos por Howard Hawks, ainda que a amizade dos dois se manifeste da maneira bruta de Tarantino. Cada pessoa oferece o afeto da sua maneira. Mas isso não quer dizer que não se veja amor no filme. Há bastante. Especialmente amor pelo cinema. Seja o cinema de Hollywood, seja o cinema feito na Itália para exportação, por mais que o personagem de DiCaprio ache que está chegando ao fundo do poço por não conseguir espaço melhor nos Estados Unidos e encontrar um caminho aberto no cinema italiano de gênero, por ele considerado muito inferior. Engraçada a cena em que o personagem de Al Pacino lhe explica que Sergio Corbucci é o segundo melhor diretor de western spaghetti do mundo. Quanto à já famosa violência tarantinesca, seja por causa da pressão dos novos tempos, seja por maturidade mesmo, o novo filme do cineasta é o que menos exibe violência gráfica dentre todos os seus trabalhos. Ao contrário, o que mais conta é a beleza do ir e vir dos carros da época, as calçadas movimentadas com centenas de cinemas de rua, tudo muito lindo de ver com a exuberante fotografia de Robert Richardson, colaborador de Tarantino desde “Kill Bill – Volume 1” (2003). Falando em beleza, que acerto a escolha de Margot Robbie para viver Sharon Tate! Linda demais a cena dela no cinema, satisfeita com a ótima recepção do filme em que trabalha por parte do público. Há quem ache que sua presença em cena é muito pequena, quase não lhe é dado texto, mas isso acaba lhe conferindo uma aura etérea, praticamente uma deusa. E sua personagem é tão cheia de graça que é difícil não se encantar com seu sorriso, com sua alegria de passear pelas ruas e de dançar. Como se Tarantino quisesse nos mostrar o quanto a morte de uma mulher como essa é abominável. Por isso a polêmica e incrível aposta do cineasta pela sua conclusão é tão bem-vinda. No mais, há também um elogio à inocência e à infância na figura da atriz mirim Julia Butters, a menina que dá uma lição no decadente astro Rick Dalton. De resto, está havendo uma confusão de percepções sobre a questão hippie. Não há por que acreditar que o diretor tem uma visão negativa dos hippies. Aqueles hippies em especial, os envenenados pelas mensagens de Charles Mason, representam sim o mal. E, nesse sentido, Tarantino não se furta de querer mostrar o mal como definitivamente mal, como fez com os nazistas em “Bastardos Inglórios”. Pode ser uma visão simplista, mas o modo como o diretor lida com isso é de uma beleza que transcende a necessidade de maiores problematizações.

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    Bloqueio revela ideologia de extrema direita por trás da greve dos caminhoneiros

    31 de agosto de 2019 /

    Quentin Delaroche já havia dirigido um ótimo filme sobre o cenário político recente do Brasil, “Camocim” (2017), que funcionou como uma espécie de espelho da sociedade brasileira. Em “Bloqueio” (2018), somos reapresentados a um caso que aconteceu no ano passado e que gerou uma forte repercussão, a paralisação nacional dos caminhoneiros. E tem acontecido tanta coisa de 2018 para cá que quase esquecemos este momento em que o Brasil parou. Assinado por Delaroche e por Victória Álvarez, o filme tem uma estrutura bastante simples: os diretores, ao verem que aquela situação poderia ser interessante o suficiente para gerar um filme, dirigiram-se até um dos locais de concentração dos caminhoneiros. Como o documentário é o gênero cinematográfico que mais depende do acaso para seu sucesso, podemos dizer que um dos problemas de “Bloqueiro” está na ausência de personagens marcantes. Mas nem por isso deixa de ser instigante. O filme mostra que o comportamento de boa parte dos grevistas se aproximou do bolsonarismo, como se aquela ação, de modo não deliberado, tivesse ajudado a chocar o ovo da serpente. O documentário enfatiza, em meio à luta dos caminhoneiros por melhores condições de trabalho, o que há de mais controverso em seu discurso: a defesa de uma intervenção militar. E isso acaba se mostrando ridículo quando eles são forçados a encerrar a greve devido à chegada da polícia do exército. O próprio diretor pergunta a um deles, que é maltratado por um dos militares: mas não é a eles que vocês estão pedindo socorro? Depois de discursos nacionalistas e orações de grupos evangélicos, um sopro de sobriedade surge quando dois professores chegam para discutir com o grupo, tratando justamente da questão da intervenção militar como solução para todos os problemas do Brasil, para o fim da corrupção etc. Ordem e progresso, a bandeira do Brasil, o Hino Nacional, todos esses símbolos que acabaram sendo apropriados pela extrema direita, são abraçados pelos grevistas. O que gera um sentimento misto na cena em que eles cantam o Hino Nacional. Que momento esse em que vivemos, hein?

