
Instagram/Richarlison
União suspeita de fraude na transferência de ilha disputada por Richarlison e aliado de Flávio
Autorização foi concedida em apenas 100 minutos durante o governo Bolsonaro, levantando suspeitas da Polícia Federal e CGU
União identifica irregularidades em transferência
A Secretaria do Patrimônio da União (SPU) identificou indícios de irregularidades na transferência dos direitos de ocupação da mansão de R$ 10 milhões disputada pelo jogador Richarlison e pelo advogado Willer Tomaz, amigo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) numa ilha de Angra dos Reis (RJ). O órgão federal questiona a rapidez da operação, autorizada em apenas 1 hora e 40 minutos em julho de 2022, durante o governo Jair Bolsonaro. A documentação foi encaminhada à Polícia Federal (PF) e à Controladoria-Geral da União (CGU) para apuração.
Autorização saiu em tempo recorde
A transferência foi solicitada às 11h33 de 11 de julho de 2022 pela empresa que negociou os direitos de ocupação da mansão na Ilha Comprida, com a WT Administração de Imóveis e Bens, ligada a Willer Tomaz. Às 13h13 do mesmo dia, a SPU já havia emitido a Certidão de Autorização para Transferência (CAT), documento necessário para efetivar a operação.
A atual administração da secretaria destacou a “celeridade” do procedimento e identificou outra circunstância incomum: a certidão foi produzida manualmente. A empresa solicitante alegou que o sistema eletrônico apresentava problemas e pediu a emissão excepcional do documento.
A SPU também encontrou inconsistências na documentação usada para justificar a autorização. A certidão teria sido respaldada por uma decisão judicial numa ação de reintegração de posse contra a empresa de Richarlison, mas a íntegra dos autos não foi anexada ao processo administrativo.
Polícia Federal e CGU recebem documentos
Diante das suspeitas, a secretaria encaminhou o material à CGU para “avaliação da regularidade e da integridade dos procedimentos” e à Polícia Federal para investigação. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) também foi acionado para verificar denúncias de possíveis crimes ambientais na propriedade.
A apuração administrativa começou após uma representação do deputado federal Rogério Correia (PT-MG), que pediu esclarecimentos sobre a transferência dos direitos de ocupação.
Richarlison denunciou tomada da ilha
Richarlison afirma ter comprado os direitos sobre a mansão em 2020, por R$ 10 milhões, numa sociedade com Alencar da Silveira Júnior, ex-presidente do América-MG, e Renato Velasco, seu antigo empresário. Segundo o jogador do Tottenham, a negociação foi realizada com ocupantes que viviam na área havia décadas.
Em setembro de 2021, a Sport 70, empresa ligada ao atleta, protocolou um pedido de regularização na SPU. O procedimento, entretanto, não foi concluído. No ano seguinte, a autorização administrativa foi concedida à empresa de Willer Tomaz.
O jogador acusa o advogado e Flávio Bolsonaro de terem atuado para retirar seus direitos sobre a propriedade depois que recusou uma proposta de compra apresentada pelo senador.
“Eu não quis vender a ilha para ele. Como não quis, os caras pegaram na mão grande lá na Justiça”, afirmou Richarlison em vídeo publicado em outubro.
Na ocasião, o atacante questionou a diferença de tratamento entre seu pedido de regularização, que permaneceu sem solução por meses, e a rapidez com que a transferência para a empresa de Willer foi autorizada. Posteriormente, apresentou contratos e documentos judiciais que, segundo ele, comprovam a legitimidade de sua aquisição.
Flávio enviou acordo privado ao jogador
A participação de Flávio Bolsonaro na disputa ganhou novos contornos após o UOL revelar mensagens enviadas pelo senador a Richarlison em julho de 2026. O parlamentar encaminhou trechos de um acordo privado firmado entre uma empresa de Willer Tomaz e Renato Velasco, ex-empresário do jogador, que teria encerrado a disputa judicial pela propriedade.
Nas mensagens, Flávio também pediu que Richarlison divulgasse uma nota pública para afastar seu nome do caso.
A Polícia Federal decidiu incluir a disputa pela mansão no inquérito que investiga as relações entre o senador e Willer Tomaz, após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva solicitar providências em outubro.
Willer sustenta que adquiriu legalmente os direitos sobre o imóvel de uma empresa que já possuía registro na SPU. Ele contesta a documentação apresentada por Richarlison e afirma que os antigos ocupantes não tinham legitimidade para negociar a propriedade.
STF bloqueou mansão em investigação sobre apostas
A mansão também foi atingida por uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), em 23 de outubro. O magistrado determinou a indisponibilidade de R$ 6 bilhões em bens de Willer Tomaz, incluindo imóveis, embarcações e aeronaves, no âmbito de uma investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas ao mercado de apostas.
O bloqueio já foi registrado na documentação da propriedade em Angra dos Reis, o que impede sua negociação até nova determinação judicial.
Além da mansão disputada por Richarlison, Willer possui outras cinco residências em ilhas de Angra dos Reis, segundo levantamento publicado pelo g1. A maioria foi adquirida entre 2021 e 2022, período que coincide com a transferência questionada pela SPU.
Aberto para posicionamentos
Procurado pela reportagem do RJ2, da TV Globo, Willer Tomaz informou que não comentaria as novas suspeitas. Flávio Bolsonaro não respondeu aos contatos da emissora.
O espaço segue aberto para posicionamentos, declarações e atualizações das partes citadas, que queiram responder, refutar ou acrescentar detalhes em relação ao que foi noticiado.