Os Oito Odiados evidencia maneirismos de Quentin Tarantino
A teoria de que Quentin Tarantino perdeu sua principal parceira com a morte da montadora Sally Menke, que trabalhou com o cineasta de “Cães de Aluguel” (1992) a “Bastardos Inglórios” (2009), ganha força neste novo filme, “Os Oito Odiados” (2015), que possui uma metragem de quase três horas de duração. Desde “Cães de Aluguel” (1992), Tarantino faz uma espécie de prova de fidelidade com seu espectador. Os mais impacientes, por exemplo, não devem gostar de tanto falatório em seus filmes, ansiando pela ação e a violência que vêm a seguir, mas os diálogos sempre costumam surpreender. Desta vez, porém, o resultado nem é tão divertido nem tão tenso. Os primeiros “capítulos” de “Os Oito Odiados” se passam dentro de uma carruagem que leva quatro pessoas: dois caçadores de recompensas, o Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) e John Ruth (Kurt Russell), uma mulher levada para a forca, Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), e um homem que afirma ser o novo xerife de Red Rock (Walton Goggins). O ódio de classe e raça já começa a se manifestar a partir da conversa entre essas quatro pessoas do norte americano do século 19, poucos anos após o fim da Guerra Civil. Lembra um pouco “No Tempo das Diligências” (1939), de John Ford, ao juntar um grupo heterogêneo de pessoas em um pequeno espaço. A diferença é que com Tarantino temos um elemento negro e forte, vivido por Jackson, e a mulher, por sua vez, não é nenhuma dama, mas uma assassina, uma vadia como insiste o texto, que deve ser tratada na porrada até ser devidamente enforcada. O curioso de “Os Oito Odiados” é a insistência de Tarantino em usar o glorioso Ultra Panavision 70, desperdiçado na falta de lindas imagens em planos gerais de exteriores, já que a maior parte do filme se passa em espaços interiores fechados. Após a carruagem, os quatro primeiros personagens encontram os outros quatro odiados num armazém, em que todos se protegem durante uma tempestade de neve. O confinamento faz dos diálogos o principal elemento cênico, aproximando o filme de uma peça de teatro. Mas Tarantino não deixa esquecer, em nenhum momento, que seu ofício é o cinema, seja pelo movimento da câmera, pelo ajuste de foco ou pela inclusão de um narrador inesperado, que também serve para lembrar como o cineasta sente prazer em manipular o tempo da narrativa e combinar diferentes gêneros – no caso, um clima de mistério à Agatha Christie, que movimenta o capítulo final. A coragem do cineasta em exagerar no tempo dos diálogos é diretamente proporcional à fidelidade de seus fãs, mas cobra um preço em “Os Oito Odiados”, que resulta em seu trabalho menos brilhante, inclusive diante do despretensioso “À Prova de Morte” (2007). Não há envolvimento com os personagens, resultado do falatório interminável, que prejudica a criação de um clima de tensão como Tarantino tão bem desenvolveu na cena inicial da cabana em “Bastardos Inglórios”, ou no jantar da metade de “Django Livre” (2012). Desta vez, tudo fica para o final. A violência tarda, mas não falha, como é praxe nos longas do cineasta. Ainda que demore para explodir, ela chega em doses sanguinolentas dignas de filme de horror com muito gore. Mas parece vir quase como que por maneirismo, deixando evidentes as repetições de estilo e autocitações. Mesmo as reviravoltas, que permanecem eficientes, demonstram um esforço mais frio e racional por parte de Tarantino para provocar surpresas. Só que, esperadas como tique de jogador de pôquer, elas resultam menos “surpreendentes” do que intencionaria o próprio diretor, o que nunca é um bom sinal.