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    No Coração do Mundo é ponto alto do ótimo cinema feito em Contagem

    11 de agosto de 2019 /

    Se há uma cidadezinha que se tornou presente com bastante frequência no cinema brasileiro contemporâneo é Contagem, localizada próximo a Belo Horizonte. E não à toa. É lá que se localiza produtora Filmes de Plástico, que rendeu obras importantes como “Ela Volta na Quinta” (2015), “Temporada” (2018) e vários curtas de sucesso de crítica, com participação em festivais nacionais e internacionais. Neste ano, a produtora está comemorando uma década de existência. E o filme de comemoração desses 10 anos é um dos melhores da safra da turma de Contagem. “No Coração do Mundo”, da dupla Gabriel Martins e Maurílio Martins, parece um trabalho de cineastas veteranos, tal a segurança narrativa. E não é fácil ter que dar conta de tantos personagens, lhes dar dimensões suficientemente profundas, trabalhando tanto com atores experientes quanto com iniciantes. Mas “No Coração do Mundo” vai além de ser apenas um filme bem-feito. É um trabalho que lida com questões sociais, econômicas e existenciais dos moradores de uma pequena cidade, feito por gente com intimidade na geografia humana do local. Até temos alguns momentos em que o sotaque e o jeito naturalista com que os atores/personagens dialogam soam um pouco difícil para ouvidos não-mineiros, mas aos poucos nos acostumamos. A trama básica gira em torno de um golpe – que até lembra um pouco “Como É Cruel Viver Assim”, de Julia Rezende – , mas o golpe em si não é o mais importante. O filme constrói bases firmes para que nos importemos com personagens, mesmo sabendo que estão fazendo uma burrada atrás da outra. Um personagem como Marcos (Leo Pyrata), por exemplo, é incrivelmente interessante, mesmo sendo questionável do ponto de vista de seu caráter. O filme começa com a comemoração do aniversário de Marcos. Sua noiva, a trocadora de ônibus Ana (Kelly Crifer), o surpreende com uma daquelas declarações de amor constrangedoras com carros de som. Isso já dá o tom do ambiente de periferia, que se explicita ainda mais quando adentramos as casas e os estabelecimentos comerciais daquelas pessoas. Todos os personagens vivem em função de trabalhos que rendem muito pouco para sua subsistência, enquanto outros tentam uma saída através de golpes, como é o caso do já citado Marcos. O grande golpe, no entanto, terá como mentor intelectual Selma (Grace Passô), que, consciente de sua condição de negra, acredita que, para o melhor sucesso de seu plano, será necessária a presença ativa de Ana, a namorada de Marcos, que até então nunca havia participado das tretas dele. As cenas de suspense da tal cena do golpe são de prender a respiração. No mais, como não destacar as cenas da cantora e ativista MC Carol, em suas conversas com Marcos, e a presença de personagens tão carismáticos como Beto (Renato Novaes), Miro (Robert Frank) e Rose (Bárbara Colen)? Não é todo dia que vemos um filme como este. Não é sempre que vemos o cinema brasileiro tão pulsante, surgindo em um momento de tanto desmanche cultural.

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    Tudo é feio, grotesco e violento em O Bar Luva Dourada

