
Divulgação/SBT
Morre Nilton Travesso, um dos nomes mais importantes da TV brasileira, aos 92 anos
Diretor participou da fundação da Record e esteve por trás de programas históricos da Globo, além de novelas de sucesso da Manchete e do SBT
Morre Nilton Travesso aos 92 anos
Nilton Travesso, um dos principais diretores e produtores da história da televisão brasileira, morreu nesta sexta-feira (6/11), aos 92 anos. Ele estava internado desde o início da semana no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, com um quadro de infecção generalizada. O profissional, que participou da fundação da Record em 1953, acumulou mais de sete décadas de carreira e esteve por trás de programas históricos como “Jovem Guarda”, “Família Trapo”, “Fantástico” e “TV Mulher”, além de ajudar a estruturar a produção de novelas da Manchete e do SBT.
Problemas de saúde nos últimos anos
A morte foi confirmada pela equipe do diretor. Segundo a Folha de S. Paulo, ele enfrentava problemas de saúde havia cerca de cinco anos, período em que sofreu um acidente vascular cerebral (AVC), teve câncer na orelha e apresentou complicações cardíacas relacionadas à válvula mitral, além de episódios de derrame pleural. A revista Veja informou que a infecção generalizada foi a causa do falecimento.
Travesso deixa a esposa, Marilu Torres, os filhos Camila e Marcelo e cinco netos.
Carreira começou com a fundação da Record
Nascido em São Paulo em 20 de maio de 1934, Nilton Travesso começou a se interessar pelo entretenimento ainda jovem, quando frequentava apresentações de ópera no Theatro Municipal. Estudava cinema quando soube que Paulo Machado de Carvalho estava preparando o lançamento de uma emissora de televisão. Em 1953, aos 19 anos, candidatou-se a uma vaga de operador de câmera, foi aprovado e integrou a equipe que colocou a TV Record no ar.
Na emissora, permaneceu por 21 anos e acompanhou a transformação de um veículo ainda experimental em um dos principais meios de comunicação do país. Trabalhou com teleteatro, novelas e programas de variedades numa época em que a televisão era praticamente toda produzida ao vivo. Entre seus primeiros trabalhos estavam montagens do “Teatro Cacilda Becker”, novelas de Ivani Ribeiro e Roberto Freire e atrações comandadas por Silveira Sampaio, Jô Soares e Cidinha Campos.
Ao longo dos anos 1960, integrou a chamada Equipe A, grupo de produção da Record que reuniu Antônio Augusto Amaral de Carvalho, o Seu Tuta, Manoel Carlos e Raul Duarte. O núcleo ajudou a desenvolver uma programação que colocou a emissora paulista no centro da vida cultural brasileira, com programas musicais, humorísticos e grandes espetáculos.
De Elis Regina a Roberto Carlos
A Record viveu seu período de maior influência musical com programas que ajudaram a definir os rumos da MPB e do rock brasileiro. Travesso esteve na direção de “O Fino da Bossa”, comandado por Elis Regina e Jair Rodrigues, e de “Jovem Guarda”, que transformou Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa em fenômenos de popularidade. Também participou dos históricos Festivais de Música Popular Brasileira, responsáveis por revelar e consagrar compositores e intérpretes como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo e Geraldo Vandré. Travesso também dirigiu apresentações de artistas internacionais como Nat King Cole, Marlene Dietrich, Louis Armstrong e Charles Aznavour.
O diretor trabalhou ainda com Hebe Camargo, cuja carreira televisiva ajudou a consolidar, e esteve à frente de atrações como “Show do Dia 7”, “O Pequeno Mundo de Ronnie Von” e “Família Trapo”. Exibido entre 1967 e 1971, o humorístico reuniu Ronald Golias, Jô Soares, Renata Fronzi, Otelo Zeloni e Cidinha Campos, tornando-se uma das comédias de maior popularidade da televisão na época. A produção também ajudou a projetar Jô Soares como ator e humorista.
Fantástico e programas históricos da Globo
Travesso deixou a Record em 1974 para trabalhar na Globo, a convite de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. Participou da consolidação do formato colorido do “Fantástico”, lançado no ano anterior, e esteve envolvido em experiências pioneiras com a linguagem audiovisual. Entre elas, a produção de “América do Sul”, videoclipe de Ney Matogrosso exibido em 1975 e apontado como um dos primeiros trabalhos do gênero na televisão brasileira. Gravado em meio à vegetação, o número musical representou uma mudança em relação às apresentações convencionais realizadas dentro dos estúdios.
Nos anos seguintes, Travesso contribuiu para desenvolver a programação produzida pela Globo em São Paulo. Esteve ligado à criação de “TV Mulher”, lançado em 1980 com Marília Gabriela, Ney Gonçalves Dias e Marta Suplicy, programa que abriu espaço para discussões sobre sexualidade, comportamento, direitos das mulheres e assuntos pouco abordados pela televisão matinal da época.