Algo não deu certo em Vai que Dá Certo 2
Desta vez não deu certo. “Vai que Dá Certo 2”, sequência do sucesso de 2013, traz os mesmos personagens, que continuam a levar a vida com as mesmas dificuldades de antes, lamentando o fato de não conseguirem o tão sonhado dinheiro. Mas seu retorno se dá num registro menos cômico e um pouco mais sombrio, ficando a dúvida se isso ocorreu acidentalmente ou de forma deliberada para o tornar o filme pouco engraçado. O personagem mais centrado ainda é Rodrigo (Danton Mello), que começa o filme em um casamento com Jaqueline (Natália Lage). A moça é tão encantadora que seus três amigos patetas, Amaral (Fábio Porchat), Tonico (Felipe Abib) e Danilo (Lúcio Mauro Filho), ficam secando e torcendo para um dia poder ter uma chance com ela também. Coisa de gente imatura e sem noção ou de quem não tem filtro para falar o que realmente sente? A nova chance de os rapazes ficarem ricos surge em um vídeo comprometedor, que traz um sujeito que quer dar o golpe do baú em uma mulher mais velha. Vladimir Brichta interpreta esse sujeito. E o tal vídeo pode por fim ao seu casamento e a sua chance de enriquecer. Acontece que outras pessoas também estão interessadas no vídeo e no quanto podem lucrar com a chantagem, como é o caso de dois policiais corruptos e de uma prima de Rodrigo e Danilo. A partir daí, o filme assume um tom grave que compromete o já ralo humor presente. Sobram risos amarelos, silêncio, um certo incômodo e alguma tensão. Nem mesmo Lúcio Mauro, que também retorna como o avô gagá, consegue imprimir humor nas cenas de que participa. Ao contrário, sua sequência com Natália Lage pode até ser taxada de mau gosto. Fragmentado como uma coleção de esquetes, o fiapo narrativo tenta costurar a trama por meio de uma série de situações envolvendo uma sacola de dinheiro escondida. Mas o filme se sustenta mesmo na boa química de seu elenco (mesmo com a ausência de Gregório Duvivier). Talvez o problema esteja na mão pesada do diretor Maurício Farias, que retorna, desta vez acompanhado por Calvito Leal, demonstrando toda a influência de seus trabalhos em minisséries, séries e telenovelas para a Rede Globo. O problema de registro, porém, não vem de hoje, já que “O Coronel e o Lobisomem” (2005) também vacilava muito no uso do humor. Resta saber se, mesmo com seus equívocos, a sequência conseguirá repetir o sucesso do original. No Brasil das comédias blockbusters, ter graça parece realmente não importar.
As Sufragistas dá perspectiva histórica ao feminismo
“As Sufragistas” reflete bem o espírito dos tempos atuais, em especial do último ano, que testemunhou o avanço do feminismo nas redes sociais e nas artes. O filme é estrelado, escrito, dirigido e produzido por mulheres, num exemplo claro de que o empoderamento feminino de sua trama não deve ficar só na retórica. De fato, a produção supre uma imensa lacuna, levando até a a questionar por que há tão poucos trabalhos sobre a ascensão histórica do feminismo. Afinal, se a mulher hoje pode votar, exercer o seu direito de cidadania e assumir cargos públicos é por causa do esforço e do sacrifício dessas pioneiras que perderam a família, os empregos e até mesmo a própria vida para que o sonho de uma vida digna fosse materializado. Dirigido por Sarah Gavron (“Brick Lane”) e escrito por Abi Morgan (roteirista de “Shame” e “A Dama de Ferro”), “As Sufragistas” acompanha a jornada de Maud Watts, interpretada de forma inspirada pela bela e talentosa Carey Mulligan (“O Grande Gatsby”). Maud é uma jovem que trabalha como lavadeira em uma empresa administrada por um homem acostumado a abusar sexualmente de suas empregadas. E, ao chegar cansada do trabalho, ainda tem que cuidar do filho e do marido (Ben Wishaw, de “007 Contra Spectre”). Ela encontra uma razão para viver ao se aliar a um grupo de mulheres rebeldes que praticam a desobediência civil para chamar a atenção da sociedade. Se com palavras ninguém as ouve, por que não quebrar vidraças, incendiar caixas postais e, se necessário, até mesmo ir para a cadeia para deixarem de ser ignoradas? Um dos pontos mais interessantes da produção está na forma como os investigadores de polícia, encabeçados pelo ótimo Brendan Gleeson (“O Guarda”), tratam o vandalismo femininista como atos de extrema periculosidade, como se aquelas mulheres fossem agentes subversivos ou algo do tipo. De certa forma, os protestos não deixam mesmo de representar uma ameaça para a sociedade machista, que via aqueles protestos como imorais, por sugerirem que as mulheres deixassem de se manter passivas diante da lei e da cultura opressoras. O maior perigo que “As Sufragistas” corre, porém, é pintar os homens de forma excessivamente caricata. A única exceção é o farmacêutico casado com a personagem de Helena Bonham Carter (“Os Miseráveis”), que apoia as ações da esposa, uma das líderes do movimento sufragista. Outra líder, por sinal, é vivida por Meryl Streep (“A Dama de Ferro”). O filme podia obter melhor resultado do ponto de vista artístico, mas, ainda que abrace uma narrativa convencional, a diretora Sarah Gavron se sai bem, tanto na criação de suas adoráveis e corajosas personagens quanto no cuidadoso trabalho de reconstituição de época. Além disso, serve como lição de História e permite o debate de uma importante questão sociocultural.