    11 de agosto de 2019 /

    Um dos grandes méritos de “O Bar Luva Dourada”, o novo trabalho do alemão Fatih Akin (“Em Pedaços”), é conseguir contar a história de um psicopata levando o espectador para um universo que muito se assemelha a um inferno na Terra, ao mais fundo que um ser humano pode chegar. Não apenas o drama do assassino alemão Fritz Honka (Jonas Dassler, soterrado em uma camada de próteses para compor a figura disforme do personagem), mas também as figuras que frequentam o tal bar que dá título ao filme. A fotografia do filme, sem muitos filtros embelezadores, ajuda a tornar tudo muito feio. Assim, as mulheres que se prostituem no lugar são senhoras idosas dependentes de álcool que transam por uma ou mais doses. É assim que algumas delas vão parar na casa fétida de Honka. O mau cheiro se deve ao cheiro dos corpos das vítimas em estado de putrefação. Ele, por ser visto como um homem muito feio, é rejeitado por algumas mulheres. Outras não veem isso como um problema. O filme já começa com uma cena em que Honka tenta se desfazer do corpo de uma delas, cortando em pedaços com um serrote. As imagens não são muito gráficas como em “A Casa que Jack Construiu”, de Lars von Trier, ou outros filmes mais explícitos, mas o mal estar é constante devido ao caráter grotesco das cenas e principalmente do próprio personagem, que responde com ainda mais violência sempre que se mostra frustrado sexualmente. Importante lembrar que a única personagem que aparece em um registro de beleza de modelo é uma moça loira que Honka encontra e que passa a povoar os seus sonhos. Diferente do que acontece em um outro filme de serial killer recente, “Ted Bundy – A Irresistível Face do Mal”, de Joe Berlinger, que faz com que o público simpatize com o assassino, o psicopata de “O Bar Luva Dourada” é totalmente despido de glamour. É ridicularizado em sua busca por mulheres que não consegue ter, no seu físico corcunda e em seu estrabismo, nas suas tentativas de ter uma ereção com fotos de mulheres nuas estampadas na parede de sua casa para penetrar, em vão, suas clientes/vítimas, e no modo violento com que trata em especial uma das mulheres que chega em sua casa para trabalhar para ele. Ainda assim, há um olhar humano do diretor para o próprio Honka e principalmente para os outros personagens, todos eles solitários, desvalidos, alcoólatras, esquecidos pelo resto da humanidade. O Bar Luva Dourada parece uma espécie de oposto ao que se chama de oásis. Mesmo quando o filme muda de tom e Honka arranja um emprego de vigilante, as novas pessoas que se apresentam também são almas muito tristes, embora a ambientação mude positivamente, com uma luz mais clara no ambiente de trabalho. Fatih Akin havia filmado algumas cenas do passado de Honka, de modo a mostrar os abusos que ele sofreu na infância, mas depois resolveu retirar essas cenas da edição final por achar que isso soava como uma desculpa para uma pessoa se tornar um assassino serial. Assim, o filme não tem essa preocupação em contar uma história do personagem nos moldes tradicionais, mas apenas de um determinado recorte no tempo. Por mais que saiamos do cinema sem saber direito se gostamos ou não do filme, o importante é que suas imagens não sairão com muita facilidade da nossa memória.

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    Homem-Aranha se divide entre adolescência e heroísmo no divertido Longe de Casa

    27 de julho de 2019 /

    Uma bela surpresa este “Homem-Aranha: Longe de Casa”, segundo filme solo do Aranha com o jovem e talentoso Tom Holland. A produção não deixa dúvida que a versão adolescente do herói é mais atraente para o público mais jovem, que pode se identificar bem mais com seus problemas e com suas preocupações do que com as de um adulto milionário e cínico como Tony Stark. Desta vez, a principal preocupação do herói é conseguir se aproximar da garota por quem está apaixonado, a MJ (Zendaya). Aliás, a escalação de Zendaya como interesse amoroso é novidade em relação aos quadrinhos. Embora o nome da personagem seja Michelle, que não existe nos gibis da Marvel, ela passou a ser chamada de MJ no novo filme, como a ruiva Mary Jane que conquista o coração de Peter Parker e foi personificada por Kirsten Dunst nos três filmes de Sam Raimi. Aliás, há várias liberdades artísticas no filme em comparação com as HQs, mais do que na maioria das produções do Universo Cinematográfico Marvel. Mas não deixa de ser interessante, por exemplo, ver uma Tia May tão jovem como a interpretada por Marisa Tomei. Também é muito interessante a maneira como é introduzido Mysterio, que nas publicações da Marvel é um vilão de terceira categoria. O filme dá maior importância ao personagem, que não é apresentado exatamente como um vilão. E sua participação ajuda a tornar o filme muito maior do que o trailer dá a entender. Assim, todos aqueles monstros meio genéricos apresentados nas prévias acabam ganhando algum sentido. Mas o melhor do filme é mesmo como ele dá mais destaque a Peter Parker do que ao Homem-Aranha. É muito divertido vê-lo em um passeio com os colegas da escola por cidades da Europa. O melhor amigo dele, Ned (Jacob Batalon), é muito engraçado. Trata-se da influência da versão Ultimate, em que Miles Morales tem um amigo asiático gordinho (Ganke Lee). Isso faz bem ao filme. Assim como a bem-vinda presença da jovem Angourie Rice no papel de Betty Brant, que virou colega de Peter na escola. A questão “com grandes poderes, vem grandes responsabilidades” é introduzida de maneira gradual e de uma forma que reflete a origem do personagem, com Peter relutando, a princípio, largar sua vida normal de adolescente para vestir a roupa de super-herói numa nova missão de Nick Fury (Samuel L. Jackson). Além de ser um filme muito bem-humorado, que consegue superar a sombra da morte de Tony Stark em “Vingadores: Ultimate”, “Homem-Aranha: Longe de Casa” é melhor em diversos aspectos em relação ao anterior, “De Volta ao Lar”, mesmo sem ter cenas tão memoráveis quanto as ameaças do vilão Abutre (Michael Keaton) ao herói. Aqui temos Jake Gyllenhaal como o Mysterio e é bom não dizer mais do que isso para não estragar as surpresas, apenas ressaltar que o ator se sai muito bem. As cenas de ação são ok, sem muitas novidades. Mas há que se dizer que a cena pós-créditos deste filme é a mais importante de todas do Universo Cinematográfico Marvel, no sentido de não poder ser descartada do produto final.

