
Divulgação/Reaction/Parasol
Morre o guitarrista Richard Lloyd, cofundador do Television
Músico ajudou a definir o som do pós-punk com as guitarras de "Marquee Moon", um dos discos mais influentes da história do rock
Morte aos 75 anos
Richard Lloyd, guitarrista e cofundador da Television, uma das bandas mais influentes do punk nova-iorquino, morreu neste sábado (7/11), aos 75 anos. Conhecido pela parceria com Tom Verlaine no álbum “Marquee Moon” (1977), Lloyd ajudou a desenvolver uma linguagem de guitarra que antecipou o pós-punk e influenciou gerações de músicos do rock alternativo.
Câncer provocou internações e dificuldades financeiras
O músico faleceu em sua casa em Chattanooga, no Tennessee, em consequência de um colangiocarcinoma, câncer dos ductos biliares. Lloyd havia tornado pública a doença em agosto, quando seu baixista e amigo Sean Seymour organizou uma campanha de arrecadação para custear o tratamento. O músico enfrentava tumores no fígado, incluindo um localizado tão próximo de um importante vaso sanguíneo que sua remoção cirúrgica foi considerada arriscada. Desde o diagnóstico, havia passado sete vezes pela unidade de terapia intensiva, enfrentado dois episódios de sepse e apresentado complicações nos rins e no fígado.
A doença também o impediu de continuar fazendo shows, sua principal fonte de renda. Sheila interrompeu suas atividades profissionais para cuidar do marido, e o casal passou a enfrentar dificuldades para pagar despesas médicas e domésticas. A campanha tinha meta de US$ 80 mil e recebeu apoio de músicos e admiradores, incluindo Patti Smith, que contribuiu com US$ 5 mil. Na ocasião, Lloyd declarou que procurava manter o otimismo, mas reconheceu que a situação financeira havia se tornado insustentável sem ajuda.
Do fascínio pelos Beatles à formação da Television
Richard Lloyd nasceu em 25 de outubro de 1951, em Pittsburgh, na Pensilvânia, mas cresceu principalmente em Nova York. Começou seus estudos musicais pela bateria e decidiu aprender guitarra depois de assistir aos Beatles no programa de Ed Sullivan, em 1964. Na adolescência, aproximou-se do guitarrista Velvert Turner, conhecido por sua ligação com Jimi Hendrix, e absorveu influências que iam do blues de John Lee Hooker ao rock de Jeff Beck, The Who e Led Zeppelin.
Depois de passar por Boston e Los Angeles, voltou a Nova York em 1973, atraído pela cena musical que começava a se formar em torno dos New York Dolls. Por intermédio de Terry Ork, que trabalhava no ambiente artístico ligado à Factory de Andy Warhol, conheceu Tom Verlaine, Richard Hell e Billy Ficca. Os três integravam os Neon Boys, grupo que deu origem à Television com a entrada de Lloyd como 2º guitarrista. A estreia da nova formação aconteceu em março de 1974, num pequeno teatro de Manhattan, com televisores espalhados pelo palco.
Pouco depois, a banda conseguiu espaço regular no CBGB, bar do Bowery que inicialmente pretendia apresentar country, bluegrass e blues. As apresentações da Television ajudaram a transformar o local no principal endereço do punk americano, que também abrigaria os Ramones, Blondie, Talking Heads e Patti Smith. Enquanto muitos grupos apostavam em músicas rápidas e estruturas simples, Television desenvolvia composições longas, arranjos elaborados e passagens instrumentais próximas do jazz e do rock experimental.
Marquee Moon transformou o rock
Em 1975, Richard Hell deixou o Television e foi substituído por Fred Smith, ex-baixista do Blondie. Com Billy Ficca na bateria, o quarteto encontrou sua formação clássica. O primeiro lançamento foi o compacto independente “Little Johnny Jewel”, dividido em duas partes, que chamou atenção para a banda fora de Nova York. Depois de gravar uma fita de demonstração produzida por Brian Eno, ex-Roxy Music e futuro produtor do U2, o grupo assinou contrato com a Elektra Records em 1976.
O primeiro álbum, “Marquee Moon”, chegou às lojas em fevereiro de 1977 e tornou-se um marco do rock americano. Produzido por Tom Verlaine e Andy Johns, o disco combinava a urgência do punk com a dissonância do Velvet Underground, linhas melódicas entrelaçadas e improvisações que fugiam dos padrões do rock comercial. Lloyd não era apenas um acompanhante do vocalista: seus riffs, acordes e solos formavam uma segunda voz instrumental, que dialogava constantemente com a guitarra de Verlaine. A distinção entre os dois músicos era fundamental para o som do grupo e o diálogo de suas guitarras mudou tudo o que veio depois.
Na faixa-título, com aproximadamente dez minutos de duração, Lloyd executa o primeiro solo, depois do 2º refrão, antes de Verlaine assumir uma improvisação mais extensa. Os créditos do disco também identificam solos de Lloyd em “See No Evil” e “Elevation”, além de sua participação na composição de “Guiding Light”, única música do álbum assinada pelos dois guitarristas. As partes foram gravadas sem pedais de efeitos, com guitarras ligadas diretamente aos amplificadores. Lloyd também utilizou a sobreposição de gravações idênticas de seus próprios arranjos para ampliar a sonoridade.
Disco tornou-se referência do pós-punk
“Marquee Moon” recebeu reconhecimento imediato da imprensa musical. Terminou 1977 no 3º lugar da votação anual Pazz & Jop, organizada pelo jornal Village Voice, e alcançou o 28º lugar na parada britânica de álbuns. Nos Estados Unidos, entretanto, não conseguiu entrar na Billboard 200. A distância entre a repercussão crítica e as vendas refletia o caráter pouco comercial de uma banda que não se encaixava inteiramente nem no punk nem no rock progressivo.