Macbeth – Ambição e Guerra explora a força das palavras de Shakespeare
As palavras têm muita força, ainda mais quando escritas por William Shakespeare. Palavras levaram Othelo à perdição e Hamlet à loucura, mas foi com Macbeth que manifestaram seu poder mais devastador. Ditas por bruxas, são levadas à sério por um nobre demasiadamente mundano, virando maldição ao alimentar o que há de pior na alma humana. Ver uma nova adaptação de “Macbeth” – assim como, aliás, de qualquer obra popular – é basicamente buscar apreciar o que ela traz de novo, percebendo o quanto da fonte foi preservada e a estrutura escolhida para apresentá-la. Recentemente, até o cinema brasileiro se aventurou pela mesma tragédia shakespeareana, resultando em “A Floresta que se Move”, que nem é tão original quanto se imagina. A opção do diretor australiano Justin Kurzel (“Snowtown”) em “Macbeth – Ambição e Guerra” foi por preservar as palavras de Shakespeare, mantendo os diálogos rebuscados da peça original, mas montando o proscênio em locações autênticas das Highlands escocesas. O contraste é conflitante como a diferença entre o cinema e o teatro, resultando num trabalho esteticamente belo, mas frio. Na prática, até as cenas de viés épico, que remontam à direção de arte e figurino de “Coração Valente” (1995), com os escoceses pintados e vestidos para a guerra contra os ingleses, são relegadas a mero pano de fundo, servindo para inaugurar o primeiro ato e introduzir o encontro entre Macbeth (Michael Fassbender), um general do exército escocês, com as três bruxas que lhe contarão que ele será um rei. Aproveitando a encenação ao ar livre, Kurzel explora a paisagem com uma fotografia que privilegia o vermelho em diferentes tonalidades – o próprio céu é lindamente vermelho. Sem, entretanto, atingir o extremo sangrento de Roman Polanski em seu “Macbeth” escarlate de 1971. A nova versão não é tão violenta, mas não é por falta de mortes. Como se sabe, a profecia das bruxas vira a cabeça de Macbeth que, incentivado pela esposa, Lady Macbeth (Marion Cotillard), passa a acreditar em seu destino e a racionalizar um plano para assassinar o rei vigente, o bondoso Duncan, vivido por David Thewlis. A força das palavras o impulsiona para sua própria destruição. O filme destaca muito bem essa marca da peça, retomando o tema na cena em que Lady Macbeth ora para as forças do mal dentro de uma igreja cristã, tão disposta que estava em atingir o seu objetivo. Perturbador e um dos melhores momentos do longa, o chamado através das palavras contribui para o terrível pecado, que depois perturbará o espírito daqueles que o cometeram. Mas a filmagem também contempla silêncios, que servem como contraponto para as palavras fortes e poéticas do texto. Servem também para imprimir uma atmosfera de crescente tensão, acentuada pela trilha sonora de Jed Kurzel, irmão do diretor e guitarrista da banda The Mess Hall, que valoriza instrumentos de percussão nos momentos mais intensos e violentos. Uma pena que todo esse cuidado não resulte na catarse esperada.
Norte, O Fim da História desafia o circuito comercial com espetáculo cinéfilo
Certos filmes requerem uma predisposição por parte do espectador. E, no caso de “Norte, O Fim da História”, nem é tanto pelo andamento arrastado ou pelos chamados “tempos mortos”, que até são poucos neste longa de Lav Diaz, o primeiro do celebrado cineasta filipino a ser lançado comercialmente no Brasil – o que constitui um ato nobre e até político por parte dos exibidores, num momento em que a força do dinheiro vem sufocando a arte. O trabalho de composição e rigor visual de Diaz é admirável, com uma tela larga que valoriza os planos médios e gerais, sendo assim um convite para que seja melhor apreciado no cinema, ainda que poucas salas ousem exibi-lo. O que parece pesar são os 250 minutos de duração. É até pouco para o padrão de Diaz, um diretor de maratonas cinematográficas, mas o suficiente para impedir o filme de alcançar um público maior. O que é uma pena, pois “Norte”, além de grande cinema, ainda se revela vitrine para uma cultura pouco conhecida no Brasil: a das Filipinas, país que ainda tenta se reerguer de um duro período de ditadura e que convive com os idiomas inglês e o espanhol – após séculos de dominação espanhola, o arquipélago virou território dos Estados Unidos durante algum tempo. Isso explica, em parte, o papo filosófico em inglês em um cyber cafe, que abre a projeção. O filme é uma adaptação livre do romance “Crime e Castigo”, de Fiódor Dostoiévski, com uma narrativa que une três personagens. Temos Fabian, o sujeito que se orgulha de suas ideias pouco ortodoxas com relação à sociedade e à ética; Eliza, a mulher que, com muito sacrifício, procura sobreviver à pobreza e à maldade de uma agiota local; e o seu marido Joaquin, homem que é preso por um crime que não cometeu. Os três personagens principais possuem seu rincão de cenas admiráveis: Fabian e os momentos em que contracena com a irmã, além de seu último encontro com a agiota, refletem aspectos bastante trágicos de sua existência; Eliza e as tentativas de vender objetos e animais para sair da miséria, e logo depois seu posicionamento heroico frente à crise e ao fato de o marido estar preso; e Joaquin e sua redenção pela bondade durante a prisão, o que torna a curva de sua vida o extremo oposto do que ocorre com Fabian. Enquanto Fabian tem o espírito corroído pela culpa, Joaquin aceita a injustiça e mostra um espírito puro que chega, inclusive, a comover um presidiário maculado pela maldade. Apesar disso, “Norte” não é um filme com lição de moral, do tipo que ensina a fazer o bem para ser bem recompensado e vice-versa. Os destinos dos personagens são diversos e apresentam a vida como uma sucessão de eventos que tendem a seguir um caminho totalmente diferente do que se veria em narrativas mais convencionais e arquetípicas sobre causa e efeito. Aqui todos são vítimas, sejam culpados ou não por seus atos. É a fatalidade que, em suma, norteia o fim da história.