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    Memórias da Dor recria período terrível da vida de Marguerite Duras

    15 de julho de 2019 /

    Impressionante como certos diretores com uma carreira já relativamente longa permanecem praticamente desconhecidos até que certo filme chama a atenção de tal forma que coloca em questão a inabilidade das distribuidoras de darem o devido destaque aos artistas. É o caso de Emmanuel Finkiel, que teve seu longa-metragem de estreia, “Viagens” (1999), premiado em Cannes e no César (Melhor Primeiro Filme). Também alcançou prestígio internacional em diversos países, inclusive no circuito arthouse americano. Além dos filmes como diretor e roteirista, Finkiel tem em seu currículo vários trabalhos como assistente de direção de cineastas de primeiro escalão, como Jean-Luc Godard, Krzysztof Kieslowski e Bernard Tavernier. Mas o que aconteceu é que os demais filmes de Finkiel meio que passaram batidos ao longo dos anos, por mais que cinéfilos atentos tenham visto seus trabalhos em mostras. “Não Sou um Canalha (2015), seu filme anterior, ganhou algum destaque e já trazia Mélanie Thierry, que brilha neste novo e magistral “Memórias da Dor” (que é na verdade de 2017), indicado a nada menos que oito troféus César. Eis um filme que merece não só a atenção, mas uma especial reverência. O trabalho de construção da personagem, baseada na escritora Marguerite Duras, faz uma espécie de bioficção de seus livros, ao contar da dor que foi o período em que ela passou esperando o marido voltar de um campo de concentração. “Memórias da Dor” é basicamente sobre isso, embora seja rico o suficiente para ser também sobre culpa, desejo e ser carregado de uma aura de desencantamento com a vida que só encontra paralelos em situações de terrível depressão. Em determinado momento do filme, o amigo e amante vivido por Benjamin Biolay fala para que Marguerite tome banho, que está fedendo. Àquela altura, ela não estava mais conseguindo cuidar de si. Na angústia de esperar, toma a decisão de falar com um perverso colaborador do nazismo na França ocupada. Como a história se passa entre os anos de 1944 e 1945, vemos a variação no comportamento e no grau de segurança dessas pessoas que trabalhavam para os nazistas e que estavam acostumados com tortura física e psicológica – isso, claro, na posição de torturadores. Um dos aspectos que chama a atenção é o modo como o diretor trabalha as sombras e também, com frequência, coloca a protagonista como único elemento não borrado, acentuando ainda mais seu sentimento de solidão e abandono naquele mundo de pesadelo. E como a trilha sonora é usada apenas entre os espaços da cena, como para acentuar o clima de tristeza, os silêncios nas sequências dramáticas enfatizam a grande performance de Mélanie Thierry. Há também destaque para a narração em voice-over da protagonista. Uma narração pausada, que lembra e muito o estilo de “Hiroshima Meu Amor” (1959), de Alain Resnais, não por acaso uma obra roteirizada por Duras. Assim, os traços da obra literária da escritora estão explicitamente presentes, mas servindo não como muleta para a narração cinematográfica, mas para enriquecer ainda mais o trabalho visual. Por isso, ver “Memórias da Dor” é uma dessas experiências raras e recompensadoras, que só cresce na memória afetiva.

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    Deslembro é uma pequena obra-prima do cinema brasileiro

