
Instagram/Nikolas Ferreira
Nikolas Ferreira condena boicote a Jorge & Mateus após incentivar boicote a artistas de esquerda
Deputado critica cancelamentos em Fortaleza e Recife, cinco dias depois de defender retaliação econômica contra apoiadores de Lula
Deputado muda discurso sobre boicotes
Pimenta nos olhos dos outros. Nikolas Ferreira (PL-MG) condenou nesta quarta-feira (4/11) o cancelamento dos shows de Jorge & Mateus nas festas de Réveillon de Fortaleza e Recife, após a repercussão do apoio do cantor Jorge à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL). O deputado federal classificou a exclusão dos sertanejos como intolerância política, cinco dias depois de incentivar boicotes contra artistas, influenciadores e empresários que votaram em Luiz Inácio Lula da Silva.
O que Nikolas disse sobre os cancelamentos?
Em manifestação nas redes sociais, Nikolas usou uma situação hipotética envolvendo a cantora Daniela Mercury para criticar as decisões dos prefeitos das duas capitais nordestinas.
“Já imaginou se a prefeitura, por exemplo, de Salvador decidisse cancelar os artistas de esquerda, sei lá, Daniela Mercury, para não poder mais cantar na virada de ano em Salvador? Seria um escândalo, né? Teria que tomar as manchetes aí e falar em censura e perseguição. Mas, como é do outro lado, aí está tudo bem”, afirmou.
Checagem e contradições
A comparação com Daniela Mercury ignora um antecedente na própria capital baiana. A cantora ficou fora de duas edições consecutivas do Festival Virada Salvador, após divergências com a administração do prefeito Bruno Reis (União Brasil). Em 2024, a prefeitura retirou o tradicional espetáculo “Pôr do Som” da programação oficial, após decidir encerrar a festa em 31 de dezembro. Daniela também não participou da edição seguinte, em 2025.
A crítica de Nikolas ainda contrasta com a posição defendida pelo próprio parlamentar em 30 de outubro, quando apoiou campanhas de boicote a empresas e personalidades identificadas com a esquerda. Na ocasião, Nikolas argumentou que os eleitores da direita não deveriam contribuir financeiramente com pessoas que, segundo ele, haviam insultado os apoiadores de Flávio Bolsonaro.
“Ora, nós temos o direito de escolher para onde que vai o nosso salário, que nada mais é do que o fruto do suado e sagrado trabalho de cada um”, declarou. A manifestação ocorreu em meio à circulação de listas de estabelecimentos identificados como simpatizantes de Lula e campanhas de retaliação econômica contra seus proprietários.
Recife também cancela show após pressão
A nova manifestação de Nikolas ocorreu depois que Jorge & Mateus perderam duas apresentações previstas para as festas de fim de ano no Nordeste. A primeira decisão partiu do prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão (PT), que anunciou na terça-feira (3/11) o cancelamento consensual do contrato da dupla. Ele afirmou que a controvérsia havia desviado a atenção do objetivo da celebração e que a contratação tinha sido negociada meses antes.
Horas depois, o prefeito do Recife, Victor Marques (PCdoB), também retirou os sertanejos da programação da Virada Recife 2027, na qual se apresentariam em 27 de dezembro, na Praia do Pina.
A decisão representou um recuo de Victor, que na segunda-feira (2/11) havia defendido a manutenção do show e citado o próprio presidente Lula para pedir respeito às divergências políticas. “O Brasil precisa superar as divisões e não aprofundá-las”, declarou naquela ocasião. O prefeito também afirmou que os palanques eleitorais já estavam desmontados.
Entretanto, diante da continuidade dos protestos, mudou de posição. “O final de ano é sempre um momento de união, unidade, fraternidade, de estar junto de quem a gente ama, de muito amor e também de renovação da esperança. E é justamente por esse motivo que não há mais clima para a apresentação da dupla Jorge e Mateus dentro da nossa programação”, anunciou.
As duas prefeituras informaram que os cachês seriam custeados por patrocinadores privados e que os cancelamentos não provocariam prejuízo aos cofres municipais. As administrações também não divulgaram os valores dos contratos.
Jorge se manifesta após perder os shows
A controvérsia começou depois que voltaram a circular imagens de um encontro de artistas sertanejos com Flávio Bolsonaro, realizado em 20 de outubro, em Nerópolis, Goiás. Durante a reunião, Jorge cantou uma versão de seu sucesso “Pode Chorar” com o verso “Pode chorar, mas eu não voto no PT”. Mateus não participou do evento.
Nesta quarta-feira, Jorge divulgou uma nota individual para negar declarações ofensivas ao Nordeste que passaram a ser atribuídas a ele nas redes sociais.
“Nunca fiz essas declarações e jamais me referiria dessa forma a uma região pela qual tenho tanto carinho, admiração e respeito”, afirmou o cantor. Ele destacou que o posicionamento político era exclusivamente seu e não deveria ser associado ao parceiro de dupla.
“Respeito as diferentes opiniões e acredito que, acima de qualquer divergência, devem prevalecer o diálogo, a empatia e o respeito”, acrescentou.
As prefeituras de Fortaleza e Recife também negaram que supostas ofensas aos nordestinos tenham motivado os cancelamentos. Segundo as administrações, as decisões decorreram da rejeição às contratações e da repercussão política nas redes sociais.