Garota Sombria Caminha pela Noite seduz com sua estranheza
Um filme de terror falado em persa e com vampira iraniana, eis a singularidade de “Garota Sombria Caminha pela Noite”, que além de tudo é dirigido por uma mulher, Ana Lily Amirpour, em belíssimo preto e branco. A curiosidade que isso desperta já é meio caminho para o culto, realmente conquistado pelo longa, mesmo que, na verdade, Amirpour seja inglesa e que o filme tenha sido totalmente produzido nos Estados Unidos. Apesar da carreira indie americana, lançado no Festival de Sundance e premiado com o Gotham Awards, “Garota Sombria” tem inegável espírito estrangeiro, com uma estranheza que impregna cada cena. A combinação de diferentes culturas é registrada na beleza plástica de sua fotografia, mas também num andamento narrativo irregular, que se excede e se arrasta em determinados instantes, como um filme de arte – lembra a fase em preto e branco de Jim Jarmusch. Nada disso, porém, prejudica o desenvolvimento final, que é bastante satisfatório, dentro de uma história, de fato, muito simples. Pela trama simples, desfilam alguns personagens que vivem uma vida desolada em Bad City, cidade de pesadelo em que o lixão (um buraco) serve para o despejo de cadáveres humanos. O traficante da cidade representa o que há de pior naquele lugar, e em contraste permite que a vampira, apesar de fazer suas vítimas, mostre-se menos cruel. Ela tem uma moral própria, dando preferência àqueles que “merecem” ter seu sangue sugado. Claro que o traficante canalha é um deles. Por isso, a cena do encontro dos dois é um dos pontos altos do filme. A moça que interpreta a vampira, Sheila Vand (de “Argo”), é, além de atraente, muito boa no papel. Algo, porém, se destaca sem que ela precise expressar. Sua predileção por camiseta listrada e calças esportivas ilustram uma clara identidade juvenil. Entretanto, quando vai matar, isso se esconde sob um véu, que cobre todo o seu corpo como uma jovem muçulmana tradicional. O detalhe é que o figurino se mescla com as sombras de forma deliberada. A capa preta tem sido uma imagem expressionista potente, que acompanha os vampiros desde o cinema mudo, mas, ao se transformar em véu, assume uma carga inédita de terror, relacionando a submissão religiosa ao surgimento de algo maligno. Eis mais um ponto positivo deste trabalho único, cujas qualidades vão além do mero gostar ou não gostar. Isso porque “Garota Sombria” é um filme com mais estética que conteúdo. Ou seja, interessa mais pela atmosfera e a beleza de suas imagens. E, nesse sentido, trata-se de uma obra cheia de acertos.