    24 de junho de 2019 /

    É possível notar, mesmo sem saber nada de “Deslembro”, que se trata de um filme muito pessoal de sua diretora, Flavia Castro. Ao perceber que o desaparecimento do pai durante a ditadura já havia sido abordado no documentário “Diário de uma Busca” (2010), fica claro que ela é movida pela necessidade de recontar essa história. O que impressiona é o quanto ela consegue ser bem-sucedida nisso, estreando no registro de ficção. A sensibilidade com que a cineasta conta a história da jovem adolescente que é trazida da França para o Brasil na virada dos anos 1970 para os 80, quando começou o processo de anistia política, é realizada com uma vivacidade impressionante. Nos primeiros minutos de “Deslembro” vemos uma família dialogando em francês. A menina Joana (Jeanne Boudier, ótima) não quer sair da França e ir para um país em que se torturam e matam pessoas. Mas a mãe (Sara Antunes) prefere que a filha e seus outros dois filhos (na verdade, um deles é filho do seu companheiro com outra mulher) venham com ela para o Rio de Janeiro. O impacto da chegada ao novo país começa a trazer memórias fortes de um momento traumático na vida da pequena Joana. Lembranças escondidas em um canto seguro de sua memória. Assim, essas lembranças – ou possíveis lembranças, já que não se sabe ao certo o que é verdade ou o que é construído como uma espécia de sonho – vão surgindo em flashbacks bem fragmentados. Às vezes, a diretora usa um recurso plasticamente muito bonito de mostrar uma imagem tão próxima que não permite distinguir o está sendo mostrado, como em um quadro de pintura abstrata com textura em alto relevo. A inclusão de canções é também um acerto do filme. Lou Reed, Caetano Veloso, The Doors, Nelson Gonçalves (em uma canção de Noel Rosa que também aparece no maravilhoso “Arábia”, de João Dumas e Affonso Uchôa, ainda que com um intérprete diferente), citações a David Bowie e Pink Floyd; além do amor pelos livros por parte de Joana e a recitação de um poema de Fernando Pessoa. Tudo isso faz com que a paixão pela vida, embora dolorosa pela falta trágica do pai, esteja o tempo todo presente. E há ainda o amor no seio familiar. A família mostrada no filme, tão fragmentada quanto as memórias da menina, é de encher o coração (o que são aquelas cenas no carro, meu Deus?). As questões de afetividade envolvendo a mãe, o padrasto chileno e os dois irmãos pequenos somam-se à avó da menina que mora no Rio, vivida com brilho por Eliane Giardini. A cena mais tocante do filme, aliás, surge sutil, num momento em que a avó e a menina estão sozinhas e a avó olha com lágrimas nos olhos para o rosto daquela garota que lembra o seu filho assassinado pela ditadura. Um exemplo de sensibilidade ímpar por parte da diretora e de seu belo elenco. O amor romântico também surge em “Deslembro” de maneira muito bonita. Há, inclusive, uma cena de sexo muito discreta e muito elegante entre a garota e o seu interesse amoroso, um rapaz que também é filho de exilados. E esse aspecto romântico e a quantidade generosa de canções pop faz com que o filme dialogue com o ótimo “Califórnia”, de Marina Person. No que se refere às questões políticas, há diálogo com o momento atual, embora o filme tenha sido finalizado antes das últimas eleições presidenciais. O que não deixa de torná-lo ainda mais forte e urgente nos dias de hoje. Aliás, o que não parece urgente nos dias de hoje, quando o assunto é direitos humanos? Restrito ao circuito alternativo, “Deslembro” infelizmente terá um público pequeno. Por isso, é importante que o boca a boca seja positivo e que atraia o público, para que mais pessoas tenham a honra de ver esta pequena obra-prima no cinema, em toda sua glória.

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    Fora de Série é uma das melhores surpresas do ano no cinema

    16 de junho de 2019 /

    “Ser jovem é a experiência mais dolorosa e mais hilária”, disse Olivia Wilde em entrevista para o jornal The Guardian. E de fato, por mais que “Fora de Série”, a estreia da atriz na direção de longas-metragens, seja um filme para rir bastante, há uma profundidade e uma compreensão do que é ser jovem que falta na grande maioria dos filmes do gênero produzidos neste século. Como vivemos em um momento em que tudo que fazemos tem um viés político, vale lembrar que Wilde é uma democrata entusiasmada, que trabalhou duro durante as campanhas de Obama, e cuja mãe é congressista. Assim, seu filme também trata de situações da pauta política dos dias de hoje, como a orientação sexual e a sororidade. “Fora de Série” conta a história de duas garotas que são melhores amigas. Elas estão no último ano do ensino médio e prestes a ingressar em uma nova fase de suas vidas. Acreditam que deram o melhor de si, ralando muito nos estudos, diferente da grande maioria de seus colegas, que passaram o ano brincando, indo a festas etc. Na verdade, a visão que Wilde tem da escola é quase caótica, mas muito divertida. Em determinado momento, parece a “Escolinha do Professor Raimundo”. Por isso, uma delas fica horrorizada ao saber que vários de seus colegas também vão para universidades conceituadas, mesmo não tendo estudado tanto quanto ela. Daí a necessidade de, no último dia do ano, antes de receber o diploma, ir a uma das festas malucas da turma. Isso se torna algo de fundamental importância para as duas. Desde o começo, o filme é um convite ao riso, ao mesmo tempo em que acompanhamos o aprofundamento daquelas personagens – e até dos coadjuvantes que aparecem pouco e que seriam apenas funcionais na trama. Assim, a transição da comédia para o drama pode ser sentida com mais força. O que dizer da cena da piscina? Ao mostrar a cena para Will Ferrell em um corte inicial do filme, o ator e comediante, que produz o longa, disse entre lágrimas: “Essa é uma das mais belas cenas que eu vi na vida”. Dá para imaginar que Olivia Wilde tenha fica emocionada com o apoio do amigo, mas ela revelou que muita gente queria cortar a cena. Dá para imaginar? Um dos grandes méritos do filme é fazer o público se sentir mais vivo ao conduzi-lo de volta para esse momento de transição da vida. O sentimento é similar ao evocado por “Lady Bird”, de Greta Gerwig, só que com muito mais experimentação e estranheza, o que é melhor. Assim, a história chega às telas com um grau de frescor maior que o visto no cinema independente atual. E com uma maravilhosa liberdade expressada nos diálogos íntimos das duas amigas, como na revelação de um brinquedo de pelúcia para auxiliar na masturbação de uma delas. As duas adolescentes, Molly (Beanie Feldstein) e Amy (Kaitlyn Dever), se amam e se apoiam mutuamente. Molly sofre por ser gordinha e acreditar que não tem chance com os garotos da escola, enquanto Amy é lésbica e encontra muita dificuldade em chegar numa garota por quem se sente atraída. Ao mostrar tanto o doce e o amargo desses momentos da vida, “Fora de Série” encanta. A primeira experiência sexual de Amy, o baque de ver a pessoa amada beijando outra pessoa, a alegria com o sucesso da colega, a aproximação com colegas distantes através de pequenos diálogos que revelam mais aprofundadamente quem são aquelas pessoas, tudo isso é muito bonito. “Fora de Série” é também um filme sobre ser jovem em 2019, o que o torna também uma espécie de documentário de uma época. E uma das melhores surpresas do ano no cinema.

