
Instagram/Juan Atkins
Juan Atkins, criador do techno, morre aos 64 anos
À frente do Cybotron, do Model 500 e do selo Metroplex, o DJ lançou o gênero musical nos anos 1980 e influenciou gerações de produtores de música eletrônica
Pioneiro morreu antes de apresentação no México
Juan Atkins, DJ e produtor americano considerado o criador do techno, morreu aos 64 anos na Cidade do México, onde faria uma apresentação no YuYu Cine Club. O músico foi encontrado inconsciente em seu quarto de hotel e levado a um hospital, onde a morte foi constatada. A notícia foi anunciada no domingo (1/11) por sua agência, Greensmith Artists, que confirmou as circunstâncias ao site especializado Resident Advisor. A causa oficial da morte não foi divulgada.
O nascimento do techno em Detroit
Atkins nasceu em Detroit, em 1962, e cresceu na cidade vizinha de Belleville, onde conheceu Derrick May e Kevin Saunderson. Os três ficaram conhecidos como Belleville Three, responsáveis por estabelecer os fundamentos do techno a partir da combinação de sintetizadores, baterias eletrônicas, funk e uma concepção futurista da música. Enquanto a disco music evoluía para o house em Chicago, os jovens de Detroit exploravam uma sonoridade mais mecânica e espacial, influenciada pelo Kraftwerk, pelo Parliament-Funkadelic de George Clinton e pelas transmissões radiofônicas do DJ The Electrifying Mojo.
Atkins foi o primeiro dos três a produzir suas próprias gravações eletrônicas. Em 1980, formou o Cybotron com Richard Davis, também conhecido como 3070, músico que compartilhava seu interesse por ficção científica e pelas possibilidades dos sintetizadores. A dupla lançou “Alleys of Your Mind” em 1981 e alcançou um marco decisivo com “Clear”, de 1983, faixa que antecipou elementos essenciais do techno e se tornou referência também para o electro e o hip-hop. Décadas depois, sua base eletrônica seria utilizada por Missy Elliott no sucesso “Lose Control”, de 2005.
Como a música ganhou seu nome
A influência de Atkins foi além da criação de discos. Ele também desempenhou um papel decisivo na definição do nome techno. O termo já aparecia em seu vocabulário e na música “Techno City”, gravada pelo Cybotron em 1984, antes de ganhar projeção internacional com a coletânea britânica “Techno! The New Dance Sound of Detroit”, lançada pela Virgin em 1988. O disco, organizado com a participação de Derrick May e do produtor Neil Rushton, apresentou ao público europeu uma cena que até então costumava ser identificada como uma variação do house de Chicago.
O projeto originalmente receberia o título “The House Sound of Detroit”, mas Atkins contestou essa classificação. Em entrevista à revista Electronic Beats, contou que enviou para a coletânea uma composição chamada “Techno Music”, insistindo na identidade própria da sonoridade que ajudara a desenvolver. A mudança de nome do disco consolidou internacionalmente uma designação que passaria a identificar um dos principais movimentos da música eletrônica.
A visão futurista tinha raízes na leitura de autores como Alvin Toffler, especialmente “O Choque do Futuro” e “A Terceira Onda”, e no contato com a tecnologia musical que se tornava cada vez mais acessível aos produtores independentes. Atkins tinha comprado seu primeiro sintetizador, um Korg MS-10, aos 15 anos. Posteriormente, adquiriu equipamentos como as baterias eletrônicas Roland TR-808 e TR-909 para desenvolver um estilo musical que transformava instrumentos programáveis em protagonistas da composição.
Model 500 e a criação da Metroplex
Depois de deixar o Cybotron, em 1985, Atkins passou a gravar como Model 500 e fundou o selo Metroplex, que se tornaria um dos principais centros de difusão do techno de Detroit. Seu primeiro lançamento sob o novo pseudônimo, “No UFO’s”, combinou batidas eletrônicas, linhas de baixo sintetizadas e imagens de ficção científica numa produção considerada fundamental para a consolidação do gênero.
A Metroplex permitiu que Atkins mantivesse controle sobre suas gravações e abrisse espaço para outros artistas da cena local. O selo ajudou a projetar produtores como Anthony Shakir e DJ Bone, numa época em que o techno ainda encontrava dificuldades para conquistar reconhecimento comercial nos Estados Unidos. A música, entretanto, começava a formar público no Reino Unido e na Alemanha, onde influenciaria o surgimento da cultura rave e novas vertentes de dança eletrônica.
Como Model 500, Atkins lançou os álbuns “Deep Space” (1995), “Mind and Body” (1999) e “Digital Solutions” (2015). Também trabalhou sob o pseudônimo Infiniti, explorando outras possibilidades rítmicas e melódicas sem abandonar a identidade futurista de suas primeiras gravações.
Quatro décadas de experimentação
A carreira continuou a se desenvolver por meio de colaborações internacionais. Ao lado do produtor alemão Moritz von Oswald, uma das figuras centrais do dub techno berlinense, Atkins criou o projeto Borderland, que lançou os álbuns “Borderland” (2013) e “Transport” (2016). A parceria aproximou duas gerações de músicos que haviam contribuído para o desenvolvimento da eletrônica em Detroit e Berlim.
Em 2023, o produtor também reativou o Cybotron com Laurens von Oswald e lançou “Maintain the Golden Ratio”, primeiro material novo do projeto em quase três décadas. A retomada demonstrou que seu interesse pela experimentação permanecia ativo mais de 40 anos depois das gravações iniciais.
Atkins continuou a se apresentar internacionalmente, participando de festivais como Movement, em Detroit, Dekmantel, em Amsterdã, e Houghton, na Inglaterra. Apesar de enfrentar problemas de saúde nos últimos anos, manteve uma agenda de shows que o levou a clubes e eventos de música eletrônica até o fim da vida.
Companheiros de Detroit prestam homenagens
Kevin Saunderson, um dos integrantes dos Belleville Three, lamentou a morte do amigo e reconheceu seu papel na formação do movimento. “Juan foi o criador do techno, um verdadeiro visionário que abriu as portas para muitos de nós, inclusive para mim”, escreveu nas redes sociais. O produtor também recordou que Atkins o ajudou a finalizar sua primeira gravação, “Triangle of Love”, e afirmou que os dois compartilharam uma trajetória que transformou a história da música.
Derrick May, outro companheiro de Belleville, destacou a dedicação profissional de Atkins, mesmo quando sua saúde começou a apresentar problemas. “Ele lutou contra isso, continuou tocando e não reclamava. Não pedia favores”, declarou ao jornal Detroit Free Press. O músico acrescentou que o amigo nunca procurou despertar pena do público ou de seus colegas.
O produtor Eddie Fowlkes, também integrante da primeira geração do techno de Detroit, resumiu a importância do pioneiro para seus contemporâneos: “É muito simples: se não fosse por Juan, não existiriam eu, Derrick ou Kevin”.
Richie Hawtin, nome da geração seguinte de produtores eletrônicos, também prestou homenagem. “Juan imaginou o techno antes de todos nós. Sem ele, nossa música não soaria como soa — se é que existiria”, afirmou ao Detroit Free Press.
A prefeita de Detroit, Mary Sheffield, destacou a dimensão cultural de seu trabalho e a influência sobre novos artistas da cidade. “Milhões de pessoas dançam hoje ao som de músicas cuja origem remonta a ele e à nossa cidade”, declarou, ao reconhecer o papel de Atkins na transformação de uma experiência musical nascida entre jovens negros de Detroit num movimento mundial.
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