Nanni Moretti busca expiação com o tocante Mia Madre
O cinema de Nanni Moretti resiste à fraqueza da produção italiana atual, usando de sensibilidade para tratar de assuntos tão pessoais e ao mesmo tempo tão universais, como questões políticas e familiares. A política passa apenas de leve em “Mia Madre”, seu filme mais recente, mas as questões afetivas estão presentes com muita força na história. O filme segue uma cineasta que precisa lidar com a rotina difícil de sua profissão em um momento particularmente complicado de sua vida, em meio a uma separação e à doença de sua mãe, que se esvai aos poucos, internada em um hospital. Moretti já havia tratado a questão da perda de maneira até mais devastadora em “O Quarto do Filho” (2001). Por isso, é interessante que ele evite se repetir, abordando a perda de outro ente querido de forma mais distanciada – aqui, a protagonista é Margherita Buy e não o próprio cineasta, que interpreta um coadjuvante, o irmão da cineasta. “Mia Madre” é autobiográfico. O cineasta escreveu o roteiro enquanto sua mãe estava doente e ele filmava “Habemus Papam” (2011). E foi um acerto ele oferecer o papel principal para uma atriz com quem já havia trabalhado (em “Habemus Papam” e “O Crocodilo”), mantendo uma relativa distância. O seu personagem, o irmão companheiro Giovanni, talvez represente aquilo que ele gostaria de ter sido durante os últimos dias de vida da mãe: alguém que largou o emprego para ficar com ela. Por isso, o filme é também implacável, ainda que de maneira muito gentil, consigo mesmo, ou seja, com a protagonista, que é alguém que não dá a devida atenção às pessoas próximas a ela. Entretanto, é muita coisa para essa personagem processar e o ar sereno de Margherita passa sempre a impressão de que se trata de uma pessoa quase isenta de culpas. O estado de confusão mental da protagonista também é muito bem explorado por Moretti, que mistura sonho e realidade na tela, como na cena em que o apartamento de Margherita fica cheio de água, como se simbolizasse um transbordar de emoções que ela não consegue mais segurar. Mas tudo é muito bem conduzido e o filme flui como um belo e tranquilo rio. A presença de uma canção do Leonard Cohen (“Famous Blue Raincoat”) em uma dessas cenas oníricas é especialmente bela. E o final é tão delicadamente lindo, prestando tributo à personagem do título, que condensa uma obra de muito bom gosto. De fato, toda a história é bem conduzida, desde a relação conturbada de Margherita (a personagem tem o mesmo nome da atriz) com um ator americano (John Turturro, de “Amante a Domicílio”), passando pelas visitas ao hospital, até o relacionamento distante com a filha adolescente. O filme de Moretti é tão carregado de amor e suavidade, que parece ter sido feito para permitir ao diretor perdoar a si mesmo. E isso faz muito bem ao coração do espectador, também.
Califórnia revive com graça e emoção a adolescência da geração dos anos 1980
“Califórnia”, que marca a estreia de Marina Person como diretora de ficção, sintetiza muito bem os anos 1980, década que foi um misto de alegria e colorido com algo de soturno e bem depressivo (inclusive com a chegada da Aids). A disparidade da música da época é bem representativa dessa bipolaridade. Por isso, a trilha é tão importante neste filme, em especial o destaque dado à banda The Cure, que, além de comparecer com duas faixas (em momentos bem especiais), ainda inspira um personagem muito importante que se veste um pouco como o seu ídolo Robert Smith – e é o esquisitão da escola. The Cure se caracterizava por alternar canções depressivas com outras extremamente alegres em seus discos. Do lado brasileiro, temos os Titãs, que comparecem também com esses dois lados da moeda: toca a alegre “Sonífera Ilha” e a versão acústica e noventista de “Não Vou Me Adaptar”. E tem o cantor Paulo Miklos (“Carrossel – o Filme”) presente, no papel de pai da protagonista Estela (a estreante Clara Gallo), uma moça cujo sonho maior é viajar para a Califórnia, lugar onde seu tio Carlos (Caio Blat, de “Alemão”) mora. Ele trabalha escrevendo sobre música pop, outra das paixões de Estela, que, ainda novinha, descobrindo a vida, é fã de David Bowie. O filme começa no dia de sua primeira menstruação. A sexualidade, como é natural, é algo muito importante para ela e para as amigas, que falam sobre os romances com os meninos. Assim, enquanto a viagem para a Califórnia não chega, Estela tem uma queda por um rapaz da escola e vê nele o sujeito ideal para tirar a sua virgindade. As coisas não saem muito bem como ela quer, assim como a viagem para a Califórnia, que é adiada pela chegada-surpresa do tio Carlos, visivelmente abatido e sem expectativa de retornar para os Estados Unidos. Sim, o filme também trata da Aids e de como ela trouxe consigo inúmeras tragédias familiares. A aproximação e o amor de Estela pelo tio são bastante evidenciados e há um momento em especial que é bem emocionante: a cena do restaurante, quando os dois estão sós. Estela nada sabe do grave problema do tio e os espectadores se tornam cúmplices daquele momento de nó na garganta, numa idade em que todos os sentimentos são potencializados. E que bom que o filme consegue potencializá-los, pois o público ganha com isso, com a paixão que aqueles personagens têm pela música, em especial pelo rock daquela época. Assim, há cenas em loja de discos, na casa cheia de discos (e livros e quadrinhos) do novo amigo que Estela conhece na escola (Caio Horowicz, da série “Família Imperial”), personagem que a apresenta a livros e discos que considera importantes, talvez até sem saber o quanto isso contribuísse para sua formação. Claro que acaba surgindo algo além da amizade entre os dois, algo esperado pela estrutura da narrativa. O que não quer dizer que não tenhamos uma sucessão de pequenas surpresas ao longo da jornada de autoconhecimento de Estela. Uma jornada que contará com corações partidos, um parente querido muito doente e a sublimação pela arte, não apenas como válvula de escape, mas como descoberta da própria identidade e razão de viver. Embora Marina Person tenha dito que não se trata de um filme autobiográfico, é inevitável imaginá-la ali, guiando o público por um túnel do tempo que, ora é visto com certo distanciamento, ora experimentado como uma imersão na adolescência de sua geração. Quam já foi jovem sabe o quanto é perturbador ter tanta energia, ter o mundo inteiro pela frente e não ter a menor ideia de como agir, seja na vida amorosa, seja na construção de seu futuro. A vida é cheia de coisas lindas como a arte e o amor, que convivem ao lado de tragédias e tristezas. Essa é a graça, na verdade, e por isso às vezes é necessário que um filme como “Califórnia” nos ajude a lembrar disso.