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    Aladdin encanta com colorido à Bollywood e elenco carismático

    26 de maio de 2019 /

    O novo “Aladdin” é uma surpresa inesperada. Embora se trate de um remake da animação dos anos 1990, representa mais do que isso, com um frescor impressionante, ao trazer de volta o fascínio pelo conto retirado do clássico “As Mil e uma Noites”. É possível se entusiasmar com as aventuras do jovem ladrão de ruas gentil e apaixonado pela princesa de seu reino. Quanto às canções, para quem não gosta tanto de musicais, elas não incomodam e contribuem para que o clima de fantasia contagie o espectador. Tudo pode acontecer em um filme em que um gênio sai de dentro de uma lâmpada. E as canções acrescentam magia às cenas, como no momento em que Aladdin e Jasmine passeiam em cima do tapete mágico. “Aladdin” mantém uma característica marcante das fábulas da Disney, ao evocar o tipo de cinema que se fazia na década de 1950, com música, dança e romance. Por isso, há quem considere algumas dessas produções, especialmente as que lidam com canções – como também foi o caso de “A Bela e a Fera”, de Bill Condon – como algo ultrapassado. Mas nem sempre é o caso. Em um ano em que a Disney prepara quatro adaptações de clássicos animados – a primeira foi “Dumbo”, de Tim Burton, e as próximas serão “O Rei Leão”, de Jon Favreau, e “Malévola: Dona do Mal”, de Joachim Rønning – , “Aladdin”, dirigido pelo irregular Guy Ritchie (“Rei Arthur: A Lenda da Espada”), encanta com seu colorido à Bollywood, seu dinamismo narrativo e uma trinca de personagens principais bastante carismáticos: Will Smith como o gênio da lâmpada, Mena Massoud como o Aladdin e Naomi Scott como a princesa Jasmine. E que princesa! A participação de Jasmine é muita mais valorizada nesta versão em comparação com a animação. Isso se deve tanto ao roteiro quanto à sua intérprete, que empresta um encanto muito bem-vindo à personagem. Naomi Scott já havia aparecido em “Power Rangers”, mas é neste filme que sua beleza e brilho se destacam. E muito em breve o público poderá vê-la na nova versão de “As Panteras”. Assim, a história de amor com Aladdin ganha força. Ainda que a aventura e a fantasia sejam os elementos mais evidentes do filme, o que move o herói é o amor que ele sente pela princesa. Um amor que é recíproco, mas que tem como primeiro obstáculo o fato de que ela deve se casar, segundo a lei, apenas com um outro príncipe, não com um plebeu qualquer como Aladdin. Mas o que seriam das histórias de amor sem os obstáculos? A paixão pela princesa impulsiona o espectador a torcer pelo Aladdin, ao se colocar em seu lugar na jornada. Afinal, quem nunca fantasiou sobre a possibilidade de conquistar uma princesa (ou príncipe) e ter direito a três desejos realizados em um passe de mágica? A mensagem de “Aladdin” também pondera a sabedoria necessária para se exercitar os seus desejos, de modo a não se deixar levar pela ambição cega – que é basicamente o caminho do personagem de Marwan Kenzari, que interpreta o grão-vizir Jafar, o conselheiro do Sultão. Quanto às canções, os clássicos criados por Alan Menken e Howard Ashman para a animação de 1992 compõem a trilha sonora, mas há uma novidade feita especialmente para Jasmine, “Speechless”, cantada com entusiasmo e brilho pela própria Naomi Scott em um momento particularmente cheio de emoção. E, sim, o gênio de Will Smith é engraçado e não o desastre que se poderia imaginar, diante da sombra gigantesca de Robin Williams, o dublador do personagem original animado. Pois é. Há bons motivos para ficar entusiasmado com este filme que parecia ter um destino um tanto incerto.