Também participou da criação de “Som Brasil”, dedicado à música brasileira, e de “Balão Mágico”, atração infantil apresentada pela Turma do Balão Mágico que marcou a programação da emissora entre 1983 e 1986. Seu currículo na Globo incluiu ainda “Chico Anysio Show”, “Vídeo Show”, “Sinhá Moça”, “Direito de Amar” e, anos depois, o matinal “Mais Você”, de Ana Maria Braga, ampliando sua atuação entre entretenimento musical, dramaturgia e programas informativos.
Pantanal mudou a história da Manchete
Em 1987, Travesso transferiu-se para a Manchete, onde ajudou a estruturar o departamento de teledramaturgia ao lado de Jayme Monjardim. A emissora investiu numa linguagem visual mais cinematográfica e em produções que buscavam diferenciar-se das novelas tradicionais da Globo. Dessa estrutura surgiram trabalhos como “Kananga do Japão” (1989), “Pantanal” (1990) e “Ana Raio e Zé Trovão” (1990).
Escrita por Benedito Ruy Barbosa, “Pantanal” tornou-se o maior sucesso da história da Manchete e conseguiu disputar a liderança de audiência com a Globo. A novela destacou-se pela fotografia das paisagens naturais, pelo uso de locações no Pantanal e por uma narrativa que incorporava elementos do folclore e da cultura rural brasileira. O desempenho demonstrou a capacidade da emissora de produzir dramaturgia competitiva fora do modelo consolidado pela líder de audiência.
Revolução na dramaturgia do SBT
Travesso repetiu o trabalho de estruturação de um núcleo de novelas quando chegou ao SBT, em 1993. Sua principal realização na emissora foi “Éramos Seis” (1994), adaptação do romance de Maria José Dupré protagonizada por Irene Ravache. A produção recuperou o prestígio da dramaturgia nacional no canal de Silvio Santos e revelou Ana Paula Arósio, antes de alcançar projeção nacional com “Hilda Furacão” (1998) e “Terra Nostra” (1999), e Caio Blat, então com 13 anos. Ambos construíram carreiras duradouras na televisão e no cinema. Otaviano Costa também fez sua estreia em novelas na produção, no papel de Tavinho.
O diretor também esteve envolvido em “As Pupilas do Senhor Reitor” (1994), “Sangue do Meu Sangue” (1995), “Razão de Viver” (1996) e “Os Ossos do Barão” (1997). Sob sua supervisão, o SBT produziu outras novelas e séries, incluindo “Colégio Brasil”, “Antônio Alves, Taxista”, “Dona Anja”, a primeira versão de “Chiquititas” e “Pérola Negra”.
Sua contribuição ao canal não se limitou à dramaturgia. Travesso ajudou a reformular a programação infantil, participando da concepção de “Bom Dia & Cia”, com Eliana, e de atrações com Vovó Mafalda e Mara Maravilha.
Últimos trabalhos e formação de atores
Depois de deixar o SBT no fim dos anos 1990, Travesso passou pela Bandeirantes, onde trabalhou na estruturação da dramaturgia e participou da produção de “Serras Azuis” (1998). Também retornou à Globo e ampliou sua presença na televisão por assinatura, com trabalhos no GNT, incluindo a direção de “Saia Justa”, programa de debates entre mulheres lançado em 2002.
Em 2001, fundou a Nilton Travesso Oficina de Atores, em São Paulo, dedicada à formação de profissionais para o teatro, a televisão e o audiovisual. A iniciativa refletia uma atividade que acompanhava sua carreira havia décadas: descobrir talentos, desenvolver intérpretes e preparar equipes para trabalhar diante das câmeras.
A partir de 2014, assumiu a direção de “Todo Seu”, apresentado por Ronnie Von na TV Gazeta. Deixou a atração em 2016, depois de sofrer um assalto violento em sua residência, durante o qual foi amarrado pelos criminosos. O episódio antecipou sua viagem aos Estados Unidos, onde pretendia passar uma temporada com a filha e os netos e desenvolver uma adaptação cinematográfica de “Éramos Seis”.
Mesmo afastado da direção cotidiana de programas, continuou ligado à Jovem Pan, onde manteve uma parceria profissional e uma amizade de mais de 70 anos com Antônio Augusto Amaral de Carvalho, o Seu Tuta, morto em 2024. Na emissora, participou da supervisão de transmissões audiovisuais e de projetos ligados à integração entre rádio, televisão e internet. Seu trabalho também foi recuperado em documentários sobre a história da TV, incluindo produções dedicadas a Hebe Camargo e Silvio Santos.