O Presente transcende os filmes de psicopata com suspense convincente
Quando muitos já estão fechando suas listas de melhores do ano, ainda é possível encontrar surpresas no circuito, como este “O Presente”, primeiro longa dirigido pelo ator Joel Edgerton (“Aliança do Crime”), que já vinha desenvolvendo uma carreira paralela como roteirista – são dele as histórias de “Felony” (2013) e “The Rover – A Caçada” (2014). Ele também escreveu a trama deste “O Presente”, que a princípio parece muito simples, mas ao poucos se revela ambiciosa. Edgerton tece a história e conduz a tensão de forma primorosa. Na trama, Rebecca Hall (“Transcendence”) e Jason Bateman (“Quero Matar Meu Chefe”) são Robyn e Simon, um jovem casal de mudança para uma cidade nova que é reconhecido por um estranho, Gordon (o próprio Edgerton), um sujeito que já foi colega de escola de Simon, embora este demore a lembrar-se neste encontro. Gordon, ou Gordo, como era conhecido na escola, descobre facilmente onde o casal mora e passa a dar-lhes presentes e a visitá-los, embora fique no ar uma sensação de desconforto com sua presença. A primeira metade de “O Presente” lembra “Pacto Sinistro” (1951), de Alfred Hitchcock, por apresentar um personagem estranho e que ameaça a paz do casal. Mas nem tudo é preto no branco, como veremos mais adiante, já que a Robyn sofreu recentemente algo parecido com um colapso nervoso, e Simon não é um exemplo de homem íntegro e bondoso. Na verdade, sem querer entregar muito da trama e já entregando um pouco, um dos grandes méritos de “O Presente” é também lidar com um assunto que vem sendo discutido bastante atualmente, a questão do bullying, e no quanto isto é capaz de mexer com a cabeça de alguém. Isso faz com que o trabalho de Edgerton transcenda o tradicional filme de psicopata, trazendo tons de cinza para os personagens. Por outro lado, esse detalhe não seria suficiente se “O Presente” não deixasse o público tenso, assustado e se segurando na cadeira em vários momentos, com uma construção atmosférica que o qualifica como um dos melhores suspenses da atualidade. A escolha do elenco também foi muito acertada. Jason Bateman, embora mais conhecido por suas comédias, é capaz de transmitir o ar de quem não inspira confiança, assim como Rebecca Hall, a mulher bela, adorável e psicologicamente frágil da trama. Ambos combinam perfeitamente com os papéis. Mas é Edgerton quem toca o terror, literalmente, manifestando fisicamente a tensão evocada por seu roteiro e direção competentes.
Tudo o que Aprendemos Juntos é filme “do bem” com fórmula hollywoodiana
Na melhor tradição do chamado “filme de professor”, que já rendeu exemplares comoventes como “Sociedade dos Poetas Mortos” (1989), “Mr. Holland – Adorável Professor” (1995), “Entre os Muros da Escola” (2009), “O Que Traz Boas Novas” (2011) e especialmente “Música do Coração” (1997), pela temática musical, “Tudo Que Aprendemos Juntos” é um “filme do bem”, que conta a história real da formação da Orquestra Sinfônica Heliópolis, bem-sucedido trabalho de jovens da periferia de São Paulo que contou com a ajuda de um músico exigente. Dirigido por Sérgio Machado (“Cidade Baixa”), o filme enfatiza o drama de Laerte (Lázaro Ramos, de “O Vendedor de Passados”), um jovem e dedicado violinista baiano que está em na capital paulista com fins mais ambiciosos, visando entrar para a Osesp – Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Logo no começo do filme, vemos o seu estado de completo nervosismo e travamento na hora de se apresentar em uma audição. Vencido pelo medo e frustrado por também não estar conseguindo dinheiro para se manter adequadamente e ainda ajudar a família na Bahia, Laerte aceita trabalhar como professor de uma pequena orquestra bem desafinada de uma escola da periferia. Demora um pouco para ele perceber as dificuldades e os dramas daqueles jovens, bem como se habituar ao encontro nada agradável com os traficantes do local, mas aos poucos aquela missão passa a motivá-lo mais do que o seu sonho de entrar na Osesp. “Tudo Que Aprendemos Juntos” carrega um bocado no melodrama, seguindo a cartilha hollywoodiana das histórias de superação, que se manifestam por meio do relacionamento de respeito e amizade entre um professor de bom coração e seus alunos carentes. Neste sentido, busca um registro mais acessível e popular que os trabalhos anteriores de Machado, como “Cidade Baixa” (2005), “Quincas Berro D’Água” (2010) e “A Coleção Invisível” (2012), mais sofisticados em sua dramaturgia e direção. Até a escolha das músicas eruditas, especialmente a seleção de Bach e Vivaldi, ajuda a carregar nas notas sentimentais. O filme, porém, permite um registro quase documental em algumas cenas, como a briga de duas alunas no primeiro dia de aula, capaz de comover, sem manipular, qualquer profissional da educação, tristemente familiarizado com a situação. Vale destacar ainda que Lázaro Ramos faz um trabalho correto, mas é facilmente eclipsado em cena por alguns dos jovens atores que compõem a orquestra da escola, seja o rapaz que tem uma sensibilidade especial para a música, seja o garoto-problema que alcança a superação depois de uma tragédia. É com eles que o filme ganha em emoção, justificando o voto do público que o elegeu melhor filme brasileiro da última Mostra de São Paulo.