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    Longa Jornada Noite Adentro é cinema de sonho

    18 de maio de 2019 /

    O cinema é a forma de arte com maior capacidade de se aproximar do sonho, embora nem todos consigam trabalhar de maneira satisfatória com o onirismo no cinema. Ao falar de sonho lembra-se de Luis Buñuel, de David Lynch, de Alejandro Jodorowsky, de Alain Resnais, de Andrei Tarkovski, de Ingmar Bergman. São poucos, na verdade, os cineastas que conseguem transformar o cinema em matéria onírica. Eis que do cinema chinês, que atualmente vem tratando mais de questões sociais e políticas em seus dramas, surge o jovem cineasta Gan Bi e seu impressionante “Longa Jornada Noite Adentro”, que pega emprestado o título da peça de Eugene O’Neill, embora não guarde muita relação. O título é explicativo quando entramos na segunda metade do filme, que usa um longo plano-sequência para nos levar para uma jornada noturna em busca de uma mulher. Por mais que a primeira parte seja hermética e por vezes confusa, uma vez que passamos por ela, somos tragados por uma das mais fascinantes viagens já mostradas pelo cinema. A primeira parte lida com o tempo escorregadio e o caráter vago da memória. A memória de quase duas décadas, quando o protagonista Luo Hongwu (Jue Huang) conheceu uma mulher misteriosa, Wan Qiwen (a bela Wei Tang, de “Desejo e Perigo”). Fragmentos de memória parecem se juntar à imagens de ficção ou de sonhos, como que de um filme visto por Hongwu que talvez tenha se misturado às lembranças. Em entrevista, Gan Bi disse que sempre se sentiu em perigo durante as filmagens, como se ele estivesse prestes a destruir o filme, a fazer alguma decisão errada, ou a destruir a si mesmo. Algo parecido pode ser refletido no espectador, como uma espécie de angústia, ao mesmo tempo em que a sensação de se perder na noite é extremamente excitante. É como saber que se está em um sonho, mas que aquele espaço/tempo é o único possível para que o encontro daquele homem com a mulher de sua vida seja materializado. Embora a palavra matéria não seja exatamente algo que se possa pensar de uma obra tão pouco tangível. Lembrar do filme e dessas sensações que ele provoca é aumentar ainda mais o amor, o respeito e o fascínio por essa maravilha sombria e romântica, lindamente orquestrada por um cineasta que, em seu segundo longa-metragem, mostra um virtuosismo impressionante. O que dizer da cena do pingue-pongue com o garoto na mina? E da raquete mágica? E a do encontro com a garota da sinuca? E a conversa com a mulher da tocha? São cenas tão cheias de elementos oníricos fortes que nos arrebatam como poucos. E ainda por cima há todo um cuidado visual. Há o vestido verde de Wan Qiwen: sempre que a cor aparece nos lembramos dela. Há um cuidado todo especial com cada enquadramento, cores e cenário, mesmo sendo tudo tão sombrio e noturno. Meus amigos, estamos diante de um dos grandes filmes do novo século. Um detalhe curioso da carreira comercial de “Longa Jornada Noite Adentro” é que o filme teve uma campanha de marketing na China semelhante à de um blockbuster (há a utilização de tecnologia 3D na segunda metade em algumas salas, o que ajuda), mas que ocasionou muitas reclamações. Afinal, quem foi ao cinema não estava preparado para um filme de arte. Assim, houve uma saída em peso de pessoas no meio dessas sessões iniciais. Se parte do público foi enganado, nem por isso deixou de ser, ainda que não admita, privilegiado.

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    Em Trânsito transforma Europa numa distopia de extrema direita

