
Divulgação/Netflix
Sucesso mundial dos K-dramas esconde crise que ameaça produção na Coreia
Entidades denunciam queda de 30% nas produções e pedem investimento de US$ 746 milhões para evitar desmonte da indústria audiovisual coreana
Sucesso internacional em cenário de crise
Os K-dramas conquistaram o mundo, mas a indústria responsável por produzir as séries sul-coreanas enfrenta uma crise sem precedentes que ameaça sua continuidade. Doze entidades que representam produtores, roteiristas, diretores, atores e profissionais do audiovisual alertaram nesta quarta-feira (4/11) que a quantidade de produções caiu cerca de 30% em dois anos, apesar da popularidade internacional do gênero. As associações pediram ao governo um programa de investimentos de 1 trilhão de won (US$ 746 milhões) para impedir o desmonte do setor.
Emissoras reduziram drasticamente suas novelas
A crise atinge principalmente as emissoras tradicionais da Coreia do Sul, responsáveis por manter uma produção regular de séries e novelas muito antes da expansão do streaming. Segundo dados apresentados pelas entidades, as três principais redes abertas do país, KBS, MBC e SBS, reduziram o número de produções dramáticas de 91 títulos em 2012 para apenas 32 em 2023. Algumas emissoras chegaram a abandonar a exibição de novelas durante a semana.
A queda também aparece nos números gerais do mercado. O país produziu 141 K-dramas em 2022, mas o volume sofreu uma retração de aproximadamente 30% nos dois anos seguintes. Outro levantamento, da Korea IR Service, contabilizou cerca de 115 produções em 2025, numa indicação do começo da crise.
A diminuição das encomendas tem consequências para profissionais que dependem da continuidade das gravações. Com menos projetos, roteiristas estreantes encontram dificuldades para desenvolver novas histórias, atores coadjuvantes perdem oportunidades de protagonizar produções e integrantes das equipes técnicas ficam sem trabalho. As associações alertam que a saída de profissionais experientes pode comprometer a capacidade de recuperação da indústria.
A culpa é do streaming?
As entidades atribuem parte da crise à expansão das plataformas internacionais de streaming, que elevaram os investimentos em produções sul-coreanas e intensificaram a disputa por atores, roteiristas e diretores conhecidos. A concorrência aumentou os cachês das principais estrelas e os orçamentos das séries, criando uma estrutura de custos que as emissoras tradicionais têm dificuldade para acompanhar.
Ao mesmo tempo, a migração dos espectadores para os serviços digitais reduziu a receita publicitária da televisão aberta. Com menos dinheiro disponível e despesas maiores, as emissoras passaram a encomendar menos produções. O problema afeta especialmente os projetos de orçamento intermediário, que não contam com o financiamento das grandes plataformas nem possuem atrações comerciais suficientes para justificar investimentos elevados.
Outro ponto de conflito é o controle dos direitos autorais. As produtoras sul-coreanas enfrentam dificuldades para preservar a propriedade intelectual das obras realizadas para plataformas internacionais e participar das receitas posteriores de distribuição. Isso limita a possibilidade de transformar sucessos globais em recursos para financiar novos projetos.
Roteiristas estão abandonando a televisão
A roteirista Park Hae-young, autora de “Meu Diário para a Liberdade” (2022) e “Meu Senhor” (2018), participou da mobilização e relatou que profissionais de sua equipe estão desempregados. Segundo ela, a dificuldade para conseguir financiamento levou criadores de histórias a procurar oportunidades em outros mercados, como quadrinhos digitais e videogames.
A redução das gravações também afeta os pagamentos por direitos de exibição. A entidade que representa os intérpretes informou que sua arrecadação anual caiu de aproximadamente 47 bilhões de won em 2024 para 34 bilhões em 2025, uma perda de 13 bilhões de won.
Song Byeong-joon, presidente da Associação Coreana de Produção de Dramas, alertou que a diminuição dos projetos ameaça a formação de novos talentos. Ele destacou que a carreira de um roteirista, ator ou diretor depende de oportunidades sucessivas de trabalho, que estão desaparecendo com o encolhimento da produção.
Entidades querem fundo de US$ 746 milhões
As 12 organizações propõem um sistema de financiamento de longo prazo, com investimentos públicos e privados para recuperar a produção de K-dramas. O plano prevê a aplicação de 1 trilhão de won ao longo de cinco anos, com recursos anuais equivalentes a aproximadamente US$ 149 milhões.
A proposta é utilizar o dinheiro para custear metade dos orçamentos de cerca de 40 séries de médio e baixo custo por ano. Emissoras e plataformas ficariam responsáveis pela outra metade. O objetivo é manter um volume regular de produções e abrir espaço para novos profissionais, sem depender exclusivamente dos projetos de maior orçamento.
As associações também pedem medidas para garantir uma participação maior das produtoras e dos profissionais coreanos nas receitas geradas internacionalmente por suas obras. A reivindicação inclui negociações com plataformas como a Netflix, acusada por representantes do setor de resistir a discussões sobre remuneração e direitos dos intérpretes.
A mobilização acontece num momento em que o governo sul-coreano prepara cortes de 4,5 bilhões de won (US$ 3,35 milhões) no orçamento destinado ao setor audiovisual em 2027. As entidades consideram a redução incompatível com a necessidade de recuperar a produção nacional.
Netflix não sustenta o mercado
A expansão internacional dos K-dramas foi impulsionada pela Netflix, que anunciou em 2023 um investimento de US$ 2,5 bilhões em produções sul-coreanas ao longo de quatro anos. Séries como “Round 6”, “A Lição” e “Rainha das Lágrimas” ampliaram o alcance mundial do audiovisual coreano e demonstraram a capacidade do país de produzir sucessos internacionais.
Entretanto, o crescimento das grandes plataformas não compensou a redução de projetos nas emissoras nacionais. O streaming concentra recursos em um número menor de produções de alto orçamento, enquanto a televisão tradicional perdeu a capacidade de manter a quantidade de novelas que sustentava milhares de empregos.