As Memórias de Marnie emociona com sensibilidade sobrenatural
Não fosse a marca forte e de qualidade dos estúdios Ghibli, “As Memórias de Marnie” talvez não tivesse a boa recepção internacional que merecidamente teve. Afinal, não é assinado por Hayao Miyazaki e Isao Takahata, os dois nomes mais conhecidos do estúdio. Mas o filme de Hiromasa Yonebayashi é um primor em sua história sobre solidão, amizade e relações familiares, aliado a um crescente e instigante clima de mistério. O contexto é muito comum à cultura japonesa, que lida com o próximo de uma maneira mais distanciada, enquanto, paradoxalmente, imagina os espíritos com formas físicas, como comprovam obras referenciais do J-horror, como “Contos da Lua Vaga” (1953), de Kenji Mizoguchi, e “Kwaidan – As Quatro Faces do Medo” (1964), de Masaki Kobayashi. Não que “As Memórias de Marnie” se enquadre exatamente nessa categoria, embora a tangencie (os momentos que aproximam a animação de um horror gótico lembram, inclusive, certas produções do gênero da velha Hollywood). A animação deixa claro, desde o início, que há algo de estranho na garotinha loira que mora em uma mansão abandonada. O lugar só pode ser acessado quando a maré está baixa ou via barco. E essa dificuldade cria um objeto de fascinação para a solitária Anna. Quando ela visita a mansão pela primeira vez, logo percebe que o lugar está abandonado. Mas vê que as luzes estão acesas. E finalmente tem a primeira visão e contato com a nova amiga. Há nuances nesse relacionamento que permitem imaginar que a atração entre as duas é mais que amizade, uma espécie de amor romântico, graças a detalhes como a forma como tocam suas mãos num barco, o momento em que Anna a convida para sua casa e a cena da dança na festa patrocinada pelos pais aristocratas de Marnie. O que as torna íntimas é a solidão que ambas sentem. As duas são órfãs e, por meio de suas conversas e flashbacks, os encontros viram confidências, aproximando-as também do espectador. Embora ameace cair no melodrama, “As Memórias de Marnie” se contém, evitando a manipulação ao atingir seu pico emocional, lá pelo finalzinho, quando o filme revela seu verdadeiro tema, a autodescoberta. E quando também, junto com Anna, o espectador finalmente descobre quem de fato é Marnie. Belo e sensível, “As Memórias de Marnie” foi indicado ao Oscar 2016 na categoria de Melhor Animação.