A importância do disco cresceu nas décadas seguintes. A combinação entre as guitarras de Lloyd e Verlaine tornou-se referência para o pós-punk britânico e para o rock independente americano, com influência reconhecida em bandas como Gang of Four, Wire, Echo & the Bunnymen, Siouxsie & the Banshees, The Replacements, Galaxy 500, R.E.M., Sonic Youth, Pixies, Interpol e The Strokes. O álbum ocupa o 107º lugar na lista dos 500 melhores discos de todos os tempos da Rolling Stone, publicada em 2020.
Television lançou seu 2º álbum, “Adventure”, em abril de 1978. Embora mais melódico e menos abrasivo que o anterior, o trabalho preservava a interação entre os guitarristas em músicas como “Glory”, “Foxhole” e “Days”. O disco também recebeu avaliações positivas, mas não alcançou o sucesso comercial esperado. Conflitos internos, diferenças criativas e os problemas de Lloyd com drogas contribuíram para a dissolução do grupo poucos meses depois.
Carreira solo rendeu vários discos
Lloyd lançou seu primeiro disco solo, “Alchemy”, em 1979, pela Elektra. Diferentemente das composições mais angulares da Television, o trabalho investia em melodias acessíveis e canções de rock com influências do power pop. Ele assumiu os vocais e recebeu o apoio de músicos da cena nova-iorquina, incluindo Fred Smith, seu antigo parceiro de banda, e James Mastro, que depois integraria os Bongos. A faixa-título conquistou espaço em rádios alternativas, mas o álbum teve vendas modestas.
A carreira foi prejudicada por problemas com drogas, que o afastaram temporariamente da atividade musical. Após recuperar-se, voltou a gravar na metade dos anos 1980. O excelente álbum “Field of Fire”, lançado inicialmente na Europa em 1985 e distribuído posteriormente nos Estados Unidos, marcou seu retorno com uma abordagem mais agressiva da guitarra e composições entre o punk e a new wave. Em 1987, lançou “Real Time”, disco ao vivo registrado no CBGB, que reunia músicas solo e canções da Television.
Nos anos seguintes, Lloyd passou a trabalhar intensamente como guitarrista convidado. Participou de “Meet John Doe” (1990), estreia solo do cantor da banda punk X, e teve papel importante na carreira de Matthew Sweet. Suas guitarras aparecem em “Girlfriend” (1991), de Sweet, um dos principais discos do power pop americano dos anos 1990, além de “Altered Beast” (1993) e “100% Fun” (1995). A parceria ajudou a apresentar sua técnica a uma geração que não havia acompanhado a Television nos anos 1970.
Retorno da Television e despedida em 2007
O Television voltou a se reunir em 1992, quando Lloyd, Verlaine, Fred Smith e Billy Ficca gravaram um terceiro álbum, intitulado apenas “Television”. O disco apresentou composições como “1880 or So” e “Call Mr. Lee”, que preservavam a interação entre as guitarras, agora com uma sonoridade mais contida. O grupo retomou as apresentações ao vivo e passou a realizar reuniões esporádicas durante os anos seguintes.
Lloyd também participou do retorno dos Rocket from the Tombs, grupo fundamental para a cena pré-punk de Cleveland que havia dado origem aos Dead Boys e ao Pere Ubu. A formação recuperou seu repertório em shows e gravações, incluindo o álbum “Rocket Redux” (2003). Paralelamente, o guitarrista continuou sua discografia com “The Cover Doesn’t Matter” (2001) e “The Radiant Monkey” (2007).
Em maio de 2007, anunciou sua saída definitiva da Television para concentrar-se na carreira solo. A decisão ocorreu às vésperas das comemorações dos 30 anos de “Marquee Moon”. Em entrevistas posteriores, Lloyd explicou que se sentia limitado pela resistência de Verlaine em gravar material novo com a banda. O relacionamento entre os dois sempre alternou admiração musical e disputas criativas. Lloyd foi substituído por Jimmy Rip, e a Television continuou a realizar shows sem lançar outro álbum de estúdio. Verlaine morreu em janeiro de 2023, aos 73 anos.
Últimos discos e autobiografia
Em 2009, Lloyd lançou “The Jamie Neverts Story”, homenagem a Jimi Hendrix que reunia interpretações de músicas associadas ao guitarrista. O título fazia referência ao nome de um músico fictício criado por Lloyd para explicar a origem de gravações de Hendrix que costumava tocar para amigos. A homenagem retomava uma influência presente desde sua adolescência.
O músico continuou a gravar durante a década seguinte, com “Lodestones”, lançado inicialmente em formato digital em 2010, e “Rosedale” (2016), no qual tocou a maior parte dos instrumentos e recebeu participações de Billy Ficca e Chris Frantz, ex-baterista do Talking Heads. Em 2017, publicou a autobiografia “Everything Is Combustible: Television, CBGB’s and Five Decades of Rock and Roll”, na qual relembrou a formação da cena punk de Nova York, as disputas internas da Television, seus problemas com drogas e os encontros com músicos como Jimi Hendrix e John Lee Hooker.
Seu último álbum solo foi “The Countdown”, lançado em outubro de 2018, com material gravado em Nashville. Além dos discos e apresentações com seu próprio grupo, Lloyd também se dedicou ao ensino de guitarra, oferecendo aulas presenciais e pela internet e escrevendo textos técnicos para publicações especializadas.
Músicas que marcaram a carreira