    4 de maio de 2019 /

    Alguns dos grandes autores do cinema já trazem em sua primeira obra a semente da grandeza. É o que acontece, por exemplo, com o alemão Christian Petzold, que desde “Pilotinnen” (1995), feito para a televisão, já antecipava temas de suas obras mais consagradas, como a trilogia do amor em tempos de opressão, composta por “Barbara” (2012), “Phoenix” (2014) e o novo “Em Trânsito” (2018). O novo filme, inclusive, retoma a encenação de personagens tristes e largados em cafés como ponto de partida – também presente no segundo filme do diretor, “Cuba Libre” (1996). E busca o mesmo aspecto mais ensolarado, no modo como destaca as principais cenas à luz do dia, para servir de contraste à tramas influenciadas pelo cinema noir, inclusive com o uso de voice-overs, dando um ar de fábula às narrativas. O mais curioso na trama de “Em Trânsito” é que sua sinopse sugere um drama de época. Mais especificamente dos tempos da ocupação alemã na França, durante a 2ª Guerra Mundial. Afinal, a história é baseada no romance homônimo de Anna Seghers, escrito em 1944. Mas Petzold fez um filme contemporâneo, em clima de distopia, passada num presente possível ou futuro muito próximo da França, repleto de detalhes modernos, como carros e tecnologia do século 21. A escolha busca refletir o período de ascensão da extrema direita e do neonazismo em todo o planeta, além da falta de sensibilidade de muitos governos sobre a situação dos refugiados, vistos como ameaças. É fácil estabelecer uma conexão entre o mundo ensolarado em que uns vivem e a realidade sombria dos demais, endurecida por abusos diários. Há uma cena no filme em que alemães buscam uma mulher refugiada num apartamento e a arrastam pelo corredor enquanto várias pessoas apenas testemunham, de certa forma aliviadas por aquilo não estar acontecendo com elas. Ninguém protesta. A violência estatal se tornou a norma. A trama acompanha Georg (Franz Rogowski, ator que lembra fisicamente Joaquin Phoenix), um homem que vive uma vida despida de muito sentido. Quando ele entra em um apartamento e se apossa dos manuscritos e dos documentos de um escritor que cometeu suicídio, consegue a chance de mudar de identidade e finalmente escapar para outro lugar do mundo – o México ou os Estados Unidos. Até que Georg conhece e se apaixona por uma mulher (Paula Beer, de “Frantz”), que embora viva com outro homem, busca encontrar o marido desaparecido – justamente a identidade roubada pelo protagonista. O triângulo amoroso confere à obra um tom mais universal, embora se distancie bastante das histórias de amor mais usuais. Petzold prefere apostar na melancolia dos personagens à deriva no velho novo mundo, pouco admirável, desse início de milênio.

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    Vidas Duplas empolga com internet, livros, filmes e amantes

    21 de abril de 2019 /

    Os filmes anteriores do diretor francês Olivier Assayas, “Acima das Nuvens” (2014) e “Personal Shopper” (2016), são bastante ambiciosos na forma. Por isso, “Vidas Duplas” (2018) parece um trabalho menor e menos desafiador, semelhante talvez a “Horas de Verão” (2008), outra obra sobre pessoas conversando sobre comportamento, mudanças no cenário político e social e relacionamentos. É como se o cineasta estivesse descansando um pouco enquanto prepara outra obra-prima. Mas engana-se quem subestima “Vidas Duplas”, que encanta não apenas por trazer um elenco muito talentoso, mas por colocar nas bocas de seus personagens falas tão inteligentes e sensíveis que fazem com que eles se materializem em criaturas reais. O que dizer, por exemplo, de Vincent Macaigne, que brilha como o romancista Léonard Spiegel, um homem inseguro que coloca todos os seus dramas e relacionamentos em suas obras literárias? Os momentos em que ele se mostra especialmente deprimido, ao lado do editor vivido por Guillaume Canet, da amante vivida por Juliette Binoche ou da esposa interpretada por Nora Hamzavi, são pontos altos de um filme cheio de pontos altos. As cenas envolvendo Macaigne, uma espécie de coração do filme, tornam-se grandes por serem mais relacionadas a discussões da vida real, de problemas ligados a relacionamentos. Os outros personagens se tornam menos sensíveis por discutirem assuntos do mundo contemporâneo, como o fim ou não do livro de papel, a diminuição do número de leitores de livros, a popularização dos audio-books etc. E o filme faz isso dando nomes aos bois: Facebook, YouTube, Kindle, Twitter. Todo esse filosofar sobre o mercado editorial também vem acompanhado por discussões acerca da natureza autobiográfica da arte e de sua imunidade a essas mudanças. Assayas, que havia trazido à tona um debate bem interessante sobre os blockbusters em “Acima das Nuvens”, mostra-se agora tão entusiasmado com a discussão sobre a revolução trazida pela internet que chega a contagiar. E no debate, há espaço tanto para Adorno quanto para Taylor Swift, para “A Fita Branca” e “Star Wars: O Despertar da Força”. Falando nesses dois filmes, um dos momentos mais engraçados de “Vidas Duplas” envolve sexo oral durante a sessão de um dos filmes e o modo como isso é contado em um romance. Sim, há o cuidado para não cansar o espectador com tanta discussão sobre internet e mercado editorial, já que a ciranda de amores dos personagens se tornam tão ou mais importantes do que o debate. Quase todos no filme têm um(a) amante e isso é outra coisa que diverte: a cumplicidade do público com os personagens. Ao final, a sensação de bem-estar faz com que gostemos tanto do filme, de seus personagens tão vivos, de suas discussões tão empolgantes, que o sentimento de gratidão pelo diretor e por todo o elenco se torna inevitável.

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