M. Night Shyamalan volta ao terror e à boa forma com A Visita
Quem aprecia o cinema de M. Night Shyamalan certamente torcia por sua volta por cima, após o diretor trocar o terror pelos massacrados “O Último Mestre do Ar” (2010) e “Depois da Terra” (2013). Lembrar desses dois filmes até sugere que o novo “A Visita” não é apenas o retorno de Shyamalan ao gênero que o consagrou, mas também parece integrar uma espécie de trilogia com os anteriores. Afinal, os três longas usam o ponto de vista de crianças e tratam, em sua construção narrativa, de questões similares, como o apego e desapego, a necessidade impositiva de crescer diante das adversidades e lidar com relacionamentos desde muito cedo. Portanto, é interessante ver que os trabalhos do diretor são coerentes, por mais que seja tentador enxergar apenas os aspectos negativos. Embora tenha recebido críticas mais animadas, “A Visita” não repete a unanimidade gerada pelos primeiros filmes do diretor, e é até fácil entender o porquê. Shyamalan utiliza o já manjado recurso do “found footage” para contar a história de dois irmãos, que são enviados pela mãe para passar uns dias na casa dos avós que eles não conheciam. Aos poucos, eles vão percebendo um comportamento muito estranho no casal de idosos. Acontece que, apesar de haver um ou dois momentos que remetem à franquia “Atividade Paranormal”, o cineasta vai por um caminho bem diferente, referenciando fábulas, evitando sustos gratuitos e usando seu tradicional cuidado com os enquadramentos, mesmo aderindo à estética da câmera amadora na mão. O que dizer da beleza de uma das cenas finais, envolvendo as crianças e a mãe? Nesse momento, “A Visita” atinge uma qualidade catártica de arrepiar, isso depois das sequências que encerram a questão dos velhinhos sinistros, que nem deve ser contada aqui, sob o risco de estragar as surpresas. Quem lembra dos requintados trabalhos de construção visual que o diretor fez em filmes como “Sexto Sentido” (1999), “A Vila” (2004) e “A Dama na Água” (2006), percebe que ele filma como um pintor, além de usar o cinema de gênero para tratar de assuntos recorrentes, suas obsessões pessoais. Não é muito diferente em “A Visita”, que, na verdade, é uma obra híbrida. Algumas vezes, não sabemos se estamos vendo uma comédia ou um filme que se leva a sério. Noutras, há uma tentativa de tratar dos problemas pessoais dos jovens personagens com uma seriedade dramática que soa deslocada da narrativa, por mais que isso contribua, até positivamente, para a estranheza pretendida. Talvez seja mais fácil definir “A Visita” como um terror que permite sair do cinema com um sorriso nos lábios, especialmente depois da divertida cena final, de uma simpatia impressionante. É Shyamalan voltando à boa forma, em uma produção de baixo orçamento, e se reafirmando como grande autor que é.
Mistress America é mais uma boa parceria entre a atriz e o diretor de Frances Ha
O novo filme de Noah Baumbach é mais um exemplo do quanto ele parece deixar nas mãos de Greta Gerwig o peso (ou seria a leveza?) de seu trabalho. Os dois fizeram juntos o roteiro de “Mistress America” (2015) com um fiapo de enredo, mas tudo parece ser improvisado, com a passagem na casa de Mamie-Claire (Heather Lind) evocando a adaptação de uma peça teatral maluca. Em certo momento do filme, Tracy, a jovem de 18 anos interpretada por Lola Kirke, reclama ao telefone com a mãe, dizendo que estar em Nova York, lugar onde foi estudar na faculdade, é como estar em uma festa o tempo inteiro. Com a diferença que é uma festa em que você está o tempo todo se sentindo sozinho, deslocado. E é fácil compreender esse sentimento. Muitas pessoas, tímidas ou não, já passaram por isso. A situação muda para Tracy quando ela entra em contato com sua futura irmã postiça. Isto é, o pai da jovem vai se casar com sua mãe. Trata-se de Brooke, a personagem de Greta Gerwig, que já está perto dos 30 anos. Acontece que Tracy ama Brooke, acha-a a mulher mais divertida que já conheceu e, dentro de sua curta vida, passou sua noite mais divertida com ela em uma festa. Brooke sabe se divertir como ninguém, tem uma atitude prática (não parece ligar para faculdade ou coisa do tipo) e está planejando montar um restaurante com o namorado. Tracy acaba aproveitando bastante dessa personalidade sem igual de Brooke para se inspirar e escrever um conto, visando concorrer num clube de leitura pela possibilidade de ser publicado em um livro com outros vários jovens escritores. A vida real, afinal, é tantas vezes objeto de inspiração para a construção de obras fantásticas, não é mesmo? “Mistress America” tem um estilo despojado de narrar a sua história, importando-se mais em tecer as personalidades de suas protagonistas. Brooke e Tracy não chegam a ser opostas. Brooke contém traços de personalidade que Tracy gostaria de ter para si, mas ao mesmo tempo Tracy se sente bastante confiante no que ela é e no que é capaz de construir para sua vida, tendo 12 anos a menos que Brooke. Já Brooke esconde muito de suas inseguranças em uma personalidade aparentemente forte, mas as fragilidades começam a vir à tona e a amiga e quase irmã faz questão de estar ali para lhe dar apoio moral. Se “Mistress America” é melhor ou não que “Frances Ha” (2012), isso talvez não seja tão importante. São filmes com propostas diferentes – o anterior tem maior influência da nouvelle vague – , mas a verdade é que ambos se beneficiam bastante da presença de Greta Gerwig, tão encantadora que não chega a ser exatamente eclipsada por Lola Kirke, que também é linda e brilhante. Um talento que havia sido revelado por David Fincher em “Garota Exemplar” (2014). O fato é que ambas as personagens se tornam ainda mais adoráveis quando expõem os seus defeitos e suas fragilidades, como se convidassem o espectador para um abraço, embora vivendo em um mundo que parece frio demais para carinhos desse tipo.












